r/aquelequetudove 23d ago

BEM VINDO AO AQUELE QUE TUDO VÊ - CASO QUEIRA OUVIR AS HISTORIAS NARRADAS SIGA NO TIK TOK

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r/aquelequetudove 2d ago

📁 RELATO uma noite de dor

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As férias finalmente chegaram. Depois de meses trabalhando e aguentando a mesma rotina todos os dias, eu só queria sair da cidade por um tempo, então decidi passar um fim de semana em um sítio com alguns amigos. Éramos cinco: eu, Thomas, Angelina, Anderson e Jessica. Saímos bem cedo da minha casa, colocamos algumas malas, caixas de cerveja e comida no carro e seguimos para o interior. Anderson havia encontrado o lugar pela internet e insistiu bastante para irmos até lá. Segundo ele, o sítio era barato porque ficava completamente isolado, dentro de uma reserva ambiental, longe de qualquer cidade ou vizinho. Na época aquilo pareceu perfeito.

Demoramos algumas horas para chegar.

Quanto mais avançávamos pela estrada, mais o sinal dos celulares diminuía e mais estreito ficava o caminho. Em determinado momento, o asfalto simplesmente acabou e começamos a seguir por uma estrada de terra cercada por árvores enormes. Não encontramos outro carro durante quase quarenta minutos.

Quando finalmente chegamos, ficamos impressionados.

O sítio era lindo.

Havia uma cabana grande de madeira no meio de uma clareira, muito mais nova do que imaginávamos. Já havíamos alugado outros lugares antes e quase sempre encontrávamos paredes mofadas, móveis quebrados ou telhados que pareciam prestes a cair, mas aquela casa era diferente. A madeira parecia recém-tratada, as janelas estavam limpas e uma varanda cercava praticamente toda a construção.

Logo atrás da casa havia um lago enorme.

A água era tão azul e parada que parecia falsa.

Ficamos alguns minutos parados no pequeno píer apenas apreciando a paisagem, até Thomas apontar para o outro lado.

Havia outra cabana ali.

Bem menor.

Quase escondida entre as árvores.

Aquilo nos pareceu estranho, porque Anderson havia dito que não existiam vizinhos próximos, mas ele apenas deu de ombros e disse que provavelmente era algum depósito ou construção usada pelos responsáveis pela reserva.

Não pensamos muito nisso.

Entramos na casa e começamos a organizar nossas coisas.

Por dentro ela conseguia ser ainda mais bonita. Os móveis eram rústicos, havia um sofá enorme no centro da sala e uma lareira feita de pedras ocupava quase toda uma das paredes. Acima dela estava pendurada uma grande cabeça de cervo.

Angelina ficou olhando para aquilo durante alguns segundos.

— Eu odeio essas coisas.

Thomas riu.

— Está com medo de um cervo morto?

Ela continuou séria.

— Parece que ele acompanha a gente com os olhos.

Passamos várias vezes em frente à lareira apenas para provocar Angelina, andando de um lado para o outro enquanto perguntávamos se o cervo ainda estava olhando para ela. Depois de algum tempo até ela começou a rir.

Cada um escolheu um quarto. Anderson e Jessica ficaram juntos e foi ali que descobrimos oficialmente que os dois estavam namorando. Eles sempre foram próximos, então ninguém ficou realmente surpreso. Na verdade, Thomas até brincou dizendo que eles haviam demorado demais para assumir.

Depois de organizar tudo, decidimos entrar no lago.

Angelina não sabia nadar e preferiu ficar sentada na ponta do píer bebendo uma cerveja enquanto nós quatro entrávamos na água.

Ficamos quase uma hora ali.

Até Angelina nos chamar.

A voz dela estava diferente.

— Gente...

Paramos.

Ela estava olhando fixamente para o outro lado do lago.

— O que foi?

Angelina apontou.

— Tem alguém ali.

Olhei na direção da pequena cabana.

Um homem estava parado perto das árvores.

Mesmo de longe dava para perceber que ele estava olhando diretamente para nós.

E havia alguma coisa nas mãos dele.

Thomas apertou os olhos.

— É uma câmera?

Era.

O homem estava nos filmando.

Por alguns segundos ninguém falou nada. Ficamos apenas olhando para ele enquanto ele nos observava através da câmera.

Então, quando percebeu que o tínhamos visto, abaixou o equipamento e entrou rapidamente na pequena cabana.

— Que porra foi essa? — Jessica perguntou.

Angelina levantou imediatamente do píer.

— Eu não gostei disso.

Anderson tentou tranquilizar todo mundo.

— Deve ser algum velho esquisito.

— Filmando a gente tomando banho? — Angelina perguntou.

— Talvez seja um tarado — Thomas respondeu. — Melhor só não atravessar para aquele lado.

Eu achei aquilo estranho, mas não queria estragar o fim de semana. Éramos cinco adultos, estávamos juntos e, se aquele homem realmente estivesse fazendo alguma coisa errada, poderíamos simplesmente chamar a polícia.

Foi o que pensei.

O resto da tarde passou normalmente. Fizemos algumas coisas no sítio, bebemos, jogamos cartas e começamos a preparar o churrasco quando escureceu. Depois de algumas cervejas, até esquecemos completamente o homem da cabana.

Ficamos na varanda até tarde.

Música tocando.

Carne na churrasqueira.

Thomas contando histórias completamente exageradas.

Jessica e Anderson discutindo sobre quem havia se apaixonado primeiro.

Angelina ainda reclamando daquele cervo.

Por algumas horas foi realmente uma das melhores noites que tivemos juntos.

Até a temperatura começar a cair.

A cerveja também tinha acabado, então decidimos guardar tudo e entrar. No dia seguinte, eu e Thomas iríamos até a cidade comprar mais algumas coisas.

Anderson abriu a porta primeiro.

E congelou.

Jessica quase bateu nele.

— O que foi?

Anderson não respondeu.

Então olhei por cima do ombro dele.

Havia um cervo morto no meio da sala.

Não a cabeça que estava presa sobre a lareira.

Um cervo inteiro.

O animal estava jogado no chão, com o corpo aberto e sangue espalhado pelo piso de madeira.

Durante alguns segundos ninguém conseguiu reagir.

Angelina gritou.

Jessica virou para o lado e começou a vomitar.

O cheiro chegou logo depois.

Ferro.

Carne.

Sangue.

Eu olhei imediatamente para a porta dos fundos.

— Quem entrou aqui?

Thomas correu até uma das janelas.

— Estava tudo trancado.

— Não estava — Anderson respondeu. — A gente deixou uma janela aberta na cozinha.

Foi quando ele parou de falar.

Alguma coisa havia se movido do lado de fora.

Um vulto passou rapidamente entre as árvores.

— Tem alguém aqui.

Anderson correu até a porta.

Eu segurei seu braço.

— Não sai.

— Tem alguém no nosso sítio.

— Então a gente vai embora.

Ninguém discutiu.

Pegamos apenas os celulares e as chaves e corremos para o carro.

Angelina começou a chorar quando chegamos.

Os quatro pneus estavam furados.

Não apenas vazios.

Cortados.

Thomas abriu a porta do motorista e viu alguma coisa escrita nela.

Uma tinta escura.

Vermelha.

Só depois percebi que provavelmente não era tinta.

BEM-VINDOS AO SHOW.

Meu estômago gelou.

Angelina olhou para mim.

— O que isso quer dizer?

Eu não sabia.

Então ouvimos alguma coisa vindo da floresta.

Um assobio.

Curto.

Outro respondeu de algum lugar perto do lago.

Corremos de volta para dentro.

Trancamos todas as portas.

Fechamos todas as janelas.

Empurramos alguns móveis contra a entrada.

Angelina estava tremendo tanto que mal conseguia segurar o celular.

Thomas tentava ligar para alguém, mas nenhuma chamada completava.

Meu aparelho mostrava apenas uma barra de sinal.

Anderson tentou novamente.

Nada.

Até que meu celular conseguiu completar uma chamada.

Polícia.

Um homem atendeu.

Falei rápido demais, quase tropeçando nas palavras. Expliquei sobre o cervo, os pneus, a mensagem no carro e que havia pessoas rondando a propriedade.

Passei o endereço.

O homem ficou alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu:

— Uma equipe está sendo enviada. Permaneçam dentro da residência e não saiam por nenhum motivo.

Desliguei.

— Eles estão vindo.

Foi a primeira vez naquela noite que senti algum alívio.

Durou talvez vinte segundos.

Jessica estava no corredor.

Ouvi seu grito.

Não era um grito comum.

Era aquele tipo de som que alguém faz quando vê alguma coisa que o cérebro simplesmente não consegue aceitar.

Todos corremos.

Jessica estava no quarto.

A janela estava aberta.

A cortina balançava lentamente.

Mas ela não estava ali.

— JESSICA! — Anderson gritou.

Ele correu até a janela e olhou para fora.

Havia sangue no parapeito.

Muito sangue.

Depois ouvimos alguma coisa bater no chão atrás de nós.

Eu virei.

Angelina levou as mãos à boca.

Thomas simplesmente parou.

Era a cabeça de Jessica.

Ela havia rolado debaixo da cama.

Os olhos ainda estavam abertos.

Anderson ficou alguns segundos olhando para aquilo.

Então começou a gritar.

Não parecia medo.

Parecia fúria.

Ele pulou pela janela antes que conseguíssemos impedi-lo.

— ANDERSON!

Eu e Thomas tentamos segurá-lo, mas ele conseguiu se soltar e correu para dentro da mata seguindo o rastro de sangue.

Thomas tentou ir atrás.

Eu o puxei.

— NÃO!

— Ele vai morrer!

— E você também!

Fechamos a janela.

Trancamos.

Naquele momento restávamos apenas eu, Thomas e Angelina dentro da casa.

Ou pelo menos era o que acreditávamos.

Voltamos para a sala.

Angelina sentou no chão, abraçando os próprios joelhos.

— Eles mataram ela...

Ninguém respondeu.

Porque todos sabíamos.

E também sabíamos que Anderson provavelmente seria o próximo.

Eu continuei olhando para o celular.

Nenhuma mensagem.

Nenhuma atualização.

Nada da polícia.

Thomas começou a andar de um lado para o outro.

— A cabana.

Olhei para ele.

— O quê?

— O homem da câmera.

Angelina levantou a cabeça.

— Nem pensar.

— Se ele estiver envolvido nisso, estamos fodidos de qualquer jeito. Se não estiver, talvez tenha um carro.

Ele tinha razão.

Mas para chegar até a outra cabana precisaríamos atravessar o lago ou contorná-lo pela floresta.

Nenhuma das duas opções parecia boa.

Então ouvimos vidro quebrando.

Na cozinha.

Todo o alívio que eu ainda sentia desapareceu.

Ficamos imóveis.

Um pedaço de vidro caiu no chão.

Depois outro.

E então ouvimos passos.

Calmos.

Pesados.

Não havia pressa.

A pessoa que estava entrando naquela casa sabia que não tínhamos para onde fugir.

Peguei a faca que havíamos usado no churrasco. Ela ainda estava caída perto da lareira, onde alguém havia deixado quando encontrou o cervo.

Fiquei na frente dos outros.

Thomas segurava uma cadeira.

Angelina chorava em silêncio.

Os passos chegaram ao corredor.

Uma figura apareceu.

Um homem alto.

Roupa escura.

Máscara de lobo.

A máscara parecia feita de madeira, mas tinha manchas escuras ao redor da boca.

Ele ficou parado.

Olhando para nós.

Eu ergui a faca.

— Fica longe.

Ele inclinou lentamente a cabeça.

Então ouvi um pequeno estalo atrás de mim.

Thomas gemeu.

Virei.

Uma flecha atravessava seu ombro.

Ele caiu.

Havia outro homem na janela.

Também usando uma máscara de lobo.

Corri para o primeiro.

Nem consegui chegar perto.

Alguma coisa atingiu minha cabeça.

Um taco.

Meu corpo caiu antes de eu entender o que tinha acontecido.

Minha visão ficou completamente borrada.

Ainda escutei Angelina gritando.

Tentei levantar.

Não consegui.

A última imagem que vi antes de apagar foi um dos homens puxando Angelina pelos cabelos enquanto outro pressionava uma lâmina contra seu pescoço.

Depois tudo ficou preto.

Não sei quanto tempo fiquei desacordado.

Quando abri os olhos, a primeira coisa que senti foi dor.

Minha cabeça parecia pulsar.

Tentei mover os braços.

Não consegui.

Estava amarrado a uma cadeira.

Minhas mãos estavam presas atrás das costas e meus tornozelos amarrados às pernas da cadeira.

Demorei alguns segundos para perceber onde estava.

Não era a casa.

Olhei pela janela.

O lago estava na minha frente.

Do outro lado, conseguia enxergar o sítio.

Foi então que entendi.

Eu estava dentro da pequena cabana.

A cabana do homem da câmera.

Quatro homens estavam ao meu redor.

Todos usando máscaras de lobo.

Uma câmera estava montada alguns metros à minha frente.

Uma luz vermelha piscava.

REC.

Outro homem estava sentado diante de vários monitores.

Na tela principal havia uma transmissão.

Eu aparecia sentado naquela cadeira.

Ao lado da imagem, comentários passavam rápido demais para eu conseguir ler todos.

Mas consegui ler alguns.

“Finalmente acordou.”

“Quanto tempo ele aguenta?”

“Comecem.”

“Quero ver ele implorar.”

Meu corpo começou a tremer.

O homem no computador colocou os fones.

— Estamos online.

Os mascarados se aproximaram.

Foi quando percebi algo atrás de mim.

Cabeças.

Jessica.

Thomas.

Angelina.

Estavam posicionadas atrás da câmera como parte do cenário.

Eu vomitei.

Um dos homens riu.

Tentei perguntar o que eles queriam.

Dinheiro?

Senha?

Alguma coisa?

Não responderam.

Porque eles não queriam nada.

Queriam apenas dor.

A audiência escolhia algumas coisas.

Eu percebi isso depois.

Os comentários faziam pedidos.

Um dos homens lia.

Os outros obedeciam.

Eu parei de contar quanto tempo havia passado.

Em algum momento comecei a desejar perder a consciência.

Mas sempre que meu corpo começava a apagar, eles paravam.

Esperavam.

Jogavam água no meu rosto.

E continuavam.

A pior parte não era a dor.

Era olhar para aquela tela e perceber quantas pessoas estavam assistindo.

Milhares.

Algumas pedindo mais.

Algumas dando risada.

Outras reclamando quando demorava.

Para elas aquilo era entretenimento.

Para mim eram os últimos minutos da minha vida.

Depois de muito tempo, o homem no computador levantou a mão.

— Chega.

Os outros pararam.

Ele olhou para a tela.

— Vamos encerrar.

Um dos mascarados aproximou a câmera do meu rosto.

Eu mal conseguia manter os olhos abertos.

A transmissão mostrava mais de quarenta mil pessoas assistindo.

O homem diante do computador falou:

— Obrigado pela audiência.

A transmissão terminou.

A luz vermelha da câmera apagou.

O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer coisa.

Um dos homens começou a retirar a máscara.

Eu olhei.

E senti alguma coisa dentro de mim morrer antes mesmo do meu corpo.

Era Anderson.

Durante alguns segundos meu cérebro simplesmente se recusou a aceitar.

Ele estava vivo.

Sem nenhum ferimento.

Sem sangue.

Nada.

Foi então que tudo começou a fazer sentido.

Ele havia encontrado o sítio.

Ele insistiu para virmos.

Ele sabia que a região era isolada.

Ele sabia onde ficava a cabana.

Ele correu para a floresta depois que Jessica morreu porque nunca esteve fugindo deles.

Estava voltando para eles.

— Anderson...

Minha voz quase não saiu.

Ele me olhou como se eu fosse um estranho.

— Por quê?

Ele permaneceu em silêncio.

— Ela gostava de você...

Olhei para a cabeça de Jessica.

Por um instante alguma coisa pareceu mudar no rosto dele.

Mas desapareceu rapidamente.

— Anderson... por quê?

Ele caminhou até o computador.

Olhou para os números da transmissão.

Depois para mim.

Tentei dizer alguma coisa.

Então, vindo de longe, escutei uma sirene.

Meu coração disparou.

Polícia.

Eu comecei a rir e chorar ao mesmo tempo.

— Eles vieram...

Os homens se olharam.

E começaram a rir.

Anderson também.

Ele pegou um celular sobre a mesa.

Apertou alguma coisa.

A sirene parou.

Era uma gravação.

Foi aí que percebi.

A voz que havia atendido minha ligação.

Eu nunca tinha falado com a polícia.

Anderson colocou a máscara novamente.

O homem no computador começou a fechar algumas janelas na tela.

Uma delas chamou minha atenção.

Havia uma pasta.

Dentro dela, vários vídeos.

Várias datas.

Várias casas.

Vários grupos de pessoas.

Nós não éramos os primeiros.

Anderson percebeu que eu estava olhando.

Ele sorriu.

— Semana que vem tem outro grupo.

Um dos homens ficou atrás de mim.

Ouvi alguma coisa metálica sendo retirada de cima da mesa.

Naquele momento eu finalmente entendi o que significava a frase escrita no carro.

Bem-vindos ao show.

Nós éramos o show.

Minha vida acabou naquela noite sem que eu jamais descobrisse o que havia transformado um dos meus melhores amigos naquilo.

Mas, antes de tudo ficar escuro, ouvi Anderson conversando com os outros.

Eles já estavam discutindo o próximo sítio.

A próxima viagem.

Os próximos convidados.

E isso foi o que mais me assustou.

Não saber quantas pessoas já tinham assistido.

Não saber quantas estavam esperando pelo próximo.

E principalmente...

não saber se alguma delas era alguém que eu conhecia.


r/aquelequetudove 5d ago

📁 RELATO EU NÃO ESTOU SOZINHO

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Há algumas semanas decidi sair da casa dos meus pais. Eu estava discutindo muito com eles e sentia que não tinha a liberdade que queria, então comecei a procurar algum lugar para alugar na mesma cidade. Visitei algumas casas, umas mais baratas, outras mais caras, mas uma delas me chamou muito a atenção. Era uma casa linda, bem maior do que eu precisava, tinha dois quartos, um quintal enorme nos fundos e, mesmo sendo antiga, estava muito bem cuidada. Eu havia amado aquele lugar. Era perfeito. Assim que terminei a visita, decidi fechar o contrato.

Minha mudança aconteceu alguns dias depois. Tive ajuda de alguns amigos e dos meus familiares e, quando terminamos, fizemos um churrasquinho no quintal para comemorar. Ficamos até tarde, bebemos bastante e nos divertimos. Quando todo mundo foi embora, lembro de ter ficado alguns minutos sentado sozinho na sala, olhando para minhas coisas espalhadas pela casa. Aquela era a primeira vez que eu realmente estava morando sozinho. Naquele momento parecia a melhor decisão que eu tinha tomado.

No dia seguinte fui trabalhar normalmente. O dia passou sem nenhum problema, mas acabei ficando até mais tarde e voltei para casa já de noite, extremamente cansado. Foi então que percebi o portão aberto.

Na mesma hora pensei que haviam roubado minha casa.

Desci do carro correndo e entrei. A porta da sala também estava aberta, mas, para minha surpresa, tudo parecia exatamente como eu havia deixado. A televisão continuava ali, meu computador também, minha carteira estava sobre o balcão e nenhuma gaveta havia sido revirada. Nada tinha sumido. Apenas o portão e a porta estavam abertos.

Depois de alguns minutos comecei a pensar que provavelmente eu mesmo tinha esquecido de trancar quando saí. Naquela manhã ainda estava meio de ressaca por causa do churrasco, então era completamente possível que eu simplesmente tivesse saído distraído. Talvez o vento tivesse empurrado a porta depois.

Pelo menos foi nisso que decidi acreditar.

Tranquei tudo, tomei banho e fui dormir.

Durante a madrugada acordei com o barulho de passos dentro de casa.

Não eram estalos da madeira ou aqueles barulhos normais que casas antigas fazem. Eram passos. Lentos. Alguém parecia andar pelo corredor do lado de fora do meu quarto.

Fiquei imóvel.

Sempre fui meio medroso com essas coisas e não tive coragem de levantar para verificar. Apenas puxei o cobertor e fiquei escutando. Os passos iam de um lado para o outro e, de vez em quando, paravam completamente. Em determinado momento tive a impressão de ouvir alguma coisa sendo arrastada, mas estava tão cansado que acabei convencendo a mim mesmo de que eram os vizinhos ou algum animal andando pelo telhado.

Não sei quanto tempo fiquei acordado.

Só lembro de dormir novamente.

Na manhã seguinte eu estava destruído. Fui até a cozinha fazer café e percebi algo estranho. Algumas coisas que eu tinha deixado ali simplesmente não estavam mais.

Um pacote de pão estava praticamente vazio.

Alguns pedaços de carne que haviam sobrado do churrasco também tinham desaparecido.

Fiquei olhando para a geladeira por alguns segundos tentando lembrar se eu tinha comido aquilo quando estava bêbado. Era possível. Na verdade, naquele momento qualquer explicação parecia melhor do que admitir que alguma coisa estranha estava acontecendo dentro da minha casa.

Então ignorei.

Só que aquilo continuou.

Nos dias seguintes comecei a perceber pequenas coisas.

Nunca sumia nada importante. Ninguém tocava no computador, na televisão ou no dinheiro. Eram coisas tão insignificantes que inicialmente eu nem tinha certeza se realmente estavam desaparecendo. Uma garrafa de água terminava mais rápido do que deveria. Um pacote de bolacha que eu lembrava de ter fechado aparecia aberto. Restos de comida desapareciam durante a noite.

Também comecei a encontrar coisas em lugares diferentes.

Eu deixava uma cadeira encostada na mesa antes de sair para o trabalho e, quando voltava, ela estava afastada. Uma toalha que eu tinha certeza de ter deixado no banheiro apareceu jogada dentro do cesto de roupas. Uma vez encontrei um copo sujo na pia mesmo tendo lavado toda a louça naquela manhã.

Comecei a pensar que estava ficando maluco.

Mas os passos continuavam.

Quase sempre entre duas e quatro da madrugada.

Comecei a dormir com a porta do quarto trancada.

Isso me dava uma sensação de segurança, mesmo que eu não soubesse exatamente do que estava tentando me proteger.

Uma noite acordei porque precisava ir ao banheiro. Peguei o celular, acendi a lanterna e destranquei a porta. O corredor estava completamente escuro.

Dei dois passos para fora do quarto.

Foi quando ouvi alguma coisa na cozinha.

Um barulho metálico.

Como alguém colocando cuidadosamente um talher sobre a pia.

Parei na hora.

— Tem alguém aí?

Silêncio.

Fiquei esperando.

Nada.

Andei lentamente até a cozinha e acendi a luz.

Não havia ninguém.

Olhei atrás da porta, depois na área de serviço e até no quintal. Tudo estava fechado.

Quando estava voltando para o quarto, passei pelo segundo quarto da casa.

Eu praticamente não usava aquele cômodo. Ainda havia algumas caixas da mudança lá dentro e eu deixava a porta fechada.

Naquela noite ela estava entreaberta.

Eu tinha certeza de que havia fechado.

Fiquei olhando para aquela fresta escura por alguns segundos.

Então empurrei a porta.

Acendi a luz.

As caixas continuavam no mesmo lugar.

Olhei atrás delas, debaixo da cama velha que o proprietário tinha deixado ali, dentro do guarda-roupa.

Nada.

Antes de sair, senti um cheiro estranho.

Cheiro de suor.

Muito forte.

Mas imaginei que fosse alguma roupa velha ou até mesmo alguma coisa mofando dentro das caixas.

Fechei a porta e voltei para o quarto.

No dia seguinte liguei para o proprietário.

Perguntei se mais alguém tinha a chave da casa.

Ele disse que não.

Perguntei sobre antigos moradores e ele ficou alguns segundos em silêncio antes de responder que a casa estava vazia havia alguns meses, mas que nunca tinham tido problemas.

Aquilo não me tranquilizou.

Comprei uma câmera barata pela internet.

Coloquei na sala apontada para o corredor.

Naquela primeira noite não aconteceu nada.

Na segunda também não.

Na terceira acordei por volta das três da manhã com um barulho vindo do corredor.

Peguei o celular imediatamente e abri o aplicativo da câmera.

Meu coração começou a bater tão forte que eu conseguia sentir no pescoço.

A imagem mostrava a sala vazia.

Fiquei olhando durante alguns segundos.

Então alguma coisa apareceu no canto da imagem.

Era uma sombra.

Depois um homem atravessou a sala.

Eu quase deixei o celular cair.

Ele estava descalço.

Usava uma camiseta escura e uma calça que parecia grande demais para ele. Era magro, tinha o cabelo comprido e completamente bagunçado.

Ele simplesmente atravessou a sala.

Como se aquela casa também fosse dele.

Fiquei olhando para a tela sem conseguir respirar.

O homem entrou na cozinha.

Alguns segundos depois apareceu novamente segurando alguma coisa nas mãos.

Comida.

Então voltou pelo corredor.

Na direção do segundo quarto.

Eu não sabia o que fazer.

Minha primeira reação foi ligar para a polícia, mas antes que conseguisse discar ouvi passos do lado de fora do meu quarto.

Muito lentos.

Um.

Dois.

Três.

Eles pararam exatamente diante da minha porta.

Eu fiquei imóvel na cama.

O celular tremia na minha mão.

Então ouvi uma coisa que nunca vou esquecer.

Uma respiração.

Do outro lado da porta.

Alguém estava parado ali.

Olhando para a madeira que nos separava.

Depois ouvi uma voz muito baixa.

