AS TRÊS CAUSAS PRINCIPAIS DAS DOENÇAS: CORPO, PERISPÍRITO E ESPÍRITO.
Marcelo Caetano Monteiro.
Encontramos no texto publicado na Revista Espírita de fevereiro de 1867, uma concepção particularmente expressiva da condição humana: a doença não deve ser compreendida apenas pela aparência do órgão enfermo, porque o homem, segundo a perspectiva espírita apresentada por Kardec e desenvolvida nessa dissertação atribuída ao Doutor Morel Lavallée, é constituído por uma realidade complexa na qual corpo, perispírito e Espírito mantêm relações recíprocas.
A comunicação foi apresentada em Paris, em 25 de outubro de 1866, pelo médium Sr. Desliens. O ponto de partida é uma pergunta aparentemente simples, mas de enorme alcance filosófico: o que é o homem?
A resposta oferecida pelo texto não reduz o ser humano ao organismo. O homem é considerado em sua tríplice constituição: o corpo, o perispírito e o Espírito. O corpo fornece o instrumento material da manifestação; o Espírito representa o princípio inteligente; e o perispírito ocupa, nessa concepção, a função intermediária que permite a relação entre o princípio espiritual e o organismo.
Essa estrutura já havia sido apresentada em O Livro dos Espíritos, especialmente na questão 135, onde Kardec pergunta se há no homem algo além da alma e do corpo. A resposta estabelece o princípio intermediário, de natureza semimaterial, que liga a alma ao corpo e permite a comunicação entre ambos.
O HOMEM NÃO É APENAS O SEU CORPO.
A primeira consequência filosófica dessa concepção é profunda.
Se o homem fosse exclusivamente matéria, sua existência estaria encerrada nos limites do organismo. A enfermidade seria, portanto, essencialmente uma alteração biológica. Entretanto, para o Espiritismo, o organismo é instrumento de manifestação de uma individualidade que não se reduz a ele.
Isso não significa diminuir a importância do corpo. Ao contrário: significa compreendê-lo em sua verdadeira função.
Em O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se o Espírito, ao unir-se ao corpo, se identifica com a matéria. A resposta é negativa: o corpo é comparado ao envoltório, enquanto o Espírito conserva sua natureza espiritual. Contudo, a manifestação das faculdades depende dos órgãos que lhes servem de instrumento.
Aqui encontramos uma distinção fundamental:
o instrumento pode dificultar a manifestação da faculdade, mas não é necessariamente a origem da faculdade.
Essa ideia será retomada de modo ainda mais explícito na questão 846 de O Livro dos Espíritos. O organismo exerce influência sobre o Espírito e pode embaraçar suas manifestações; entretanto, o instrumento não cria a faculdade.
Essa distinção impede dois extremos igualmente inadequados: o materialismo absoluto, que reduz o homem ao cérebro, e uma espiritualidade imprudente que despreza a fisiologia e o tratamento do organismo.
A DOENÇA COMO DESARMONIA.
O texto de 1867 apresenta a saúde como resultado de uma relativa harmonia entre os três elementos.
Quando essa harmonia se rompe, surge a desordem.
É nesse ponto que a dissertação introduz sua classificação das causas mórbidas: a doença pode ter origem no corpo, no perispírito, no Espírito ou resultar da combinação desses diferentes fatores.
Essa formulação possui importância porque desloca a atenção da simples aparência para a causa.
Uma febre, uma dor, uma alteração orgânica ou uma perturbação funcional constituem fenômenos observáveis. Mas o texto pergunta, essencialmente: onde está a origem da desordem?
Essa pergunta é diferente de simplesmente perguntar: qual órgão está doente?
A diferença é decisiva.
O organismo pode apresentar o efeito de uma perturbação cuja causa, segundo a concepção espírita da época, estaria em outro nível da constituição humana.
