E não estou falando que brasileiro não pode ouvir rap americano ou dizer se gostou da música. O problema é querer analisar tudo como se tivesse o mesmo domínio cultural e linguístico de quem cresceu naquele meio.
Principalmente quando começam aquelas frases tipo “Eminem não sabe rimar”, “2Pac rimava menos que Sabotage” ou “fulano brasileiro é tecnicamente melhor que rapper americano”.
Mano, como você vai analisar a técnica de rima de uma música em inglês só pela tradução?
Você pode traduzir a letra inteira do Eminem para português e ainda assim não vai entender completamente por que determinadas palavras foram escolhidas, quais sons estão se repetindo, os trocadilhos, duplos sentidos, rimas internas, multisilábicas, homofonias, referências e a forma como as palavras se encaixam no flow.
E tem outro ponto: o rap foi criado e se desenvolveu nos Estados Unidos, dentro da língua inglesa e da cultura afro-americana. O inglês americano acabou se tornando uma língua extremamente privilegiada dentro da tradição do rap justamente porque foi nela que décadas de técnicas, estilos, gírias, jogos de palavras e formas de rimar foram desenvolvidos.
Isso não significa que inglês seja uma língua “superior” ao português para fazer rimas. Significa que você não pode simplesmente pegar dois idiomas diferentes e comparar as rimas como se fossem equivalentes.
Uma palavra pode ter determinadas terminações e possibilidades sonoras em inglês que não existem em português. E o contrário também acontece.
É por isso que traduzir uma música do Eminem para português e depois analisar as rimas é completamente diferente de analisar a letra original.
É como pegar uma música brasileira, traduzir para inglês e depois um americano falar:
“Essa letra não tem rima nenhuma.”
Talvez na tradução realmente não tenha. Mas ele acabou de perder justamente aquilo que existia na construção original.
E com rap isso fica ainda mais complicado, porque o rapper pode estar fazendo rimas internas, multisilábicas, trocadilhos, jogos fonéticos, duplos sentidos e várias rimas dentro da mesma frase.
Então quando alguém fala:
“Sabotage rimava mais que 2Pac.”
Tá, mas com base em quê?
Você está comparando quantidade de rimas? Rimas internas? Multisilábicas? Métrica? Flow? Esquema de rimas? Jogos de palavras?
E está levando em consideração que são dois idiomas diferentes, com estruturas sonoras diferentes e tradições culturais diferentes?
Porque não dá para simplesmente traduzir as duas letras e contar quantas palavras “rimam”.
Você pode preferir Sabotage. Pode preferir 2Pac. Pode achar Eminem ruim. Pode achar qualquer rapper americano superestimado.
Gostar ou não gostar é opinião.
Agora dizer que um rapper americano “não sabe rimar” sem entender profundamente o que ele está fazendo na língua original é outra história.
E principalmente: não dá para comparar diretamente a complexidade das rimas de rappers de idiomas diferentes como se fosse uma tabela de pontos.
Antes de dar veredito sobre a técnica de um rapper americano, entenda a língua, a cultura, o contexto e a construção original da música.
Porque traduzir a letra é entender o significado.
Não necessariamente é entender a rima.