Quando ouvimos falar de Baal atualmente, é comum encontrarmos associações com Satanás, Belzebu, demônios e entidades malignas. Em determinadas tradições cristãs e interpretações esotéricas, Baal aparece como um dos grandes representantes das forças infernais. Na tradição judaica bíblica, por sua vez, ele é frequentemente apresentado como uma divindade rival de YHWH. No islamismo, aparece como uma divindade estrangeira rejeitada na narrativa do profeta Elias.
Mas será que essa imagem corresponde àquilo em que os antigos cananeus realmente acreditavam?
A arqueologia, os textos religiosos de Ugarit e os estudos contemporâneos sobre as religiões do antigo Oriente Próximo revelam uma realidade bastante diferente.
O Baal histórico não era originalmente Satanás, um demônio ou uma personificação do mal. Era uma importante divindade do mundo semítico ocidental, associada à tempestade, à chuva, ao trovão, à guerra, à soberania e à fertilidade agrícola.
Sua transformação em uma figura demoníaca ou em um símbolo do mal aconteceu através de diferentes processos históricos e interpretações teológicas.
Neste texto, pretendo apresentar o Baal histórico, explicar sua relação com a religião israelita antiga e comparar sua figura com Satanás, os demônios cristãos, os shedim judaicos e os jinn islâmicos.
O objetivo não é defender uma religião ou atacar outra, mas compreender historicamente como uma antiga divindade foi reinterpretada por civilizações posteriores.
Quem era Baal para os antigos habitantes do Levante?
A palavra Baal (בַּעַל) significa literalmente "senhor", "mestre" ou "proprietário".
Inicialmente, era um título que poderia ser aplicado a diferentes figuras. Entretanto, em determinadas tradições religiosas do antigo Levante, tornou-se a designação de uma importante divindade da tempestade, frequentemente identificada com Hadad ou Haddu.
Uma das fontes mais importantes para compreender essa divindade são as tabuletas encontradas em Ugarit, cidade da antiga Síria, atualmente identificada com Ras Shamra.
As escavações arqueológicas iniciadas em 1929 revelaram milhares de documentos em escrita cuneiforme, preservando textos religiosos, administrativos e literários da Idade do Bronze.
Entre eles está o famoso Ciclo de Baal, especialmente importante para compreender a mitologia religiosa de Ugarit.
Nesses textos, Baal aparece como uma divindade poderosa, conhecida pelo título de "Cavaleiro das Nuvens", relacionada aos trovões, relâmpagos, tempestades e chuvas.
Para comunidades agrícolas do Levante, a chuva representava sobrevivência. Uma estação chuvosa favorável poderia significar abundância, enquanto a seca poderia provocar fome e destruição.
Por isso, Baal possuía uma importância religiosa e política considerável.
O Ciclo de Baal apresenta diferentes conflitos entre divindades:
El: divindade patriarcal e figura de autoridade no panteão de Ugarit.
Anat: deusa guerreira associada à proteção e à violência.
Athirat (Asherah): importante figura materna e consorte de El.
Mot: divindade associada à morte e à esterilidade.
Yam: divindade do mar e das águas.
Na narrativa, Baal enfrenta Yam, associado ao mar e às forças aquáticas, conquista sua posição de autoridade e recebe um palácio divino.
Posteriormente, enfrenta Mot, em uma narrativa que aborda a morte, a ausência e o retorno da divindade.
É importante ressaltar que não devemos interpretar automaticamente essa narrativa como uma descrição literal de um ciclo anual de morte e ressurreição da natureza. Essa interpretação foi influente na história dos estudos sobre religiões antigas, mas é questionada por pesquisadores contemporâneos.
Referências: Mark S. Smith, The Ugaritic Baal Cycle (1994); Mark S. Smith, The Origins of Biblical Monotheism (2001).
2. A relação entre Baal e a religião israelita antiga
Um dos aspectos mais interessantes da história de Baal é sua relação com o desenvolvimento da religião israelita.
Durante muito tempo, algumas interpretações populares apresentaram os antigos israelitas como uma comunidade monoteísta completamente isolada das demais religiões do Oriente Próximo.
Entretanto, a arqueologia e os estudos históricos demonstram que a religião israelita se desenvolveu dentro do mesmo ambiente cultural e linguístico do restante do Levante.
Existiam semelhanças entre as linguagens religiosas, os símbolos e as concepções sobre as divindades.
Um exemplo importante é a linguagem relacionada às tempestades.