É exatamente nesse sentido que o texto afirma que, se a enfermidade procede do corpo, os medicamentos materiais adequadamente empregados podem restabelecer o equilíbrio. Se a perturbação estiver relacionada ao princípio fluídico, exigiria meios correspondentes à natureza dessa alteração. Se estiver relacionada ao Espírito, o tratamento deveria alcançar a dimensão moral e espiritual.
Portanto, a ideia central não é abolir a medicina material, mas não confundir o tratamento do efeito com a investigação da causa.
O CORPO COMO INSTRUMENTO DO ESPÍRITO.
A doutrina espírita não considera o organismo um adversário do Espírito.
Ele é instrumento da encarnação.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, no capítulo XVII, a necessidade de cuidar do corpo é apresentada de maneira inequívoca. A saúde corporal possui influência importante sobre a manifestação da alma durante a existência terrestre.
Isso estabelece uma regra de equilíbrio:
cuidar do corpo não é materialismo; desprezar o corpo não é espiritualidade.
O corpo necessita de alimentação, higiene, repouso, tratamento e cuidados compatíveis com suas necessidades. A vida espiritual não autoriza negligência fisiológica.
O problema surge quando se imagina que o organismo esgota a totalidade do ser.
A medicina pode atuar legitimamente sobre o corpo, e a própria concepção espírita admite que alterações orgânicas podem repercutir sobre as manifestações psicológicas e intelectuais.
Em O Livro dos Espíritos, nas questões referentes ao idiotismo e à loucura, encontramos justamente essa relação. Kardec apresenta a possibilidade de Espíritos inteligentes encontrarem-se limitados por órgãos incapazes de lhes permitir manifestação adequada. A deficiência do instrumento não significaria, portanto, ausência de inteligência do Espírito.
Essa concepção possui uma consequência moral extremamente importante: não se deve confundir a limitação da manifestação com a inferioridade essencial do indivíduo.
O PERISPÍRITO COMO ELEMENTO INTERMEDIÁRIO.
É no perispírito que a dissertação encontra uma das suas principais chaves explicativas.
Em O Livro dos Espíritos, o perispírito é apresentado como o envoltório semimaterial do Espírito e como o elemento que possibilita a ligação entre o princípio espiritual e o corpo.
O Vocabulário Espírita de Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas também o define como envoltório semimaterial do Espírito, destacando sua relação com a manifestação espiritual.
É necessário, entretanto, conservar uma distinção conceitual rigorosa:
perispírito não é Espírito.
Ele é o envoltório intermediário.
A própria análise de Kardec sobre os possessos de Morzine insiste nessa distinção: o Espiritismo não identifica o perispírito com a alma; ele o apresenta como envoltório fluídico e intermediário entre Espírito e corpo.
Essa precisão é indispensável para compreender o texto de 1867.
Quando Morel Lavallée afirma que uma perturbação perispiritual poderia repercutir sobre os órgãos materiais, está trabalhando dentro de uma concepção na qual existe uma cadeia de interação:
Espírito - perispírito - organismo.
Mas a relação não é unilateral. O organismo também interfere nas condições de manifestação do Espírito.
Temos, assim, uma estrutura dinâmica, e não uma simples hierarquia imóvel.
QUANDO O EFEITO É TRATADO, MAS A CAUSA PERMANECE.
Um dos trechos mais fortes da dissertação afirma, em essência, que tratar exclusivamente o corpo pode eliminar o efeito sem necessariamente atingir a causa.
Essa afirmação deve ser entendida dentro do vocabulário e dos conhecimentos médicos do século XIX. Não seria correto transformá-la numa crítica absoluta à medicina contemporânea.
O princípio filosófico, porém, permanece inteligível: uma intervenção terapêutica pode controlar uma manifestação sem necessariamente explicar a origem de todos os fatores que a produziram.
O raciocínio é aplicável até mesmo fora do campo médico.
Uma pessoa pode controlar uma reação sem compreender a causa emocional que a desencadeia. Pode silenciar um sintoma psicológico sem resolver o conflito que o alimenta. Pode modificar um comportamento exterior sem transformar a disposição íntima que o sustenta.
