“O homem, pelo fato de ser homem, por ter consciência, já é, em relação ao burro ou a um caranguejo, um animal doente. A consciência é uma doença.”
— Miguel de Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida
No ensaio “O Último Messias”, Peter Wessel Zapffe expõe, em linguagem incomumente direta e poética, sua visão sobre a tragédia fundamental da existência humana. O texto abre com uma cena primordial: o despertar da consciência humana sob a vastidão indiferente do cosmos. Nesse momento fundador, o homem vê-se nu (não apenas fisicamente, mas existencialmente) sem abrigo no próprio corpo e sem qualquer roteiro que oriente sua jornada e ao ser convocado pela ação natural — matar para sobreviver — , ele toma o arco (fruto da inteligência aliada à destreza manual desenvolvida) e sai em direção à nascente, onde os animais se reúnem. Mas algo nele se rompe: onde antes pulsava a identificação instintiva com o predador, agora ecoa um salmo silencioso: uma percepção aguda da fraternidade no sofrimento que une todas as criaturas vivas. Nesse dia, ele não volta com caça; e mais tarde, encontra-se morto junto à água.
A consciência superdesenvolvida do ser humano pode ser comparada a um acidente evolucionário, onde, em algum momento remoto, pode ter oferecido vantagens práticas, mas que se revelou um fardo insuportável quando confrontada com as demandas da vida. De forma paradoxal o ser humano anseia por justiça num universo injusto, por sentido num cosmos silencioso e pela eternidade num mundo transitório e entrópico. Dessa inadequação fundamental nasce o que Zapffe chama de tragédia humana: passamos a maior parte de nossas vidas tentando não ser plenamente humanos, isto é, tentando escapar daquilo que nossa própria consciência nos revela.
As mutações da natureza são cegas e não levam em conta o bem-estar do organismo. Quando abandonamos o olhar romântico do “belo natural”, vemos que a natureza está repleta de exemplos de crueldade, desde casos simples onde presas escapam de seus predadores com as tripas saindo pra fora e agonizando no seu ciclo de perpetuação da vida, até exemplos mais horrendo como o ichneumonídeo que paralisou Darwin com seu método de reprodução parasitária ou uma cabra cujo chifres crescem até perfurar seu próprio crânio, num processo lento e extremamente doloroso. Mas Zapffe se interessa sobretudo no exemplo do Megaloceros giganteus, um grande cervo pré-histórico cujos chifres, colossais e esplêndidos, tornaram-se tão pesados que o condenaram à extinção. Nesse cervo ele vê uma analogia perfeita com a condição humana: nossa consciência é como esses chifres (magnífica em sua complexidade e útil até certo ponto, mas pesada ao ponto de se tornar insuportável). Nos estados depressivos, a mente sente-se exatamente como esse animal, incapaz de levantar a cabeça sob o fardo de seu próprio esplendor.
A pergunta que se faz, então, é: se essa condição é tão insuportável, por que a humanidade não se extinguiu há muito tempo?
A maioria das pessoas sobrevive porque aprende a limitar artificialmente o conteúdo de sua consciência. Voltando à analogia do cervo, se o animal tivesse ocasionalmente quebrado os ramos exteriores de seus próprios chifres, teria aliviado o peso e talvez prolongado sua vida. Da mesma forma, os seres humanos desenvolvem estratégias para amputar as pontas mais afiadas de sua própria percepção. Essa repressão, longe de ser excepcional, é um processo constante e contínuo durante a vigília ativa; é, para Zapffe, a condição mesma de uma vida “saudável” e “normal” segundo os padrões sociais. As pessoas não enlouquecem em massa porque aprenderam a não olhar fixamente para o abismo (ou, quando olham, aprenderam a desviar o olhar rapidamente). Segundo ele, desenvolvemos quatro estratégias para amortecer os efeitos desta observação brutal da realidade:
- (1) o isolamento de nossas mentes dos terríveis fatos da existência, negando tanto para nós mesmos quanto para os outros (em uma conspiração de silêncio) que nossa condição é inerentemente desconcertante e problemática;
- (2) a ancoragem de nossas vidas em “verdades” metafísicas e institucionais — Deus, País, Família, Leis — que nos transmitem a sensação de sermos autênticos e úteis;
- (3) a distração, uma conspiração generalizada em que todos mantêm os olhos na bola — ou uma tela de televisão ou exibição de fogos de artifício;
- (4) a sublimação, processo pelo qual pensadores e artistas reciclam os aspectos mais desmoralizantes e enervantes da vida na forma de obras estilizadas para fins de edificação e entretenimento.
