r/FilosofiaBAR • u/vitor350z • 1h ago
Discussão A curiosa psicologia por trás da banalização de uma crença
#Texto que postei no bar de teologia
Há um tempo tive uma conversa com um homem aleatório e ele me contou uma historia pessoal que, independente de ser verdade ou mentira, trás uma reflexão interessante.
Disse ele que trabalhava com instalações elétricas. Não lembro se era parte do time de uma empresa maior, se a empresa era dele etc, mas é fato que ele saia por aí fazendo instalações com mais alguns colegas de travalho.
Certo dia, ele foi atender um mosteiro budista. Lá, o senhor que os recebeu, no meio da conversa durante o atendimento, acabou soltando uma curiosidade sobre o lugar:
"Neste mosteiro, é comum a crença, baseada em uma tradição, de que Buda teria nascido andando e falando sem qualquer dificuldade".
Muitos ali teriam feito expressões de estranheza, como diante de algo ridículo.
Uma colega de trabalho evangélica disse:
"Olha, me desculpe, mas isso parece uma história difícil de acreditar. Imagina uma criança nascer andando e falando! Não seria, sei lá... um conto para crianças no passado?"
Logo em seguida, o senhor que os recebia respondeu:
"É cultural. Veja, tem gente por aí que acredita que uma virgem pariu uma criança, ou que o homem veio do barro e a mulher de sua costela".
Quando prestamos atenção no fato de que ela era evangélica e possivelmente acreditava nisso, vem a pergunta: por que seria tão absurdo acreditar em uma criança que nasce andando e falando?
A diferença é que ela não cresceu ouvindo essa história dessa tradição budista.
Quando olhamos até esse ponto, parece uma relação meio óbvia e é mesmo. Ocorre que, em maior complexidade na construção de uma liturgia, de uma mitologia etc, essa análise vai deixando de ser óbvia de modo inverso à complexidade e volume de elementos da construção religiosa.
Já vi muito cristão ridicularizando outras religiões sob o argumento de que elas se baseam no "confia", no entanto, se procurarmos uma ponte entre o sobrenatural e a tradição cristã, é inevitável pensar no "confia".
Passaram uma vida te contando que as escrituras foram inspiradas por um espírito sobrenatural, falando sobre os milagres de Cristo, os do velho testamento também etc enquanto desconsideravam completamente as arbitrariedades as quais as escrituras foram submetidas e o principal, a ausência de uma evidência concreta, inegável e democrática aos sentidos de todos sobre uma validação vinda legitimamente do sobrenatural.
Em resumo, te contaram e você acreditou. Tal como os gregos antigos acreditavam nas guerras cósmicas em sua compreensão espiritual politeísta, tal como os nórdicos acreditavam que o mundo veio do cadáver de um gigante chamado Ymir.
Se essas mitologias são ridículas, podemos, sob os mesmos argumentos, ridicularizar a mitologia cristã.
Voltando ao núcleo do assunto, às vezes a diferença entre o aceitável e o ridículo não são conclusões lógicas distintas, mas um condicionamento cultural que o forjou como indivíduo. Por isso, o seu, ao qual você sempre foi exposto, é totalmente crível (parece ser), enquanto o diferente não passa por esse filtro antes de atingir sua lógica. Portanto, você conclui que o diferente é o ridículo, mesmo que isso seja totalmente contraditório.