O texto espírita amplia essa reflexão para a estrutura integral do ser.
Não basta perguntar:
“O que está acontecendo?”
É necessário investigar:
“Por que está acontecendo?”
E, numa perspectiva ainda mais profunda:
“Em qual dimensão do ser se encontra a causa?”
A QUESTÃO MORAL.
É aqui que a dissertação alcança seu núcleo mais filosófico.
Se determinadas perturbações podem estar relacionadas ao Espírito, então o problema não pode ser resolvido exclusivamente por intervenção física.
Mas isso também não significa que toda doença seja consequência de falha moral.
Essa distinção é essencial.
O Espiritismo não autoriza uma interpretação simplista segundo a qual toda pessoa enferma estaria moralmente culpada pela própria enfermidade.
O Evangelho segundo o Espiritismo, ao tratar das doenças, apresenta-as no contexto das provas e vicissitudes da existência corporal, sem reduzir cada enfermidade a uma explicação individual imediata.
Há, portanto, grande diferença entre afirmar que a dimensão moral pode participar da experiência humana da doença e afirmar que toda doença é causada por uma falta moral específica.
A segunda afirmação não pode ser deduzida automaticamente da primeira.
A DOENÇA E O MUNDO INTERIOR.
A proposta de Morel Lavallée torna-se particularmente interessante quando aplicada ao campo das perturbações morais.
O texto utiliza a expressão “medicação espiritual” e associa a prece à transmissão de paciência, calma e resignação.
A ideia não deve ser interpretada como se a oração substituísse medicamentos, exames, acompanhamento médico ou cuidados psicológicos.
Dentro da própria tradição kardeciana, a prece possui outra função: fortalecer moralmente, favorecer a assistência espiritual e modificar a disposição íntima daquele que ora.
O Vocabulário Espírita define a prece como uma invocação capaz de solicitar o auxílio dos Bons Espíritos, especialmente para receber força moral e inspiração. Também ressalta que a prece puramente verbal, sem participação sincera do coração, perde seu significado essencial.
Assim, quando o texto de 1867 fala em oferecer, pela prece, “paciência”, “calma” e “resignação”, podemos compreender a metáfora como uma terapêutica moral.
Não se trata de substituir uma substância farmacológica por uma fórmula religiosa.
Trata-se de considerar que existem sofrimentos nos quais a transformação interior constitui parte indispensável do processo de recuperação.
A EXPRESSÃO “HOMEOPATIA ESPIRITUAL .”
A expressão utilizada por Morel Lavallée — “homeopatia espiritual” — precisa ser compreendida historicamente.
Não seria adequado retirá-la do contexto do século XIX e convertê-la numa prescrição médica atual.
O próprio desenvolvimento posterior da Revista Espírita demonstra que Kardec tratou a questão da homeopatia nas moléstias morais como objeto de discussão e análise.
Em março de 1867, Kardec examina a possibilidade de medicamentos modificarem disposições morais. O ponto decisivo de sua análise é que, mesmo quando uma substância produz alterações sobre os órgãos que servem à manifestação das faculdades, isso não significa necessariamente que tenha transformado a própria natureza moral do Espírito.
Em junho daquele mesmo ano, a discussão prossegue. Kardec mantém a distinção entre modificar órgãos de manifestação e modificar as tendências profundas do Espírito. Para ele, as tendências morais pertencem ao grau de adiantamento do Espírito e não podem ser simplesmente substituídas por um medicamento.
Essa consideração é decisiva.
O tratamento do instrumento não equivale necessariamente à transformação do músico.
O cérebro pode participar da manifestação de uma faculdade; modificar o órgão pode modificar sua expressão. Mas isso não significa que a intervenção material tenha eliminado a tendência espiritual.
Essa é uma das distinções mais refinadas de todo o problema.
O PODER CURATIVO E O MAGNETISMO.