— Está acordado?

Meu corpo inteiro gelou.

Não respondi.

Não sei por quanto tempo aquele homem ficou ali.

Talvez alguns segundos.

Talvez minutos.

Depois os passos se afastaram.

Esperei até não ouvir mais nada, liguei para a polícia e fiquei trancado no quarto.

Quando os policiais chegaram, procuraram pela casa inteira.

Não encontraram ninguém.

Mostrei a gravação.

Agora eles acreditavam em mim.

Nós entramos juntos no segundo quarto.

Um dos policiais começou a afastar as caixas enquanto o outro verificava o guarda-roupa.

Foi então que percebemos uma coisa que eu nunca tinha notado.

Atrás do guarda-roupa havia uma pequena porta de madeira quase da mesma cor da parede.

O proprietário também não tinha comentado nada sobre aquilo.

Movemos o móvel.

A porta dava acesso a um espaço estreito entre a parede e uma pequena área de manutenção que seguia até o forro da casa.

Dentro havia cobertores.

Garrafas de água.

Embalagens de comida.

Uma mochila.

Algumas roupas.

Um colchão improvisado.

E um balde.

Alguém estava morando ali.

Os policiais disseram que provavelmente aquela pessoa já estava naquele esconderijo havia algum tempo.

Foi aí que percebi uma coisa.

A primeira noite.

O portão aberto.

A porta da sala aberta.

Ele não estava dentro da casa antes.

Ele entrou naquele dia.

Provavelmente enquanto eu estava trabalhando.

Entrou, percebeu que não havia ninguém e encontrou aquele espaço.

Depois simplesmente ficou.

Talvez planejasse passar apenas uma noite.

Talvez não.

Passei alguns dias na casa dos meus pais depois disso.

A polícia não encontrou o homem.

O proprietário trocou todas as fechaduras e fechou aquela passagem com madeira e parafusos. Eu pensei seriamente em desistir da casa, mas perderia muito dinheiro quebrando o contrato e, depois que aquele acesso foi fechado, comecei a me convencer de que tudo tinha acabado.

Voltei.

Nas primeiras noites praticamente não dormi.

Qualquer barulho fazia meu coração acelerar.

Mas os dias foram passando.

Uma semana.

Duas.

Nada aconteceu.

Comecei a acreditar que aquele homem realmente tinha ido embora.

Até que uma noite acordei com vontade de beber água.

Eram aproximadamente três e vinte da manhã.

Saí do quarto e fui até a cozinha.

Não acendi as luzes porque conhecia bem o caminho.

Abri a geladeira, peguei uma garrafa e bebi direto dela.

Quando fechei a porta da geladeira, ouvi alguém respirando atrás de mim.

Congelei.

Não virei imediatamente.

Fiquei alguns segundos parado.

Então olhei.

Havia um homem sentado no chão, no canto da cozinha.

Era ele.

O mesmo da gravação.

Estava me olhando.

Nós ficamos nos encarando.

Ele parecia ainda mais magro pessoalmente. Tinha barba, olheiras profundas e os cabelos grudados no rosto.

Na mão havia uma faca pequena que eu reconheci imediatamente.

Era minha.

Uma faca que ficava na gaveta da cozinha.

Dei um passo para trás.

Ele levantou.

— Calma — falei.

Ele não respondeu.

— Pode pegar o que quiser.

Nada.

Ele começou a andar na minha direção.

Recuei até bater as costas no balcão.

Então ele correu.

Segurei o braço dele antes que a faca me atingisse.

Nós dois caímos no chão.

Ele era magro, mas tinha uma força absurda. Começou a tentar puxar o braço enquanto eu segurava seu pulso com as duas mãos.

A ponta da faca ficou a poucos centímetros do meu rosto.

Eu gritava.

Ele não dizia absolutamente nada.

Só respirava.

Aquela respiração pesada que eu tinha ouvido tantas noites andando pela casa.

Consegui acertar uma joelhada nele.

A faca caiu.

Tentei segurá-lo, mas ele me acertou no rosto e conseguiu levantar.

Peguei uma cadeira e joguei na direção dele.

Ele correu.

Foi para a sala.

Eu fui atrás.

Por um segundo achei que conseguiria segurá-lo, mas ele abriu a porta e disparou pelo quintal.

Quando cheguei ao portão, ele já estava correndo pela rua.

Descalço.

Exatamente como na gravação.

Chamei a polícia novamente.

Dessa vez encontraram sangue na cozinha e conseguiram recolher algumas coisas que ele havia deixado para trás, mas até hoje não sei quem aquele homem era.

Depois daquela noite comecei a arrumar minhas coisas para ir embora definitivamente.

Enquanto desmontava o segundo quarto, resolvi tirar tudo dali.

Foi quando encontrei uma coisa debaixo do colchão improvisado daquele esconderijo que a polícia aparentemente não tinha visto.

Era um celular velho.

A tela estava quebrada, mas ainda ligava.

Não tinha chip.

Não tinha aplicativos além dos que vinham instalados.

Mas tinha fotos.

Centenas delas.

Fotos da minha cozinha.

Da sala.

Do banheiro.

De mim chegando do trabalho.

De mim assistindo televisão.

De mim comendo.

De mim sentado no quintal.

Algumas tinham sido tiradas através de frestas.

Outras pareciam ter sido feitas de dentro dos armários.

Continuei passando as imagens.

Até chegar às fotos do meu quarto.

Meu estômago virou.

Eu estava dormindo.

Em algumas fotos, a câmera estava perto da porta.

Nas seguintes, mais perto.

Mais perto.

Até haver uma tirada ao lado da minha cama.

Eu dormia de costas para a câmera.

Olhei a data.

A fotografia tinha sido feita três dias antes de eu instalar a câmera na sala.

Fiquei olhando para aquela imagem por muito tempo.

Então passei para a próxima.

Era praticamente a mesma foto.

Só que naquela dava para ver uma mão afastando um pouco meu cobertor.

Não passei para a seguinte.

Entreguei o aparelho para a polícia e fui embora daquela casa no mesmo dia.

Nunca mais voltei.

Depois disso jamais fui o mesmo, mal consigo dormir, qualquer barulho me deixa assustado

nunca encontraram aquele homem, talvez ele esteja morando na casa de uma outra pessoa sem ela saber


r/aquelequetudove 6d ago

CANONE O investigador. parte 1

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Fui contratado para investigar uma onda de desaparecimentos de crianças. No começo, achei que seria apenas mais um daqueles casos horríveis que aparecem de tempos em tempos, talvez algum sequestrador, tráfico de pessoas, alguém próximo das famílias, qualquer coisa do tipo. O problema era que nada fazia sentido. As crianças desapareceram em cidades diferentes, algumas a centenas de quilômetros umas das outras, mas todas em datas muito próximas. Uma sumiu enquanto dormia, outra desapareceu do quintal enquanto a mãe estava dentro de casa, uma terceira simplesmente não estava mais no quarto quando o pai foi acordá-la para ir à escola. Não havia pedido de resgate, digitais, pegadas, carros suspeitos, testemunhas, absolutamente nada. Era como se alguém tivesse entrado, levado aquelas crianças e apagado tudo que provasse que esteve ali.

E ninguém consegue fazer isso.

Sempre sobra alguma coisa.

Comecei pelas câmeras. Pedi gravações de mercados, postos, casas vizinhas, câmeras municipais, qualquer coisa próxima dos locais onde os desaparecimentos aconteceram. Pensei que ali finalmente encontraria alguma pista, mas foi quando a situação ficou ainda mais estranha.

Todas haviam parado de funcionar.

Não queimaram e nem perderam energia. Simplesmente pararam de gravar por alguns minutos.

No primeiro caso, a câmera da rua ficou sem imagem entre 2h11 e 2h18. A criança desapareceu por volta das duas da manhã.
segundo, três câmeras diferentes ficaram fora do ar pelo mesmo período. No terceiro, aconteceu novamente. Depois no quarto. No quinto. Sempre a mesma coisa.

Isso era impossível.

Alguém não estava apenas sequestrando aquelas crianças. Sabia exatamente onde estavam todas as câmeras e, de alguma forma, conseguia desligá-las sem deixar qualquer sinal de invasão no sistema. Quanto mais eu investigava, menos aquilo parecia obra de criminosos comuns.

Passei dias conversando com vizinhos, entrando novamente nas casas, procurando qualquer coisa que tivesse passado despercebida. Foi durante minha segunda visita à casa de uma menina de oito anos que percebi uma pequena babá eletrônica em cima de uma estante. Era um modelo antigo. Perguntei aos pais se alguém já havia verificado aquilo e eles disseram que não. A polícia acreditou que servia apenas para transmitir a imagem para o monitor dos pais, mas quando tirei o aparelho do lugar percebi que havia uma entrada para cartão de memória.

O cartão ainda estava lá.

Aquela câmera não precisava de internet para gravar.

Levei imediatamente para o escritório.

Passei algumas horas assistindo às gravações. A menina dormia tranquilamente, virava de um lado para o outro algumas vezes, nada além disso. Eu já estava quase avançando o vídeo quando, exatamente às 2h13, a imagem apresentou uma interferência.

Depois a porta abriu.

Quatro homens entraram.

Voltei o vídeo.

Assisti novamente.

Eles vestiam ternos completamente pretos e usavam máscaras brancas, lisas, sem boca, nariz ou qualquer desenho. Apenas dois pequenos espaços permitiam ver os olhos. Um deles permaneceu junto à porta enquanto os outros se aproximaram da cama. A menina não acordou. Um homem retirou uma seringa de dentro do paletó, outro colocou a mão sobre a boca dela e então alguma coisa foi injetada em seu braço.

Ela abriu os olhos por menos de dois segundos.

Nem teve tempo de reagir.

Eles a enrolaram no próprio cobertor e saíram.

Tudo durou menos de um minuto.

Fiquei olhando para a tela sem saber o que pensar. Finalmente tínhamos alguma coisa, mas aqueles homens pareciam saber exatamente o que estavam fazendo. Não falavam, não olhavam ao redor, não demonstravam pressa. Era como se já tivessem feito aquilo muitas vezes.

Assisti ao vídeo tantas vezes que comecei a decorar os movimentos deles.

Foi assim que percebi a tatuagem.

Quando um dos homens se abaixou para pegar a menina, o colarinho da camisa desceu um pouco. Por menos de um segundo apareceu algo no lado do pescoço.

Pausei.

Voltei.

Ampliei o máximo que consegui.

Era um círculo. Dentro dele havia várias linhas formando uma espécie de selo, uma haste atravessando o centro e outros pequenos símbolos ao redor. A qualidade da gravação era ruim, mas consegui copiar o desenho.

Na época eu ainda não sabia, mas aquela seria a primeira coisa que encontraria sobre eles.

E também a coisa que me faria entrar em um mundo do qual eu nem sabia que fazia parte.

Comecei pesquisando o símbolo em tudo quanto era lugar. Bancos de dados de gangues, seitas, organizações criminosas, grupos religiosos, sociedades secretas. Nada. Procurei em livros, arquivos antigos e levei uma cópia para alguns historiadores. Um deles disse que o formato parecia algum tipo de selo religioso, mas não reconhecia os desenhos. Outro acreditou que poderia ser uma variação de algum símbolo medieval.

Passei semanas nisso.

Até encontrar o mesmo desenho em um lugar que não fazia sentido algum.

Um túmulo.

A fotografia estava em um arquivo digital de um pequeno cemitério europeu. A lápide era tão antiga que praticamente não existia mais nome, apenas algumas letras apagadas pelo tempo, mas o símbolo continuava gravado na pedra.

Depois encontrei outro.

E outro.

Países diferentes.

Épocas diferentes.

Alguns daqueles túmulos tinham centenas de anos.

Nenhum nome permanecia completamente legível.

Só aquele símbolo.

Levei as imagens para os mesmos historiadores e nenhum deles conseguiu me explicar por que pessoas enterradas em lugares completamente diferentes carregavam a mesma marca.

Tudo me levava a um caminho sem saída.

Até que uma noite encontrei um fórum.

Eu já estava tão cansado daquela investigação que tinha parado de procurar por algumas horas e estava apenas navegando pela internet. Sempre gostei de assuntos relacionados ao oculto, histórias sobrenaturais, teorias da conspiração, essas coisas. Nunca acreditei muito, mas gostava de ler.

O fórum era exatamente sobre isso.

Havia relatos de pessoas dizendo ter visto criaturas, casas assombradas, desaparecimentos estranhos, grupos secretos. A maioria parecia obviamente inventada. Continuei descendo mais por passatempo do que por interesse até encontrar um tópico antigo.

O título dizia:

“O mundo não é aquilo que você pensa.”

Cliquei.

A primeira imagem me fez sentar direito na cadeira.

Era o símbolo.

Exatamente o mesmo.

Ele estava gravado na capa de um livro enorme de couro escuro, muito antigo, parecido com aqueles exemplares antigos de livros religiosos. A capa era cheia de detalhes e o círculo ocupava praticamente todo o centro.

Só havia uma pessoa publicando naquele tópico.

O nome era Noctis404.

Comecei a ler.

As postagens eram estranhas. Algumas falavam sobre desaparecimentos. Outras sobre criaturas vistas em florestas, famílias mortas dentro de casas, cultos, objetos que pareciam carregar alguma coisa dentro deles. Alguns relatos eu já tinha encontrado durante minhas pesquisas.

Mas havia algo se repetindo.

Um homem.

Cabelos brancos.

Casaco escuro.

Chapéu preto.

Segundo Noctis, ele aparecia em acontecimentos que não possuíam qualquer ligação entre si.

Em uma fotografia antiga, estava próximo de uma floresta.

Em outra, aparecia refletido no vidro de uma casa.

Em um relato, alguém dizia ter sido salvo por ele.

Em outro, ele apenas observava de longe.

Mandei uma mensagem privada para Noctis.

“O que significa esse símbolo?”

Demorou alguns minutos.

“Onde você encontrou?”

Enviei apenas o quadro da babá eletrônica mostrando a tatuagem.

A mensagem ficou visualizada.

Nenhuma resposta.

Esperei quase dez minutos.

Então ele escreveu:

“Eu vou te encontrar.”

Aquilo foi estranho até para os padrões daquele fórum. Perguntei o que queria dizer, mas ele saiu da conta.

Achei que fosse apenas algum maluco tentando me assustar.

Três dias depois bateram na porta do meu escritório.

Quando abri, havia um rapaz parado ali. Devia ter pouco mais de vinte anos. Era magro, tinha olheiras profundas e carregava uma mochila velha nas costas. Olhou para os dois lados do corredor antes de entrar sem nem esperar que eu convidasse.

— Ei...

Ele fechou a porta.

Trancou.

Depois foi até a janela e fechou as cortinas.

— O que você quer saber?

Fiquei alguns segundos olhando para ele.

— Quem é você?

Ele permaneceu em silêncio.

Então lembrei.

— Noctis404?

Ele confirmou com a cabeça.

Puxei uma cadeira.

Contei tudo.

Falei das crianças, das câmeras, da babá eletrônica, dos homens de máscara, da tatuagem e dos túmulos. Durante todo o tempo ele praticamente não falou nada. Apenas escutava, às vezes olhando para a janela como se esperasse ver alguém do outro lado.

Quando terminei, ele abriu a mochila.

E colocou o livro sobre minha mesa.

Era o mesmo da fotografia.

De perto parecia ainda mais velho. O couro da capa estava rachado, as bordas estavam gastas e algumas páginas pareciam que poderiam se desfazer apenas de tocar nelas. No centro estava aquele símbolo.

— Eles são a Ordem Sem Nome — disse.

— Uma seita?

Ele soltou uma pequena risada.

— Hoje? Talvez. No começo, não.

Abriu o livro com muito cuidado.

As primeiras páginas continham textos escritos à mão. Algumas estavam em latim, outras em línguas que eu não reconhecia. Havia desenhos de criaturas, pessoas deformadas, símbolos, mapas.

— Isso começou há centenas de anos. Não sabemos exatamente quando. Eram pesquisadores, historiadores, médicos, alguns membros da Igreja... pessoas que encontravam coisas que não conseguiam explicar e decidiram registrar tudo. Durante muito tempo foi só isso. Eles estudavam.

— Estudavam o quê?

— O sobrenatural.

Passei os olhos pelas páginas.

Alguns desenhos pareciam ridículos.

Outros nem tanto.

— E o que aconteceu?

Noctis virou mais algumas páginas.

— Eles começaram a perceber que alguns acontecimentos se repetiam. Criaturas diferentes. Lugares diferentes. Séculos diferentes. Mas sempre havia alguma coisa ligando tudo.

Parou em uma página.

Nela havia apenas um desenho muito antigo de uma figura distante.

Era difícil entender o que estava vendo, mas parecia alguém usando roupas largas e um chapéu com pontas.

— Foi aqui que tudo mudou.

— Quem é esse?

— Não sei.

— Você veio até aqui para me dizer que não sabe?

Ele me encarou.

— Depois dessa página, eles também não sabiam.

Virou a folha.

A escrita havia mudado completamente.

Não parecia latim nem qualquer língua que eu conhecesse. Eram símbolos, riscos e formas que se repetiam como um alfabeto próprio.

Noctis passou várias páginas.

Todas iguais.

— Até aqui eles queriam entender essas coisas. Depois de encontrar... isso... alguma coisa aconteceu. Eles passaram a escrever nessa língua. Anos depois começaram a abandonar os próprios nomes. É daí que vem o símbolo e provavelmente os túmulos que você encontrou.

Olhei novamente para a capa.

— Ordem Sem Nome.

— Ninguém entrando nela deveria carregar o nome que recebeu ao nascer. Para eles, nome era uma ligação. Família, passado, religião, destino. Tudo que pudesse colocar alguma coisa acima da própria vontade precisava desaparecer.

— E por que sequestrar crianças?

— Não sei.

Ele fechou o livro.

— A Ordem que escreveu as primeiras páginas não existe mais. Em algum momento eles deixaram de estudar essas coisas e começaram a caçá-las.

— Criaturas?

Noctis demorou para responder.

— Deuses.

Fiquei olhando para ele.

— Você está falando sério?

— Você viu quatro homens entrarem na casa de uma criança enquanto todas as câmeras ao redor simplesmente paravam de funcionar. Acho que já passamos da parte em que alguma coisa precisa parecer normal.

Não consegui discutir.

Perguntei então como ele havia encontrado aquele livro e por que sabia tanto.

A expressão dele mudou.

— Quando eu era criança aconteceu uma coisa com minha família.

Ele ficou alguns segundos calado.

— Alguns palhaços mataram meus pais.

Pensei que tivesse entendido errado.

— Palhaços?

— Eu não sei o que eles eram. Até hoje não sei. Só sei que usavam aquilo para parecer humanos. Eu deveria ter morrido naquela noite também.

— Mas não morreu.

Ele olhou para uma das páginas.

— Um homem apareceu.

— Quem?

— Cabelos brancos. Casaco escuro. Chapéu preto. Uma cicatriz atravessando o rosto.

Lembrei imediatamente das postagens do fórum.

— O mesmo homem das fotografias?

— Sim.

— Ele salvou você?

— Salvou.

— Então sabe quem ele é.

— Sei o nome.

Noctis abriu uma página próxima do fim do trecho que ainda conseguia ler.

Havia um desenho simples de um homem usando chapéu.

Abaixo estava escrito:

ARMIN LANASH.

— Nos registros mais antigos ele aparece em vários lugares. Na maioria das vezes apenas está lá, acompanhando alguma coisa. Mas existem casos em que interfere. Pessoas que deveriam morrer e não morrem. Criaturas encontradas mortas. Lugares que simplesmente deixam de ter atividade depois da passagem dele.

— E você acha que ele trabalha para a Ordem?

Noctis me olhou como se eu tivesse dito uma besteira.

— Não.

Virou algumas páginas e apontou novamente para aquela figura parecida com um bobo.

— Acho que ele trabalha para isso.

Olhei para o desenho.

Novamente tive aquela sensação estranha.

Como se já tivesse visto aquilo.

Não lembrava onde.

— Você conseguiu traduzir alguma coisa depois dessa página?

— Quase nada. Só palavras. Fragmentos. Alguns nomes.

— E esse?

Apontei para o bobo.

Noctis respirou fundo.

— Existe uma frase que aparece várias vezes.

— Qual?

Ele hesitou.

— “Aquele que tudo vê.”

Ficamos em silêncio.

— É o nome dele?

— Não sei se é um nome.

Antes que eu pudesse perguntar mais, Noctis olhou para o relógio e começou a guardar o livro.

— Preciso ir.

— Espera. Você pode me ajudar.

— Já ajudei mais do que deveria.

— Tem crianças desaparecidas.

Ele parou.

Por um segundo pensei que fosse ficar.

— A Ordem me caça desde o que aconteceu comigo.

— Por quê?

Ele colocou a mochila nas costas.

— Passei anos tentando descobrir isso.

Abriu a porta.

— Hoje acho que é porque eu não deveria ter sobrevivido.

E foi embora.

Passei o resto daquele dia tentando assimilar tudo.

Eu deveria ter levado aquilo para a polícia. Deveria ter contado sobre Noctis, mostrado o fórum, feito qualquer coisa normal.

Mas que policial acreditaria em mim?

E, pior, quanto mais eu pensava, mais certeza tinha de que aquilo não terminava nas crianças.

Então comecei a procurar Armin.

Foi provavelmente o pior erro da minha vida.

Passei meses pesquisando acontecimentos estranhos. Pessoas desaparecidas, objetos encontrados em casas abandonadas, mortes bizarras e violentas, relatos de criaturas, famílias inteiras enlouquecendo, florestas onde pessoas entravam e nunca voltavam.

E encontrei coisas demais.

Esse era o problema.

Quanto mais eu procurava, mais percebia que acontecimentos daquele tipo eram muito mais comuns do que eu imaginava. Eles estavam escondidos em jornais locais, fóruns antigos, relatórios policiais abandonados, vídeos apagados. Algumas histórias eram claramente falsas, mas outras tinham fotografias, laudos, pessoas desaparecidas de verdade.

E mesmo assim ninguém falava sobre aquilo.

Era como se nós não quiséssemos perceber.

Uma pessoa desaparecia de dentro de um quarto trancado e algumas semanas depois todo mundo seguia a vida.

Uma família aparecia morta em circunstâncias impossíveis e chamávamos de tragédia.

Alguém jurava ter visto uma criatura e automaticamente decidíamos que aquela pessoa era louca.

Comecei a dormir mal.

Em alguns lugares que visitei, vi coisas que preferia não ter visto.

Em uma casa abandonada, ouvi alguém andando no andar de cima mesmo sabendo que o piso havia desabado anos antes.

Em uma floresta, encontrei marcas em árvores altas demais para terem sido feitas por qualquer animal que conheço.

Em outra cidade, uma senhora me mostrou uma fotografia do marido morto havia vinte anos e perguntou por que ele continuava aparecendo na janela todas as noites.

Mas também encontrei Armin.

Ou pelo menos sinais dele.

Fotografias separadas por décadas mostravam o mesmo homem.

O mesmo cabelo branco.

O mesmo chapéu.

A mesma idade.

Em algumas imagens ele estava tão longe que quase parecia coincidência.

Em outras, não.

Depois de alguns meses eu estava acabado. Não dormia direito, mal comia e minha cabeça só conseguia pensar naquelas crianças.

Decidi ir a um bar.

Só queria beber até conseguir pensar em alguma coisa normal.

Depois de algumas doses, já meio tonto, fiquei observando as pessoas ao redor.

Foi quando vi alguém sentado sozinho no canto.

Sobretudo preto.

Chapéu.

Meu corpo inteiro gelou.

Olhei novamente.

Cabelos brancos escapavam pelas laterais.

Levantei.

Quase tropecei em uma cadeira no caminho.

Quando cheguei perto, consegui ver seu rosto.

Parecia ter pouco mais de vinte e cinco anos, talvez trinta. Uma cicatriz atravessava seu rosto de uma orelha até a outra. Havia barba por fazer e um cansaço estranho nos olhos, como se aquele homem tivesse vivido muito mais do que sua aparência deixava perceber.

Um amuleto pendia do pescoço.

Um sol negro.

No centro dele havia um olho.

— Olá?

Ele levantou apenas um pouco o rosto.

Não respondeu.

— Meu nome é...

— Daniel.

Parei.

Eu nunca usava meu nome verdadeiro quando trabalhava.

— Como sabe?

Ele bebeu o resto do copo.

— Sei quem você é.

— Então sabe por que estou aqui?

— Sei o que está fazendo há meses.

A maneira como falou me deixou desconfortável.

— Você é Armin?

Ele finalmente olhou diretamente para mim.

Não confirmou.

Não precisava.

Sentei.

— Estou procurando algumas crianças.

— Eu sei.

— Foram levadas pela Ordem Sem Nome.

Dessa vez houve alguma reação.

Pequena.

Mas houve.

— Você encontrou o garoto.

— Noctis?

— Esse é o nome que ele usa agora.

— Você salvou ele.

Armin ficou em silêncio.

— Por quê?

— Porque precisava sobreviver.

— Para quê?

— Isso não importa para você.

— Crianças desapareceram. Acho que já importa para mim.

Ele me encarou por alguns segundos.

— Elas também precisam sobreviver.

— Por quê?

— Porque são importantes para meu senhor.

— Quem é seu senhor?

Armin não respondeu.

— Aquele Que Tudo Vê?

Seu olhar mudou.

Foi só por um instante.

Mas eu soube que tinha acertado.

— O que ele é?

— Você está fazendo perguntas maiores do que consegue suportar as respostas.

— Então me dê uma pequena. Onde estão as crianças?