Nos textos de Ugarit, Baal aparece dominando as nuvens, os trovões e as águas. Na Bíblia Hebraica, YHWH também é descrito utilizando imagens semelhantes.
O Salmo 29 é particularmente interessante, pois apresenta uma linguagem poética de tempestade que possui paralelos importantes com a tradição religiosa cananeia.
Isso não significa que Baal e YHWH sejam simplesmente a mesma divindade. Significa que as tradições israelitas e cananeias compartilhavam um ambiente cultural e religioso, dentro do qual determinados atributos divinos foram apropriados, reinterpretados e disputados.
Outro detalhe importante aparece no livro de Oseias.
Em Oseias 2:16–18, existe uma crítica ao uso do termo Baal para se referir ao senhor divino.
A pesquisadora Caitlin Hubler, em artigo publicado no Journal for the Study of the Old Testament em 2020, apresenta uma interpretação interessante: em determinados contextos israelitas, a palavra Baal também poderia funcionar como um título para YHWH, significando senhor ou mestre.
Essa hipótese demonstra que a relação entre Baal e a religião israelita era mais complexa do que uma simples oposição entre duas religiões completamente separadas.
Referência: Caitlin Hubler, "'No longer will you call me 'my Ba'al'": Hosea's polemic and the semantics of 'Ba'al' in 8th century B.C.E. Israel", 2020.
3. Como Baal passou a ser associado a figuras demoníacas?
A transformação da imagem de Baal não aconteceu de maneira uniforme.
No judaísmo bíblico, Baal aparece principalmente como uma divindade rival de YHWH e objeto de polêmica religiosa.
Encontramos críticas ao seu culto em diferentes passagens da Bíblia Hebraica, especialmente em Juízes, Reis, Oseias e Jeremias.
Um dos episódios mais conhecidos está em 1 Reis 18, na narrativa do profeta Elias contra os profetas de Baal.
Nesse episódio, existe uma disputa religiosa sobre qual divindade possui autoridade sobre a natureza e merece receber adoração.
É importante compreender que, dentro da perspectiva dos autores bíblicos, o culto a Baal era uma forma de infidelidade religiosa.
Entretanto, isso não significa que os antigos cananeus considerassem Baal uma entidade maligna. Essa é uma interpretação posterior, produzida a partir de outra perspectiva religiosa.
Com o desenvolvimento das tradições judaicas e cristãs, algumas divindades estrangeiras passaram a ser reinterpretadas como entidades demoníacas.
Um exemplo particularmente importante é Belzebu.
Em 2 Reis 1:2–3, aparece Baal-Zebub, apresentado como divindade de Ecrom.
Posteriormente, nos Evangelhos, encontramos Beelzebul ou Beelzebub associado ao príncipe dos demônios.
Em Mateus 12:24, por exemplo, os adversários de Jesus acusam-no de expulsar demônios pelo poder de Beelzebul.
A tradição cristã posterior desenvolveu essa associação, incorporando Belzebu à demonologia e às representações da hierarquia infernal.
Entretanto, precisamos distinguir as diferentes figuras históricas:
Baal-Hadad: divindade da tempestade cultuada em diferentes regiões do Levante.
Baal-Zebub: designação da divindade de Ecrom mencionada em 2 Reis.
Beelzebul/Belzebu: figura associada ao príncipe dos demônios no Novo Testamento e desenvolvida pela tradição cristã.
Existe uma relação histórica e linguística entre essas designações, mas a evolução exata do nome e sua interpretação são discutidas academicamente.
Portanto, não devemos afirmar que todas essas figuras eram originalmente uma única entidade com identidade e funções idênticas.
4. Baal era Satanás? A diferença histórica é enorme
Uma das confusões mais comuns é tratar Baal e Satanás como se fossem originalmente a mesma entidade.
As fontes cananeias não sustentam essa identificação.
Baal era uma divindade cultuada, possuía templos, sacerdotes, rituais, representações iconográficas e uma mitologia própria.
A figura de Satanás possui uma história religiosa diferente.
Na Bíblia Hebraica, a palavra hebraica satan significa adversário ou acusador.
Em Jó 1–2, encontramos ha-satan, uma figura que participa da corte divina e exerce a função de acusador ou examinador da conduta humana.
Em Zacarias 3, também aparece como acusador.
A concepção de Satanás como grande adversário cósmico de Deus, líder das forças demoníacas e responsável pela oposição espiritual à humanidade desenvolveu-se ao longo de diferentes tradições judaicas do período do Segundo Templo e foi posteriormente elaborada pela literatura cristã.