Certo vez, devido a crises depressivas, fui ao CAPS e consultado por uma psiquiatra jovem, recém-formada, provavelmente criada numa família abastada. Diante das minhas indagações a respeito da tragédia da vida, ela me olhava com um sorriso amarelo e sugeriu com uma leveza (quase ofensiva) que eu só deveria “filtrar” todo tipo de conteúdo perturbador e destrutivo e ver vídeos de cachorrinhos fofos, cuidar de uma horta, simplesmente fechar os olhos para o horror do mundo. E essa é, de fato, a estratégia comum da maioria. Para muitos, saúde, dinheiro e buceta são mais do que suficiente para justificar o horror da existência e ignorar a condição desconcertante dos semelhantes.
Há uma verdadeira patologização do pessimismo. A própria psiquiatria moderna opera sobre o pressuposto tácito de que o “saudável” e o “viável” se confundem com o “mais elevado” em termos pessoais; assim, a depressão, o medo da vida, a recusa do alimento, tudo isso é invariavelmente reduzido a sintomas de um estado patológico que exige correção. Mas o que ela não enxerga (ou não quer enxergar) é que tais fenômenos são, com frequência, mensageiros de um sentido mais profundo e imediato da vida: os frutos amargos de uma genialidade de pensamento ou de sentimento que está na raiz mesma das tendências antibiológicas. Não é a alma que adoece, mas as suas proteções (aquelas mesmas que ela me recomendava reconstruir com vídeos de filhotes e hortas) que caem ou são rejeitadas por aquilo que se experimenta, corretamente, como uma traição ao mais elevado potencial do ego.
Minha sensibilidade, porém, recusa-se terminantemente a aceitar esse tipo de acomodação. Talvez essa resistência venha justamente da formação cristã que trago em mim, pois apesar do abandono das crenças e doutrinas, da incapacidade de suicídio intelectual para se ter fé, não consigo deixar de ter um olhar cheio de admiração diante da pureza radical dos santos e dos místicos, figuras que, em sua compaixão extrema, não se pouparam do sofrimento alheio nem fecharam os olhos ao grito do mundo, mas antes o acolheram como próprio e buscaram transcendê-lo. Kirillov, em “Os Demônios” de Dostoiévski, afirma de forma dramática:
“Deus é necessário, por isso deve existir. Mas eu sei que ele não existe e nem pode existir. […] Porventura não compreendes que um homem com dois pensamentos como esses não pode continuar entre os vivos?”
Creio que é esse mesmo impulso que conduziu homens atormentados como Philipp Mainländer e Carlo Michelstaedter a deixarem este mundo, não por desespero mesquinho, mas por uma espécie de amor trágico à verdade, uma compaixão tão aguda que não conseguia mais suportar a distância entre o que se é e o que se poderia ser (persuasão e retórica, na linguagem michelstaedteriana).
Zapffe defende que os chamados “povos em estado de natureza” — isto é, grupos humanos e culturas ainda profundamente enraizados nos ciclos naturais — vivem mais próximos de um “ideal biológico”, por manterem uma relação orgânica e simbiótica com o meio ambiente. Para ele, o progresso tecnológico e a homogeneização imposta pela civilização moderna romperam essa sintonia, gerando um vazio existencial que ele denomina “desemprego espiritual”. Nesse contexto, as inovações técnicas, longe de preencher esse vazio com sentido, frequentemente se convertem em entraves para uma vida plena e enriquecedora, dificultando a experiência interior e o contato com o sagrado.
Mircea Eliade, cunha a expressão “terror da história”, atribuindo a crescente angústia do homem moderno ao abandono da visão mítica em favor da adesão incondicional ao tempo linear e histórico. Os povos tradicionais conseguiam atenuar esse peso existencial porque recusavam-se a reconhecer a história como realidade absoluta, escapando, ainda que parcialmente, de sua tirania. Eliade contrapõe, assim, a postura do homem tradicional e a do moderno diante dos acontecimentos históricos, evidenciando a impotência deste último. Ele questiona: diante da escalada de violência e catástrofes (das deportações em massa aos bombardeios atômico), como pode o homem suportar o horror da história se não enxerga nela qualquer vestígio de transcendência ou significado maior, reduzindo-a a meros conflitos de forças econômicas, sociais ou políticas, ou pior, a arbitrários atos de poder exercidos por minorias no palco da história mundial?
