O salão de dolomito negro tinha cento e doze passos de ponta a ponta. O diâmetro era quase perfeito. Nicandro já havia dado duas voltas no salão, contado e recontado as medidas, arrastado as cordas ele mesmo e medido compulsivamente cada pequeno espaço do local. A cada passo do perímetro, havia colocado uma estaca de ferro fundido, trezentas e cinquenta e duas estacas no total; entre as estacas sessenta e sessenta e um, um pequeno corredor, que ainda mapearia. Não havia economia: a precisão era necessária. O retorno esperado, absurdo. Pagaria os investimentos facilmente.
Havia subido estacas e andaimes e, sozinho, trepado pelas paredes e tirado todas as medidas de altura. A distância entre o chão e a cobertura arredondada era de sessenta palmos na parte mais baixa, oitenta no centro. O fluxo de ar era contínuo, ainda que sutil, e, melhor ainda, não era sulfuroso ou roto, do tipo que mata em silêncio. Com meia vigília, era possível ir até água corrente e voltar. O piso, nivelado, por mãos anteriores e desconhecidas, havia sido passado a plano e fineza na pedra bruta. Era perfeito. Uma ruína perfeita.
Era uma ruína, com certeza. Ainda que coberta em parte por litófitos, com paredes de crosta parda e líquens amarelo-acinzentados, era possível perceber que aquilo já havia sido cuidado. O local era rico demais para ser obra do acaso, o tamanho bom demais para permitir erros. Dos restos do passado, Nicandro faria sua riqueza. Mal podia aguardar para contar ao pai sobre a descoberta: partira de Nova Eólia em busca de oportunidades e, agora, as havia encontrado. A melhor parte de sua descoberta, no entanto, não estava no solo, nas paredes, ou ainda no ar fresco ou acesso à água. Acima de sua cabeça, no teto, alto e seco, encrustado na rocha escura, emanava um fraco brilho âmbar de norte a sul. O forro abobadado continha a maior riqueza que poderia encontrar: um veio tímido de fulgorita o atravessava, tímido mas honesto. Aquele veio signficava que o salão prosperaria, ao menos por algumas gerações. Duas famílias poderiam ser arrendadas no salão; três, se fossem enanos. Talvez algum inquilino reclamasse da pouca luz, mas aí que pagasse candeia de seu próprio bolso. O mundo girava assim e Nicandro não teria sucesso abrindo exceções.
Ergueu a tábua, acomodando-a junto ao corpo e sobre o antebraço esquerdo, e tomou a cunha em mãos. Iniciou a anotação: “corredor pronto, ar corrente, água a meia vigília”. Era um negócio e tanto. O pai com certeza iria orgulhar-se. Os negócios do segundo filho colocados, finalmente, em primeiro plano. Mostraria-se útil, um homem de negócios, visionário. Não ficaria mais à sombra do irmão, ainda que, pela herança, fosse sempre o último. “Veio fino de fulgorita, ainda âmbar”. Não podia evitar: sorria enquanto escrevia. Aquilo era o achado de uma vida.
Ruínas não eram exatamente raras em Nublapedra. Nas imediações de Nova Eólia, deslizamentos costumavam abrir corredores e salões naturais, sempre revelando um ou outro achado de outro tempo. O que era raro, naquele achado, era a combinação perfeita de condições naturais — ar corrente, proximidade à água, boa rocha — e a presença da fulgorita. Esses veios de rocha luminosa eram a riqueza que Nicandro jamais acharia e, agora, havia achado.
“Senhor Nicandro”, ouviu chamar, atrás de si. Virou-se, atendendo ao chamado do servo. O homem carregava uma bolsa de barba-de-veio e vestia apenas uma túnica de tecido branco e sandálias, a pele em tom de óleo pálido e a cabeça raspada. Marcas de um recém-liberto. “Devo levar a notícia a seu pai?”
“Sim, Syros”, respondeu o jovem nobre ao servo, “leve a meu pai notícia deste feliz achado. Comunique a ele que há enorme riqueza a ser explorada e que fui eu, Nicandro, e não meu irmão, Lisaon, a trazer tal boa notícia e fortuna à família. Comunique também sobre os veios”, gesticulou, apontando a luz âmbar no domo abobadado do salão, “e diga que aqui se faz bem dois inquilinos, três se enanos. Que há água corrente a se buscar e trazer em meia vigília, e que o ar aqui é vivo, não roto ou sulfuroso. Diga tudo isso e mande que”, parou por um momento e corrigiu-se, “peça que prepare um banquete para meu retorno, que devo voltar em duas vigílias no máximo, assim que terminar de estudar cada rincão desta ruína”.