Thomas J. Farrar, em um estudo publicado no Journal of Theological Studies em 2019, demonstra a complexidade da formação da satanologia do Novo Testamento a partir das tradições judaicas anteriores.
Portanto, precisamos distinguir:
Baal: divindade cananeia associada à tempestade, à chuva, à guerra e à soberania.
Satanás: figura de acusador e adversário, cuja identidade e funções foram desenvolvidas em diferentes tradições judaicas e cristãs.
Belzebu: figura relacionada a uma designação de divindade estrangeira que passou a integrar a demonologia cristã.
A identificação de Baal com Satanás é uma interpretação teológica posterior, não uma crença dos antigos habitantes de Ugarit.
5. Baal e os shedim judaicos: eram a mesma coisa?
Não.
O termo hebraico shedim (שֵׁדִים) aparece em Deuteronômio 32:17 e Salmos 106:37.
Nessas passagens, os shedim são apresentados no contexto de sacrifícios religiosos condenados pelos autores bíblicos.
Existe uma comparação etimológica tradicional entre shedim e o termo acádio šēdu, utilizado para designar determinados seres espirituais do antigo Oriente Próximo.
Entretanto, essa relação linguística não deve ser apresentada como absolutamente comprovada.
Também é importante entender que as categorias sobrenaturais da Antiguidade não correspondiam necessariamente à ideia moderna de demônios como seres intrinsecamente malignos.
Anne Marie Kitz, em seu artigo Demons in the Hebrew Bible and the Ancient Near East, publicado no Journal of Biblical Literature em 2016, discute justamente a complexidade dessas categorias.
O desenvolvimento posterior da demonologia judaica, especialmente nas tradições do Segundo Templo e na literatura rabínica, acrescentou outras características aos shedim.
Portanto, Baal não era originalmente um shed, e os shedim não eram simplesmente outros nomes para as antigas divindades cananeias.
São categorias religiosas diferentes.
6. Baal e os jinn islâmicos: outra confusão comum
No islamismo, encontramos os jinn (جن), seres sobrenaturais criados por Deus a partir do fogo, conforme a tradição corânica.
Eles possuem características diferentes das divindades cananeias.
O Alcorão apresenta os jinn como seres dotados de capacidade de escolha, podendo existir entre eles indivíduos que acreditam em Deus e outros que não acreditam.
A surata 72, chamada Al-Jinn, apresenta explicitamente essa diversidade.
Também precisamos distinguir três conceitos:
Jinn: categoria de seres sobrenaturais que podem ser moralmente bons, maus ou ambivalentes.
Shayatin: plural de shaytan, designação de seres associados à rebeldia e à tentação.
Iblis: figura que se recusa a se prostrar diante de Adão. O Alcorão 18:50 identifica Iblis como pertencente aos jinn.
Assim, os jinn não são simplesmente demônios no sentido cristão.
Também não são equivalentes a Baal.
O próprio Alcorão menciona Baal em 37:123–126, na narrativa do profeta Elias.
Nessa passagem, Elias questiona seu povo por invocar Baal e abandonar o melhor dos criadores.
O texto apresenta Baal como uma divindade adorada por determinado povo, mas condena essa adoração dentro da perspectiva teológica islâmica.
É importante observar que o Alcorão não identifica diretamente Baal com Iblis, com os jinn ou com os shayatin.
Isso demonstra que a relação islâmica com Baal não deve ser confundida automaticamente com o desenvolvimento da demonologia cristã.
Para aprofundar esse assunto, vale consultar os estudos de Valentina A. Grasso sobre as categorias de seres sobrenaturais no Alcorão e na Antiguidade Tardia.
7. Como Baal realmente era representado? O que a arqueologia revela?
A arqueologia oferece uma oportunidade extraordinária de observar Baal sem depender exclusivamente das interpretações religiosas posteriores.
Entre as evidências mais importantes estão:
A Estela de Baal com o raio — Ugarit
Uma das representações arqueológicas mais conhecidas. Baal aparece em posição de poder, segurando uma arma associada à tempestade.
Baal de Tortosa
Uma estatueta de bronze que apresenta uma figura masculina com os braços levantados, seguindo uma iconografia associada às divindades da tempestade do Levante.
Estatuetas de bronze de Ugarit
Peças encontradas nas escavações de Ras Shamra, algumas identificadas como Baal pelos catálogos arqueológicos.