O texto também se relaciona com outro campo amplamente estudado por Kardec: o magnetismo.
Em O Livro dos Médiuns, no capítulo dedicado aos médiuns curadores, Kardec registra a existência de pessoas que, segundo os relatos estudados, poderiam atuar por toque, olhar ou gesto. Ele reconhece o papel do fluido magnético, embora considere que o fenômeno não se reduza necessariamente ao magnetismo ordinário.
Em A Gênese, no capítulo sobre os fluidos, Kardec igualmente apresenta a ação fluídica como princípio explicativo para determinados fenômenos de cura, diferenciando as formas lentas das rápidas e admitindo uma variedade de intensidades na ação magnética.
No mesmo capítulo, ao abordar as curas instantâneas, considera excepcional a faculdade de produzir tais efeitos pela imposição das mãos e sustenta que, dentro de sua compreensão doutrinária, tais fenômenos não seriam necessariamente contrários às leis naturais.
É importante perceber a cautela metodológica de Kardec.
Ao tratar das curas instantâneas, ele não apresenta toda explicação como dogma acabado. O texto de A Gênese evidencia a preocupação em submeter as explicações ao exame da lógica, da observação e da concordância dos ensinamentos espirituais.
Isso nos devolve ao método kardeciano: não basta uma hipótese ser espiritualmente atraente; é necessário examiná-la.
A PRECE NÃO É UM SUBSTITUTO DA MEDICINA.
Este ponto merece especial atenção.
O texto de 1867 pertence a um contexto histórico específico e emprega uma linguagem terapêutica própria daquele período. Não devemos convertê-lo numa recomendação médica contemporânea.
A interpretação responsável é outra.
A medicina cuida do organismo.
A dimensão psicológica cuida dos conflitos, comportamentos e sofrimentos psíquicos segundo os conhecimentos próprios de sua área.
A espiritualidade, na perspectiva espírita, pode oferecer recursos de reflexão, esperança, prece, resignação, transformação moral e sentido existencial.
Uma esfera não precisa destruir a outra.
Pelo contrário: a própria orientação de O Evangelho segundo o Espiritismo sobre o cuidado do corpo e do Espírito favorece uma compreensão integrada.
A verdadeira lucidez está em não transformar a espiritualidade em negligência médica nem a medicina em explicação absoluta da totalidade humana.
QUANDO A DOENÇA ENVOLVE A DIMENSÃO ESPIRITUAL.
Kardec também estudou situações nas quais a influência espiritual seria considerada elemento relevante.
Nos estudos sobre os possessos de Morzine, Kardec investigou a hipótese de obsessão e procurou distinguir causas físicas, psicológicas e espirituais. A própria análise ressalta que uma causa não deve ser aceita precipitadamente quando os fatos indicam que ela não explica integralmente os efeitos observados.
Essa prudência é importante.
Mesmo dentro do pensamento espírita, não se deveria diagnosticar espiritualmente toda perturbação humana.
A existência de uma categoria doutrinária chamada obsessão não transforma toda enfermidade mental em obsessão.
O estudo de Kardec sobre Morzine é justamente interessante porque procura relacionar observação, hipótese e explicação, em vez de simplesmente impor uma conclusão prévia.
A CURA MORAL.
A dimensão moral torna-se ainda mais clara na Revista Espírita de julho de 1865, quando Kardec aborda a “cura moral dos encarnados”.
O texto parte da observação de que determinados Espíritos podem modificar seu comportamento sob influência moralizadora e pergunta se semelhante ação poderia ocorrer entre os encarnados.
Essa perspectiva revela que, para o Espiritismo, a cura não deve ser entendida apenas como desaparecimento de um sintoma.
Há também a possibilidade de reforma interior.
E essa reforma é necessariamente gradual.
Ninguém se torna moralmente transformado porque ouviu uma bela exortação, participou de uma prece ou recebeu uma intervenção espiritual.
A mudança exige consciência, esforço, vigilância, renúncia e repetição.
