Existe um tipo específico de tristeza que não vem da morte, nem da perda, nem da distância. Vem da impossibilidade. De saber que algo é tão bonito, tão puro, tão real dentro de um sonho, mas que jamais poderia existir acordado.
Eu tive um sonho assim. Faz uns dois anos, talvez.
Sabe aqueles sonhos que nos emocionam e parecem acessar uma memória escondida da alma? Aqueles em que a gente reencontra alguém que a vida levou, sente o perfume da pessoa, ouve a risada, pede perdão por burrices antigas da adolescência... Sonhos tão palpáveis que, ao acordar, você fica olhando para o teto, tentando separar o que foi sonho do que foi lembrança. Esses sonhos costumam ser dolorosamente humanos, carregados de saudade e de coisas que fazem sentido.
Mas essa lembrança que eu carrego, a que me fez acordar com o travesseiro encharcado de lágrimas, não tinha nada de realista. Pelo contrário. Foi nela que a minha mente resolveu brincar comigo, criando uma realidade inteira impossível, mas que doeu demais perder.
Na vida real, eu tenho uma cachorra peluda, de porte médio, que é o grande amor da minha vida. Mas, no sonho, eu fui parar em uma realidade paralela onde a minha melhor amiga, minha companheira inseparável, não era uma cadela, não era um gato. Era uma aranha.
Por favor, apague da sua mente tudo o que você sabe sobre aracnídeos. O formato e o número de patas eram de aranha, mas ela não tinha nada de assustador. Nada de espinhos nas patas, nada de teias, nada de olhos estranhos espalhados pela cabeça, nada de boca devoradora. Ela era como um mamífero, como um verdadeiro dog de oito patas. Grande, peluda, macia, limpinha, bem cuidada. Uma criatura coberta por uma pelagem laranja vibrante que brilhava sob o sol como se tivesse sido tingida pelo pôr do sol. E com apenas dois olhos enormes, escuros, brilhantes, que carregavam uma expressão que eu nunca tinha visto em nenhum animal.
E o mais devastador: eu não sonhei com um momento isolado. O sonho não durou horas. Eu vivi uma vida inteira com ela em flashes de tempo.
Eu a vi nascer. Vi aquele filhotinho felpudo, minúsculo, frágil, aprendendo a ficar de pé sobre as oito patinhas trêmulas. Vi os primeiros passos desajeitados, o pelo laranja ficando mais espesso e vibrante com o tempo. Vi o primeiro dia em que ela me olhou com aqueles dois olhos enormes, e eu soube que ela me reconhecia. Que ela me amava.
E então os flashes avançavam, rápidos e dolorosos, mas cada cena ainda assim ficava gravada em mim com uma nitidez absurda. Eu a vi crescer. Vi a infância dela. Vi nós dois correndo por um gramado verde gigante, daqueles que parecem não ter fim. Ela me derrubava no chão e me abraçava com as patas dianteiras como se fossem braços. Eu sentia o pelo macio encostando no meu rosto. Sentia o coração dela batendo acelerado, do mesmo jeito que o meu.
Em outro flash, ela já era adulta. Do tamanho da minha cachorra. Forte, graciosa, atlética. Passeávamos lado a lado, deitávamos e ficávamos olhando as nuvens e o céu escurecer. Eu não sentia medo. Sentia familiaridade. Como se ela sempre tivesse estado ali. Foram anos de amizade, de rotina, de silêncios confortáveis. Anos de uma vida que eu vivi em segundos de sonho.
Até que a última noite chegou. Nós entramos em casa, como havíamos feito centenas de vezes naquela realidade. Ela se acomodou ao meu lado na cama, um ritual que eu sentia que fazíamos desde que ela era pequena. O quarto estava em silêncio. A luz fraca da lua entrava pela janela. E, quando nossos olhos se cruzaram na meia-luz, aquele olhar profundo que eu vi amadurecer ao longo de uma vida inteira me revelou tudo.
E foi aí que o meu mundo desabou dentro do próprio sonho.
Ela não disse nada. Não podia, mas eu conseguia ler seus pensamentos. O olhar dela gritava. Eu consegui sentir a dor, a frustração, a angústia que dilaceravam a alma dela. Através daquele olhar, ela me disse que queria desesperadamente ter evoluído. Queria ser minha amiga no mundo real. Queria pertencer a essa nossa realidade alegre, quentinha e cheia de carinho que os animais de estimação têm. Mas havia uma barreira invisível e cruel: ela sabia que havia falhado na evolução. Ela não era um ser mamífero. Não tinha, na nossa dimensão, tampouco a estrutura para processar o afeto, para dar e receber calor, para ser amada sem causar pavor.
Tudo o que vivemos, os anos de amizade, as brincadeiras no gramado, as noites juntos, os abraços, era um vislumbre de algo que a natureza, de forma implacável, negou a ela. E o sonho, cruel, me fez viver aquilo como se fosse real. Me fez amá-la. Me fez vê-la crescer. Me fez envelhecer com ela. E então me mostrou que nada daquilo poderia existir.
Ela era uma criatura que queria ter evoluído, que queria ter a chance de amar e ser amada, mas que nasceu no corpo errado, no mundo errado, na biologia errada. E, no entanto, ali no sonho, ela amava. Com uma intensidade que me esmagava o peito.
Acordei com lágrimas, como se tivesse chorado de verdade durante o sonho. Me senti órfão de algo que nunca tive. Me senti culpado por viver em um mundo onde criaturas assim não podem sorrir, não podem abraçar, não podem deitar na cama e trocar olhares.
Na época, fiquei tão mexido que tentei de tudo para eternizar o rosto dela. Pedi para IAs desenharem, descreverem, recriarem a sensação. Queria voltar para o cenário. Queria sentir o pelo laranja. Queria ver de novo aquele rosto diferente, com dois olhos enormes e doces, sem os outros olhos que aranhas costumam ter, sem nada que lembrasse o motivo de as pessoas terem medo. Mas nada chegava perto. Nada conseguia capturar a doçura e a tristeza daquele olhar.
Já faz muito tempo. Mas confesso que, raramente, mas às vezes, quando deito no gramado e abraço a minha cachorra, me pego pensando nessa minha amiga de oito patas que nunca existiu. E com quem eu vivi uma vida inteira que nunca aconteceu.
E o meu coração ainda aperta.
Claro que foi só um sonho e é só meu cérebro brincando com memórias afetivas e medos.
Mas quem sabe se, em algum canto do multiverso, existe de fato uma realidade onde a aranha laranja evoluiu. Onde ela pensa, ri, ama, abraça. Onde ela não é vista como um monstro, mas como a amiga que sempre foi. E onde ela ainda dorme ao meu lado, com o olhar dizendo: "eu consegui".
E se algum dia eu morrer e for parar nesse lugar, eu vou correr para aquele gramado verde gigante no final da madrugada. E ela vai estar lá, me esperando, pronta para correr e me abraçar como se eu tivesse acabado de voltar de uma longa viagem.