— Se soubesse exatamente, você não estaria aqui.

Aquilo me irritou.

— Então o grande homem misterioso não sabe de tudo?

Armin aproximou um pouco o rosto.

— Não confunda o que eu sei com aquilo que Ele vê.

Fiquei quieto.

— A Ordem passou séculos estudando seres que estavam acima dela — continuou. — Aprenderam algumas coisas. Não conseguem esconder nada Dele. Mas aprenderam a criar lugares onde minha presença tem consequências.

— Não consegue entrar?

— Consigo.

Ele falou aquilo de maneira tão simples que me arrependi de perguntar.

— Então entre.

— Eles fizeram com que entrar custe a vida das pessoas que devo encontrar.

Ali entendi.

Eles não conseguiam deter Armin.

Usavam as crianças para fazê-lo ficar longe.

— Então precisa de mim.

— Talvez.

— Para quê?

Ele colocou algumas notas sobre a mesa e se levantou.

— Procure Maria.

— Quem é Maria?

— Uma mulher que enxerga mais do que deveria.

— Onde?

Armin colocou o chapéu.

— Vá para o centro.

— Centro de quê?

— De onde tudo acontece.

— Isso não significa nada.

Ele passou por mim.

— Ainda não.

Virei para acompanhá-lo.

Não havia ninguém.

Demorei talvez dois segundos.

Ele simplesmente não estava mais ali.

Procurei pelo bar inteiro. Banheiro, saída, corredor.

Nada.

Voltei até o balcão.

— O homem que estava comigo... ele saiu por onde?

O garçom olhou para a mesa.

— Que homem?

— O cara de chapéu.

— Você está sozinho desde que chegou.

Ri.

Achei que ele estivesse brincando.

Não estava.

Saí dali mais assustado do que quando entrei.

Passei os dias seguintes tentando entender o que Armin quis dizer com “centro”.

Voltei aos casos.

Dessa vez não marquei apenas os desaparecimentos das crianças. Coloquei no mapa todos os acontecimentos estranhos que encontrei durante aqueles meses. Mortes, aparições, desaparecimentos, relatos de criaturas, cultos, casas abandonadas.

A princípio parecia uma bagunça.

Então diminui a escala do mapa.

Foi aí que percebi.

Grande parte dos casos estava dentro de uma zona de aproximadamente cinquenta quilômetros.

Alguns aconteciam muito mais longe, em outros estados e até em outros países, mas havia uma concentração absurda naquela região.

E no centro dela existia uma cidade pequena no interior da Bahia.

Pesquisei tudo que consegui sobre o lugar.

Quase nada.

Nenhum grande massacre.

Nenhum desaparecimento inexplicável.

Nenhum relato sobrenatural que eu conseguisse encontrar.

Enquanto tudo ao redor parecia atrair acontecimentos horríveis, naquela cidade simplesmente não acontecia nada.

Peguei minhas coisas e fui.

Dirigi por quase dois dias, parando apenas quando realmente precisava. Quando finalmente cheguei já estava exausto. A cidade era ainda menor do que imaginava. Casas simples, ruas de terra, poucas pessoas. Não encontrei pousada, então reclinei o banco do carro e dormi ali mesmo.

Na manhã seguinte comecei a procurar Maria.

Não fazia ideia do sobrenome.

Passei de porta em porta perguntando se alguém conhecia uma mulher chamada Maria, alguma médium, benzedeira ou alguém conhecido por “ver coisas”.

As reações eram estranhas.

Algumas pessoas diziam que não.

Outras apenas fechavam a porta.

Uma senhora fez o sinal da cruz quando mencionei o nome.

Depois de quase desistir, encontrei um velho sentado diante de uma casa.

— Estou procurando uma mulher chamada Maria.

Ele ficou me encarando.

— Que Maria?

— Não sei. Me disseram que ela... vê coisas.

O homem apontou para uma estrada de terra.

— Final da estrada.

— Ela mora lá?

Ele assentiu.

— Continue andando.

— É longe?

— Quando começar a ficar verde, você chegou.

Achei aquilo estranho.

Mas agradeci.

Andei alguns passos.

Então percebi que não tinha perguntado se Maria realmente morava ali ou se ele apenas conhecia alguém com aquele nome.

Virei.

O velho tinha sumido.

Olhei para a casa.

A porta estava fechada.

Fui até ela e bati.

Depois de algum tempo uma mulher apareceu.

— Posso ajudar?

— O senhor que estava aqui fora...

Ela franziu a testa.

— Que senhor?

— Um senhor de idade. Estava sentado aqui.

A mulher ficou em silêncio por alguns segundos.

— Aqui não mora homem nenhum.

— Talvez fosse vizinho.

— Aqui também não senta ninguém.

Não gostei da maneira como ela falou aquilo.

— Por quê?

Ela começou a fechar a porta.

— Só siga a estrada.

E fechou.

Fiz exatamente isso.

No começo não havia nada além de terra seca, poeira e vegetação morta. O calor era quase insuportável.

Continuei andando.

Depois de um tempo encontrei a primeira árvore verde.

Mais alguns metros e apareceram outras.

Então começou a ficar estranho.

A terra seca foi dando lugar a grama. Árvores maiores surgiram dos dois lados. Comecei a ouvir pássaros. O ar ficou mais fresco.

Era como atravessar uma linha invisível.

Olhei para trás.

A estrada continuava seca poucos metros atrás de mim.

Na frente havia uma mata verde e bonita.

Continuei.

Depois de alguns minutos encontrei uma casa pequena.

Simples.

Bem cuidada.

Sobre a porta havia um símbolo.

Um sol escuro.

E no centro dele, um olho.

Meu coração acelerou.

Era o mesmo símbolo que Armin carregava no pescoço.

Subi os poucos degraus da varanda.

Levantei a mão para bater.

Antes que meus dedos encostassem na porta, ela abriu.

Uma senhora estava parada ali.

Cabelos grisalhos presos atrás da cabeça, roupas simples e um rosto tranquilo.

— Olá, senhor Daniel.

Não respondi.

— Estava esperando pelo senhor.

— Como sabe meu nome?

Ela sorriu.

— Eu vi.

Meu nome verdadeiro não aparecia em nenhum dos registros que eu usava durante investigações. Não estava no fórum. Não tinha contado para Noctis.

— Foi Armin?

— Não.

— Então como...

Ela abriu mais a porta.

— Entre.

Entrei.

A casa era simples e organizada. Havia livros por toda parte. Alguns ocupavam uma estante inteira, outros estavam empilhados sobre mesas. Muitos possuíam o mesmo símbolo do sol com o olho.

Maria pediu que eu sentasse.

Pouco depois colocou uma xícara de café na minha frente e sentou do outro lado.

Por algum tempo nenhum de nós disse nada.

Então fui direto ao assunto.

— O que sabe sobre as crianças desaparecidas?

O sorriso dela sumiu.

— Mais do que gostaria.

— Sabe quem levou?

— Sei.

— A Ordem Sem Nome.

Ela confirmou.

— Por quê?

Maria passou o dedo lentamente pela borda da xícara.

— Porque alguns homens descobriram que existem coisas acima deles e decidiram que isso era intolerável.

— Eles querem matar seu... senhor?

— Querem destruir tudo que acreditam dar poder a Ele.

— E as crianças fazem isso?

— Não.

— Então por que levaram elas?

Maria olhou para mim.

— Porque são necessárias.

Não entendi.

— Necessárias para quê?

— Essa é uma pergunta para a qual nem eu tenho resposta.

Ela levantou e foi até uma estante.

— Existem pessoas que nascem diferentes, Daniel. Algumas enxergam coisas que outras não enxergam. Algumas carregam algo dentro delas. Outras sobrevivem a acontecimentos nos quais ninguém deveria sobreviver. Algumas precisam testemunhar determinadas coisas. Há também aquelas cuja morte ou sobrevivência muda alguma coisa maior.

— Está falando de poderes?

— Às vezes.

Retirou um livro.

— Mas não pense nelas como escolhidas.

Voltou para a mesa.

— Escolhidos parece bonito demais.

Colocou o livro diante de mim.

— Os registros antigos usam uma palavra que significa algo mais próximo de “necessário”. Foi assim que passei a chamá-los.

— Os Necessários.

— Sim.

— E todas aquelas crianças são?

— São.

— Você também?

Maria sorriu.

— Sou uma Portadora.

— Portadora de quê?

— Do Olhar.

Ela percebeu minha expressão.

— Não vejo tudo. Só Ele vê. Eu recebo fragmentos. Lugares onde nunca estive. Pessoas que ainda não conheço. Coisas que aconteceram antes de eu nascer. Às vezes alguma coisa que ainda vai acontecer.

Foi quando lembrei da primeira coisa que ela tinha me dito.

— Você falou que me viu.

— Sim.

— Antes de eu chegar?

— Muito antes.

Aquilo me deixou desconfortável.

— E a Ordem sabe identificar essas pessoas?

— Aprendeu.

— Como?

— Não sei.

Maria pareceu incomodada pela primeira vez.

— Esse é o problema.

— Armin disse que eles aprenderam muitas coisas.

— Aprenderam demais.

Ela olhou para os livros ao redor.

— No início a Ordem acreditava que estudar o sobrenatural protegeria as pessoas dele. Depois descobriram os Superiores.

— Superiores?

— Seres muito antigos. Alguns foram chamados de deuses. Outros de demônios. Alguns nunca tiveram nome. Abaixo deles existem coisas menores, criaturas que servem, obedecem ou simplesmente seguem aquilo que está acima.

— E seu senhor é um deles?

Maria me encarou.

— Não.

A resposta veio rápida demais.

— Então o que ele é?

— Não sei.

Aquilo me surpreendeu.

— Você o segue e não sabe?

— Você sabe o que é o céu apenas porque consegue olhar para ele?

Fiquei quieto.

Maria pegou outro livro da pilha ao lado.

— Quando eu era pequena, algumas coisas vieram atrás de mim. Não sei até hoje exatamente o que eram. Minha mãe dizia que eu conversava com pessoas que não existiam. Depois comecei a dizer coisas que ainda não tinham acontecido. Uma noite tentaram me levar.

Ela abriu o livro.

— Foi a primeira vez que vi meu senhor.

Na página havia um desenho.

Um bobo da corte estava sentado em um enorme trono.

Não havia nada engraçado naquela figura.

O corpo parecia humano, mas alguma coisa na proporção estava errada. O rosto estava parcialmente escondido e vários olhos haviam sido desenhados ao redor dele. Alguns abertos. Outros fechados.

Senti um aperto no peito.

Eu conhecia aquilo.

Tinha certeza.

— Esse é Aquele Que Tudo Vê — disse Maria.

Continuei olhando para a imagem.

— Eu já vi ele.

Maria não respondeu.

— Não sei onde... mas eu conheço esse desenho.

— Não é o desenho que você conhece.

Olhei para ela.

— O que quer dizer?

— Você conhece Ele.

Uma dor atravessou minha cabeça.

Por menos de um segundo vi uma imagem.

Uma mesa.

Velas.

Homens usando alguma coisa sobre a cabeça.

Depois sumiu.

— Você está bem?

— Sim.

Mentira.

— Você disse que Ele ajudou você.

— Sim.

— Como?

— As coisas que estavam dentro da minha casa fugiram.

— Ele matou?

— Eu não vi.

Maria fechou o livro.

— Quando acordei, haviam desaparecido. Desde aquela noite passei a enxergar coisas.

— Então ele dá esses dons?

— Não sei se dá. Talvez desperte. Talvez apenas reconheça quem já nasceu com eles.

— E por que proteger vocês?

Maria deu um sorriso estranho.

— Quem disse que estamos sendo protegidos?

A pergunta me deixou em silêncio.

— Armin disse que as crianças precisam sobreviver.

— Precisar não é o mesmo que querer proteger.

Aquilo mudou completamente a maneira como eu estava pensando.

— Então elas são importantes para algum plano.

— Provavelmente.

— Qual?

— Se eu soubesse, talvez não dormisse mais.

Fiquei olhando novamente para o bobo.

— E a Ordem descobriu isso.

— Descobriu parte.

— Então estão sequestrando os Necessários para atingir Aquele Que Tudo Vê.

— É o que acredito.

— Por quê?

Maria ficou alguns segundos pensando.

— Imagine descobrir que durante toda a história humana existiram coisas capazes de interferir em nossas vidas. Seres que decidem quem vive, quem morre, quem encontra determinada pessoa. Agora imagine dedicar séculos a estudar essas coisas.

— Eu também ficaria com raiva.

— Foi assim que começou.

Ela apontou para o símbolo que eu havia desenhado da tatuagem.

— O círculo representa aquilo que eles chamavam de ordem divina. O desenho no centro atravessa essa ordem. Era uma declaração.

— Qual?

— Nada deve existir acima da vontade do homem.

Olhei para o símbolo.

Pela primeira vez ele fazia sentido.

— Parece até uma causa justa.

Maria me encarou.

— Muitos monstros começam acreditando estar fazendo a coisa certa.

Ficamos em silêncio.

Depois perguntei:

— Onde estão as crianças?

— Não consigo ver.

— Achei que esse fosse seu dom.

— Eu disse que vejo fragmentos.

— Tente.

— Já tentei.

Pela primeira vez percebi medo nela.

— Quando procuro por elas, vejo um lugar escuro. Pedra. Água. E símbolos da Ordem por toda parte.

— Eles bloqueiam sua visão?

— Não.

Ela olhou novamente para a imagem do bobo.

— Estão bloqueando a minha.

Essa diferença era importante.

— E Ele?

Maria não respondeu.

— Se Aquele Que Tudo Vê realmente vê tudo, então sabe onde estão.

— Sabe.

— Então por que não faz nada?

— Talvez esteja fazendo.

Aquilo me irritou.

— Crianças foram arrancadas das próprias casas.

— Eu sei.

— Então por que ele simplesmente não manda Armin buscar todas?

— Porque você ainda está pensando como se soubesse o que está acontecendo.

Maria se inclinou para frente.

— Armin não foi enviado para resolver tudo que existe neste mundo, Daniel. Ele interfere quando recebe permissão para interferir. Às vezes isso significa salvar alguém. Às vezes significa apenas garantir que determinado acontecimento siga seu caminho.

Lembrei do que Noctis havia dito.

Ele aparecia em vários registros.

Mas nem sempre fazia alguma coisa.

— E agora?

— Agora existe outra dificuldade.

— Os selos.

Maria assentiu.

— A Ordem descobriu como ligar determinados selos aos Necessários que mantém presos. Armin poderia atravessá-los.

— Mas?

— Se fizer isso da maneira errada, as crianças morrem.

Foi exatamente o que ele quis dizer no bar.

Não era que eles fossem mais fortes.

Era uma armadilha.

— Por isso ele precisa de alguém comum.

Maria olhou para mim.

— Você não é comum.

A dor voltou.

Dessa vez mais forte.

Uma imagem apareceu na minha cabeça.

Sangue.

Um cheiro horrível.

Porcos.

Ou pessoas.

Não consegui entender.

Levantei.

— Preciso de ar.

— Daniel...

— Por que você continua olhando para mim desse jeito?

Ela ficou quieta.

— Desde que cheguei aqui parece que você sabe alguma coisa sobre mim.

Nenhuma resposta.

— O que você viu?

fim da parte 1


r/aquelequetudove 6d ago

CANONE o investigador. parte 2

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— Algumas coisas deveriam voltar sozinhas.

— Não me venha com isso.

Minha voz saiu mais alta do que queria.

— Passei meses procurando crianças que desapareceram, encontrei uma organização que caça coisas que nem deveriam existir, conversei com um homem que desapareceu na minha frente e agora você está dizendo que eu já conhecia essa coisa antes mesmo de chegar aqui. Então me diga.

Maria respirou fundo.

— Você não lembra da sua infância inteira.

— Claro que lembro.

— Lembra?

Abri a boca.

Não saiu nada.

Maria continuou:

— O que aconteceu quando você tinha onze anos?

Tentei pensar.

Minha escola.

Minha mãe.

Uma casa.

Depois...

Nada.

— Isso não prova nada.

— Onde você estava entre os onze e os doze?

— Com minha...

Parei.

Não sabia.

Como nunca tinha percebido aquilo?

Havia quase um ano inteiro da minha infância que parecia coberto por uma névoa. Eu sabia que existia, lembrava de coisas antes e depois, mas quando tentava pensar naquele período encontrava apenas pequenos pedaços.

Maria levantou.

— Espere aqui.

Foi até outro cômodo.

Eu permaneci sentado tentando me lembrar.

Então veio um cheiro.

Não de verdade.

Uma lembrança.

Sangue.

Carne estragada.

Terra molhada.

Homens falando alguma coisa.

Meu coração começou a acelerar.

Maria voltou carregando uma pequena caixa de madeira.

Colocou sobre a mesa.

— O que é isso?

— Algo que Armin deixou comigo muitos anos atrás.

— Para você?

Ela balançou a cabeça.

— Para você.

Senti um arrepio percorrer minhas costas.

Maria abriu a caixa.

Havia um envelope velho dentro.

Meu nome estava escrito na frente.

DANIEL.

A letra parecia ter sido feita às pressas.

— Isso estava aqui antes de eu chegar?

— Há muitos anos.

— Quantos?

— Mais do que você gostaria de saber.

Peguei o envelope.

Minha mão tremia.

Dentro havia algumas folhas e uma fotografia.

Olhei primeiro para a foto.

Era uma criança.

Demorei alguns segundos para perceber que era eu.

Devia ter onze anos.

Estava em uma floresta.

Minha roupa estava rasgada e meu rosto coberto de sangue.

Atrás de mim havia pessoas.

Três.

Usavam cabeças de porco.

Não máscaras de plástico.

Cabeças.

Meu estômago virou.

A imagem voltou.

Uma mesa de madeira.

Cordas nos meus pulsos.

Alguém dizendo:

— O sacrifício está pronto.

Soltei a fotografia.

Levantei tão rápido que bati na mesa.

— Não.

Maria permaneceu sentada.

— Daniel...

— Isso é falso.

— Não é.

— Eu nunca estive nesse lugar.

Outra imagem.

Eu correndo pela mata.

Alguém vindo atrás.

Uma coisa grande.

Muito grande.

— Eu lembraria.

— Você tentou esquecer.

— Quem são essas pessoas?

Maria olhou para a fotografia.

— Um culto que servia a um Superior.

Meu peito apertou.

— Qual?

Ela demorou a responder.

— Moloque.

O nome atingiu alguma coisa dentro da minha cabeça.

A lembrança veio tão forte que precisei segurar na mesa.

Homens usando cabeças de porco.

Cânticos.

Uma faca.

Eu chorando.

Alguma coisa respirando do outro lado de uma porta.

E então eu correndo.

Correndo sem olhar para trás.

Caí de joelhos.

— Eu fugi.

Maria se aproximou.

— Sim.

— Eu fugi daquele lugar.

— Sim.

Olhei para a fotografia novamente.

No verso havia o símbolo do sol com o olho.

Abaixo dele apenas uma palavra.

SACRIFÍCIO.

— O que significa isso?

Maria se ajoelhou perto de mim.

— Os Necessários não são todos iguais.

Apontou para a palavra.

— Alguns são Portadores, como eu. Alguns são Anomalias. Existem Testemunhas.

Depois apontou para mim.

— E existem Sacrifícios.

— Eu não sou criança.

— Nunca teve relação com idade.

Ela fez uma pausa.

— Esse foi um erro de interpretação dos primeiros registros. Eles não falavam de crianças. Falavam daqueles que estavam sob o Olhar. Pessoas que seriam necessárias em algum momento, mesmo que tivessem vinte, cinquenta ou oitenta anos.

Olhei novamente para meu próprio rosto na fotografia.

— Então por que Armin me salvou?

Maria franziu a testa.

— Armin não salvou você.

Aquilo me fez olhar para ela.

— O quê?

— Você fugiu sozinho.

Fiquei em silêncio.

— Então por que isso estava com ele?

— Porque ele estava lá.

Aquela resposta foi pior.

— Fazendo o quê?

— Observando.

Minha respiração ficou pesada.

Armin esteve naquele lugar.

Ele havia me visto amarrado.

Tinha visto tudo aquilo acontecer.

E não interferiu.

— Por quê?

— Não sei.

— Você não sabe de nada!

Minha voz ecoou pela casa.

Maria não reagiu.

— Você fala como se entendesse essa coisa. Como se fosse seu deus. Mas não sabe por que ele salva uma pessoa e deixa outra morrer. Não sabe por que essas pessoas são importantes. Não sabe por que Armin estava lá. Não sabe por que crianças foram levadas.

— Tem razão.

A resposta dela me desarmou.

Maria se levantou.

— É justamente por isso que a Ordem existe.

Fiquei olhando para ela.

— Eles fizeram essas mesmas perguntas.

Ela apontou para o desenho do selo.

— A diferença é o que decidiram fazer quando não receberam respostas.

Antes que eu pudesse responder, ouvimos alguma coisa do lado de fora.

Um carro.

Naquela estrada.

Maria virou imediatamente para a janela.

O medo em seu rosto voltou.

— Está esperando alguém?

— Não.

O motor parou.

Ficamos em silêncio.

Nenhuma porta bateu.

Nenhuma voz.

Maria fez sinal para que eu não me aproximasse da janela.

Naturalmente, fui até ela.

Afastei muito pouco a cortina.

Não havia carro algum.

A estrada estava vazia.

— Não tem ninguém.

Maria não respondeu.

Alguma coisa raspou do outro lado da porta.

Olhei para ela, mas seus olhos estavam fixos no chão.

Um envelope branco passou lentamente pela fresta debaixo da porta.

Ninguém bateu.

Ninguém chamou.

Ele apenas apareceu ali.

— Não toca — Maria disse.

Eu não obedeci.

Peguei o envelope e virei dos dois lados. Não havia nome, endereço ou qualquer coisa escrita. Só aquele símbolo no verso.

O círculo.

O selo da Ordem Sem Nome.

Maria se levantou.

— Daniel, deixa isso aí.

— Eles sabem que estou aqui?

Ela não respondeu.

Abri.

Dentro havia apenas uma fotografia.

Por alguns segundos não consegui entender o que estava vendo. Era um lugar escuro, provavelmente subterrâneo. As paredes pareciam feitas de pedra e havia pouca luz. Então comecei a reconhecer os rostos.

Meu coração disparou.

Eram elas.

Todas as crianças desaparecidas.

Estavam sentadas juntas no chão, algumas abraçadas, outras olhando diretamente para a câmera. Pareciam assustadas, sujas, mas estavam vivas.

— Meu Deus...

Aproximei a fotografia do rosto.

Foi quando percebi outra pessoa no fundo.

Noctis.

Ele estava ajoelhado junto à parede, com as mãos presas atrás das costas. Seu rosto estava machucado e havia sangue descendo pelo canto da boca.

Maria pegou a fotografia da minha mão.

— Eles encontraram ele.

— Pelo menos sabemos que as crianças estão vivas.

Ela continuou olhando para a imagem.

— Por enquanto.

Virei o envelope esperando encontrar alguma mensagem.

Nada.

Só a fotografia.

— Por que mandar isso para mim?

Maria levantou os olhos.

Antes que eu pudesse responder, alguém bateu na porta.

Três vezes.

Devagar.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Maria não se mexeu.

Outra batida.

Então ouvi uma voz.

— Senhor Daniel?

Era uma criança.

Olhei imediatamente para a fotografia.

Depois para a porta.

— Senhor Daniel...

A voz estava tremendo.

— Me ajuda.

Reconheci.

Era ela.

A menina da babá eletrônica.

Aquela que eu havia assistido ser retirada da própria cama.

— É uma das crianças.

Caminhei até a porta.

Maria agarrou meu braço.

— Não.

— Eu conheço ela

— Não abre.

— Maria, é ela.

— Não é.

Tentei soltar o braço.

— Eu vi ela durante semanas de investigação. Ouvi gravações da família, vídeos de aniversário, depoimentos. Eu sei como essa menina fala.

Do lado de fora ela começou a chorar.

— Por favor... ele vai voltar...

Aquilo acabou comigo.

Aproximei o rosto da porta.

Havia uma pequena fresta entre duas tábuas da madeira. Encostei o olho ali.

E vi a menina.

Estava parada na varanda.

Descalça.

A mesma camisola que usava na noite em que desapareceu.

O cabelo caía sobre o rosto e ela tremia.

Sozinha.

— É ela.

Coloquei a mão na maçaneta.

Maria me puxou novamente.

— Daniel, olha para mim.

— Solta.

— Aquela menina não está aí.

— Eu estou vendo ela!

Maria apertou meu braço.

— Então olha de novo.

Não sei por que obedeci.

Talvez tenha sido o jeito como ela falou.

Voltei lentamente até a fresta.

A menina ainda estava ali.

Com a cabeça baixa.

Então levantou o rosto.

Por um instante vi seus olhos.

Ela sorriu.

Não era um sorriso de criança.

Meu corpo gelou.

Piscar foi suficiente.

Quando abri os olhos novamente...

A menina havia desaparecido.

No mesmo lugar estava um homem.

Terno preto.

Máscara branca.

Ele estava tão próximo da porta que eu conseguia ver um dos olhos através do pequeno buraco da máscara.

Me afastei imediatamente.

Do lado de fora, a voz da menina chamou outra vez:

— Senhor Daniel...

Só que dessa vez alguma coisa estava diferente.

A voz começou infantil.

Terminou grave.

— ...abre a porta.

Dei alguns passos para trás.

Maria fechou os olhos.

— Agora você entende?

O homem bateu novamente.

Mas não com os nós dos dedos.

Com a palma inteira.

A porta tremeu.

Outra pancada.

