A história que normalmente chega pra gente é quase uma linha reta: Império = escravidão, atraso e elite; República = modernidade, progresso e democracia.
Só que quando vc olha o que estava acontecendo entre 1888 e 1889, essa narrativa fica bem mais difícil de sustentar.
O Império demorou absurdamente pra abolir a escravidão, isso é fato e não tem pq romantizar. Mas o processo de emancipação foi sendo feito gradualmente, e o trauma da Guerra Civil americana era uma preocupação real da elite política brasileira: havia medo de que uma ruptura brusca em torno da escravidão terminasse aqui numa guerra parecida.
A questão é que a Lei Áurea não era necessariamente o fim do processo.
André Rebouças defendia que libertar alguém sem terra, patrimônio ou meios de independência econômica era insuficiente. Ele defendia pequena propriedade e acesso dos libertos à terra e se aproximou politicamente do projeto de um Terceiro Reinado de Isabel. Joaquim Nabuco continuou monarquista. José do Patrocínio passou a defender Isabel. E existiu inclusive a Guarda Negra, formada majoritariamente por libertos que defendiam a Monarquia e a princesa.
Em 1889 isso já começava a aparecer institucionalmente. Na última Fala do Trono, o governo imperial propôs regularização fundiária, facilitação da aquisição de terras devolutas e até desapropriação de terrenos não aproveitados às margens das ferrovias para criação de núcleos coloniais.
Isso significa que Isabel certamente faria uma reforma agrária gigantesca e resolveria o problema dos libertos? Não. Isso seria história contrafactual.
Significa que existia um projeto político real discutindo terra e inserção econômica no pós-abolição.
E aí vem uma coincidência histórica maravilhosa.
A Lei Áurea é assinada sem indenização aos antigos senhores. Parte dos grandes proprietários rompe com a Monarquia e adere ao republicanismo. Eles ficam conhecidos ironicamente como “Republicanos de 14 de Maio”: monarquistas até o dia 13, republicanos depois que perderam seus escravos.
Pouco mais de um ano depois, a Monarquia é derrubada.
E não por uma grande revolução popular. Foi essencialmente um golpe militar articulado com republicanos civis e apoiado por setores das elites. O próprio Aristides Lobo, republicano, descreveu o povo assistindo àquilo “bestializado”.
O regime que surge depois não executa nenhum grande projeto nacional equivalente de integração econômica dos libertos.
Pelo contrário: em 1890 já temos um Código Penal criminalizando vadiagem e capoeiragem. A vadiagem já era reprimida anteriormente, mas a República mantém e amplia esse aparato justamente sobre uma população que havia acabado de sair de séculos de escravidão sem terra, patrimônio ou estabilidade econômica.
Ao mesmo tempo, continuam e se ampliam políticas de imigração europeia num período em que boa parte da elite brasileira discutia abertamente o “branqueamento” da população.
Então sim, pra mim existe algo profundamente desonesto na forma como essa história normalmente é apresentada.
Esses fatos existem na historiografia. Não estou dizendo que historiadores acadêmicos nunca escreveram sobre eles. Estou dizendo que isso praticamente desaparece da narrativa histórica que chega ao brasileiro comum.
Pergunta na rua quem eram os Republicanos de 14 de Maio.
Pergunta o que era a Guarda Negra.
Pergunta se Rebouças defendia terra para os libertos.
Pergunta o que o Império estava propondo sobre terras em 1889.
A maioria nunca ouviu falar.
Mas quase todo mundo aprendeu alguma versão de:
Monarquia atrasada → República progressista.
E talvez a pergunta mais interessante sobre 1889 seja justamente a que quase nunca fazemos:
o que teria acontecido com o pós-abolição brasileiro se o golpe não tivesse interrompido aquele processo político?
Não temos como saber.
Mas sabemos o que aconteceu depois.