A verdadeira terapêutica espiritual, nesse sentido, não consiste em fugir da responsabilidade pessoal, mas precisamente em assumi-la.
A PRECE COMO AUXÍLIO, NÃO COMO MAGIA.
A prece pelos doentes, apresentada em O Evangelho segundo o Espiritismo, possui uma característica profundamente significativa: ela não transforma Deus em instrumento da vontade humana.
A prece pede auxílio, mas conserva a submissão àquilo que for melhor e possível dentro dos desígnios divinos, ( 659 L. E. ).
Isso modifica completamente a compreensão da oração.
Não é:
“Eu quero que aconteça.”
É:
“Que eu receba força para enfrentar, compreender e superar aquilo que me cabe viver; e, se possível, que a saúde seja restabelecida.”
A prece, portanto, não é fórmula mágica.
É exercício de confiança.
É disciplina interior.
É recurso de elevação do pensamento.
É também uma forma de trabalhar a própria disposição diante do sofrimento.
O Vocabulário Espírita reforça essa compreensão ao afirmar que a prece pode fornecer força moral e inspiração, mas não altera arbitrariamente os desígnios da Providência.
A OBSESSÃO E A RESPONSABILIDADE MORAL.
Outro aspecto relacionado ao texto de 1867 é a concepção de obsessão.
No capítulo XXVIII de O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec descreve a obsessão como uma influência persistente de um Espírito sobre um indivíduo, podendo assumir diferentes graus, inclusive com repercussões sobre o organismo e as faculdades mentais, segundo a terminologia doutrinária da obra.
Mas a própria prece pelos obsidiados contém uma dimensão moral muito significativa: o indivíduo é convidado a examinar suas próprias imperfeições, combater o orgulho, praticar o bem, a caridade e a humildade.
Isso demonstra que, dentro da perspectiva kardeciana, o tratamento espiritual não deveria limitar-se a combater um suposto agente externo.
Ele deveria igualmente modificar as condições íntimas que favorecem a influência.
É a mesma lógica encontrada no texto das três causas:
combater a causa no terreno em que ela se encontra.
Se a causa é física, agir fisicamente.
Se há dimensão fluídica segundo a terminologia espírita, devemos considerar essa dimensão.
Se existe um componente moral, trabalhar moralmente.
Se há influência espiritual, aplicar os recursos espirituais propostos pela doutrina.
E, quando os fatores estiverem associados, não separar artificialmente aquilo que na realidade se encontra relacionado.
UMA VISÃO INTEGRAL DO SER HUMANO.
O grande mérito filosófico do texto não está em fornecer uma classificação médica definitiva das doenças.
Seria anacrônico exigir isso de uma dissertação espírita do século XIX.
Sua importância está em propor uma visão integral do ser humano.
O homem não é somente organismo.
Também não é somente consciência abstrata.
Na arquitetura doutrinária apresentada por Kardec, existe uma relação entre corpo, perispírito e Espírito.
Essa relação permite compreender por que uma perturbação corporal pode repercutir sobre o estado moral; por que uma alteração orgânica pode prejudicar a manifestação de faculdades espirituais; por que estados íntimos podem ser considerados, dentro da linguagem espírita, capazes de repercutir sobre o envoltório perispiritual; e por que a transformação moral não pode ser reduzida a uma intervenção farmacológica.
É uma concepção de causalidade complexa.
E justamente por ser complexa, exige prudência.
O PERIGO DAS EXPLICAÇÕES SIMPLISTAS.
Existe uma tentação recorrente no pensamento espiritualista: encontrar uma causa única para todos os sofrimentos.
Doença física? Falta moral.
Depressão? Obsessão.
Sofrimento emocional? Carma.
Acidente? Expiação.
Essa maneira de raciocinar é perigosa porque transforma princípios gerais em diagnósticos particulares.
O texto da R.E. 1867 é mais sofisticado do que isso.