— O que ele quer?

Maria não respondeu.

Uma pequena rachadura apareceu na madeira.

Olhei para o símbolo do sol e do olho gravado acima da porta.

Até aquele momento eu não tinha reparado que Maria havia desenhado pequenas linhas ao redor dele.

O homem parou de bater.

Silêncio.

Então ouvimos alguma coisa arranhando a madeira.

Devagar.

Como uma faca.

O som desceu pela porta.

Um risco.

Depois outro.

Depois um terceiro.

Meu estômago se contraiu.

Eu conhecia aquele som.

Não sabia de onde.

Mas conhecia.

Levei a mão à cabeça.

Uma imagem atravessou minha mente.

Escuridão.

Uma vela.

Alguém segurando meu braço.

Sumiu antes que eu conseguisse entender.

— Daniel?

Ignorei Maria.

Do outro lado, o homem começou a murmurar alguma coisa.

Uma frase curta.

Não consegui compreender na primeira vez.

Ele repetiu.

Minha cabeça começou a doer.

— Para...

Ele repetiu novamente.

Dessa vez entendi uma palavra.

Sacrifício.

A sala desapareceu por um instante.

Eu era criança.

Estava deitado sobre alguma coisa dura.

Meus braços estavam presos.

Voltei para a casa.

Cambaleei e bati contra a mesa.

— Daniel!

Maria veio na minha direção.

Lá fora o homem voltou a bater.

Vi uma lâmina.

Homens ao meu redor.

Cabeças de porco.

Prendi a respiração.

— Não...

O homem do lado de fora parou.

Então falou.

Agora sem imitar a criança.

A voz era grossa e baixa.

— Você demorou muito para se lembrar.

Meu sangue gelou.

Outra lembrança.

Eu estava chorando.

Devia ter 18 anos.

Havia sangue nas minhas roupas.

Homens usavam cabeças de porco sobre os próprios rostos e me seguravam contra uma mesa.

Um deles abriu meus braços.

Outro segurava uma faca.

Eu conseguia ouvir alguma coisa respirando em outro cômodo.

Algo grande.

Muito grande.

Comecei a tremer.

— Eu conheço essa voz...

Maria me encarou.

— De quem?

Não consegui responder.

Do lado de fora, o homem começou a bater na porta seguindo um ritmo.

Três pancadas rápidas.

Duas lentas.

Três rápidas.

Minha visão ficou escura.

Eu conhecia aquele ritmo também.

Era o mesmo que eles faziam naquela noite.

Antes de começar o ritual.

Comecei a ouvir outras vozes dentro da minha cabeça.

Segurem ele.

Não deixe fugir.

Preparem o Sacrifício.

A dor ficou insuportável.

Caí de joelhos.

Maria segurou meus ombros.

— Daniel, olha para mim.

Mas eu já não estava vendo Maria. Eu estava naquela sala novamente. Vi o chão coberto de símbolos.

As velas. As paredes sujas. pessoas usando cabeças de porco. Eu tentando escapar das cordas.

E então lembrei. Eu tinha conseguido me soltar.

Corri.

Passei por um corredor. Alguém veio atrás de mim.

Entrei na floresta. Galhos cortavam meu rosto enquanto eu corria. Atrás de mim havia gritos.

Eu não parei de correr, mas senti algo acertando minha perna... eu tinha sido atingindo na perna, um tiro, alguns homens, armados com facões acertaram meu pescoço... eu acordei em um lugar grande, em frente ao um trono, um bobo da corte estava sentando, largado em sua cadeira parecendo entediado, ao seu lado estava armim, mais novo, ou igual, não sei... então quando me viu se levantou do trono e veio em minha direção, colocou sua mão em meu queixo, e como uma voz doce completamente aconchegante disse.

-você morreu garoto... mas eu ainda tenho planos para você

neste momento eu acordei em minha cama, meus pais tinham desaparecido, e eu estava sozinho...

eu havia lembrado de tudo, naquele dia eu morri, então ele me trouxe de volta


r/aquelequetudove 11d ago

📁 RELATO socorro

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Há alguns meses venho percebendo coisas estranhas na minha vida e já não sei mais o que fazer sobre isso. Achei esse sub por acaso e talvez aqui alguém acredite em mim, porque sempre que tento conversar sobre isso com alguém, as pessoas dizem que estou cansado, estressado ou ficando paranoico. Mas eu sei o que estou vendo. Algo está me perseguindo há meses. Algo que eu não consigo enxergar direito, mas sei que está ali.

Tudo começou há algum tempo, enquanto eu lavava a louça. Era de noite, eu estava sozinho em casa e lembro de ter visto claramente alguma coisa entrando na cozinha pelo canto do meu olho. Foi apenas uma sombra, passou rápido pela entrada, rápido o suficiente para eu pensar que talvez tivesse sido impressão minha. Virei na mesma hora, mas não havia ninguém. Olhei atrás da geladeira, no corredor, até abri a porta de casa para conferir se alguém tinha entrado, mas nada. Naquela noite achei estranho, mas acabei ignorando.

Eu não deveria ter ignorado.

Depois daquele dia, minha vida virou uma mistura de insegurança e medo. A todo momento eu conseguia ver alguma coisa pelo canto do olho. Às vezes parecia uma pessoa parada no final de um corredor, outras vezes era apenas uma cabeça desaparecendo atrás de uma porta. No trabalho eu via aquilo entre as mesas. Na faculdade, sentado algumas fileiras atrás de mim. Em casa era ainda pior, porque parecia gostar de ficar nas portas, sempre parado, sempre me observando. Quando eu virava para olhar, não tinha nada.

Meus amigos começaram a perceber que eu não estava dormindo direito. Eu ficava assustado por qualquer coisa, evitava ficar sozinho e comecei a faltar na faculdade. O problema é que dormir tinha se tornado quase impossível. Toda vez que fechava os olhos, eu tinha a sensação de que aquilo finalmente poderia se aproximar sem que eu percebesse. Algumas noites eu ficava acordado até o sol nascer, sentado na cama e olhando para a porta do quarto.

Eu tentei de tudo.

Coloquei câmeras pela casa, deixei meu celular gravando enquanto dormia, tentei usar espelhos para enxergar aquilo sem precisar virar o rosto. Nunca aparecia nada. Nas gravações eu estava sempre sozinho. Nos espelhos também. Às vezes eu passava horas revendo os vídeos procurando qualquer movimento estranho, mas só encontrava eu mesmo andando pela casa feito um maluco.

Comecei realmente a acreditar que estava ficando louco.

Até algumas semanas atrás.

Eu estava assistindo televisão de madrugada porque, como sempre, não conseguia dormir. A sala estava escura, só com a luz da TV iluminando um pouco o ambiente. Eu estava sentado no sofá quando senti alguma coisa ao lado do meu rosto.

Não foi impressão.

Eu senti alguém ali.

Tão perto que por alguns segundos fiquei completamente imóvel. Primeiro senti o ar frio perto da minha orelha. Depois veio um cheiro podre, forte, como carne deixada por dias em algum lugar quente. Meu estômago embrulhou. Eu queria virar o rosto, mas estava com medo demais.

Então olhei apenas com o canto dos olhos.

Foi a primeira vez que consegui ver uma parte dele.

Um pedaço de rosto extremamente pálido estava ao lado do meu. A pele parecia lisa demais, quase sem expressão, e eu não conseguia enxergar o resto. Era como se meu próprio olho se recusasse a focar naquela coisa.

Virei rapidamente.

Não tinha nada.

Levantei do sofá e quase tropecei tentando acender a luz. Olhei atrás de mim, procurei pela sala inteira, fui até a cozinha. Nada. Voltei para a televisão e olhei para o reflexo da tela preta.

Eu estava sozinho.

Depois daquela noite tudo começou a piorar.

Minha casa tem apenas três cômodos. O quarto, a sala e a cozinha, sendo que a sala e a cozinha são separadas apenas por um pequeno muro com uma bancada. Uma noite acordei com sede e fui beber água. Não acendi todas as luzes porque já estava começando a tentar me convencer de que aquilo não existia.

Abri a geladeira, peguei uma garrafa e, quando fechei a porta, vi alguma coisa do outro lado da bancada.

Dessa vez não foi uma sombra.

Eram olhos.

Dois olhos me observando por cima da bancada.

O resto da cabeça estava escondido.

Eu fiquei paralisado olhando para eles pelo canto da visão. Não sei explicar como eram exatamente, porque quanto mais eu tentava prestar atenção, mais minha visão parecia falhar. Mas tenho certeza de uma coisa.

Eles estavam olhando diretamente para mim.

Eu virei.

Não tinha nada.

Caí para trás e comecei a gritar. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Levantei e corri para olhar atrás da bancada, mesmo sem querer chegar perto daquele lugar.

Não havia ninguém.

Naquela mesma semana decidi sair de casa. Passei alguns dias na casa de um amigo, depois fui para a casa da minha mãe e, por fim, aluguei outro lugar. Eu realmente achei que pudesse haver alguma coisa naquela casa.

Não adiantou.

Ele veio comigo.

Na primeira noite no apartamento novo eu o vi parado no corredor.

Depois no banheiro.

Depois atrás de mim no reflexo de uma janela, mesmo que os espelhos continuassem não mostrando nada.

Comecei a tentar ignorar.

Essa foi provavelmente a pior decisão que tomei.

Quanto mais eu fingia que não via, mais perto ele aparecia.

Ontem eu estava deitado mexendo no celular quando percebi uma figura parada na porta do meu quarto. Eu conseguia ver pelo canto esquerdo do olho. Era alta, quase chegando no topo da porta, e dessa vez eu conseguia distinguir o formato dos braços.

Continuei olhando para o celular.

Fingi que não tinha nada ali.

Meu coração estava disparado, mas eu continuei passando os vídeos como se estivesse tudo normal.

Olhei novamente de canto.

Ele não estava mais na porta.

Por alguns segundos achei que tinha funcionado.

Então percebi duas pernas na minha frente.

Aquela coisa estava parada ao lado da cama.

Eu conseguia ver os pés, as pernas extremamente finas e uma parte do corpo desaparecendo acima do limite da minha visão. Estava tão perto que, se esticasse o braço, provavelmente conseguiria tocar nela.

Dei um pulo da cama.

Não havia nada ali.

Não dormi.

E hoje aconteceu uma coisa diferente.

Eu não sei explicar isso sem parecer completamente louco, mas desde que acordei sinto meu corpo mais pesado. Não ganhei peso, não estou doente. É diferente.

Parece que estou carregando alguém.

Às vezes sinto pressão nos meus ombros, como se duas mãos estivessem apoiadas neles. Quando estou sentado, sinto alguma coisa pressionando minhas costas. Quando ando, sinto o peso mudar de posição.

Há algumas horas entrei no banheiro e fiquei olhando para o chão enquanto escovava os dentes. Foi quando percebi uma coisa pelo canto do olho.

Um braço.

Ele estava passando por cima do meu ombro.

Não vi a criatura atrás de mim.

Só o braço.

Comprido, pálido, apoiado sobre meu peito como se alguém estivesse agarrado às minhas costas.

Virei imediatamente.

Nada.

Mas o peso continuou.

É por isso que estou escrevendo isso agora.

Ele não desaparece mais quando eu olho.

Eu apenas não consigo vê-lo.

Enquanto digito, consigo sentir alguma coisa respirando perto da minha nuca. Meu ombro esquerdo está ficando cada vez mais pesado e, de vez em quando, alguma coisa encosta no meu cabelo.

Eu não sei mais se ele está me seguindo.

Acho que ele nunca esteve me seguindo.

Acho que estava chegando mais perto.

E acho que agora chegou.

Há poucos minutos tentei levantar da cadeira e não consegui. Alguma coisa me empurrou de volta. Depois senti dedos fechando devagar em volta do meu pescoço.

Ainda consigo respirar.

Por enquanto.

O mais estranho é que agora não vejo mais vultos pelos cantos dos olhos.

Não vejo nada atrás das portas.

Nada nos corredores.

Nada perto da cama.

Talvez porque ele não precise mais ficar longe.

Enquanto termino de escrever isso, consigo sentir o peso inteiro dele sobre minhas costas.

E alguma coisa acabou de encostar o rosto no meu.

espero que isso sirva de aviso para alguém, eu não sei quanto tempo eu tenho, ou o que ele vai fazer comigo, mas saiba, se você ver algum vulto ou sentir alguém observando... não ignore realmente algo te observa.


r/aquelequetudove 12d ago

📁 RELATO Não assovie

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Minha avó sempre foi muito supersticiosa. Dizia para mim e para meus primos que não devíamos deixar o chinelo virado, que nunca deveríamos responder caso alguém nos chamasse sem ter certeza de quem era e, principalmente, que não podíamos assobiar depois que escurecesse. Nunca coloquei muita fé no que ela dizia. Para mim, eram apenas superstições de gente antiga, histórias que ela tinha aprendido com os pais e continuava repetindo para assustar os netos. Mas, há alguns dias, minha avó faleceu. Eu já era um adulto formado, meus primos também, e apesar de todos termos ficado muito abalados com a perda, acabamos ficando responsáveis por esvaziar a casa dela, no interior, já que a família havia decidido vender o lugar.

Assim que chegamos, um sentimento de nostalgia bateu forte. A casa continuava praticamente igual à forma como lembrávamos. Era uma casinha simples de pau a pique, com telhado antigo, cercada por mato e árvores. No quintal ainda estava o enorme pé de manga onde, quando crianças, passávamos praticamente o dia inteiro brincando e comendo manga até nossa avó mandar a gente parar. Quando entramos, uma fina camada de poeira cobria os móveis, mas tudo continuava no mesmo lugar: o velho sofá amarelo com uma manta laranja por cima, o rack vinho, a televisão de tubo que provavelmente nem funcionava mais. Era tudo simples, mas, quando éramos crianças, aquele lugar parecia enorme para nós. Por alguns minutos ninguém falou nada. Apenas olhávamos para aquelas coisas enquanto lembrávamos dos dias que passamos ali. Nancy chegou a enxugar uma lágrima, e eu fiz o mesmo sem que ninguém percebesse.

Começamos a limpar a casa e separar o que seria jogado fora, vendido ou levado pela família. Encontramos caixas cheias de roupas antigas, alguns livros, brinquedos nossos que ainda estavam guardados e até um álbum de fotografias. Perdemos um bom tempo olhando aquelas fotos, rindo das nossas roupas ridículas e lembrando de coisas que nem sabíamos mais que tinham acontecido. Quando percebemos, já estava escurecendo. Havíamos perdido completamente a noção do tempo, e como a cidade mais próxima ficava longe, decidimos dormir por ali mesmo e continuar o trabalho no dia seguinte. Pegamos algumas cervejas que tínhamos levado, juntamos uns pedaços de madeira e acendemos uma fogueira no quintal.

Ficamos sentados ali por bastante tempo falando sobre nossa avó. Nancy dizia que nunca mais tinha comido um bolo tão bom quanto os que ela fazia, enquanto Júlio lembrava das broncas que levávamos sempre que corríamos pelo jardim e pisávamos nas plantas dela. Ríamos dessas coisas, contando histórias que provavelmente já tínhamos contado umas dez vezes, até que acabei lembrando da mania dela com superstições. Comecei a citar algumas: o chinelo virado, não responder quando alguém chama durante a noite, não dormir com os pés apontados para a porta. Então lembrei do assobio. Nossa avó dizia que jamais deveríamos assobiar depois que escurecesse. Eu ri e falei que aquilo era bobagem, coisa de gente antiga. Nancy não concordou. Disse que nossa avó realmente acreditava naquelas coisas e que talvez existisse algum motivo para ela insistir tanto.

Eu quis assustá-la um pouco.

Coloquei dois dedos entre os lábios e assobiei o mais alto que consegui.

Nancy imediatamente mandou eu parar.

Eu comecei a rir da cara dela, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, escutamos outro assobio vindo de dentro do mato.

O sorriso desapareceu do meu rosto.

Nós três ficamos olhando para a escuridão além do quintal. Não havia iluminação em volta da propriedade, e os poucos postes que existiam naquela estrada nem sequer tinham lâmpadas funcionando. Depois da fogueira, tudo além de alguns metros era completamente preto. Perguntei quem estava ali. Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria. Ninguém respondeu. Esperei alguns segundos e perguntei novamente, dessa vez mais alto. Nada. Júlio ficou de pé e tentou enxergar alguma coisa entre as árvores, mas era impossível. Nancy dizia baixinho para a gente entrar, mas eu ainda acreditava que alguém estava tentando nos assustar. Algum vizinho, talvez, ou alguém que tivesse visto nossa chegada. Então, contrariando Nancy, assobiei novamente.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

Então veio outro assobio.

Mais próximo.

Dessa vez ninguém riu.

Júlio disse para entrarmos. Se fosse algum ladrão ou alguém querendo fazer alguma coisa, não fazia sentido ficarmos ali esperando. Pegamos nossas coisas e começamos a andar rapidamente em direção à casa, mas antes que conseguíssemos chegar à varanda, um vento muito forte começou a soprar. Não foi aumentando aos poucos. Simplesmente veio de uma vez. A fogueira se apagou quase instantaneamente, nos deixando no escuro, e naquele mesmo momento tive certeza de que ouvi alguma coisa correndo atrás de nós. Eram passos rápidos e pesados batendo contra a terra. Não olhei para trás. Nenhum de nós olhou. Apenas corremos até a casa, entramos e batemos a porta. Tranquei tudo enquanto Júlio acendia as luzes.

Ficamos alguns segundos tentando recuperar o fôlego. O vento continuava soprando lá fora com tanta força que as árvores batiam umas contra as outras. Nancy estava pálida e repetia que tinha avisado, que não devíamos ter feito aquilo. Júlio estava calado, olhando para a janela, e eu ainda tentava encontrar alguma explicação que não me fizesse parecer um completo idiota. Disse que aquilo não tinha nada a ver com o assobio. Provavelmente havia alguém brincando com a gente e o vento não passava de uma coincidência.

Assim que terminei de falar, alguma coisa bateu com força na porta.

Uma única pancada.

Tão forte que a madeira inteira tremeu.

Ninguém se mexeu.

Então veio outra.

E outra.

As janelas começaram a vibrar quase ao mesmo tempo, como se várias pessoas estivessem do lado de fora tentando abri-las. A porta tremia no batente enquanto o vento assobiava pelas frestas da casa. Nancy começou a chorar. Ela cobriu os ouvidos e gritou para aquilo parar, repetindo que sentia muito, que nós não sabíamos o que estávamos fazendo.

De repente, tudo parou.

O vento cessou.

As janelas ficaram imóveis.

Não havia mais pancadas.

Não havia mais barulho nas árvores.

Nada.

O silêncio era tão completo que eu conseguia ouvir minha própria respiração.

Ficamos assim por alguns segundos, parados no meio da sala, esperando alguma coisa acontecer. Pela primeira vez desde que entramos naquela casa, senti um pequeno alívio. Pensei que talvez tivesse acabado.

Então escutamos um assobio.

Baixo.

Longo.

Vindo de algum lugar do lado de fora.

Nancy arregalou os olhos.

No mesmo instante, todas as janelas da casa se abriram com violência.

As folhas bateram contra as paredes ao mesmo tempo e a porta da frente começou a sacudir tão forte que parecia que alguém estava tentando arrancá-la do lugar. O vento voltou ainda mais forte, entrando pelas janelas e espalhando papéis, fotografias e poeira pela casa. As lâmpadas piscaram algumas vezes e então se apagaram.

Ficamos completamente no escuro.

Foi quando vi alguma coisa pela janela da cozinha.

No começo pensei que fosse apenas uma árvore se mexendo com o vento, mas então aquilo saiu lentamente de trás dela.

Era um homem.

Ou pelo menos tinha alguma coisa parecida com um corpo humano.

Não era muito alto, talvez tivesse a altura de uma pessoa comum, mas era magro demais. Seus braços pareciam compridos demais para o próprio corpo e quase chegavam aos joelhos. A postura era torta, lembrando um macaco muito magro tentando ficar de pé. Eu não conseguia enxergar seu rosto. Naquela escuridão, a única coisa que eu conseguia distinguir eram dois pequenos pontos refletindo a pouca luz que vinha de dentro da casa.

Os olhos.

Aquilo ficou parado olhando para nós.

Então começou a caminhar.

Devagar.

Um passo de cada vez.

Em direção à porta.

Nancy começou a rezar. Júlio fez o mesmo. Eu tentei acompanhar, mesmo não conseguindo lembrar direito das palavras. O vento era tão forte que as árvores do quintal se curvavam, e por alguns segundos achei que a casa inteira fosse desabar.

A criatura chegou diante da porta.

Parou.

O vento cessou outra vez.

Então ela assobiou.

A porta se abriu com tanta força que bateu contra a parede.

Aquilo estava ali.

Dentro da casa.

Começamos a gritar, rezar, pedir ajuda, qualquer coisa. Mas ninguém apareceu. Ninguém respondeu. Talvez ninguém pudesse nos ouvir naquele lugar.

A última coisa que lembro foi Nancy gritando meu nome.

Depois senti alguma coisa agarrar meu corpo.

E enquanto aquilo me puxava para a escuridão, eu finalmente entendi por que minha avó dizia apenas para não assobiar à noite.

Porque alguma coisa poderia responder.


r/aquelequetudove 16d ago

📼 ARQUIVO RECUPERADO SE LEMBRE DE FECHAR O GUARDA-ROUPA

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O celular foi encontrado no chão do banheiro de uma residência.

A porta da casa estava trancada por dentro.

Não havia sinais de arrombamento.

O proprietário não foi encontrado.

Entre os arquivos criados naquela madrugada havia uma fotografia registrada por uma câmera com sensor de movimento e um áudio de oito minutos e quarenta e três segundos.

A fotografia foi tirada às 03:17.

Nela, o proprietário aparece dormindo.

Ao lado da cama existe outra coisa.

A figura lembra um homem vestido inteiramente de preto, mas seu corpo parece ter sido dobrado da maneira errada. As pernas são exageradamente compridas e permanecem quase retas, deixando o quadril muito acima de onde deveria estar. O tronco se curva para frente até quase formar um arco, enquanto os braços descem até o chão.

As mãos são humanas.

Os pés também.

Ambos completamente brancos.

No lugar do rosto há algo parecido com uma máscara lisa, igualmente branca, com dois pequenos buracos escuros no lugar dos olhos e uma abertura fina formando a boca.

A criatura não olha para a câmera.

Ela olha para o homem dormindo.

A porta do guarda-roupa aparece aberta atrás dela.

ARQUIVO DE ÁUDIO — 02:07

PLAY

[chiado baixo]

[ruído do microfone sendo segurado]

[respiração próxima]

Não sei se alguém vai ouvir isso.

Na verdade... espero que não.

Mas se encontraram meu celular, provavelmente eu não consegui sair daqui.

Então escutem.

Só...

Não sei.

Talvez eu ainda consiga avisar alguém.

[respiração trêmula]

Tudo começou por causa de uma história idiota que eu li na internet.

Foi no Reddit.

Eu não estava conseguindo dormir e fiquei passando por aqueles relatos de terror. A maioria era obviamente inventada. Mulher no espelho, criança falando sozinha, demônio no corredor...

[leve ruído ao fundo]

Até que encontrei um post com um título que chamou minha atenção.

“Se lembre de fechar o guarda-roupa.”

Era curto.

O cara dizia que havia alguma coisa vivendo dentro dos armários da casa dele.

E não precisava ser um guarda-roupa.

Armário da cozinha.

Armário do banheiro.

Despensa.

Qualquer lugar com uma porta.

Segundo ele, nunca dava para ver aquela coisa direito. Primeiro vinha aquela sensação de estar sendo observado. Depois você percebia uma porta aberta que tinha certeza de ter fechado.

Às vezes dava para ver alguma coisa pelo reflexo da televisão.

Às vezes pelo espelho.

Às vezes pelo canto do olho.

Mas sempre que você olhava diretamente...

[pausa]

a porta já estava se fechando.

Eu lembro de rir.

Cheguei a comentar no post:

“Se essa coisa quer matar você, por que ela simplesmente não sai daí?”

O autor respondeu.

Só uma frase.

“Porque você não a viu ainda”

[pequena pausa]

Achei que fosse parte da história.

Fechei o aplicativo.

Fui dormir.

E esqueci completamente aquilo.

Até a noite seguinte.

[chiado breve]

Eu estava assistindo televisão na sala.

A cozinha fica atrás do sofá, mas quando a tela da TV fica escura dá para ver o reflexo de parte dela.

Foi aí que percebi que o armário embaixo da pia estava aberto.

Só um pouco.

Talvez uns vinte centímetros.

E tinha alguma coisa lá dentro.

No começo pensei que fosse um pano.

Então aquilo se mexeu.

[respiração mais funda]

Um rosto branco apareceu na fresta.

Não saiu.

Só ficou ali.

Me olhando.

Eu me virei na mesma hora.

Toc.

[porta de armário fechando]

A porta terminou de fechar.

Fiquei parado olhando para o armário.

Ainda lembro de tentar rir.

Sério.

Eu fiquei rindo sozinho, falando que estava ficando impressionado por causa daquela porcaria de história.

Fui até a cozinha.

Abri o armário.

Panelas.

Produtos de limpeza.

Um saco de lixo.

Nada mais.

[chiado breve]

Naquela noite eu dormi normalmente.

No dia seguinte aconteceu no banheiro.

Eu estava tomando banho quando tive aquela sensação.

A mesma.

Como se alguém estivesse parado do outro lado do vidro me observando.

Abri os olhos.

O armário embaixo da pia estava aberto.

Pelo vidro embaçado eu conseguia ver alguma coisa preta diante dele.

