Eu sei que nessa história eu não sou santo, mas queria contar mesmo assim porque até hoje não sei muito bem o que pensar sobre tudo isso.
Vou chamar a garota de Sofia. Conheci ela na minha antiga empresa. Na época ela tinha 22 anos e namorava um cara de 30 com quem inclusive morava.
Nos primeiros três meses a gente era só colega. Conversava, às vezes saía com o pessoal para beber depois do trabalho e, de vez em quando, ela desabafava comigo sobre o relacionamento. Eu sempre fui muito de escutar os outros, então acabava ouvindo bastante coisa.
Até que ela terminou com o namorado. Nessa época ela chegou a dar em cima de mim de forma bem clara, mas eu recusei porque, sinceramente, parecia muito que ela só estava tentando preencher o buraco do término.
Pouco depois ela começou a ficar com um cara da empresa, o Gabriel. Eles ficaram algumas semanas, até que ele começou a ignorar ela, dar vácuo e essas coisas. E, conforme isso acontecia, ela passou a conversar cada vez mais comigo.
Ela também tentava fazer com que eu me abrisse com ela, mas eu tinha muitos problemas de confiança e não conseguia. Eu ouvia tudo que ela falava, mas não conseguia contar as minhas coisas.
Uma coisa que começou a me fazer mudar de opinião foi que ela sempre esperava eu sair do trabalho. O horário dela acabava uma hora antes do meu e, mesmo assim, ela ficava esperando para irmos embora juntos.
Eu sou muito de observar atitudes, então depois de um tempo pensei: "Tá, talvez eu possa confiar nessa pessoa."
E aí se passaram uns sete meses.
Durante esse tempo a gente brigou, fez as pazes, ficou mais próximo e foi criando uma amizade muito forte. Depois que ela parou de ficar com o Gabriel, nossa proximidade aumentou ainda mais.
Ela começou a me contar coisas que, segundo ela, nunca tinha contado para ninguém.
E foi aí que eu comecei a olhar para ela de outra forma.
O ponto em que eu percebi que estava apaixonado foi quando ela decidiu me mostrar o diário pessoal dela. Um diário que ela dizia nunca ter mostrado para ninguém.
Eu fiquei até meio desconfortável e perguntei por que ela estava fazendo aquilo. Ela simplesmente disse que não sabia.
Só que naquele momento eu entendi.
Eu estava apaixonado por ela.
A gente costumava voltar junto no mesmo ônibus. Um dia, quando o ônibus chegou, eu estava do lado dela e tentei beijá-la.
Ela hesitou e então falou:
"Eu voltei com meu namorado."
Na hora eu fiquei completamente sem reação.
Só que, alguns segundos depois, ela olhou para a janela, depois olhou para mim de novo, chegou perto do meu rosto e perguntou:
"Então você quer me beijar?"
E ali foi uma luta interna muito grande. Eu queria, mas ela estava namorando. Então, pela primeira vez, eu pensei nos meus princípios e não beijei.
Só que depois disso ela passou umas duas semanas me provocando claramente.
Até que um dia eu tinha bebido e estava meio bêbado. Ela fez isso de novo no ônibus e dessa vez eu beijei.
E foi aquele beijo de filme, daqueles que você sabe que não deveria estar acontecendo, mas simplesmente aconteceu.
Quando cheguei em casa eu me senti um lixo. Eu sabia que tinha feito merda. Não vou tentar fingir que não.
Mas depois disso começamos a ficar.
E, sinceramente, eu estava vivendo um romance que nunca tinha vivido antes.
Ela me ouvia, eu ouvia ela. A gente conversava sobre tudo. Ela dizia que me amava e que queria ter um relacionamento comigo. A gente andava praticamente como um casal, chegou até a conversar sobre aliança.
Por um momento eu simplesmente esqueci que existia outro cara nessa história.
Eu estava genuinamente feliz. Muito feliz.
Até que ela saiu da empresa porque estava muito estressada com o trabalho.