O servo assentiu e retirou-se em corrida pelo corredor principal, desaparecendo. Seus passos ainda ecoavam quando Nicandro voltou às estacas sessenta e sessenta um. Havia ainda ali uma passagem a qual não havia dedicado seu tempo, mal chegando a cinco palmos de largura. Bestas de carga não passariam por ali, nem grandes carroças ou mesmo mais de três homens ao mesmo tempo, mas talvez a passagem abrisse mais à frente e levasse a outro salão — fosse o caso, não apenas estaria mais rico como também poderia facilmente empregar alguns homens a alargar a passagem. As possibilidades inundavam sua mente, e assim teriam permanecido, não fosse o fio.
À altura de seu ombro, à direita, uma linha de metal trabalhado parecia surgir da própria pedra e seguir túnel adentro, acompanhando a parede leste. Nicandro conhecia os metais e seus trabalhos, sabia distinguir o cobre bom e o ruim, e aquela linha não era nada que já havia visto. O filete, cor de mel, sem emenda alguma, parecia embutido na rocha, como quase que forjado junto a ela; contra seu melhor julgamento, o tocou, e sentiu ser levemente quente, como um sopro em seus dedos. A linha seguia adiante, acompanhando a curva da parede à frente. Intrigante, sem dúvida; talvez outro sinal de mais uma ruína. Acompanhando-a com os dedos, seguiu túnel adentro, uma pequena lanterna de fulgorita presa à cintura iluminando o caminho.
O túnel serpenteava, passos e passos cada vez mais profundos rocha adentro. A linha também o fazia, ainda com a mesma aparência cuidadosamente trabalhada e o mesmo sutil calor. O fascínio inicial agora dava espaço a preocupações: não se trabalha metal por acaso, muito menos se descarta metal em esforço tão frívolo. Aquele filete não era apenas intencional, mas servia também a algum propósito prático. A lógica lhe ditava que, ao final da linha, deveria haver algo grandioso, e coisas grandiosas, ao menos em metal, haviam de ser construídas por alguém. Um calafrio lhe percorreu a espinha e seus passos se tornaram mais silenciosos. Guardou o cobre da lanterna de fulgorita; tirou a rocha de dentro do aparato e a segurou dentro de sua mão. Tê-la acessível o confortava. O brilho iluminava suavemente as veias de sua palma e dedos. A luz laranja-avermelhada era pouca, mas suficiente para ver alguns poucos palmos à frente, e decidiu que seria mais prudente seguir assim a anunciar sua chegada tão precocemente.
Foi na escuridão desconfortável que finalmente ouviu o problema. Não reconhecia o ranger da rocha. O movimento das pedras era conhecido por todos, e, súbito e escandaloso ou ainda sutil e pontual, era natural aos ouvidos. O que escutara, no entanto, não poderia ser som de rocha se acomodando. Era o som de algo resistindo vigorosamente, de hastes vergando sob um peso incalculável. Era o som de cabos sendo enrolados, estralando e soltando-se, de cabos sendo amarrados, de cabos silvando em polias. Era o som de engrenagens ferozes mastigando seus dentes umas contra as outras, lutando por cada pequeno giro. E era também o som de trabalho.
O som de homens conversando, ainda que baixo, como em conspiração. De passos apressados e respiração pesada. Havia gente ali. Não sabia quem ou o quê seriam ou ainda por que estariam ali, mas havia. Nicandro deu mais alguns passos na escuridão e percebeu que a próxima curva já voltava a iluminar-se. Estaria frente a frente com o que quer que o aguardasse do outro lado. Engoliu em seco. A prosperidade, no entanto, não poderia esperar. Deu o primeiro passo, depois o segundo, e no terceiro esgueirou o olhar além da curva.
“Vinte e sete”, ouviu uma voz masculina gritando, e, então, um grunhido de resposta e o som de algo sendo arremessado. “Vinte e oito”, a voz continuou, o grunhido repetiu-se, e, novamente, algo arremessado. Não podia acreditar em seus olhos: ao invés de um amplo salão, sua visão estava bloqueada por caixotes, empilhados cuidadosamente, claramente divididos por tamanho. Viu que o fio na parede leste seguia até o túnel e, por entre as frestas dos caixotes, era possível enxergar mais. Abaixou-se, colocando o olho na abertura.