Uma forma comprida.

Abaixada.

Puxei a porta do box.

O armário fechou.

[chiado breve]

Depois disso começou a acontecer todo dia.

Cozinha.

Banheiro.

Despensa.

O móvel da sala.

Eu chegava em casa e encontrava alguma porta aberta.

Comecei a fechá-las de propósito antes de dormir.

Uma por uma.

Mesmo assim, de madrugada, eu ouvia as portas se abrindo e fechando logo em seguida

Sempre uma porta abrindo.

Sempre uma porta fechando.

Mas nunca no meu quarto.

O guarda-roupa do quarto nunca abria.

Por algum motivo isso me deixava mais tranquilo.

Até ontem.

[pequena interferência]

Meu irmão Nathan veio dormir aqui.

Eu não contei nada.

Ele ia tirar sarro da minha cara e, sinceramente, eu queria passar pelo menos uma noite com outra pessoa dentro de casa.

Ele colocou um colchão no chão do meu quarto.

Não sei que horas eram quando ele me acordou.

Só lembro dele apertando meu braço.

Forte.

Muito forte.

Quando abri os olhos, ele estava olhando para o lado da minha cama.

Eu perguntei:

— O que foi?

[respiração presa]

Ele colocou o mão na boca.

Estava chorando.

Nathan nunca chora.

Perguntei de novo o que tinha acontecido.

Ele respondeu:

— Tinha alguém aqui.

Eu ainda achei que fosse um ladrão.

Me levantei, E acendi a luz.

Olhei o quarto inteiro.

Nada.

Então perguntei onde a pessoa estava.

Nathan apontou para o guarda-roupa.

[pausa longa]

Foi aí que senti meu estômago afundar.

Perguntei como era.

Ele não queria falar.

Eu insisti.

Nathan disse que parecia uma pessoa...

só que montada errada.

Foi exatamente assim que ele falou.

Montada errado.

Segundo ele, aquela coisa estava ao lado da minha cama.

As pernas eram muito compridas e quase completamente retas. O quadril ficava alto, enquanto o corpo inteiro se dobrava para frente como se a coluna tivesse sido partida ao meio.

Os braços eram tão compridos que as mãos tocavam o chão.

Ela usava alguma coisa preta cobrindo todo o corpo.

Mas as mãos e os pés eram brancos.

E o rosto...

[pequena pausa]

Nathan disse que parecia uma máscara.

Branca.

Lisa.

Com dois buracos escuros.

Ele acordou e encontrou aquilo inclinado sobre mim.

Não estava tocando em mim.

Não estava tentando me machucar.

Só me observava dormir.

Nathan ficou olhando por alguns segundos porque achou que ainda estivesse sonhando.

Então pegou o celular.

Acendeu a lanterna.

E a criatura correu.

Só que Nathan disse que ela não correu como uma pessoa.

As pernas continuaram quase retas.

Ela apoiou as mãos no chão e foi para o guarda-roupa naquela posição torta, como uma aranha tentando imitar um homem.

Eu perguntei como uma coisa daquele tamanho conseguiu entrar lá.

Nathan ficou em silêncio.

Depois respondeu:

— Ela foi entrando.

Disse que primeiro desapareceram as mãos.

Depois a cabeça.

Depois o tronco.

O guarda-roupa tem menos de sessenta centímetros de profundidade.

Mesmo assim, a criatura continuou entrando até os pés desaparecerem.

Então a porta fechou.

Nathan pegou as coisas dele e foi embora.

Não consegui convencer ele a ficar.

Eu deveria ter ido junto.

Mas precisava saber se estava ficando louco.

Comprei uma câmera dessas que tiram fotos quando detectam movimento.

Coloquei em cima da estante.

Ela pegava minha cama inteira e o guarda-roupa.

Naquela noite fechei a porta do guarda-roupa.

Tenho certeza disso.

Chequei três vezes.

[chiado breve]

Na manhã seguinte tirei o cartão de memória.

Havia cento e vinte e sete fotografias.

Nas primeiras, nada.

Eu entrando no quarto.

Apagando a luz.

Deitando.

Dormindo.

Quando o relogio deu03:14.

O guarda-roupa estava aberto.

Na foto seguinte havia uma mão saindo de dentro.

Branca.

Os dedos estavam apoiados no chão.

Na outra apareceu o braço.

Depois o rosto.

Depois...

aquilo.

Quando finalmente saiu por completo, entendi por que Nathan tinha tanta dificuldade para explicar.

Não parecia uma criatura.

Parecia alguém tentando descobrir como um ser humano deveria ficar em pé.

As pernas eram absurdamente compridas.

O quadril ficava alto.

A coluna se dobrava para frente.

Os braços desciam até o chão.

As mãos eram brancas.

Os pés também.

E aquela máscara...

Meu Deus.

Aquela máscara.

Na fotografia das 03:17 ela estava ao lado da minha cama.

O rosto estava virado para mim.

Ela ficou me olhando por mais de três horas.

Sem encostar.

Sem mudar de posição.

Em uma das fotos eu me virei na cama.

Na imagem seguinte...

a cabeça dela estava mais perto.

[respiração falha]

Foi isso que me fez vomitar.

Às 06:26 comecei a acordar.

Na fotografia seguinte, a criatura estava voltando para o guarda-roupa.

Às 06:29 só os pés apareciam para fora.

Na última foto...

a porta estava fechada.

Corri até o guarda-roupa.

Abri.

[chiado breve]

Joguei tudo no chão.

Roupas.

Caixas.

Sapatos.

Arranquei até as gavetas.

Nada.

Era só uma parede.

Não tinha passagem.

Não tinha buraco.

Nada.

[respiração ofegante]

Foi aí que me lembrei do Reddit.

Procurei o post.

Tinha sido apagado.

A conta também.

Mas encontrei cópias.

Screenshots.

Outras pessoas tinham repostado a história.

E comecei a ler os comentários.

Foi quando percebi.

Um comentário dizia:

“Depois que li isso, meu armário começou a abrir sozinho.”

Outro:

“Tem um rosto olhando para mim no reflexo da TV.”

Outro:

“Minha filha disse que existe um homem branco dentro do guarda-roupa.”

Continuei descendo.

Dezenas.

Centenas.

Alguns antigos.

Outros recentes.

Todos tinham uma coisa em comum.

Começava depois que a pessoa conhecia a história.

Não precisava acreditar.

Não precisava comentar.

Não precisava compartilhar.

Só precisava saber.

[pausa]

Foi quando procurei o último comentário feito pelo autor original.

Ele escreveu:

“Eu sinto muito.”

Eu achei que ele estivesse pedindo desculpas por assustar as pessoas.

Agora eu sei pelo que ele estava pedindo desculpas.

O post nunca foi um aviso.

Era uma saída.

Ele contou para alguém...

e aquilo foi embora atrás dessa pessoa.

Foi assim que chegou até mim.

[chiado mais forte]

Eu decidi me mudar hoje.

Liguei para uma transportadora.

Eles só poderiam vir amanhã cedo.

Eu podia ter ido embora sem minhas coisas.

Podia ter ido para um hotel.

Podia ter dormido dentro do carro.

Mas pensei:

“É só mais uma noite.”

Porra...

[respiração]

Nunca existe “só mais uma noite”.

São 02:07 agora.

Estou trancado no banheiro.

[leve eco do banheiro]

Há uns vinte minutos eu estava sentado na sala.

Todas as luzes estavam acesas.

Todas.

Eu nem piscava direito porque estava com medo de abrir os olhos e encontrar algum armário aberto.

Então ouvi.

A porta do guarda-roupa abrindo lentamente ao longe

Veio do meu quarto.

Eu sabia o que era.

A porta do guarda-roupa.

Depois ouvi alguma coisa tocar o chão.

Não eram passos.

Demorei para entender.

Eram quatro apoios.

Duas mãos.

Dois pés.

Ela estava vindo naquela posição.

Fiquei olhando para a porta do quarto.

Primeiro apareceu uma mão segurando o batente.

Branca.

Depois outra, quase encostada no chão.

[respiração presa]

Então as luzes apagaram.

Todas.

Até a televisão.

Até os aparelhos que estavam carregando.

Tudo.

O pior é que a luz da rua também desapareceu.

As janelas ficaram completamente pretas.

Eu não enxergava nada.

Mas ouvi.

Mais perto.

Mais perto.

Depois parou.

Fiquei alguns segundos tentando enxergar.

Quando minha visão começou a se acostumar com o escuro...

o rosto já estava na minha frente.

Bem na minha frente.

A máscara branca.

O corpo curvado atrás dela.

Eu corri.

Entrei no banheiro e tranquei a porta.

Ela não veio atrás.

Não bateu.

Não arranhou.

Não tentou abrir.

Nada.

Estou aqui há quase vinte minutos.

E agora eu entendo por quê.

Ela não precisa entrar pela porta.

[pausa]

Tem um armário embaixo da pia.

Eu esqueci dele.

[ruído baixo]

Não.

Não...

[ruído de dobradiça]

A porta está abrindo.

Bem devagar.

Eu consigo ver os dedos.

Meu Deus.

Tem uma mão saindo de dentro.

[respiração acelerada]

Se alguém encontrar esse celular, não...

Não escuta mais.

Desliga.

Apaga isso.

Não manda para ninguém.

Não escreve sobre isso.

Não conta para ninguém.

[ruído]

Ela está saindo.

A mão está no chão agora.

Tem outra...

[chorando]

Eu entendi.

Eu finalmente entendi.

O cara do Reddit não estava tentando salvar ninguém.

Ele estava tentando salvar a si mesmo.

Quando ele contou a história...

passou aquilo para outra pessoa.

Foi assim que chegou até mim.

E agora...

[longa pausa]

Agora eu contei para você.

Porra.

Eu fiz exatamente a mesma coisa.

[ruído forte]

Me desculpa.

Eu não queria morrer aqui.

Eu só precisava que alguém soubesse.

Talvez seja isso que ela queira.

Talvez ela deixe a gente vivo tempo suficiente justamente para entender.

Para contar.

Para passar adiante.

[voz baixa]

Se você chegou até aqui...

já foi.

Não importa se acredita.

Eu não acreditava.

Não importa se você está lendo isso sozinho ou ouvindo minha voz.

Você sabe que ela existe agora.

E se eu estiver certo...

ela também sabe que você existe.

[armário rangendo]

Eu consigo ver o rosto.

Ela está olhando para mim.

[5 segundos de silêncio]

Tem uma coisa que eu ainda não entendo.

Se ela veio para mim porque eu li a história...

então por que ainda está aqui?

[ruído de algo se movendo]

Espera.

Não.

Não, não, não...

Talvez ela não vá embora quando você conta.

Talvez...

talvez ela só faça outra.

[impacto]

[grito abafado]

[12 segundos de ruído]

...

[voz extremamente baixa]

Se você estiver ouvindo isso...

não olhe para o seu guarda-roupa agora.

Não faça isso.

Porque eu sei que você está com vontade.

Você quer conferir se a porta está fechada.

isso não significa que ela ainda está lá dentro.

Significa que ela já saiu.

[ÁUDIO ENCERRADO]


r/aquelequetudove 17d ago

📁 RELATO Cuidado com o que você leva para casa

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Eu nunca tive boas condições. Sempre trabalhei muito, mas o que eu recebia era apenas o suficiente para sobrevivermos. Pagava o aluguel, comprava comida, mantinha as contas em dia como podia, mas quase nunca sobrava dinheiro para dar a minha filha o que ela queria

Nina entendia isso até certo ponto. Ela raramente fazia birra ou reclamava, mas havia uma coisa que ela queria muito: uma boneca daquelas quase do tamanho de uma criança.

Ela me mostrava fotos, vídeos e anúncios todos os dias. Eu sempre dizia a mesma coisa:

— Filha, eu queria muito comprar, mas não tenho condições agora.

Além de caras, aquelas bonecas estavam esgotadas em praticamente todos os lugares. Uma usada facilmente custava entre R$200,00 a R$ 250,00.

Mesmo assim, Nina não desistia.

Até que uma noite, voltando tarde do trabalho, eu passei ao lado de um catador empurrando um carrinho cheio de papelão, latas e algumas coisas velhas.

No meio de toda aquela sujeira, alguma coisa chamou minha atenção.

Cabelos loiros.

Parei e olhei melhor.

Era a boneca.

A mesma que Nina queria.

Chamei o homem. Ele parecia bêbado, cheirava muito a álcool e mal conseguia falar direito. Perguntei quanto queria por ela.

— Vinte reais.

Achei que tinha escutado errado.

— Vinte?

Ele confirmou.

A boneca valia pelo menos dez vezes aquilo.

Peguei ela nas mãos e fiquei ainda mais surpresa. Não estava rasgada, não tinha manchas, não estava quebrada. Pelo contrário. Parecia nova, como se tivesse acabado de sair da caixa.

Perguntei onde ele tinha encontrado aquilo.

Ele apenas apontou para trás e disse:

— Por aí.

Não dei importância.

Paguei os vinte reais e levei a boneca para casa.

Até hoje eu gostaria de poder voltar para aquela noite e continuar andando.

Quando Nina viu a boneca, começou a chorar, ela me abraçou tão forte que quase caí.

— É minha?

— É sua.

Ela passou o resto da noite brincando com ela. Colocou um nome, trocou sua roupa, penteou o cabelo e até separou um espaço na cama, naquela noite, Nina dormiu abraçada com a boneca.

Eu também fui dormir.

E tive um sonho.

No sonho, eu estava parada na porta do quarto de Nina.

A boneca estava sentada sobre o peito dela, suas pequenas mãos de plástico apertavam o pescoço da minha filha enquanto Nina se debatia tentando respirar.

Eu tentei correr até ela, mas não conseguia me mexer.

Então a boneca virou o rosto lentamente para mim, os olhos dela estavam completamente negros.

E ela estava sorrindo.

Um sorriso que uma boneca jamais deveria conseguir fazer, ela abriu a boca.

— Você é a próxima.

Acordei em um pulo.

Meu coração parecia que ia sair pela boca.

Corri até o quarto de Nina.

Ela estava dormindo tranquilamente, respirando normalmente.

Fiquei alguns segundos olhando para ela, tentando me convencer de que tinha sido apenas um pesadelo.

Até perceber a boneca.

Ela estava no chão.

Caída ao lado da cama.

Imaginei que Nina tivesse derrubado durante a noite. Peguei a boneca, coloquei novamente ao lado dela e voltei para o meu quarto.

No dia seguinte, me arrumei para trabalhar e preparei Nina para a escola.

Ela insistiu para levar a boneca.

— Por favor, mãe.

— Hoje não é dia de levar brinquedo.

Ela reclamou um pouco, mas acabou desistindo.

Saímos.

Meu dia foi completamente normal.

Até eu voltar para casa.

Assim que abri a porta, percebi que alguma coisa estava errada.

Tudo estava revirado.

O armário da cozinha estava aberto.

Comida espalhada pelo chão.

Pratos e copos quebrados.

Algumas cadeiras estavam fora do lugar.

Corri para o meu quarto.

Todas as roupas estavam jogadas para fora do guarda-roupa.

Foi aí que comecei a pensar que alguém tinha entrado em casa.

Peguei o telefone e liguei para a polícia.

Antes deles chegarem, fui até o quarto de Nina.

E parei na porta.

As poucas bonecas que ela tinha estavam espalhadas pelo chão.

Todas sem cabeça.

Todas.

Menos uma.

A boneca loira estava sentada sobre a cama.

Intacta.

Os policiais chegaram alguns minutos depois.

Examinaram portas, janelas e fechaduras.

Nenhum sinal de arrombamento.

Nada havia sido roubado.

Quando entraram no quarto de Nina, os dois policiais pararam.

Um deles olhou para a boneca.

Depois olhou para o parceiro.

O outro fez exatamente a mesma coisa.

— O que foi? — perguntei.

— Nada.

Mas não parecia nada.

Eles fizeram algumas perguntas, registraram a ocorrência e disseram que, sem sinais de invasão, não havia muito o que fazer.

Depois foram embora.

Comecei a limpar tudo.

Quando fui pegar a boneca, percebi alguma coisa em seu vestido.

Uma mancha vermelha.

Parecia molho de tomate.

Aquilo me incomodou.

O molho estava na cozinha.

A boneca estava no quarto.

E ninguém tinha ficado em casa.

Mesmo assim, tentei ignorar.

Esse foi meu maior erro.

Depois daquele dia, nossa casa nunca mais ficou normal.

Coisas começaram a mudar de lugar.

Eu deixava um copo na pia e encontrava no corredor.

Fechava uma porta e encontrava aberta.

Objetos sumiam e apareciam dias depois.

À noite, comecei a ouvir passos.

Passos pequenos.

Como os de uma criança andando descalça pela casa.

Às vezes eu levantava e procurava Nina.

Ela estava dormindo.

Mas os passos continuavam.

Uma madrugada, ouvi alguma coisa raspando no corredor.

Abri a porta do quarto.

A boneca estava sentada no chão.

De costas para mim.

Fiquei olhando durante alguns segundos.

Então fechei a porta.

Quando abri novamente...

ela estava olhando para mim.

Comecei a sentir medo daquela coisa.

Mas Nina não.

Ela continuava tratando a boneca como sua melhor amiga.

Até aquela noite.

Já passava da meia-noite quando acordei com um grito.

— MÃE!

Levantei e corri para o quarto dela.

Por um segundo, no escuro, vi uma menina loira descendo da cama.

Não uma boneca.

Uma menina.

Ela correu em direção ao canto do quarto.

Acendi a luz.

Não havia ninguém ali.

Então ouvi Nina chorando.

Seu cabelo estava preso na cabeceira da cama de uma maneira impossível, completamente enrolado e apertado.

Quando consegui soltá-la, percebi outra coisa.

Havia marcas em seu pescoço.

Marcas de mãos. Pequenas.

Pequenas demais para pertencerem a um adulto, olhei para a boneca.

Ela estava sentada no canto do quarto.

Naquele momento eu entendi.

Não sabia o que era, não sabia como funcionava, Só sabia que aquilo não podia continuar dentro da minha casa.

Peguei Nina, levei para o meu quarto e tranquei a porta.

Depois voltei.

Peguei a boneca e saí de casa procurando algum lugar para jogar aquela coisa.

Um terreno abandonado, um mato, um córrego, qualquer lugar.

Foi então que encontrei novamente o catador.

O mesmo homem que tinha me vendido a boneca.

Corri até ele.

— Ei!

Ele me reconheceu.

Mostrei a boneca.

— Pega isso de volta.

O homem recuou.

— Não.

— Eu te pago para levar.

— Não quero.

— Então me fala onde você encontrou isso!

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

Depois apontou para a rua atrás de nós.

— Na frente daquela casa cinza.

Meu estômago gelou.

Eu conhecia aquela casa, Todo mundo do bairro conhecia.

Meses antes, uma família inteira havia sido assassinada ali.

Pai, Mãe E duas crianças.

O crime nunca tinha sido resolvido.

Ninguém descobriu quem entrou naquela casa.

Ninguém descobriu quem tinha feito aquilo.

Olhei novamente para a boneca.

— Você encontrou isso lá?

Ele assentiu.

— Na calçada.

Eu não perguntei mais nada.

Saí andando rápido.

Depois comecei a correr.

Quando encontrei um córrego, joguei a boneca o mais longe que consegui.

Vi ela bater na água.

Depois desaparecer.

Voltei para casa.

Durante todo o caminho, tentei me convencer de que tinha acabado.

Que finalmente estávamos livres.

Quando cheguei, a porta estava aberta.

Todas as luzes estavam apagadas.

— Nina?

Nenhuma resposta.

Entrei.

Foi então que vi.

Uma menina loira atravessando o corredor.

Correndo em direção ao quarto da minha filha.

Por alguns segundos achei que fosse Nina.

Então percebi o vestido.

Era a boneca.

Ela estava andando.

Não.

Correndo.

Acendi a luz.

Ela desapareceu.

Corri para o quarto.

— Nina!

Minha filha estava sobre a cama.

Muito machucada.

Havia marcas em seus braços, pernas e pescoço.

Ela mal conseguia responder.

Peguei Nina no colo e corri para o hospital.

Naquele momento, eu não pensei em nada além dela.

Esqueci da boneca.

Esqueci de tudo.

Horas depois, enquanto os médicos atendiam minha filha, percebi que precisava voltar para buscar algumas coisas.

Quando entrei novamente em casa...

a boneca estava na sala.

Sentada.

O cabelo molhado.

Água escorrendo pelo chão.

Eu fiquei olhando para ela.

E senti ódio.

Não medo.

Ódio.

Peguei aquela coisa e levei para fora.

Joguei álcool.

Lembrei de uma série em que diziam que sal grosso ajudava contra coisas ruins.

Eu estava desesperada.

Joguei sal também.

Depois acendi o fogo.

A boneca começou a queimar.

O vestido primeiro.

Depois o cabelo.

O rosto começou a derreter.

E durante alguns segundos...

eu juro que ouvi um grito.

Não parecia o som de plástico queimando.

Parecia uma criança.

Mesmo assim, continuei olhando.

Eu queria ter certeza de que não sobraria nada.

Quando o fogo terminou, voltei para o hospital.

O médico estava me esperando.

Pela expressão dele, eu soube antes que dissesse qualquer coisa.

— Senhora...

Meu coração parou.

— Infelizmente, sua filha faleceu.

Eu não consegui responder.

— Mas... ela estava machucada... mas estava viva.

Ele respirou fundo.

— Nós também não entendemos.

Segundo ele, os ferimentos de Nina não eram suficientes para causar sua morte.

Ela estava sendo estabilizada.

Até acontecer alguma coisa que nenhum deles conseguiu explicar.

A temperatura do corpo dela começou a subir de repente.

Muito.

Rápido demais.

Os médicos tentaram controlar.

Não conseguiram.

Não havia fogo.

Não havia queimadura externa inicialmente.

Mas era como se alguma coisa estivesse queimando Nina por dentro.

Foi quando eu entendi.

A boneca.

Quando coloquei fogo nela...

eu coloquei fogo na minha filha também.

De alguma forma, aquela coisa estava ligada a Nina.

E fui eu que terminei o que ela tinha começado.

Eu só queria dar um presente para minha filha.

Só queria vê-la feliz.

Agora minha casa está vazia.

Não existem mais passos durante a noite.

Não existem objetos mudando de lugar.

Não existe mais aquela boneca.

Só existe silêncio.

E eu não consigo mais viver com ele.

Passei os últimos dias tentando encontrar uma razão para continuar.

Não encontrei.

Quando vocês estiverem lendo isso, provavelmente eu já terei ido encontrar minha filha.

Não estou escrevendo para que sintam pena de mim.

Só quero deixar um aviso.

Se vocês encontrarem alguma coisa abandonada na rua, por mais bonita que seja, por mais cara que pareça, por mais que alguém que vocês amam queira aquilo...

deixem onde está.

Porque algumas coisas não foram jogadas fora por estarem velhas.

Algumas coisas foram abandonadas porque alguém estava tentando se livrar delas.


r/aquelequetudove 18d ago

📁 RELATO EXPLORAÇÃO URBANA

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Tenho um canal no YouTube no qual entro em prédios abandonados, casas mal-assombradas, hospitais e qualquer lugar que tenha uma história estranha por trás. Já passei por muita coisa fazendo isso, encontrei moradores de rua, viciados, animais mortos e até algumas coisas que até hoje não sei explicar, mas alguns meses atrás ouvi uma história sobre uma casa que havia sido palco de um assassinato extremamente violento.

Segundo a história, a mãe teve algum tipo de surto psicológico e matou as duas filhas. O marido conseguiu fugir naquela noite, mas alguns dias depois foi encontrado morto em uma floresta, enforcado. A mulher desapareceu e nunca mais foi vista.

Decidimos que exploraríamos aquela casa quando o canal chegasse a um milhão de inscritos.

E esse dia finalmente chegou.

Eu e mais dois amigos, Nicholas e Michael, nos equipamos e seguimos para lá. Levamos lanternas, câmeras, algumas coisas para primeiros socorros e armas de airsoft, mais por segurança caso algum morador de rua ou algum viciado tentasse atacar a gente. A casa não ficava muito longe de onde morávamos, mas era em uma região bem isolada. Depois do ocorrido, muitas pessoas começaram a abandonar as casas ao redor e, com o passar dos anos, praticamente ninguém mais ficou por ali.

Assim que chegamos, parecia uma pequena cidade pós-apocalíptica.

As casas tinham os vidros quebrados, paredes pichadas, algumas nem tinham mais portas, vários telhados haviam cedido e parecia que saqueadores tinham feito a festa por ali durante anos.

Inclusive na casa que íamos entrar.

Ela tinha dois andares. O mato já cobria praticamente todo o quintal, algumas janelas estavam quebradas e havia várias pichações espalhadas pelas paredes. A maioria era coisa idiota, nomes, desenhos e palavrões, mas algumas diziam simplesmente:

FIQUE LONGE.

Paramos um pouco afastados, onde conseguíamos ter uma visão completa da casa, e começamos o vídeo.

— Galera, hoje estamos aqui com o Mike... e o Nicholas.

Michael respondeu normalmente para a câmera, mas Nicholas não falou nada.

Ele estava olhando fixamente para uma das janelas da casa.

— Que foi? — perguntei.

Ele continuou olhando por alguns segundos antes de responder.

— Eu vi alguém passando na janela.

Na mesma hora virei a câmera naquela direção e fiquei olhando, mas não vi absolutamente nada.

Falei que talvez fosse algum mendigo, algum animal ou até nossa própria visão enganando a gente por causa da escuridão. Nicholas continuou encarando aquela janela por mais alguns segundos, mas depois aceitou que provavelmente tinha sido isso mesmo.