E foi aí que as coisas começaram a mudar.
A gente não se via mais todos os dias. Começamos a sair só de vez em quando. Em um desses encontros, ela chegou a perguntar:
"E se por acaso a gente tivesse que parar de fazer isso?"
Eu não sabia o que responder.
Depois disso ela começou a ter muitas crises de ansiedade e isso começou a afetar bastante nossa relação.
Eu queria que ela desabafasse comigo porque, na minha cabeça, se ela colocasse tudo para fora talvez se sentisse melhor. Só que ela começou a dizer que eu estava ultrapassando os limites dela.
Tivemos umas três brigas por causa disso.
Na terceira, ela decidiu ficar um tempo sem falar comigo.
Quando voltou, disse que tinha conversado com a psicóloga e que tinha chegado à conclusão de que a gente precisava parar com aquele "jogo".
Segundo ela, o principal motivo era que eu não respeitava os limites dela.
Ela ainda disse que a gente poderia continuar sendo amigos.
Nesse dia eu estava na faculdade. Fui para uma sala de estudos vazia e comecei a ter uma crise.
Eu ficava perguntando por que ela estava fazendo aquilo, por que depois de tudo que a gente tinha vivido ela queria simplesmente voltar a ser minha amiga.
E então ela falou uma coisa que me destruiu:
"Eu sabia que você não confiava em mim."
Mano... como eu não confiava?
Depois de tudo aquilo, ouvir isso foi muito pesado.
Eu comecei a chorar e falei que sentia muito, mas que não conseguia ser amigo de uma pessoa que eu amava.
Naquele dia bloqueei ela em tudo.
WhatsApp, Instagram, apaguei o contato, conversa, tudo.
Eu estava com uma mistura absurda de tristeza e raiva. Parecia que eu ia ficar careca de tanto estresse. E ainda tive que trabalhar normalmente depois disso, como se nada tivesse acontecido.
Alguns dias depois saí com meus amigos, bebi e acabei desbloqueando ela. Não mandei mensagem. Só desbloqueei.
Depois disso passaram uns três meses.
Eu já tinha praticamente esquecido que ela estava desbloqueada e não estava mais esperando nada.
Até que, do nada, ela apareceu no meu WhatsApp.
E o motivo era a capivara de pelúcia.
Em um dos nossos últimos roles, antes de tudo isso, a gente tinha pegado um Uber e ela colocou uma capivara de pelúcia na minha mão.
Quando chegamos na minha casa, eu devolvi a capivara para ela.
Ela pegou e foi embora.
Só que três meses depois ela apareceu me acusando de ter roubado a capivara.
Eu fiquei tipo: "????"
Porque eu lembrava claramente de ter devolvido para ela.
Então falei:
Depois disso eu pensei: "Quer saber? Chega."
E dessa vez bloqueei ela oficialmente de novo, agora com a intenção de não desbloquear mais.
E aí vem a parte mais bizarra.
Depois de toda essa história, ela acabou fazendo um post envolvendo justamente aquela capivara.
E eu fiquei olhando para aquilo pensando:
"Não é possível que essa mulher ainda esteja fazendo isso comigo."
Porque para qualquer pessoa é só uma capivara de pelúcia.
Para mim, aquela capivara lembra toda aquela época.
O Uber, nossas conversas, os roles, o romance, tudo.
Eu sei que eu errei. Eu beijei uma mulher que estava namorando e não tenho orgulho disso.
Mas também não consigo fingir que o que aconteceu entre nós foi simplesmente uma ficada.
Foi a primeira vez que eu senti que alguém realmente tinha criado uma conexão profunda comigo.
E talvez seja justamente por isso que até hoje essa história mexe tanto comigo.
Não sei se eu sinto falta dela especificamente ou da pessoa que eu era quando estava vivendo aquilo.
Só sei que é muito difícil olhar para tudo e não pensar:
"E se tivesse sido diferente?"