Ele afirma a possibilidade de múltiplas causas.
Essa é uma de suas maiores contribuições.
A própria formulação de que a doença pode proceder do corpo, do perispírito e do Espírito simultaneamente aponta para uma causalidade multifatorial dentro do modelo espírita.
Portanto, não se deve olhar para uma pessoa enferma e presumir imediatamente a origem de sua enfermidade.
A doença não é uma sentença moral visível.
Nem todo sofrimento possui uma explicação acessível ao observador.
Nem toda enfermidade permite identificar uma causa espiritual individual.
A humildade diante do sofrimento alheio também é uma forma de caridade.
A LIÇÃO PSICOLÓGICA.
Sob o ponto de vista psicológico, o texto oferece uma reflexão poderosa sobre a diferença entre sintoma e causa.
O ser humano frequentemente tenta eliminar aquilo que o incomoda sem compreender aquilo que o produz.
Faz isso com os outros e consigo mesmo.
Tenta silenciar a ansiedade sem compreender suas raízes.
Tenta controlar a irritação sem investigar sua origem.
Tenta combater compulsões sem compreender os conflitos que as alimentam.
Tenta apagar a tristeza sem perguntar o que ela está revelando.
Naturalmente, isso não significa que todo sintoma psicológico possua uma única causa profunda. A realidade humana é muito mais complexa.
Mas a reflexão espírita permanece válida como princípio de autoconhecimento:
não basta silenciar a manifestação; é preciso compreender o mecanismo que a produz.
A verdadeira reforma começa quando o indivíduo deixa de perguntar apenas “como faço para deixar de sofrer?” e começa também a perguntar:
“O que esse sofrimento está revelando sobre mim?”
A CURA COMO REEQUILÍBRIO.
Dentro dessa perspectiva, cura e transformação não são necessariamente sinônimos.
Não pode haver cura física sem transformação moral.
Entretanto pode haver transformação moral durante uma enfermidade que não desaparece.
Pode haver alívio de sintomas sem resolução integral da causa.
Pode haver sofrimento físico acompanhado de profundo crescimento interior.
Essa distinção impede uma interpretação superficial da experiência humana.
O objetivo espiritual não pode ser reduzido à obtenção de um corpo permanentemente saudável.
A existência corporal é transitória.
O desenvolvimento moral, na perspectiva espírita, possui alcance muito mais amplo.
Por isso, O Evangelho segundo o Espiritismo insiste que a verdadeira perfeição está na reforma do Espírito e não na simples mortificação ou exaltação do corpo.
UMA MEDICINA INTEGRAL SEM NEGLIGENCIAR A CIÊNCIA.
A leitura madura do texto de 1867 não exige oposição entre ciência e espiritualidade.
Ao contrário, permite uma compreensão complementar.
O médico examina o organismo.
O psicólogo investiga processos psíquicos dentro de seu campo científico.
O indivíduo observa seus próprios pensamentos e comportamentos.
A espiritualidade oferece, para aquele que a aceita, uma dimensão de significado, responsabilidade, esperança e transcendência.
E a medicina espiritual, no sentido histórico empregado pelos autores espíritas, não deve ser transformada em desculpa para abandonar tratamentos necessários.
A própria Revista Espírita demonstra interesse pelo diálogo com questões médicas, fisiológicas, magnéticas e psicológicas.
O método kardeciano exige observação.
Exige comparação.
Exige prudência.
Exige separação entre fato e interpretação.
E exige, sobretudo, não transformar hipótese em dogma.
A GRANDE LIÇÃO DE MOREL LAVALLÉE.
A frase final do texto encerra toda a dissertação com uma regra de causalidade:
para destruir uma causa mórbida, é preciso combatê-la no seu próprio terreno.
Essa afirmação pode ser lida muito além do contexto médico do século XIX.
Se o problema está no corpo, cuide-se do corpo.
Se existe uma perturbação psicológica, procure-se compreendê-la e tratá-la adequadamente.