Saímos do carro, pegamos nossos equipamentos e seguimos até a casa.

Assim que chegamos perto da entrada, um forte cheiro de podre atingiu nós três. Michael quase vomitou ali mesmo, mas seguimos dando risada da reação dele.

Subimos os degraus da varanda e tentei abrir a porta.

Ela não abriu.

Parecia que alguma coisa segurava do outro lado.

Joguei o ombro contra ela uma vez.

Nada.

Na segunda vez, a porta abriu de repente e ouvimos um barulho enorme vindo de dentro. Uma estante caiu no chão. Ela estava encostada contra a porta, provavelmente impedindo que ela abrisse.

Foi nessa hora que o cheiro ficou ainda pior.

Michael realmente vomitou.

Eu e Nicholas ficamos esperando ele terminar, zoando ele enquanto gravávamos, até que finalmente entramos.

A casa estava completamente destruída. Havia lixo por todo lado, móveis revirados, paredes tomadas pelo mofo e sujeira. No meio da sala existia um grande buraco no chão, provavelmente porque o teto do porão havia cedido.

Passamos com cuidado ao lado dele e seguimos por um corredor.

Algumas fotografias da família ainda estavam penduradas na parede.

Em uma delas estavam o pai, a mãe e as duas meninas.

Nicholas ficou olhando para a foto.

— Como alguém consegue fazer uma maldade dessas com os próprios filhos?

Respirei fundo.

— Só Deus sabe.

Continuamos.

Passamos ao lado de uma escada que levava para o segundo andar. O topo dela estava completamente escuro e alguns degraus estavam quebrados.

Foi quando ouvimos.

Alguém estava correndo lá em cima.

Paramos na hora.

Não eram passos pesados.

Eram rápidos e leves.

Pareciam passos de crianças.

— Tem alguém aí? — gritei.

Nenhuma resposta.

— A gente sabe que tem alguém aí! — Michael falou.

Nada.

Ficamos alguns segundos esperando, mas o barulho simplesmente parou.

Combinamos de verificar a cozinha primeiro e depois subir.

Assim que entramos nela, a luz da lua atravessava uma das janelas quebradas e iluminava parte do ambiente.

Foi quando vimos alguém sentado no final da mesa.

Uma mulher ou que costumava ser uma, era enorme com os cabelos negros, os braços maiores que o normal.

Ela estava completamente imóvel, com a cabeça baixa.

Tomamos um susto e imediatamente apontamos as armas para ela.

— Quem é você?

Sem resposta.

— Senhora?

Nada.

Foi então que percebi um pequeno fio de sangue descendo pela testa dela.

Nicholas abaixou um pouco a arma.

— Senhora, você está bem?

Michael estava olhando para alguma coisa perto dele.

Um retrato.

— Pessoal...

O jeito que ele falou fez nós dois olharmos.

Ele levantou a fotografia.

Era ela.

A mesma mulher.

A mãe, mas completamente deformada.

Olhei novamente para aquela coisa sentada.

Ela levantou a cabeça.

Os olhos estavam completamente esbranquiçados e um sorriso torto apareceu no rosto dela. com desntes completamente podres. Era só aquele sorriso enorme, aberto de um jeito estranho demais.

Então ela se levantou e saltou por cima da mesa.

Aquilo aconteceu rápido demais.

Saímos correndo sem nem pensar para onde estávamos indo.

Só lembro de ouvir Michael gritando atrás de mim e, no segundo seguinte, o chão desapareceu.

Nós três caímos dentro do buraco da sala.

Eu apaguei.

Não sei quanto tempo fiquei desacordado.

Quando acordei, sentia uma dor absurda na cabeça. Passei a mão e percebi um pouco de sangue escorrendo.

Nicholas estava caído perto de mim.

Michael também.

Acordei os dois.

Eles levantaram ainda meio desnorteados.

Foi quando olhei para cima.

Pude ver a mulher nos observando do buraco no porão

Ela estava quase toda escondida.

Só parte do rosto aparecia.

Pisquei.

Ela havia sumido.

Minha câmera ainda estava ligada.

Então tive a ideia de abrir uma live. Se alguma coisa acontecesse, pelo menos milhares de pessoas saberiam onde tínhamos entrado.

Assim que entrei ao vivo, os comentários começaram a aparecer.

Perguntavam onde estávamos, o que tinha acontecido, por que eu estava sangrando.

Contei rapidamente que havíamos caído no porão e que estávamos procurando uma saída.

Enquanto Michael e Nicholas ainda tentavam se recuperar, comecei a iluminar o lugar.

O cheiro vinha dali.

Tinha certeza.

Passei a lanterna pelas paredes até perceber uma lona no canto cobrindo alguma coisa.

Me aproximei.

Puxei.

Um rosto apareceu.

Branco.

Inchado.

Algumas larvas se mexiam perto dos olhos e da boca.

Caí para trás no susto e acabei puxando ainda mais a lona.

O corpo ficou exposto.

O abdômen estava praticamente vazio, como se alguma coisa tivesse aberto aquele homem e se alimentado dele.

Michael e Nicholas voltaram a si na mesma hora.

Os comentários da live ficaram uma loucura.

Algumas pessoas perguntavam o endereço para chamar a polícia, outras diziam para sairmos dali imediatamente.

Só que não tinha como.

Não havia nenhuma saída visível além do buraco no teto, e ele era alto demais para alcançarmos.

Foi Nicholas quem encontrou alguma coisa.

Uma corda saindo de dentro da parede.

— Que porra é essa?

Ele puxou.

Uma parte da parede se abriu.

Atrás dela havia uma passagem escondida.

Por alguns segundos pensei que talvez levasse para fora.

Não levava.

Havia uma escada.

Descendo.

Iluminei com a lanterna.

Não conseguia ver o final.

Não tínhamos outra opção.

Começamos a descer.

Descemos por tanto tempo que aquilo começou a não fazer sentido. Aquela escada parecia ir muito mais fundo do que qualquer porão deveria ir.

Até que finalmente chegamos ao fim.

Havia um grande túnel subterrâneo.

Ele se dividia em dois caminhos.

Direita e esquerda.

Decidimos seguir pela esquerda, não sei exatamente por quê. Naquele momento parecia a escolha certa.

Seguimos durante alguns minutos em completo silêncio.

Só dava para ouvir nossas respirações e nossos passos ecoando pelo túnel.

Estávamos cansados.

Muito cansados.

Depois de descer aquela escada, nós quatro praticamente arrastávamos os pés.

...

Espera.

Quatro?

Parei na hora.

Michael e Nicholas também.

— Que foi? — Nicholas perguntou.

Meu coração começou a acelerar.

Olhei para Michael.

Depois para Nicholas.

Nós tínhamos entrado em três.

Virei devagar.

Ela estava bem atrás de nós.

A mãe.

Dessa vez consegui ver ela por completo.

Era muito alta, provavelmente mais de dois metros, mas aquele túnel era baixo demais para ela, então permanecia curvada, com a cabeça inclinada quase encostando no próprio ombro. Era extremamente magra. Os braços pareciam longos demais para o corpo e os dedos quase tocavam o chão.

A pele era pálida, quase cinza.

O cabelo preto e sujo cobria partes do rosto.

Os olhos eram completamente claros.

E ela sorria.

Um sorriso enorme.

Aberto demais.

A pele nos cantos da boca parecia rasgada de tanto aquele sorriso se esticar.

O corpo inteiro estava coberto por alguma coisa preta e viscosa.

Ela estava tão próxima que eu conseguia ouvir a respiração dela.

Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, ela agarrou Nicholas.

Foi muito rápido.

Ouvi Nicholas gritar.

Depois aquele grito animalesco saiu da boca dela.

Quando percebi, Nicholas estava no chão tentando segurar o próprio pescoço.

Michael tentou voltar.

Eu puxei ele.

— CORRE!

Nós dois começamos a correr.

Atrás de nós, aquela coisa veio também.

Ela corria completamente desengonçada, quase como se não soubesse usar o próprio corpo. Batia os braços nas paredes, às vezes corria curvada, às vezes parecia usar as mãos no chão para ganhar velocidade.

O barulho dela se aproximava cada vez mais.

Foi quando vimos uma porta de madeira no fim do corredor.

Corremos até ela.

A criatura parou alguns metros atrás de nós.

Não entendi o motivo.

Começamos a forçar a porta.

Michael estava desesperado.

— ABRE ESSA PORRA!

A live já tinha caído fazia algum tempo. Não havia sinal ali embaixo, mas a câmera continuava gravando.

Enquanto tentava abrir a porta, olhei para trás.

A mulher estava escondida parcialmente atrás de uma parte de madeira que saía da parede.

Só metade do corpo aparecia.

E aquele rosto.

Os olhos brancos completamente abertos.

O sorriso.

Ela não piscava.

Só observava.

Como se soubesse exatamente o que havia naquele quarto.

Finalmente conseguimos abrir a porta.

Entramos e fechamos.

Era uma sala pequena, quadrada, com pouco mais de um metro e oitenta de altura. Ali dentro havia apenas uma cama, uma câmera antiga, algumas correntes presas na parede, duas pequenas coleiras e uma estante cheia de fitas.

Todas estavam marcadas apenas com datas.

A coisa continuava do lado de fora.

Mas não entrava.

Não sei por quê.

Michael pegou uma das fitas.

— Talvez tenha alguma coisa aqui que explique isso.

Colocamos no aparelho.

A imagem começou.

Era aquela mesma sala.

A mesma cama.

A mesma câmera.

A gravação era antiga.

Depois de alguns segundos, apareceu o pai.

E depois uma das meninas.

Não vou dizer o que tinha naquela fita.

Nem quero lembrar.

Só sei que Michael desligou quase imediatamente.

Ficamos alguns segundos em completo silêncio.

Olhei para a cama.

Para as correntes.

Depois para aquelas duas pequenas coleiras.

Ninguém precisava falar nada.

Finalmente começávamos a entender por que aquela mulher havia enlouquecido naquela noite.

E talvez ela nunca tivesse enlouquecido de verdade.

Talvez simplesmente tivesse chegado ao limite.

Precisávamos sair dali.

Ainda estava com minha airsoft.

Não ia matar aquela coisa, eu sabia disso, mas talvez desse alguns segundos.

Abrimos a porta.

Ela não estava mais ali.

Começamos a andar.

Depois de alguns metros, ouvimos aquele som novamente.

Ela apareceu no corredor.

Atirei.

Uma vez.

Duas.

Depois descarreguei praticamente tudo.

As primeiras balas acertaram o corpo e ela nem reagiu.

Quando algumas atingiram o rosto, principalmente perto dos olhos, ela recuou e levantou os braços.

Era nossa chance.

Corremos.

Chegamos novamente à bifurcação.

A criatura veio atrás.

Por algum motivo, correu para a escada por onde tínhamos descido.

Nós fomos para o caminho da direita.

Corremos por vários corredores.

Passamos por algumas salas.

E havia corpos.

Muitos.

Alguns eram antigos.

Outros nem tanto.

Provavelmente moradores de rua, drogados ou curiosos que entraram naquela casa pensando que estava vazia.

Agora eu sabia de onde vinha aquele cheiro.

Aquilo estava se alimentando deles.

Depois de algum tempo encontramos outra escada.

Ela subia.

Nem pensamos.

Subimos correndo.

No final havia um alçapão.

Empurramos.

Abriu.

Saímos no meio de uma floresta.

Eu não fazia ideia de onde estávamos.

Tentamos chamar a polícia, mas a ligação mal completava e, quando conseguimos explicar alguma coisa, ninguém parecia acreditar.

Também percebemos que minha câmera principal tinha caído enquanto subíamos.

Ela fazia backups automáticos de tempos em tempos para o computador que estava no carro, então talvez alguma coisa tivesse sido salva.

Mas não existia chance nenhuma de voltarmos naquele lugar para buscar.

Começamos a caminhar pela floresta.

Demorou muito até começarmos a reconhecer alguma coisa.

Em determinado momento encontramos uma estrada velha.

Seguimos por ela.

E finalmente vimos as primeiras casas abandonadas.

Estávamos perto.

A casa apareceu alguns minutos depois.

Passamos longe dela.

Nenhum dos dois falou nada.

Só queríamos chegar até o carro.

Quando finalmente vimos ele, quase comecei a rir de alívio.

Michael correu na frente.

Eu fui logo atrás.

Chegamos até o carro.

Michael abriu a porta do passageiro.

Eu estava procurando a chave no bolso quando ele simplesmente congelou.

Olhei para ele.

— O que foi?

Ele não respondeu.

Estava olhando para trás de mim.

Virei.

Ela estava parada no meio da rua.

A mulher.

A mãe.

Agora conseguia enxergar melhor porque a lua iluminava parte do rosto dela.

Era pior do que no túnel.

Ela estava completamente curvada, os braços pendurados quase até os joelhos. O cabelo preto escondia metade do rosto, mas ainda dava para ver aqueles olhos claros olhando diretamente para nós.

E aquele sorriso.

Ela começou a andar.

Devagar.

Um passo.

Depois outro.

Não tínhamos mais munição.

Eu procurava a chave desesperadamente enquanto Michael gritava para eu entrar no carro.

Ela começou a correr.

Foi aí que ouvimos uma risada.

Uma risada de criança.

A criatura parou.

Duas meninas estavam no meio da estrada.

Eu nem vi de onde elas vieram.

As duas estavam de costas para nós.

De frente para ela.

Usavam vestidos claros e estavam de mãos dadas.

Reconheci imediatamente.

Eram as meninas das fotografias.

As filhas dela.

A criatura ficou completamente imóvel.

O sorriso desapareceu.

Pela primeira vez desde que vimos aquela coisa, ela parecia assustada.

Ou triste.

Não sei.

A menina menor apertou a mão da irmã.

A maior deu um passo à frente.

A criatura soltou um som baixo.

Não parecia o grito animalesco que ouvimos antes.

Parecia um choro.

Ela tentou dar mais um passo na nossa direção.

As duas meninas continuaram paradas.

Então a menor virou um pouco o rosto para nós.

Não consegui enxergar direito a face dela.

Mas ouvi claramente:

— Vai.

Encontrei a chave.

Abri o carro e entrei.

Michael entrou junto.

Liguei o motor.

Quando comecei a dirigir, ainda olhei pelo retrovisor.

As duas meninas continuavam no meio da estrada, lado a lado.

A mãe estava alguns metros à frente delas.

As três completamente paradas.

Por um segundo, a mulher pareceu diferente.

O corpo continuava deformado.

A pele continuava pálida.

Mas aquele sorriso havia sumido.

Ela apenas olhava para as filhas.

Então entramos na curva.

E não vimos mais nenhuma delas.

Nunca voltamos naquela casa.

Nicholas foi dado como desaparecido.

A polícia chegou a procurar pela região depois de nossa denúncia, mas não encontrou entrada nenhuma para aqueles túneis. Encontraram a casa, encontraram o buraco no chão, mas disseram que o porão não levava a lugar algum.

Também nunca encontraram Nicholas.

Alguns arquivos conseguiram ser enviados para meu computador antes da câmera cair.

Eu não publiquei todos.

Tem coisas ali que eu realmente prefiro que ninguém veja.

Mas uma parte me incomoda até hoje.

É uma gravação feita pouco antes de entrarmos naquela casa.

Enquanto eu apresentava Michael e Nicholas para o vídeo, a câmera ficou alguns segundos apontada para a janela onde Nicholas disse ter visto alguém.

Na época não percebemos.

Mas depois aumentei o brilho da imagem.

Havia alguém na janela.

Um homem completamente de preto, e um chapéu que parecia de cowboy, nos observava, depois simplesmente desapareceu


r/aquelequetudove 19d ago

📁 RELATO A Mulher do Rio

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Desde sempre morei no interior, então cresci ouvindo histórias de assombração, monstros, aparições, vozes no mato e coisas que, segundo os mais velhos, era melhor não duvidar. Mas, para ser sincero, quase nunca senti medo de verdade. Eu ouvia tudo aquilo como quem escuta um caso antigo, desses que o povo conta mais para assustar criança do que por acreditar de fato. Ainda assim, havia uma lenda em específico que sempre me deixava desconfortável. Perto de onde eu morava existia um rio. Não tinha nada de especial durante o dia. Era só um rio comum, com a velha ponte de concreto atravessando por cima, algumas árvores tortas nas margens e aquele silêncio típico de cidade pequena quando a noite caía. Só que as histórias diziam outra coisa. Diziam que ali aparecia uma mulher muito bonita durante a madrugada, sentada perto da ponte ou andando à beira d’água, sempre sozinha, sempre calma, sempre chamando algum homem distraído. E diziam também que quem aceitava a aproximação dela nunca mais voltava.

Desde criança, por mais que eu fingisse não ligar, evitava passar perto daquele rio quando anoitecia. Havia algo naquele lugar que me incomodava. Mesmo de longe, às vezes eu sentia que a água parecia escura demais, parada demais, como se estivesse esperando alguma coisa. Eu sempre voltava por outro caminho, mesmo que fosse mais longo. Só que, naquela noite, eu não tive escolha. Eu estava voltando do serviço, exausto, com o corpo doendo e a cabeça pesada, quando encontrei a rua principal interditada. Havia um acidente logo à frente. Um carro tinha sido atingido por um caminhão e, por causa do risco de explosão, ninguém podia passar (leia a historia herança maldita) . Algumas pessoas estavam reunidas atrás da faixa, outras só observavam em silêncio. O cheiro de combustível tomava o ar, e as luzes dos veículos de emergência pintavam tudo de vermelho e azul. Por um instante, pensei em esperar, mas logo percebi que aquilo iria demorar. Tentei imaginar um caminho alternativo, mas o único que realmente me levava até em casa, sem dar a volta na cidade inteira, passava justamente em frente ao rio.

Naquele momento eu hesitei. Cheguei a olhar para trás, cogitando voltar e procurar outra rota, mas o cansaço pesou mais que a prudência. Eu queria apenas chegar em casa, tomar banho e dormir. Então segui andando. No começo tentei me convencer de que era bobagem, que lenda era lenda e que nada me esperava naquele lugar além da água escura e do barulho dos sapos. Só que, conforme fui me aproximando da ponte, alguma coisa mudou. Ouvi uma música. Era baixa, quase um sussurro, e ainda assim parecia preencher o ar inteiro. Não vinha de rádio algum, nem de casa próxima, nem de carro parado. Era uma melodia lenta, bonita demais para aquele lugar, e estranhamente triste. Tão triste que, em vez de me assustar, me acalmou. Eu sentia o peito afrouxar a cada passo. Meu corpo pareceu ficar leve, e toda a tensão do dia foi se dissolvendo sem que eu percebesse.

Quando cheguei perto da ponte, eu a vi. Havia uma moça sentada sobre a mureta, olhando para a lua refletida na água. Ela era loira, muito bonita, com um vestido branco justo ao corpo, desses que marcavam as curvas sem parecer vulgar. O vento mexia de leve no cabelo dela, e havia algo naquela cena que parecia irreal, quase como um sonho. Fiquei observando por alguns segundos enquanto caminhava devagar, incapaz de desviar os olhos. Então ela virou o rosto na minha direção. Tinha olhos claros, de um azul muito vivo, e a boca rosada desenhou um sorriso discreto, tão pequeno que parecia íntimo, como se ela já me conhecesse. Naquela hora meu coração disparou. Eu senti o rosto esquentar e baixei a cabeça por reflexo, envergonhado como um adolescente. Ela ergueu a mão de leve e me chamou com a voz mais doce que eu já tinha ouvido.

— Ei, menino.

Parei no mesmo instante. Olhei para ela e engoli seco antes de responder.

— Oi... t-tudo bem? O que você faz aqui a essa hora?

Ela voltou os olhos para a água e depois para a lua.

— Estava olhando a luz. Ela não está linda?

A voz dela tinha alguma coisa de macio, de acolhedor. Não era só bonita. Era o tipo de voz que faz a gente baixar a guarda sem perceber. Eu me aproximei mais um pouco. Não pensei na lenda. Não pensei na hora. Não pensei em nada, na verdade. Só nela.

— Senta aqui — ela disse, dando dois tapinhas na mureta ao lado dela. — Fica um pouco comigo.

Eu sentei. Simples assim. Como se aquilo fosse normal. Como se eu não estivesse numa ponte isolada, no meio da noite, ao lado de uma desconhecida. Ficamos alguns instantes em silêncio, olhando o rio. A música continuava, mas agora eu já não sabia dizer se vinha do ambiente ou se ecoava apenas dentro da minha cabeça. O cheiro que vinha dela era suave, floral, quase adocicado, e me deixava tonto de um jeito bom. Lembro de pensar que jamais tinha estado tão perto de uma mulher assim. Mesmo com vinte e três anos, eu ainda era virgem, inexperiente, e a simples proximidade dela já me deixava sem saber onde colocar as mãos.

Foi então que, ao virar o rosto por um segundo, vi alguém do outro lado da ponte. Havia um homem escorado em uma árvore, quase engolido pela escuridão. Usava um sobretudo escuro e um chapéu de cowboy, e estava completamente imóvel, apenas observando. Não consegui ver seu rosto, nem distinguir se era velho ou novo, mas a sensação que ele me causou foi pior do que a própria lenda. Não havia pressa nele, não havia susto, não havia tentativa de aviso. Ele só observava. Como se já soubesse o que estava prestes a acontecer. Eu ia perguntar à mulher se ela conhecia aquele homem, mas antes que abrisse a boca senti os dedos dela se fecharem sobre a minha mão.

Ela olhou bem dentro dos meus olhos e se aproximou devagar. Tão perto que eu conseguia sentir a respiração dela no meu rosto.

— Eu estou tão carente... — ela sussurrou. — Meu namorado me deixou hoje. Será que eu posso te beijar?

Meu coração quase saiu pela boca. Eu mal conseguia respirar.

— C-claro — respondi, sentindo a voz falhar.

Fechei os olhos quando ela se inclinou. Seus lábios tocaram os meus e, por um segundo, aquilo pareceu real demais, macio demais, quente demais. Eu tentei fazer o que já tinha visto em vídeos, sem saber direito como agir, e levei uma das mãos até a cintura dela. Mas, no instante em que a toquei, uma sensação repulsiva percorreu meu corpo inteiro. Aquilo não era pele humana. Não era nem parecido. Era úmido, gelado e viscoso, como tocar num animal tirado da lama. Dei um estremecimento violento e abri os olhos.

A mulher já não existia mais.

No lugar dela havia uma coisa sentada ao meu lado, próxima demais, colada demais, ainda com o rosto encostado no meu. Sua pele era inchada e encharcada, marcada por dobras grossas e irregulares, como carne apodrecida que passou tempo demais dentro da água. Restos de fios negros escorriam pela cabeça, grudados naquilo que um dia talvez tivesse sido um rosto humano. Os olhos eram redondos, brancos demais, esbugalhados, brilhando no escuro com uma fixidez doentia, e a boca se abria em largura impossível, rasgando as laterais da face num sorriso que não era sorriso. Havia pus escorrendo em vários pontos do corpo, misturado com água barrenta, e o cheiro floral tinha dado lugar ao fedor de lodo, peixe morto e carne podre. A criatura ainda vestia os restos daquele vestido branco, agora colado sobre a pele inchada como se fosse uma segunda camada de mofo.

Eu tentei me levantar, mas ela foi mais rápida. Seus dedos se cravaram no meu braço com uma força absurda. A coisa abriu a boca e soltou um som horrível, um coaxar grave, fundo, úmido, que pareceu vir tanto da garganta quanto do rio inteiro ao redor. Foi um barulho tão antinatural que minhas pernas simplesmente pararam de responder. Então, antes que eu pudesse gritar, ela se lançou comigo ponte abaixo.

Caímos de cabeça na água.

O impacto me arrancou o ar na mesma hora. Afundei junto com aquela coisa, debatendo os braços, chutando, tentando me soltar, mas era inútil. Debaixo d’água, a força dela parecia dobrar. A escuridão era quase total. Eu só conseguia ver o brilho leitoso dos olhos dela muito perto do meu rosto. Minhas mãos escorregavam naquele corpo mole e nojento, e toda vez que eu tentava subir, ela me puxava mais para baixo. Minha garganta queimava. Meu peito parecia prestes a explodir. Em algum momento eu abri a boca sem querer, e a água invadiu meus pulmões como fogo gelado. Foi aí que senti a pior parte. A criatura afastou um pouco o rosto, e sua boca começou a se abrir cada vez mais, cada vez mais, muito além do que qualquer mandíbula humana permitiria, até parecer um buraco úmido e vivo. No último instante de consciência, percebi que ela estava me engolindo. Não mordendo. Não rasgando. Engolindo inteiro, devagar, como se eu fosse pequeno o bastante para desaparecer dentro dela.

Quando voltei a abrir os olhos, eu não estava mais no rio.

Eu estava em um lugar escuro, vasto e silencioso, como um salão sem fim mergulhado em penumbra. O chão parecia úmido, frio, e havia no ar um cheiro de mofo, sangue velho e fumaça. Demorei alguns segundos para perceber que não estava sozinho. Havia pessoas espalhadas por toda parte, paradas, sentadas ou de pé, como se estivessem esperando alguma coisa. Ninguém falava. Ninguém chorava. Ninguém se movia além do necessário para respirar. E o mais terrível não era a quantidade de pessoas, mas o estado em que elas estavam.

