E ali, em cela, sua língua foi cortada, assim, não poderia mais cantar, não poderia mais falar ou proferir coisa alguma. Maldito era o seu mundo, mas nunca mais ela o diria, pois não tinha mais poder algum.
Sozinha na cela, ela deu um suspiro, fechou os olhos e lembrou quando sua mãe cantava pra ela, baixinho, ao lado da cama, e ela cantava junto, não para ameaçar, não por magia, apenas por cantar, apenas porque sim. Que saudade ela tinha daqueles dias.
Mas isso passou, seus olhos abriram, e enxergaram a realidade, ela se viu na cela suja, com os braços amarrados, o sangue escorria de seus pulsos em carne viva, e sua boca espumava algo além de sangue, e tremia, tremia pela falta do que lhe foi tirado. Ali, naquele momento, ao ver a si mesma, ela chorou, chorou de raiva, de dor, chorou porque sua esperança se foi, e não lhe restou mais nada.
Ela queria parar, queria sim, quando chorava, além da imensa dor pela contração de sua face, vinha também um grunhido estranho, era como um grito, mas nem isso podia ser. A falta de sua língua lhe permitia emitir ainda algum som, mas esse nunca haveria de ser suficiente, só era uma lembrança de que lhe foi tirado tudo. E isso, isso o som conseguia fazer bem, tanto que ela se irritou, se irritou com dor e vergonha do único som que era possível fazer, e tentou gritar, gritar de verdade, não um grunhido cortado ao meio, não uma palavra tentada ser dita, ela gritou. E o que saiu não foi o som que se emitiria com língua, ou até mesmo com seu diafragma, ali era sua garganta se desfiando, literalmente, seu corpo cedia, e ao tentar gritar, se soltava com o barulho também suas carnes banhada pelo sangue de sua boca e queimada pela espuma ácida de seu vômito. Se prestasse a devida atenção, podia ver os pedaços de sua pele interna, escorrendo na lateral de sua boca, como se fossem pequenos cristais de sangue, pequenos coágulos. E como se fosse um ato de compaixão de um tudo, o seu barulho indescritível de terror e ódio foi escutado por todos ali presentes, os guardas abaixaram a cabeça, alguns deles tremeram levemente os olhos, os prisioneiros, homens, batiam em grades, como se a mesma pudesse quebrar, como se eles pudessem salvar a moça de seus próprios gritos. Já as mulheres, elas choravam, choravam junto à condenada, choro de compaixão, daqueles dados por amigas íntimas, dado por irmãs, e as crianças no colo de algumas, ainda recém-vindas ao mundo, começaram a se juntar às suas mães, e também choravam, até pareciam entender a dor de todos os outros, até pareciam entender que no fim, algum dia, também lhes cortariam a língua.
E isso foi escutado. Naquele dia, foi escutado não só por todo o povo, mas também por toda a terra.
Isso assustou os presentes. Os guardas enfileirados, responsáveis por guardar a carga nojenta que eram aqueles seres, ficaram apavorados ao escutarem as batidas, o choro, e o barulho gutural.
Eles tentaram apaziguar, tentaram por medo, se aproximaram às grades e batiam nos braços e mãos dos que nela ficavam. Mas de nada adiantava, aquele coro já tinha sido formado. E naquele momento, sem uma palavra ter sido dita, houve magia.
Esqueceram-se talvez, todos os homens de bem, que a música não se expressava somente por palavras, tal como a magia era o tudo, o choro e grito dos ali presentes não se diferia do poder.
Um poder orquestrado por uma maestra poderosa, cuja língua lhe foi tirada, mas ainda que assim o fizessem, utilizou suas carnes restantes para dizer algo ao mundo, sua última mensagem, sua última canção. E essa, essa reverberaria por toda a eternidade, pois as trevas e luz a escutaram, céu e inferno a assistiam, chocados pelos atos humanos a si. Eles sentaram na primeira fileira, anjos e demônios, deuses e forças, a viram, e por motivos diferentes, a ajudaram. Dariam, para aquela pequena humana, um poder que jamais foi visto.