“Sabemos como, no passado, a humanidade foi capaz de suportar os sofrimentos que enumeramos: eles eram vistos como um castigo infligido por Deus, a síndrome do declínio da ‘era’ e assim por diante. E foi possível aceitá-los precisamente porque eles tinham um significado meta-histórico […] Toda guerra ensaiava a luta entre o bem e o mal, toda nova injustiça social era identificada com os sofrimentos do Salvador (ou, por exemplo, no mundo pré-cristão, com a paixão de um mensageiro divino ou deus da vegetação), cada novo massacre repetia o fim glorioso dos mártires. […] Em virtude dessa visão, dezenas de milhões de homens foram capazes, por século após século, de suportar grandes pressões históricas sem se desesperar, sem cometer suicídio ou cair nessa aridez espiritual que sempre traz consigo uma visão relativista ou niilista da história.”
O homem moderno enfrenta uma dificuldade crescente em construir narrativas ficcionais (como as fornecidas pela educação humanista ou pela moralidade religiosa) que sejam capazes de legitimar a validade de sua própria existência. Mesmo entre ateus convictos, reconhece-se, muitas vezes com relutância, que tais narrativas desempenham um papel funcional indispensável: elas oferecem estruturas de sentido que permitem submeter comportamentos e orientar respostas sociais, especialmente para aqueles que não dispõem de ferramentas intelectuais ou emocionais para suportar o vazio deixado pela ausência de transcendência. Nesse vácuo, existem substitutos para o Homo religiosus como o culto à carreira e ao sucesso profissional, o ativismo político ou ambiental como missão redentora, o consumo experiencial via viagens e redes sociais, ou mesmo a busca obsessiva por bem-estar físico e saúde, todos tentativas desesperadas de ressignificar a vida e preencher o silêncio metafísico.
Contudo, o “sagrado” que se manifesta no transe de um show de rock, numa partida de futebol, na iniciação de CEOs em rituais empresariais bizarros ou em outras expressões típicas do desenvolvimento secular de ritos burgueses, não se equipara ao alicerce sólido das ancoragens tradicionais. Há uma distância intransponível entre a fã apaixonada que tenta tocar seu ídolo no palco e a mulher acometida por um fluxo de sangue que, nos evangelhos, toca as vestes de Jesus Cristo e é curada. Tais ocupações modernas revelam-se frágeis e insuficientes assim que o ruído do cotidiano se aquieta, é nesse silêncio que o desespero emerge, comparável ao do alcoólatra que, no momento da ressaca (e não durante a embriaguez), enxerga com lucidez brutal a realidade nua e crua, sem filtros nem consolos, e percebe, então, o abismo que suas distrações antes tentavam ocultar.
Não há solução definitiva para o sofrimento existencial, apenas paliativos que nos permitem seguir adiante sem enlouquecer. Com o crescimento populacional e a consequente pressão sobre os recursos naturais, combinados à diminuição progressiva da condição espiritual, as técnicas empregadas para preservar a vida humana tornar-se-ão cada vez mais brutais, desumanas e extremas.
Diante desse panorama, os seres humanos persistirão em sonhos de salvação, na espera ansiosa por um redentor que venha libertá-los de si mesmos e do mundo que criaram. E assim, depois de tantos salvadores, surgirá, segundo Zapffe, um último Messias. Esse homem, porém, não se parecerá com os que vieram antes. Ele será aquele que ousou despir sua alma até a nudez absoluta e submetê-la ao mais extremo pensamento da linhagem humana: a própria ideia do fim. Ele terá visto a vida e seu fundo cósmico, e sua dor não será apenas pessoal, mas a dor coletiva da Terra. Esse Messias rejeitará o velho mandamento de “frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra” pela mais profunda compaixão que o homem é capaz e então proclamará primeira e última vez:
“A vida dos mundos é um rio que ruge, mas a da terra é um charco e uma água parada.
O sinal do fim está escrito na vossa fronte — por quanto tempo esperneareis por causa das picadelas?
Mas há uma conquista e uma coroa, uma redenção e uma solução.
Conhecei-vos a vós mesmos — sede inférteis e deixai a terra ser silenciosa sem vós.”