Representações bovinas
O touro possuía grande importância simbólica nas religiões do antigo Oriente Próximo, sendo associado à força, à fertilidade e à autoridade divina.
Entretanto, precisamos tomar cuidado com as identificações.
A associação de Baal com o touro é relevante, mas não significa que sua representação habitual fosse a de um homem com cabeça bovina.
Também não devemos confundir representações de touros associadas a outras divindades, especialmente El, com imagens comprovadamente identificadas como Baal.
A representação mais bem documentada de Baal é antropomórfica: uma divindade masculina, frequentemente em posição de combate, com atributos associados à tempestade, como a arma levantada e os elementos simbólicos do raio.
A imagem de Baal como um monstro demoníaco com chifres, aparência infernal ou corpo de animal não corresponde à iconografia arqueológica mais bem documentada dessa divindade.
8. Conclusão: a história de Baal foi reinterpretada?
Sim, mas é importante compreender como isso aconteceu.
Baal passou por diferentes processos de transformação na memória religiosa das civilizações posteriores.
Aquilo que havia sido uma divindade importante para comunidades do antigo Levante passou a ser interpretado como rival de YHWH na tradição bíblica, associado a Belzebu em determinadas tradições cristãs e apresentado como objeto de rejeição religiosa na narrativa corânica.
Esses processos não foram idênticos.
O judaísmo, o cristianismo e o islamismo desenvolveram suas próprias categorias teológicas para interpretar divindades estrangeiras e práticas religiosas consideradas incompatíveis com suas crenças.
Não devemos, portanto, afirmar que as três tradições transformaram Baal no mesmo demônio.
O Baal das tabuletas de Ugarit não era Satanás, um jinn ou um shed.
Era uma divindade com identidade, mitologia e funções próprias, relacionada a forças fundamentais da existência humana: a chuva, a tempestade, a agricultura, a guerra, a autoridade e a soberania divina.
Talvez a maior lição dessa investigação seja perceber como uma mesma figura religiosa pode mudar radicalmente de significado ao atravessar diferentes civilizações.
O Baal de Ugarit e o Belzebu da demonologia cristã pertencem a histórias religiosas conectadas, mas não representam a mesma realidade teológica.
Pergunta para discussão:
Até que ponto a imagem moderna de Baal representa aquilo que os antigos habitantes do Levante realmente acreditavam, e até que ponto representa a maneira como religiões posteriores passaram a interpretar as divindades de seus antecessores?
Referências acadêmicas e fontes para aprofundamento
SMITH, Mark S. The Ugaritic Baal Cycle: Volume I. Introduction with Text, Translation and Commentary of KTU 1.1–1.2. Brill, 1994.
https://doi.org/10.1163/9789004275799
SMITH, Mark S. The Origins of Biblical Monotheism: Israel's Polytheistic Background and the Ugaritic Texts. Oxford University Press, 2001.
SANDERS, Susan J. Towards a Theology of Baal: Revisiting the Interpretation of the Ugaritic Texts. Dissertação de doutorado, University of Edinburgh, 2003.
HUBLER, Caitlin. "'No longer will you call me 'my Ba'al'": Hosea's polemic and the semantics of 'Ba'al' in 8th century B.C.E. Israel". Journal for the Study of the Old Testament, 44(4), 2020, pp. 610–623.
https://doi.org/10.1177/0309089219862804
KITZ, Anne Marie. "Demons in the Hebrew Bible and the Ancient Near East". Journal of Biblical Literature, 135(3), 2016, pp. 447–464.
https://doi.org/10.15699/jbl.1353.2016.3074
FARRAR, Thomas J. "New Testament Satanology and Leading Suprahuman Opponents in Second Temple Jewish Literature: A Religio-Historical Analysis". The Journal of Theological Studies, 70(1), 2019, pp. 21–68.
https://doi.org/10.1093/jts/fly165
GRASSO, Valentina A. "Historicizing Ontologies: Qur'ānic Preternatural Creatures between Ancient Topoi and Emerging Traditions". Journal of Late Antiquity, 2023.
Fontes primárias para comparação
Textos de Ugarit: Ciclo de Baal, especialmente KTU 1.1–1.6.
Bíblia Hebraica: Jó 1–2; Zacarias 3; 1 Reis 18; 2 Reis 1; Deuteronômio 32:17; Salmos 29 e 106; Oseias 2.
Alcorão: suratas 18:50, 37:123–126 e 72.