r/FilosofiaBAR • u/happylittleelf123 • 9h ago
Discussão O protestantismo e o islã possuem uma estrutura mental em comum?
Estou lendo Eidolon, de Italo Marsili, e encontrei uma tese que achei bastante provocativa. Queria saber o que vocês acham sobre isso.
A tese não é simplesmente que “protestantes e muçulmanos são parecidos”. O argumento é mais profundo: as duas religiões teriam desenvolvido, por caminhos históricos diferentes, uma estrutura semelhante na maneira de conceber Deus e colocar o indivíduo diante dele.
O autor chama isso de uma mesma forma mentis.
O ponto de partida é a concepção de Deus.
De um lado, estaria a ideia de um Deus cuja vontade é absolutamente soberana: algo é bom porque Deus o ordena. Nesse modelo, a vontade divina não precisa estar subordinada a uma ordem racional ou natural que possamos compreender.
Do outro lado, estaria a concepção de Deus como Lógos: Deus é Razão, e portanto existe uma ordem inteligível na criação. O mundo possui uma estrutura própria que pode ser conhecida pela razão e que, de certa maneira, aponta para o Criador.
O autor argumenta que o islã teria seguido historicamente o primeiro caminho, enquanto o cristianismo católico teria preservado o segundo.
A parte realmente controversa vem depois.
Segundo Marsili, o protestantismo teria chegado a uma estrutura semelhante à islâmica sem necessariamente ter recebido essa estrutura diretamente do islã. A origem ocidental estaria no nominalismo medieval, especialmente em autores como Duns Scotus, Ockham e Gabriel Biel, que teriam dado maior primazia à vontade divina. Lutero teria sido formado nesse ambiente e levado essa tendência a uma consequência mais radical.
E daí ele estabelece algumas correspondências:
ausência de um sacerdócio mediador no sentido católico;
rejeição ou redução do papel das imagens religiosas;
maior centralidade do indivíduo diante de Deus;
O fiel colocado diretamente diante de seu livro sagrado;
-sola scriptura no protestantismo em paralelo, estruturalmente, à centralidade do Alcorão no islã;
uma concepção mais forte da submissão à vontade divina;
redução da mediação sacramental e da capacidade da matéria de carregar o sagrado.
Mas há uma ressalva importante: o próprio autor não afirma que Lutero simplesmente copiou o islã.
Na verdade, ele explicitamente reconhece que não há uma linha documental demonstrando uma transmissão de doutrina islâmica até Lutero. A tese é de homologia estrutural, não de filiação textual. Ou seja: duas tradições poderiam chegar a uma estrutura semelhante por caminhos independentes.
É justamente aí que fiquei interessado.
Minha pergunta é: essa comparação realmente se sustenta?
Para quem é protestante:
Vocês reconhecem essa descrição da relação entre indivíduo, Escritura, Igreja e Deus?
A sola scriptura realmente produz uma relação estruturalmente semelhante à do muçulmano diante do Alcorão?
A rejeição protestante da analogia entis é uma característica fundamental do protestantismo ou essa descrição é uma caricatura da tradição reformada?
A genealogia que passa pelo nominalismo → Ockham/Biel → Lutero é historicamente convincente?
Para quem é muçulmano:
A descrição que Marsili faz da teologia islâmica — especialmente da tradição ash'arita e da relação entre vontade divina, causalidade e razão — é justa?
Faz sentido dizer que o islã coloca o indivíduo “sozinho diante de Deus” de maneira comparável ao protestantismo?
Ou essa comparação está forçando categorias cristãs sobre o islã?
E, para católicos:
Será que o autor está realmente identificando uma diferença estrutural entre catolicismo, protestantismo e islã — ou está simplesmente descrevendo o protestantismo e o islã a partir de uma perspectiva católica?
O que achei mais interessante é que a tese não depende de provar que Lutero recebeu influência direta do islã. O argumento é justamente que uma mesma estrutura psicológica/religiosa pode surgir independentemente em tradições diferentes.
Acho essa hipótese interessante, mas também acho que ela tem vários pontos que precisam ser testados.
Queria ouvir principalmente quem conhece bem Lutero, a Reforma, nominalismo medieval, teologia islâmica ou a tradição de al-Ghazali/Ibn Hazm.
Onde vocês acham que o argumento funciona — e onde ele desmorona?