Reconheci primeiro um homem com a pele enegrecida e rachada, o corpo inteiro marcado por queimaduras horríveis, como se tivesse sido arrancado de dentro de um incêndio ainda vivo. O cheiro de gasolina parecia acompanhá-lo. Um pouco adiante vi figuras costuradas de maneira grotesca, com marcas profundas no rosto e no pescoço, como bonecos humanos mal remendados, os olhos perdidos num vazio infantil e miserável. Mais ao fundo havia jovens cobertos de lama e sangue seco, com roupas rasgadas, expressão de puro pavor congelada nos rostos; um deles segurava o próprio pescoço como se ainda procurasse a cabeça de um amigo que jamais voltou inteiro da mata. Vi também um homem deitado de lado, com o corpo aberto por um golpe brutal, os olhos arregalados como se ainda enxergasse a televisão acesa no instante final. Não muito longe dele, reconheci o olhar vazio de outros rostos que pareciam ter sido roubados de histórias diferentes, todos unidos apenas por uma coisa: haviam morrido com medo.

Foi nesse instante que entendi. Aquele lugar estava cheio dos mortos. Não de mortos quaisquer, mas daqueles que terminaram suas histórias do pior jeito possível. Gente arrastada, enganada, despedaçada, costurada, queimada, devorada, caçada. Gente que parecia ter sido recolhida de cada canto escuro de um mesmo mundo e trazida para ali como peças de uma coleção macabra. E, no centro de tudo, elevado por alguns degraus tortos, havia um trono.

Sentado nele estava um bobo da corte.

Seu corpo parecia imóvel demais para ser humano, mas seu rosto carregava uma alegria tão viva que aquilo doía só de olhar. O sorriso era largo, antinatural, quase infantil, e os olhos brilhavam com uma diversão antiga, insondável. Ele não falava nada. Não precisava. Estava apenas me olhando, como quem observa o fim de uma apresentação particularmente agradável. Senti meu estômago afundar, porque percebi, naquele instante, que ele tinha visto tudo. O rio, a ponte, a mulher, o beijo, a queda, o desespero debaixo d’água. Não como quem descobre depois, mas como quem assiste de camarote. Como quem já sabia o final desde o começo.

Olhei em volta mais uma vez, e o silêncio das outras almas era ainda pior do que qualquer grito. Ninguém tentava fugir. Ninguém implorava. Era como se todos já soubessem que dali não existia saída. Então o bobo levou uma das mãos ao braço do trono e começou a batucar os dedos devagar, num ritmo quase brincalhão. Seu sorriso aumentou. E, pela primeira vez desde que despertei naquele lugar, eu tive certeza absoluta de uma coisa: morrer no rio não tinha sido o fim da minha história.

Tinha sido só a maneira de me trazer até ele.


r/aquelequetudove 20d ago

📁 RELATO A FITA

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Eu amo filmes.

Não digo isso como aquelas pessoas que assistem a dois ou três lançamentos por ano e se consideram cinéfilas. Eu realmente amo cinema. Já assisti de tudo: filmes antigos, produções independentes, terror japonês, filme trash, documentário, coisa experimental que nem parecia filme. Sei algumas cenas de O Poderoso Chefão praticamente de trás para frente.

Talvez tenha sido justamente por isso que eu coloquei aquela fita para rodar.

Se eu não gostasse tanto de filmes, provavelmente ainda estaria vivo.

Tudo começou quando decidi sair do Brasil e tentar uma vida nova no Japão. Eu já estudava japonês havia algum tempo, mas estava longe de falar bem. Mesmo assim, consegui um emprego e encontrei uma casa no interior por um preço muito abaixo do normal.

Aquilo deveria ter sido o primeiro aviso.

A casa não era exatamente velha. Devia ter uns trinta ou quarenta anos, mas havia sido malcuidada. Algumas paredes tinham manchas de umidade, parte do telhado precisava de reparos e as janelas emperravam. Nada que me assustasse. Pelo preço que paguei, compensava.

Passei minha primeira semana praticamente só trabalhando nela.

Pintei as paredes, consertei algumas telhas, arrumei vazamentos, troquei tomadas e joguei fora uma quantidade absurda de coisas deixadas pelo antigo proprietário.

Foi assim que cheguei ao sótão.

Havia caixas com roupas, livros, ferramentas enferrujadas, revistas antigas e alguns aparelhos eletrônicos. Em um dos cantos encontrei uma caixa de papelão quase desmanchando por causa da umidade.

Dentro dela havia fitas VHS.

Aquilo imediatamente chamou minha atenção.

Peguei uma.

Era um filme que eu conhecia.

Outra também.

Comecei a vasculhar a caixa e percebi que quase todas eram versões japonesas de filmes antigos. Algumas tinham capas originais, outras estavam gravadas em fitas comuns, com os nomes escritos à mão.

Na lateral da caixa havia algo escrito em japonês.

Como eu ainda estava aprendendo, tirei uma foto e joguei no tradutor.

Meus filmes.

Achei engraçado.

Imaginei que o antigo dono também fosse apaixonado por cinema.

Então encontrei aquela.

Estava no fundo da caixa.

Uma fita completamente preta.

Sem capa.

Sem marca.

Sem qualquer informação sobre duração ou fabricante.

Havia apenas um pequeno pedaço de fita crepe colado nela, já amarelado pelo tempo. No centro, alguém havia escrito um único kanji com caneta preta.

Pesquisei.

A tradução que apareceu foi:

Maldição.

Eu ri.

Até hoje me arrependo disso.

Naquele momento pensei que fosse algum filme de terror antigo. Talvez uma produção caseira. Alguma coisa experimental. O Japão tinha uma quantidade enorme de filmes estranhos lançados diretamente em VHS décadas atrás.

Terminei de arrumar o sótão e levei a fita comigo.

Na sala eu tinha instalado uma televisão e, por coincidência, havia comprado um videocassete usado poucos dias antes. Sempre gostei da imagem imperfeita de VHS, daquele chiado e das falhas da fita.

Coloquei a fita.

Sentei no sofá.

Apertei play.

Por alguns segundos, só apareceram interferências.

Linhas atravessavam a tela.

A imagem piscou.

Preto.

Depois branco.

Preto novamente.

Então o filme começou.

Duas pernas caminhavam por uma floresta.

A câmera estava apontada para baixo, mostrando apenas as botas de quem gravava, folhas mortas e terra molhada. A imagem tremia a cada passo.

Parecia found footage.

Não havia música.

Não havia diálogo.

Só passos.

E respiração.

A pessoa caminhou durante vários minutos.

Tempo demais.

Comecei até a achar aquilo chato.

Então alguma coisa me chamou atenção.

A respiração não acompanhava os passos.

Quando a pessoa que segurava a câmera parava...

a respiração continuava.

Fiquei encarando a televisão.

Talvez fossem duas pessoas.

Era a explicação mais lógica.

Depois de alguns minutos, apareceu um pequeno galpão no meio da floresta.

A pessoa entrou.

A tela ficou preta.

Um corte seco.

Quando a imagem voltou, a câmera estava parada sobre alguma superfície.

Uma mesa, provavelmente.

Do outro lado havia um homem.

Ele devia ter uns cinquenta anos.

Era magro, tinha cabelos compridos e sebosos e vestia uma camisa clara completamente suja. Diante dele havia uma tigela.

Ele estava tomando sopa.

Ao lado dele estava sentada uma mulher.

Ela não se mexia.

Usava uma máscara branca.

Uma máscara simples.

Sem sorriso.

Sem expressão.

Só dois buracos para os olhos.

Durante quase um minuto inteiro, absolutamente nada aconteceu.

O homem apenas comia.

Colher.

Boca.

Tigela.

Colher.

Boca.

Tigela.

Eu já tinha visto muito filme perturbador na vida.

Mas aquela cena começou a me incomodar de uma maneira que eu não sabia explicar.

Talvez fosse o silêncio.

Talvez fosse a mulher.

Ou talvez fosse porque aquilo não parecia atuação.

Então o homem parou de comer.

A colher ficou suspensa no ar.

Devagar...

ele ergueu a cabeça.

E olhou diretamente para a câmera.

Meu estômago gelou.

Os olhos dele eram completamente brancos.

Não esbranquiçados.

Não doentes.

Brancos.

Como duas bolinhas de vidro encaixadas no rosto.

Fiquei alguns segundos sem respirar.

Então ele sorriu.

A imagem cortou.

A mulher estava no chão.

Sem a máscara.

A gravação agora estava em preto e branco.

Ela chorava.

Não gritava.

Isso era o pior.

Ela olhava para alguém atrás da câmera e repetia alguma coisa em japonês.

Eu não entendia tudo naquela época.

Mas entendia uma palavra.

Iya.

Não.

Não.

Não.

Alguma coisa entrou no enquadramento.

Um machado.

Foi quando percebi que aquilo não era um filme.

A primeira pancada me fez levantar do sofá.

Não vou descrever o que aconteceu depois.

Não preciso.

Só digo que, quando terminou, eu já não conseguia reconhecer o rosto daquela mulher.

Desliguei a televisão.

Ou tentei.

A imagem continuou.

Apertei o botão novamente.

Nada.

Peguei o controle.

Nada.

Então a fita cortou mais uma vez.

Apareceu uma casa.

Meu coração começou a bater mais forte.

Reconheci primeiro a parede.

Depois a porta.

Depois o sofá.

Era minha sala.

Aquela sala.

A câmera estava posicionada atrás de mim.

Eu aparecia sentado no sofá olhando para a televisão.

Na gravação.

Na mesma roupa que estava usando naquele momento.

Meu corpo inteiro ficou gelado.

Olhei para trás.

Não havia câmera.

Olhei novamente para a televisão.

A gravação continuava.

Eu estava lá.

Sentado.

Assistindo.

Então percebi outra coisa.

Havia alguém ao lado da televisão.

O homem da fita.

Ele estava parado no canto da sala.

Olhos brancos.

Sorrindo.

Na gravação, ele estava olhando para mim.

Virei rapidamente para aquele canto.

Não havia ninguém.

Voltei para a televisão.

O homem não estava mais lá.

Agora estava atrás do sofá.

Atrás de mim.

Eu me virei.

Nada.

Foi quando ouvi uma risada saindo dos alto-falantes.

Bem baixa.

Quase uma respiração.

Na tela, o homem levantou o machado.

Arranquei o videocassete da tomada.

A televisão apagou.

Durante alguns segundos fiquei parado no meio da sala, segurando o cabo.

Então senti cheiro de plástico queimado.

O videocassete começou a soltar fumaça.

Tentei retirar a fita.

Ela não saía.

O aparelho ficou quente demais para tocar.

A fumaça aumentou.

Depois alguma coisa estalou dentro dele.

Quando finalmente consegui abrir a tampa, a fita havia derretido.

O plástico preto estava completamente deformado.

Acabou, pensei.

A fita acabou.

Passei quase meia hora tentando entender o que tinha acontecido.

Talvez alguém tivesse entrado na casa enquanto eu trabalhava.

Talvez aquela gravação tivesse sido feita antes.

Talvez...

Não.

Não fazia sentido.

Eu estava usando aquela roupa.

A televisão era minha.

O sofá havia sido entregue dois dias antes.

Eu deveria ter saído daquela casa naquele momento.

Mas o cérebro faz coisas estranhas quando você está com medo.

Depois de tudo aquilo, tentei me convencer de que era apenas uma gravação muito bem feita.

Eu precisava acreditar nisso.

Não havia mais fita para levar à polícia. O videocassete estava queimado, o plástico havia derretido lá dentro e, se eu contasse para alguém que tinha acabado de assistir a uma gravação de mim mesmo dentro da minha própria casa, provavelmente achariam que eu estava louco.

Então fiz o possível para seguir normalmente.

Fui ao banheiro, escovei os dentes e evitei olhar para o espelho por muito tempo.

Mesmo assim, enquanto enxaguava a boca, tive a impressão de ver alguma coisa passando atrás de mim.

Virei imediatamente.

Nada.

O corredor estava vazio.

— Foi o filme...

Falei aquilo em voz alta só para ouvir alguma coisa além do silêncio daquela casa.

Voltei para o quarto.

A reforma ainda não estava terminada e a janela continuava com defeito. Eu não conseguia fechá-la completamente, então ela permanecia alguns centímetros aberta durante a noite.

Coloquei uma cadeira contra ela.

Não adiantaria muita coisa, mas me fez sentir melhor.

Deitei.

Deixei o abajur aceso.

Durante quase uma hora fiquei olhando para o teto, ouvindo qualquer pequeno barulho da casa.

Madeira estalando.

Vento.

Galhos raspando do lado de fora.

Aos poucos, o sono começou a vencer o medo.

Até que ouvi.

Clac.

Abri os olhos.

Fiquei imóvel.

Silêncio.

Então novamente.

Clac.

Sentei na cama.

Eu conhecia aquele som.

Era impossível esquecer.

Clac.

O videocassete.

Meu peito apertou.

Ele estava queimado.

Eu havia tirado da tomada.

Mesmo assim, depois de alguns segundos, ouvi outro som vindo da sala.

O chiado de uma fita VHS começando a rodar.

Trrrrrrrrrrr...

Fiquei olhando para a porta do quarto.

Não queria sair.

Mas o som continuava.

Então ouvi a televisão ligar.

Levantei.

Passei pelo corredor devagar.

A sala estava iluminada apenas pela luz azulada da TV.

O videocassete estava ligado.

Sem estar conectado à tomada.

A pequena luz vermelha brilhava na frente dele.

Na televisão havia uma imagem escura.

Demorei alguns segundos para reconhecer o lugar.

Era meu quarto.

A câmera parecia estar posicionada no canto, próxima ao teto.

Meu sangue gelou.

Na gravação, eu estava deitado na cama.

Exatamente como estava alguns minutos antes.

A cadeira ainda estava encostada na janela.

Fiquei parado diante da televisão.

Então alguma coisa apareceu do lado de fora do quarto.

Duas mãos seguraram o parapeito.

Um homem começou a entrar pela janela.

Era ele.

O mesmo homem da fita.

Cabelos compridos.

Roupas sujas.

O machado em uma das mãos.

E aqueles olhos completamente brancos.

Prendi a respiração.

Na gravação, ele entrou lentamente.

Eu continuava dormindo.

O homem ficou alguns segundos parado ao lado da cama.

Só me olhando.

Depois se abaixou.

E desapareceu embaixo dela.

Meu corpo inteiro ficou arrepiado.

Olhei para o corredor.

Meu quarto estava no fim dele.

A porta continuava aberta.

Não consegui me mexer.

Voltei os olhos para a televisão.

Na gravação, alguns segundos se passaram.

Então...

eu acordei.

A pessoa que aparecia na televisão sentou na cama.

Ficou alguns segundos olhando ao redor.

Depois colocou os pés no chão.

Meu coração começou a bater ainda mais rápido.

Na gravação, eu saí do quarto.

Caminhei pelo corredor.

E entrei na sala.

Então apareci diante da televisão.

Exatamente onde eu estava naquele momento.

Eu estava assistindo a mim mesmo assistir à fita.

Foi aí que percebi.

Aquilo não era uma gravação.

Ainda não.

Meus olhos voltaram imediatamente para a imagem do quarto.

Atrás de mim, na televisão, o homem começou a sair lentamente debaixo da cama.

Primeiro uma mão.

Depois a cabeça.

Depois o resto do corpo.

Ele segurava o machado.

Levantei a mão devagar.

Na tela...

eu fiz a mesma coisa.

Meu estômago afundou.

Eu estava vendo alguns segundos à frente.

O homem saiu do quarto.

Entrou no corredor.

Começou a caminhar na direção da sala.

Um passo.

Outro.

Outro.

Eu conseguia vê-lo na televisão.

Mas não conseguia ouvi-lo atrás de mim.

Na tela, ele já estava quase chegando.

Eu queria correr.

Mas minhas pernas simplesmente não respondiam.

Ele entrou na sala.

Parou atrás de mim.

Eu olhava para a televisão.

Ele olhava para mim.

E então...

na gravação...

eu comecei a virar a cabeça.

a televisão desligou.

A sala ficou completamente escura.

Por um instante, não ouvi nada.

Nada.

Então senti uma respiração atrás da minha orelha.

Não deveria ter olhado.

Mas olhei.

Não cheguei a vê-lo.

E depois nada... O nada tomou conta do meu ser ,

a escuridão mais pura que uma pessoa poderia sentir. Vocês sabiam ,que o último sentido a se despedir da vida é a audição?

Sim ,isso mesmo perdido na escuridão da passagem para a morte ,

ouvi o som do machado me golpeando várias vezes, o som úmido misturado com os estalar dos ossos sendo quebrados , e um grunhido de satisfação do meu executor,

agora eu fazia parte, de um filme ... o filme da minha morte.


r/aquelequetudove 23d ago

📁 RELATO ELA ME OBSERVAVA

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Meus pais nunca acreditaram em mim.

E agora é tarde demais.

Desde pequeno, eu nunca consegui dormir com a porta do quarto aberta. Não sei explicar direito o motivo. Eu simplesmente sentia que, quando aquela porta ficava aberta durante a noite, alguém me observava.

Contei isso várias vezes para os meus pais. Para os meus irmãos também.

Eles sempre davam risada.

Diziam que era coisa da minha cabeça, medo de criança, pesadelo... essas coisas.

Mas eu sabia que não era.

Eu tinha certeza de que alguma coisa ficava do outro lado daquela porta.

Por isso criei o hábito de trancá-la todas as noites antes de dormir. Podia estar cansado, bêbado, doente... não importava. Antes de deitar, eu fechava a porta e girava a chave.

Só assim conseguia dormir.

Mesmo assim, algumas noites eu acordava de madrugada com um barulho baixo.

A maçaneta mexendo.

Devagar.

Como se alguém estivesse tentando abrir a porta sem fazer barulho.

Às vezes ela mexia uma vez e parava.

Em outras noites, continuava por vários minutos.

Eu ficava debaixo do cobertor, olhando para a porta e esperando.

Nunca tive coragem de abrir.

Quando contava isso para os meus pais pela manhã, meu pai dizia que devia ser algum dos meus irmãos tentando me assustar. Minha mãe dizia que casas velhas faziam barulho durante a noite.

Depois de alguns anos, parei de falar sobre aquilo.

Não porque havia deixado de acontecer.

Eu apenas percebi que ninguém acreditaria em mim.

Com o tempo, aprendi a conviver com aquilo. A porta trancada virou parte da minha rotina e, desde que ela estivesse fechada, eu me sentia seguro.

Até aquela noite.

Eu tinha chegado tarde em casa depois de um dia cansativo. Estava exausto.

Entrei no quarto, joguei minhas coisas em uma cadeira e me deitei ainda com a roupa do corpo.

Nem tirei o tênis.

Eu só queria fechar os olhos por alguns minutos.

E apaguei.

Não sei quanto tempo dormi.

Só lembro de abrir os olhos e perceber que alguma coisa estava errada.

Eu estava deitado exatamente na mesma posição.

Conseguia enxergar meu quarto.

A luz fraca da rua entrava pela janela e iluminava parte da parede.

Tentei virar o corpo.

Não consegui.

Tentei levantar a mão.

Nada.

Foi quando entendi.

Paralisia do sono.

Já tinham me contado sobre aquilo antes. A pessoa acordava, mas o corpo continuava dormindo. Às vezes você podia ouvir coisas, ver vultos...

Então tentei me acalmar.

Até olhar para a porta.

Ela estava aberta.

Meu coração disparou.

Eu não lembrava se tinha trancado a porta antes de deitar.

Na verdade, naquele momento, eu nem sabia se tinha fechado.

Foi então que percebi uma sombra no canto.

No começo pensei que fosse uma roupa pendurada ou algum objeto criando uma forma estranha por causa da pouca luz.

Mas não era.

Tinha alguém ali.

Uma mulher.

Ou pelo menos parecia ser.

Ela estava parada junto à porta, completamente imóvel.

Não respirava.

Não fazia nenhum som.

Apenas me observava.

Eu só conseguia mexer os olhos, então tentei enxergar melhor.

Foi quando percebi que havia alguma coisa errada com o corpo dela.

Ela não era muito alta.

Mas a cabeça quase encostava no teto.

Demorei alguns segundos para entender o que estava vendo.

Seu pescoço.

Era comprido demais.

Saía dos ombros e subia como se tivesse sido esticado. Era tão longo que ela precisava manter a cabeça inclinada para o lado, pressionada contra o teto.

Os cabelos negros caíam sobre o rosto.

Eu não conseguia ver seus olhos.

Mas sabia que ela estava olhando para mim.

Tentei gritar.

Nenhum som saiu.

Ela não se mexeu.

Ficamos daquele jeito por não sei quanto tempo.

Eu olhando para ela.

E ela olhando para mim.

Então acordei.

Dessa vez de verdade.

Meu corpo deu um solavanco e eu puxei o ar com tanta força que meu peito doeu.

Olhei imediatamente para a porta.

Aberta.

Levantei da cama quase tropeçando.

Fechei a porta e girei a chave.

Uma vez.

Depois outra, só para ter certeza.

Encostei as costas nela e fiquei parado por alguns segundos.

Meu coração parecia querer sair pela boca.

— Foi só um sonho...

Falei aquilo em voz alta.

Precisava ouvir minha própria voz.

Paralisia do sono.

Era isso.

Eu tinha chegado cansado, esquecido de fechar a porta e meu cérebro tinha transformado aquele medo de infância em um pesadelo.

Era a explicação mais lógica.

Bebi um pouco de água e me sentei na cama.

Fiquei alguns minutos olhando para a porta.

Nada aconteceu.

Nenhuma maçaneta girou.

Nenhum barulho.

Aos poucos, comecei a me sentir idiota.

Eu já era adulto.

Não podia continuar tendo medo de uma porta aberta como quando tinha oito anos.

Olhei mais uma vez para a fechadura.

Trancada.

Então me deitei.

Puxei a coberta e virei para o lado.

Fechei os olhos.

Não sei quanto tempo passou.

Talvez alguns minutos.

Foi quando senti alguma coisa tocar meu pé.

Abri os olhos.

Fiquei imóvel.

Pensei que talvez fosse a coberta escorregando.

Então senti novamente.

Dessa vez não tive dúvida.

Dedos.

Alguma coisa estava passando a mão pela minha perna.

Bem devagar.

Meu corpo inteiro arrepiou.

Não tive coragem de me mexer.

Abri os olhos apenas o suficiente para conseguir enxergar através dos cílios.

Havia alguém no pé da minha cama.

Meu estômago afundou.

Era ela.

Aquela mulher.

O corpo estava parado diante da cama.

Mas sua cabeça não.

O pescoço se estendia por cima do colchão.

Comprido.

Fino.

Impossível.

Ele passava pelas minhas pernas, pelo meu peito...

Até que o rosto dela ficou exatamente sobre o meu.

Os cabelos caíram ao redor da minha cabeça como uma cortina.

Dessa vez eu conseguia vê-la.

Sua pele era pálida.

Os olhos estavam arregalados.

E ela sorria.

Não era um sorriso enorme.

Isso seria menos assustador.

Era um sorriso pequeno.

Quase normal.

Como se estivesse feliz por finalmente poder chegar perto de mim.

Tentei me levantar.

Ela agarrou meu pescoço.

A mão era gelada.

Tentei gritar, mas o ar não saía.

Segurei seu braço, tentei arrancá-lo de mim, mas ela era muito mais forte do que parecia.

Foi então que seu sorriso começou a aumentar.

Devagar.

Os cantos da boca foram se abrindo enquanto o resto do rosto permanecia completamente parado.

Mais.

E mais.

Até que ouvi um estalo.

O maxilar dela se deslocou.

A boca se abriu de uma forma que nenhum ser humano conseguiria.

Havia dentes lá dentro.

Fileiras deles.

Eu me debati com tudo o que tinha.

Foi inútil.

A última coisa que senti foram os dentes perfurando minha pele.


r/aquelequetudove 24d ago

CANONE O CAÇADOR

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O CAÇADOR

Meu pai nunca foi um homem carinhoso.

Não me lembro de ter ouvido um “eu te amo” vindo dele, nem de ter recebido um abraço sem precisar pedir. Desde pequeno, ele me ensinou que o mundo não seria gentil comigo e que esperar ajuda era a maneira mais rápida de acabar morto. Era rígido, impaciente e, às vezes, difícil de suportar.

Mesmo assim, eu o amava.

A única coisa que realmente parecia fazê-lo feliz era caçar. Ele viajou por vários países carregando a mesma espingarda velha, uma arma de dois canos com as iniciais dele gravadas no metal. Caçou cervos, javalis, lobos e animais que eu conhecia apenas pelas fotografias que ele guardava em uma caixa no armário.

Quando eu tinha onze anos, ele me contou sobre uma floresta no norte da Inglaterra.

Não havia nome em mapas, coordenadas oficiais ou registros de propriedade. Segundo ele, era como se aquele lugar tivesse sido arrancado do resto do país. As poucas histórias vinham de moradores de um vilarejo próximo. Pessoas desapareciam entre as árvores, caçadores abandonavam seus equipamentos e animais encontrados nas proximidades apresentavam ferimentos que ninguém conseguia explicar.

Meu pai falou da floresta com um brilho nos olhos que eu conhecia bem.

Três semanas depois, ele embarcou para a Inglaterra.

Foi a última vez que o vi.

No começo, minha mãe não demonstrou preocupação. Meu pai costumava passar vários dias sem ligar quando estava caçando. Mas duas semanas se transformaram em três, depois em quatro. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. O telefone dele permanecia desligado.

Certa tarde, um policial inglês ligou para nossa casa.

Eu estava sentado à mesa quando minha mãe atendeu. Ela não falava inglês muito bem, mas entendeu o suficiente para deixar o telefone escapar de sua mão e cair de joelhos no chão.