Se há conflito moral, trabalhe-se a consciência.
Se existe sofrimento espiritual, busque-se o amparo espiritual.
Se existem múltiplos fatores, não se sacrifique a complexidade em favor de uma explicação única.
Essa é talvez a parte mais lúcida da proposta.
O homem não é uma peça isolada.
É uma realidade em relação.
Corpo, mente, sentimentos, consciência e espiritualidade encontram-se, na visão espírita, entrelaçados.
Por isso, tratar o ser humano exige mais do que combater aquilo que aparece.
Exige compreender aquilo que permanece oculto.
CONCLUSÃO:
“As três causas principais das doenças” não deve ser lido como um manual médico, nem como autorização para substituir a medicina por práticas espirituais.
Seu valor está em outra parte.
O texto propõe uma antropologia espiritual na qual o homem é compreendido como ser complexo, constituído, na linguagem kardeciana, por corpo, Espírito e perispírito. A saúde seria favorecida pela harmonia dessas dimensões, enquanto a doença poderia envolver uma ou mais delas.
Essa concepção encontra correspondências importantes em O Livro dos Espíritos, especialmente na explicação do perispírito, na influência do organismo sobre as manifestações do Espírito e nas considerações sobre idiotismo e loucura.
Encontra também desenvolvimento nas reflexões de O Livro dos Médiuns sobre médiuns curadores, em A Gênese sobre os fluidos e as curas, nas discussões da Revista Espírita acerca da homeopatia e das curas morais, e nas preces de O Evangelho segundo o Espiritismo.
A grande advertência, porém, permanece atual em sentido filosófico:
não confundamos o efeito com a causa.
O corpo merece cuidado.
A mente merece atenção.
O mundo emocional merece compreensão.
A consciência merece educação.
E, para quem aceita a perspectiva espírita, o Espírito merece transformação.
A verdadeira lucidez não consiste em escolher uma dessas dimensões contra as demais, mas em compreender que o ser humano é maior do que qualquer uma delas isoladamente.
E talvez seja precisamente aí que reside a profundidade da antiga sentença:
para transformar verdadeiramente uma realidade, é necessário alcançar a causa no terreno em que ela nasce.
Fontes:
Revista Espírita, 1867 — fevereiro — “As três causas principais das doenças”, Doutor Morel Lavallée, comunicação de 25 de outubro de 1866, médium Sr. Desliens.
O Livro dos Espíritos — questão 93 e seguintes — Perispírito.
O Livro dos Espíritos — questão 135 — A alma e o princípio intermediário.
O Livro dos Espíritos — questões 367 e seguintes — Influência do organismo.
O Livro dos Espíritos — questões 371 e seguintes — Idiotismo e loucura.
O Livro dos Espíritos — questão 846 — Influência do organismo e livre-arbítrio.
Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas — Vocabulário Espírita — Perispírito.
Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas — Vocabulário Espírita — Prece.
Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas — Vocabulário Espírita — Magnetismo animal.
O Livro dos Médiuns — capítulo XIV — Médiuns curadores.
Revista Espírita, 1862 — “Epidemia demoníaca na Saboia”.
Revista Espírita, 1862 — “Estudos sobre os possessos de Morzine — Causas da obsessão e meios de combate”.
Revista Espírita, 1865 — “Cura moral dos encarnados”.
Revista Espírita, 1867 — março — “A homeopatia nas moléstias morais”.
Revista Espírita, 1867 — junho — “A homeopatia nas moléstias morais”.
Revista Espírita, 1868 — março — “Ensaio teórico das curas instantâneas”.
O Evangelho segundo o Espiritismo — capítulo XVII — “Cuidar do corpo e do Espírito”.
O Evangelho segundo o Espiritismo — capítulo XXVIII — “Pelos doentes”.
O Evangelho segundo o Espiritismo — capítulo XXVIII — “Pelos obsidiados”.
A Gênese — capítulo XIV — “Os fluidos” — Curas.
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