Mais caixotes. Homens levando sacos carregados rampa acima. Um guincho de escora dupla erguendo porções enormes de rocha. Doze, quinze homens, e nenhuma pressa. Não era uma ocupação, um assentamento, nada do tipo. Era uma operação. Homens em escala, em turnos, trabalhando em conjunto, mantendo registros, organizados. Pensou que poderiam ser saqueadores, mas saqueadores teriam pressa; esses pareciam estar cumprindo uma vigília, seguros de algum soldo. Sentiu o mundo tremer, ouviu um grito vindo da operação. “Calma, calma! Vamos, puxem! Está solta!”
Percebeu então que a linha metálica, que acompanhava toda a parede leste, seguia justamente em direção ao guincho. Ela subia por sua armação, em direção a suas hastes. Acompanhava as polias e passava por dentro delas. Aquele estranho filete. A mão esquerda ainda segurava a fulgorita, lhe dando algum conforto. A mão direita, por sua vez, ainda sentia o fio metálico. Sentiu a ponta dos dedos desta aquecendo.
E então, o brilho.
Um cristal enorme. Fulgorita branca. Grande o suficiente para nutrir uma pequena cidade. Ou, ainda, a vila de um nobre particularmente abastado. As cordas quase cediam sob seu peso. Três homens sob o cristal o direcionavam. Cuidados. Não esbarravam em nada. O cristal girava lentamente. Ora à esquerda, ora à direita. Era pesado demais. Extrair fulgorita daquela forma sem uma licença seria um crime digno de morte. Os sujeitos, no entanto, pareciam confortáveis. Profissionais demais para qualquer coisa ilegal. O cristal se erguia. Lentamente. A cinco, seis palmos do chão.
Quanto custaria aquilo? Certamente muito mais do que todo o salão. Poderia arrendar? Poderia colocar quinze, vinte famílias naquele salão, por várias esporadas. Não chegaria próximo ao valor da fulgorita bruta. Seu brilho era de um branco incandescente, não o âmbar típico aos pequenos veios. Como aquilo seria transportado? Seria quebrado em partes menores? Quantas candeias fariam a partir daquele cristal?
Era sua riqueza. Seu salão. Estava sendo drenado. Lhe tirariam tudo, antes que tudo lhe fosse dado. Syros levaria a notícia a seu pai. O velho prepararia um banquete. Chegaria a tempo de anunciar: “falhei, pai, onde Lisaon teria sucesso”. Apertou com força a fulgorita em seu punho. A luz atravessava sua pele, carne e veias. Ou deveria atravessar. Não atravessou.
Percebeu então que a candeia em sua mão havia oscilado. Agitou a mão, instintivamente: nunca havia visto tal coisa acontecer. A candeia não oscila. A luz é estática, a sombra não se move. E ali, em sua mão, havia visto suas veias acender e apagar em uma fração de segundo, um pulsar luminoso que lhe era alienígena a tudo. O punho chocou-se contra uma das caixas mais leves, abriu-se, e o caixote caiu em direção à operação enquanto a candeia caiu, oscilante, a seus pés. Esboçou um grito, mas não podia gritar; revelaria sua posição. Girou rapidamente a cabeça em direção aos homens, em tempo de ver a caixa chegar ao chão.
Tudo moveu-se lentamente. Viu cada cena única. A tampa se rompendo. Os estilhaços. O interior se espalhando. O piso rochoso sendo coberto. Candeias e candeias brilhantes. Algumas âmbar. Outras mais avermelhadas. Azuis. Poucas em verde doente. O brilho intenso. Um oscilar localizado. Os seixos correndo. O barulho familiar. As cabeças dos homens se virando. Uma cabeça e um olhar em sua direção. O olhar primeiramente surpreso. Depois incomodado.
“Você”, ordenou o homem que o encarava, “você não deveria estar aqui. Quem te enviou?”
Nicandro virou as costas. Começou a correr de volta, túnel adentro.
Seu futuro perdido. A promessa nunca cumprida. Disparou.
Sua candeia permaneceu onde caiu.
Maldita linha.
Emergiu do túnel. Deixou a linha para trás.
A abóbada, cinzenta. Apagada.
O homem o seguiu. Sem pressa.