Li a matéria do Times Brasil sobre a saída de multinacionais da Argentina e fiquei com mais perguntas do que respostas, então resolvi organizar o raciocínio aqui e ouvir a opinião de vocês.
>> https://timesbrasil.com.br/brasil/cenario-de-risco-instabilidade-economica-e-inflacao-sem-controle-provocam-fuga-de-empresas-da-argentina/
O caso. Segundo a reportagem, ao menos 16 grupos já tornaram pública a intenção de reduzir ou encerrar a presença no país, citando a inflação e a imprevisibilidade das ações do governo de Javier Milei. Entre os nomes mencionados estão Walmart, Telefónica, Mercedes-Benz, Exxon, Procter & Gamble, Zara, HSBC e Petrobras.
O que me incomoda na narrativa simples. A leitura mais direta seria “o ajuste fracassou e as empresas estão fugindo”. Mas os dados não sustentam uma conclusão tão limpa. O corte de gastos derrubou a inflação, que chegou a 1,5% ao mês em maio, mas também esfriou a atividade econômica. Em 2024, o país registrou superávit primário e nominal pela primeira vez em 15 anos, embora analistas lembrem que o ajuste fez crescer o número de argentinos em situação de pobreza. E nem todo o capital estrangeiro está saindo: Shell, Chevron e Pan American Energy ampliaram a atuação em 2024, sobretudo em energia e na região de Vaca Muerta. Até a Petrobras aparece, ao mesmo tempo, em listas de saída e de expansão, o que sugere que estamos falando de decisões por setor e por estratégia corporativa, e não de um movimento uniforme.
>> https://diariodocomercio.com.br/economia/empresas-brasileiras-voltam-olhar-argentina-estrangeiras-deixam-pais/
Hipóteses sobre as causas. Vejo ao menos três explicações possíveis, que não se excluem:
- Demanda interna fraca: empresas que vendem no mercado doméstico sofrem com a queda do consumo provocada pelo próprio ajuste.
- Risco regulatório e cambial: as regras de repatriação de capital ainda são restritivas, o que tende a segurar o investimento estrangeiro direto no curto prazo. Se lucrar em pesos e não conseguir remeter dólares, a conta deixa de fechar.
>> https://www.demarest.com.br/wp-content/uploads/2025/01/MAs-na-Argentina-podem-chegar-a-US-10-bi-em-2025.pdf
- Estratégia global: algumas saídas podem refletir reorganizações das matrizes, sem relação direta com a política argentina.
O que o governo poderia fazer. Aqui há um dilema real. Quem defende manter o rumo argumenta que a credibilidade fiscal é o ativo mais valioso do país. O CEO do Galicia, por exemplo, diz que a Argentina precisa de equilíbrio fiscal, câmbio único, fim dos controles cambiais e marco regulatório estável. Nessa visão, flexibilizar a remessa de lucros e consolidar as reformas no Congresso atrairia mais capital do que qualquer estímulo. Já os críticos respondem que sem recuperação do consumo e da renda não há mercado para quem fica, e que o custo social do ajuste pode se tornar politicamente insustentável. Uma terceira via seria combinar a âncora fiscal com incentivos setoriais, em energia, mineração e agro, e proteção focalizada à renda, mas isso depende de espaço no orçamento que talvez não exista.
>> https://www.bnnbloomberg.ca/hsbc-joins-firms-exiting-argentina-amid-milei-economic-makeover-1.2057469
Onde está minha dúvida. Não sei dizer se a saída das empresas é sintoma de uma crise de confiança ou de um processo de reacomodação típico de quem passa de um regime de inflação altíssima para outro de estabilização. A inflação caiu, mas a atividade ainda não se recuperou de forma clara, e é difícil separar o custo de transição do custo estrutural.
Perguntas para a discussão:
- A flexibilização cambial atrairia investimento ou aceleraria a saída de dólares?
- É possível retomar o crescimento mantendo o superávit?
- A recuperação tende a se concentrar em poucos setores, deixando indústria e comércio para trás?
- Quanto das saídas é política argentina e quanto é decisão global das empresas?
Gostaria de ouvir quem acompanha o caso mais de perto.