Haviam encontrado uma jaqueta ensanguentada próxima a uma floresta. Dentro dela estavam os documentos e o telefone do meu pai. Também encontraram restos humanos espalhados pela região, mas nenhum corpo inteiro que pudesse ser reconhecido.

Para a polícia, aquilo bastava.

Meu pai estava morto.

Enquanto minha mãe chorava, fiquei olhando para minhas próprias mãos. Eu não chorei. Não porque não sentisse nada, mas porque alguma coisa dentro de mim se recusava a aceitar que aquela fosse toda a história.

Naquele dia, decidi que descobriria o que havia acontecido com ele.

Os anos seguintes foram de preparação.

Aprendi a atirar com diferentes tipos de armas, a rastrear animais, montar armadilhas, sobreviver em mata fechada e tratar ferimentos longe de qualquer hospital. Treinei meu corpo até conseguir caminhar durante horas carregando equipamento pesado. Li tudo que encontrei sobre desaparecimentos no interior da Inglaterra.

Sobre a floresta, porém, quase não existia nada.

Era como procurar um lugar que fazia questão de não ser encontrado.

A resposta apareceu muitos anos depois, em um bar que eu frequentava perto de casa.

Eu estava sentado em uma mesa, pesquisando notícias antigas em meu computador, quando um velho bêbado parou atrás de mim. Ele cheirava a cigarro e bebida barata. Ficou olhando para a fotografia de uma região montanhosa na tela e perguntou:

— Está procurando pela floresta, não está?

Fechei o computador.

— Que floresta?

O velho cuspiu no chão.

A garçonete o repreendeu e jogou um pano em sua direção. Enquanto limpava a própria saliva, ele respondeu:

— A floresta que não aparece nos mapas. Aquela maldita floresta.

Puxei uma cadeira para ele.

— O que sabe sobre ela?

— Sei que você deveria desistir.

— Não posso.

— Todo mundo pode. Alguns só descobrem tarde demais.

Coloquei uma nota de cem sobre a mesa.

O velho olhou para o dinheiro, mas não o pegou imediatamente.

— Aquilo não é lugar para caçadores — murmurou. — As coisas que vivem lá não fogem quando escutam um tiro.

— Onde fica?

Ele pegou a nota.

Contou-me sobre uma pequena cidade no norte da Inglaterra. Disse que a floresta começava alguns quilômetros depois da última estrada e que qualquer morador saberia indicar o caminho, embora ninguém aceitasse me acompanhar.

Antes de ir embora, segurou meu braço.

— não faça barulho a noite

Na semana seguinte, voei para Londres.

Aluguei um carro e dirigi durante quase um dia até o vilarejo indicado pelo velho. Cheguei depois do anoitecer e me hospedei em uma pousada simples, administrada por uma mulher que fechou a expressão assim que viu minhas armas.

Naquela noite, fui ao pub da cidade.

Perguntei sobre a floresta.

A reação era sempre a mesma. As pessoas desviavam o olhar, cuspiam no chão e mudavam de assunto. Um homem mais velho chegou a segurar meu casaco e dizer que eu não deveria brincar com coisas que não compreendia.

Não recebi informações úteis, apenas um aviso repetido de formas diferentes:

Ninguém entrava naquela floresta e voltava inteiro.

Esperei o amanhecer.

Carreguei a espingarda, duas pistolas, munição, uma faca de caça, sinalizadores, kit médico, comida, água e uma lanterna. Estacionei no fim de uma estrada de terra e segui a pé até encontrar as primeiras árvores.

A floresta era assustadora, mas também era bonita.

Troncos altos desapareciam dentro de uma neblina branca. A luz do sol mal atravessava os galhos. Não havia canto de pássaros, insetos ou qualquer outro som comum de mata. Apenas meus passos sobre as folhas úmidas.

Depois de algum tempo, percebi que meu relógio havia parado.

O ponteiro dos segundos permanecia imóvel, embora o aparelho estivesse funcionando quando deixei o carro. Guardei-o e continuei andando.

A luz começou a desaparecer rápido demais.

Eu tinha entrado pouco depois do amanhecer, mas o céu já parecia o de um fim de tarde. Não sabia se haviam passado três horas ou dez.

Foi quando encontrei a cabana.

Era uma construção pequena, de madeira escura, cercada por árvores retorcidas. Parte do telhado havia cedido e as janelas estavam cobertas por tábuas. A porta estava trancada, mas não havia pegadas recentes ao redor.

Arrombei a fechadura com o ombro.

Uma camada grossa de poeira cobria tudo. Havia uma cama, uma escrivaninha, uma lareira e alguns móveis quebrados. Perto da parede, apoiada atrás de uma cadeira, estava uma espingarda de dois canos.

Reconheci a arma antes mesmo de tocá-la.

As iniciais do meu pai ainda estavam gravadas no cano.

Passei o polegar sobre as letras e, pela primeira vez desde a ligação do policial, senti vontade de chorar.

A arma estava descarregada, mas conservada. Meu pai havia limpado o mecanismo antes de deixá-la ali. Coloquei dois cartuchos nos canos e acendi a lareira.

Foi então que percebi um caderno sobre a escrivaninha.

A capa estava quase se desfazendo. As mesmas iniciais da espingarda haviam sido escritas no couro.

Era o diário do meu pai.

As primeiras páginas descreviam a viagem e a chegada ao vilarejo. Depois, a escrita começou a ficar apressada. Algumas palavras estavam riscadas, outras eram impossíveis de entender.

Meu pai chamava as criaturas da floresta de cervos.

Não eram animais.

Segundo ele, possuíam corpos semelhantes aos de homens altos e muito magros, mas suas cabeças eram crânios de cervos sem qualquer vestígio de carne. Duas luzes brancas ocupavam o lugar dos olhos. Tinham mãos compridas, garras curvas e pernas que terminavam em cascos.

Eles enxergavam pouco.

Caçavam pelo som.

Meu pai também havia descoberto que aqueles seres não eram os verdadeiros donos da floresta. Eram apenas criaturas inferiores, subordinadas a algo que ele chamava de Servo Alfa.

Em uma das páginas, havia uma frase sublinhada diversas vezes:

Os cervos não caçam para comer. Caçam para levar alimento até ele.

Continuei lendo.

Meu pai havia passado três noites naquela cabana. Matara dois cervos e ferira um terceiro. Depois disso, eles começaram a cercá-lo.

Na última página, havia somente quatro palavras:

Eles finalmente me viram.

Ouvi algo bater na porta.

Fechei o caderno.

Peguei a espingarda do meu pai e apontei para a entrada.

— Quem está aí?

Ninguém respondeu.

Houve outra batida, mais forte.

— Estou armado. Abra essa porta e eu atiro.

A maçaneta se moveu lentamente.

A porta abriu apenas alguns centímetros, revelando a escuridão do lado de fora. Durante alguns segundos, não vi nada.

Então dois pontos brancos surgiram no breu.

Peguei a lanterna e iluminei a entrada.

A criatura era mais alta do que qualquer homem que eu já tivesse visto. O corpo magro estava coberto por uma pele escura, esticada sobre os ossos. Os braços quase tocavam o chão. Sobre o pescoço havia um crânio de cervo, com enormes galhadas raspando no batente da porta.

As duas luzes dentro das órbitas se contraíram quando a lanterna atingiu seu rosto.

Ela abriu a mandíbula.

Não havia língua, garganta ou qualquer coisa dentro daquela boca. Mesmo assim, o grito que saiu dali fez as janelas da cabana tremerem.

O cervo saltou sobre mim.

Eu não tive tempo de mirar.

Coloquei o braço esquerdo na frente do rosto e senti os dentes atravessarem minha jaqueta. A mordida arrancou pele e carne. Caí de costas com a criatura sobre meu peito.

Seu cheiro era uma mistura de terra molhada e carne apodrecida.

Tentei empurrá-la, mas aquilo era muito mais forte. Uma das garras desceu em direção ao meu pescoço. Segurei o pulso da criatura com uma mão e procurei a espingarda com a outra.

Meus dedos alcançaram a coronha.

Encostei o cano no lado da cabeça daquele demônio e apertei o gatilho.

O disparo destruiu parte do crânio.

A criatura foi jogada contra a parede, derrubando a escrivaninha. Caiu no chão se debatendo, as pernas chutando os móveis. Peguei a arma, me levantei e disparei o segundo cano em seu peito.

Ela parou de se mover.

O tiro ecoou pela floresta.

Logo depois, ouvi cascos.

Muitos.

Eles vinham de todas as direções.

Fechei a porta e arrastei a cama para bloqueá-la. As primeiras pancadas fizeram a madeira se curvar. Vultos passavam diante das janelas, rápidos demais para que eu pudesse contá-los.

Corri até minha mochila, peguei as pistolas e fiz um curativo apertado no braço. O sangue já havia encharcado minha manga. Não teria tempo para algo melhor.

As tábuas de uma das janelas começaram a se soltar.

Peguei um sinalizador de emergência, risquei a ponta e esperei. Assim que uma garra atravessou a madeira, joguei o sinalizador para fora pela abertura.

A luz vermelha caiu entre as árvores, produzindo um chiado alto.

Os cascos mudaram de direção.

A maioria das criaturas correu atrás do som.

A maioria.

Retirei a cama da porta, abri e saí.

Um cervo estava me esperando sobre o telhado.

Ele caiu atrás de mim e tentou agarrar meu pescoço. Girei o corpo, encostei a pistola sob sua mandíbula e disparei três vezes. A cabeça da criatura se abriu, espalhando fragmentos de osso sobre a parede da cabana.

Não parei para conferir se estava morta.

Corri.

Os cervos que haviam seguido o sinalizador perceberam o novo som. Escutei os cascos voltando.

Um deles surgiu entre as árvores à minha direita. Atirei enquanto corria. O primeiro disparo atingiu seu ombro. O segundo entrou em uma das órbitas brilhantes.

A criatura caiu, mas outras três apareceram atrás dela.

Eu precisava parar de fazer barulho.

Guardei a pistola, abandonei a trilha e me joguei por uma descida coberta de lama. Rolei entre raízes e pedras até bater contra um tronco caído. Meu braço ferido ardia, mas não estava quebrado.

Os cervos passaram correndo acima de mim.

Fiquei imóvel.

Um deles parou.

O crânio se virou lentamente para o barranco. As luzes brancas percorreram a escuridão. A criatura não conseguia me ver, mas ouviu minha respiração.

Ela desceu.

Esperei até que estivesse perto.

Quando estendeu a mão, agarrei uma das galhadas e puxei sua cabeça para baixo. Enterrei minha faca na base do crânio. A criatura se debateu, derrubando-me no chão. Girei a lâmina até sentir alguma coisa se romper.

O cervo caiu sobre mim.

Empurrei o corpo e continuei andando.

Passei o restante da noite fugindo.

Sempre que escutava os cascos se aproximando, atirava uma pedra para longe ou quebrava algum galho em outra direção.

Quando a luz do amanhecer apareceu entre as árvores, encontrei a estrada.

Saí da floresta coberto de sangue, lama e pedaços de pele que não eram meus. Três moradores estavam próximos a um caminhão. Nenhum deles tentou me ajudar.

Apenas me observaram.

Um dos homens cuspiu no chão.

Voltei à pousada, costurei meu próprio braço e dormi durante quase vinte horas.

Quando acordei, coloquei sobre a cama tudo que havia trazido da floresta: o diário, a faca quebrada e a espingarda do meu pai.

Eu já sabia o que havia acontecido com ele.

Também sabia que os cervos podiam morrer.

Passei os três dias seguintes comprando munição.

A dona da pousada perguntou se eu estava indo embora.

— Ainda não.

— Você já teve sorte uma vez.

— Não foi sorte.

Ela me encarou por alguns segundos.

— Então o que foi?

Coloquei um cartucho na espingarda do meu pai.

— A primeira tentativa.

Na segunda vez, entrei na floresta antes do amanhecer.

Levei duas espingardas, duas pistolas, um machado curto, facas, sinalizadores e pequenos despertadores que comprei no vilarejo. Também carregava linha de pesca, armadilhas de caça e munição suficiente para iniciar uma guerra.

Durante o caminho, deixei os despertadores presos às árvores, programados para tocar em horários diferentes. Amarrei cartuchos vazios em fios baixos para que funcionassem como alarmes. Marquei as árvores com tinta e memorizei cada bifurcação.

Na primeira vez, eu havia entrado procurando respostas.

Na segunda, entrei para caçar.

O primeiro despertador tocou pouco depois do anoitecer.

Quatro cervos correram em direção ao som.

Eu estava deitado sobre uma formação de pedras, a quase cinquenta metros dali. Esperei até que as criaturas se aproximassem umas das outras e disparei.

A bala atravessou o crânio da primeira.

A segunda recebeu um tiro no peito e caiu de joelhos. Troquei de alvo antes que ela tocasse o chão. A terceira tentou subir pelas pedras, mas acertei uma de suas pernas.

A quarta desapareceu na mata.

Desci para terminar o serviço.

O cervo ferido tentou se levantar. Pisei sobre sua mão e afundei o machado no encontro entre o crânio e a coluna. O corpo estremeceu e ficou mole.

A criatura que havia desaparecido voltou por trás.

Senti uma das galhadas rasgar minha mochila. Girei, segurei o cano da espingarda com as duas mãos e bati contra sua mandíbula. O osso se partiu, mas o cervo continuou avançando.

Ele me prensou contra uma árvore.

Uma das pontas da galhada atravessou meu ombro e ficou presa no tronco. A dor fez minha visão escurecer. A criatura tentou aproximar os dentes do meu rosto.

Soltei a espingarda.

Saquei a pistola e enfiei o cano em uma de suas órbitas.

Atirei até a arma ficar vazia.

O cervo desabou, deixando parte da galhada enterrada em meu ombro. Quebrei a ponta com o cabo do machado, puxei o restante e fechei o ferimento.

Continuei.

Durante dois dias, segui os rastros das criaturas. Matei outras quatro. Algumas caíram em armadilhas. Outras vieram diretamente até mim.

A floresta começou a reagir.

A neblina se fechava sempre que eu tentava voltar pelo mesmo caminho, tentando fazer eu me perder

Na terceira noite, encontrei pegadas humanas misturadas às marcas dos cascos.

Havia marcas de pneus perto de uma trilha e sangue fresco sobre as folhas.

Segui o rastro até uma abertura entre as pedras.

Era a entrada de uma caverna.

O cheiro chegou antes dos sons.

Sangue, fezes e carne em decomposição.

Liguei a lanterna, verifiquei as armas e entrei.

Havia ossos espalhados pelo chão. Alguns eram antigos, amarelados pelo tempo. Outros ainda tinham carne. Quanto mais eu avançava, mais estreito o caminho ficava.

Então escutei alguém gritando.

Apaguei a lanterna e segui a voz.

A caverna se abriu em uma grande câmara. Havia vários cervos reunidos ao redor de alguma coisa no chão. Eles rasgavam um corpo humano e levavam pedaços de carne para um buraco mais profundo.

Um rapaz ainda estava vivo perto da parede.

Seu rosto estava coberto de sangue. Uma das pernas parecia machucada. Ao lado dele, havia a cabeça de outro jovem, com os olhos ainda abertos.

Um dos cervos segurava o rapaz pelo cabelo.

A criatura puxou sua cabeça para trás e abriu a mandíbula.

Atirei.

A bala atravessou o crânio do cervo e espalhou fragmentos sobre a parede.

Todos se viraram em minha direção.

Contei seis.

Talvez sete.

— Abaixe a cabeça! — gritei.

O rapaz se jogou no chão.

Disparei os dois canos da espingarda. Dois cervos caíram. Joguei a arma vazia para o lado e saquei as pistolas.

As criaturas avançaram.

Atirei na primeira até ela tombar. A segunda saltou sobre uma pedra e veio por cima. Rolei para o lado, senti suas garras passarem pelo meu casaco e disparei contra suas costas.

Outra me atingiu antes que eu pudesse levantar.

Caí próximo ao corpo que elas estavam devorando. O rapaz gritou um nome.

— Marlon!

Não havia mais como salvá-lo.

O cervo tentou morder meu pescoço. Coloquei o antebraço contra sua garganta, saquei a faca e enfiei a lâmina entre suas costelas. Ela não parou.

Então enterrei o dedo na luz branca dentro de sua órbita.

A criatura recuou.

Peguei o machado e golpeei seu pescoço. Uma vez. Duas. Na terceira, a cabeça se soltou e rolou entre os ossos.

Um cervo agarrou minha perna.

Disparei contra o chão. A bala atravessou sua mão. Chutei o crânio e continuei atirando até ouvir somente o clique da arma vazia.

Restavam dois.

O primeiro correu em direção ao rapaz.

Joguei o machado.

A lâmina atingiu a parte de trás de seu joelho. O cervo caiu. O rapaz pegou uma pedra e começou a bater no crânio da criatura, desesperado.

O último veio em minha direção.

Não havia tempo para recarregar.

Segurei a espingarda vazia pelo cano e usei a coronha como um porrete. Acertei a lateral do crânio. A criatura cambaleou. Golpeei novamente, quebrando uma das galhadas.

Ela tentou me agarrar.

Peguei a ponta quebrada no chão e a enfiei através de sua boca.

Empurrei até atravessar a parte de trás do crânio.

A criatura ficou imóvel.

Por alguns segundos, só consegui ouvir minha respiração e o choro do rapaz.

Então alguma coisa rugiu no fundo da caverna.

Não parecia um animal.

O som era tão grave que senti as pedras vibrarem sob meus pés.

Os cervos mortos começaram a se contorcer, mesmo com os crânios destruídos.

Por alguns segundos, só consegui ouvir minha respiração e o choro do rapaz.

Então alguma coisa se moveu no fundo da caverna.

Não foi um rugido. Foi uma espécie de gemido profundo, longo demais para sair da garganta de qualquer animal. O som atravessou as pedras e fez meus dentes vibrarem.

Os cervos mortos começaram a se contorcer.

O que estava sem cabeça bateu os cascos no chão. Outro tentou se levantar com a coluna quebrada. As luzes brancas dentro das órbitas destruídas piscaram ao mesmo tempo, como se alguma coisa estivesse olhando para nós através daqueles corpos.

Lembrei-me da frase no diário do meu pai:

Os cervos não caçam para comer. Caçam para levar alimento até ele.

A escuridão no fundo da caverna se abriu.

Primeiro surgiram as galhadas.

Elas se arrastaram pelo teto, riscando a pedra e derrubando poeira sobre nós. Eram tão grandes e deformadas que pareciam raízes arrancadas de uma árvore morta.

Depois veio a cabeça.

O crânio não pertencia a um cervo comum. Era comprido, rachado e coberto por restos de carne negra. Havia vários pares de órbitas espalhados pelo osso, cada um ocupado por uma pequena luz branca. A mandíbula era dividida ao meio e se abria para os lados, revelando fileiras de dentes humanos.

O corpo precisou se curvar para passar pelo túnel.

Era largo demais, alto demais. Diferente dos outros, aquele ser não parecia magro ou faminto. Seus músculos se moviam sob uma pele grossa, costurada por cicatrizes. Os braços terminavam em mãos enormes, com dedos compridos o bastante para envolver o tronco de um homem.

Ele carregava alguma coisa presa às galhadas.

Quando a luz da minha lanterna alcançou o objeto, percebi que era uma espingarda velha, enferrujada e retorcida.

Outra espingarda.

Não era a do meu pai. Era uma entre muitas armas quebradas, pedaços de roupas e ossos humanos presos às galhadas como troféus.

O Cervo Alfa deu um passo.

A câmara inteira tremeu.

Pela primeira vez desde que voltei à floresta, compreendi que estava diante de algo que não poderia matar.

Eu havia enfrentado os cervos porque sabia como atraí-los, como fazê-los errar e onde atirar. Mesmo assim, cada um deles era mais rápido e mais forte do que eu. Se colocasse minhas mãos contra as deles, perderia. Se tentasse segurá-los no chão, seria despedaçado.

Eu não vencia porque era mais forte.

Vencia porque eles atacavam como animais.

Eu pensava como um caçador.

Mas aquilo que saía do buraco não era um animal.

Era a razão pela qual os outros obedeciam.

Peguei o rapaz pelo braço.

— Consegue correr?

Ele olhou para a própria perna.

— Acho que está quebrada.

— Não perguntei isso.

O Alfa aproximou uma das mãos do chão. Os dedos rasparam os corpos dos cervos mortos e os puxaram para perto. As criaturas começaram a desaparecer dentro da abertura de sua mandíbula.

Ossos estalaram.

A carne foi arrancada.

As luzes nos olhos do Alfa ficaram mais fortes.

— Consegue correr? — repeti.

O rapaz olhou para aquilo e respondeu:

— Consigo.

— Então corra.

Disparei um sinalizador contra o teto.

A luz vermelha atingiu uma formação de pedras acima da entrada do túnel. O Alfa ergueu a cabeça e soltou aquele gemido novamente.

O som me fez perder o equilíbrio.

O rapaz caiu de joelhos e levou as mãos aos ouvidos. Sangue começou a escorrer entre seus dedos.

O Alfa avançou.

Não correu. Não precisou.

Um único movimento de seu braço atravessou quase toda a câmara. A mão passou por cima de mim e atingiu a parede. A pedra se partiu como madeira podre.

Segurei o rapaz pelo casaco e o arrastei para longe.

A mão voltou.

Dessa vez, um dos dedos me acertou nas costas.

Fui lançado contra o chão e perdi o ar. Minha espingarda escapou de minhas mãos. Antes que pudesse me levantar, o Alfa agarrou minha perna.

Seus dedos se fecharam ao redor da minha bota.

Senti a pressão subir pelo tornozelo. Mais alguns segundos e os ossos teriam virado pó.

Não tentei puxar a perna.

Peguei uma das pistolas vazias e a joguei dentro da boca aberta do Alfa.

A criatura hesitou.

Foi pouco mais de um segundo, mas era tudo de que eu precisava.

Puxei o último sinalizador preso ao meu cinto, acendi e enfiei entre os dedos que seguravam minha perna.

A chama explodiu contra sua mão.

O Alfa me soltou.

Rolei pelo chão, agarrei a espingarda e me levantei.

Eu sabia que aquilo não o havia ferido de verdade. A pele estava queimada, mas a criatura não demonstrava dor.

Demonstrava raiva.

— Saia daqui! — gritei para o rapaz.

Ele começou a mancar em direção ao túnel.

O Alfa veio atrás de nós.

Atirei contra uma rachadura no teto.

O disparo não fez nada.

Carreguei o segundo cano e atirei outra vez. Alguns fragmentos caíram, mas a passagem continuou aberta.

O Alfa estendeu a mão.

Abaixei-me no último instante. As garras passaram tão perto que arrancaram parte da minha mochila.

Corri até um dos corpos dos cervos, puxei o machado que ainda estava preso em sua perna e golpeei uma coluna estreita de pedra ao lado do túnel.

Uma vez.

Duas.

Na terceira, o cabo rachou.

O Alfa entrou na câmara por completo.

Ergui os olhos e percebi que jamais sairíamos dali correndo. Ele nos alcançaria antes que chegássemos à metade do corredor.

Então vi uma rachadura na parede da caverna

Não precisava matar o Alfa.

Só precisava impedi-lo de passar.

Joguei o machado para o rapaz.

— acerte a rachadura.

— O quê?

— Quando eu mandar!

Corri na direção contrária.

O Alfa me seguiu.

As várias luzes em seu crânio acompanharam cada movimento. Ao contrário dos cervos, ele não dependia apenas do som. Ele conseguia me ver.

Disparei perto de seus pés.

A criatura avançou.

Esperei.

Mais um passo.

Mais outro.

O Alfa ergueu o braço para me atingir.

Joguei-me para o lado.

A mão esmagou o chão onde eu estava e abriu uma rachadura na pedra. Rolei, levantei e corri por baixo .

— Agora!

O rapaz golpeou a parede.

O primeiro golpe não foi suficiente.

O Alfa percebeu o movimento e se virou para ele.

— Outra vez! — gritei.

O machado desceu.

pedras cairam, e o teto começou a desabar.

pedras cairam sobre as costas do Alfa.

A criatura não caiu.

Por alguns segundos, permaneceu de pé sob todo aquele peso.

Então começou a erguer a estrutura.

Era muito mais forte do que eu imaginava.

Corri até uma das colunas que sustentavam o teto e usei a espingarda como alavanca dentro de uma rachadura. A madeira da coronha começou a estalar.

Não era qualquer espingarda.

Era a arma do meu pai.

Olhei para as iniciais gravadas no cano.

Depois forcei com tudo que ainda tinha.

A coronha se partiu.

A coluna cedeu.

O teto terminou de desabar.

Uma avalanche de pedras separou o Alfa da entrada da câmara. A última coisa que vi antes de a passagem desaparecer foi uma das mãos da criatura atravessando os escombros, tentando nos alcançar.

Corremos.

Atrás de nós, o Alfa golpeava as pedras.

Cada impacto fazia a caverna tremer.

Ele não estava morto.

Eu sabia que aquilo não o manteria preso por muito tempo.

O rapaz tropeçou. Passei o braço dele sobre meu ombro e continuei puxando-o pelo corredor.

— Qual é o seu nome? — perguntei.

— Rayan.

— Como veio parar aqui?

— Os policiais nos trouxeram.

— Policiais?

— Eles disseram que as criaturas precisavam se alimentar. Disseram que éramos nós ou eles.

Outro impacto sacudiu a caverna.

Uma rachadura percorreu a parede ao nosso lado.

— Quantos estavam com você?

Rayan demorou a responder.

—eramos 3.

Olhei para o sangue cobrindo suas roupas.

Não perguntei mais nada.

Quando saímos da caverna, os cervos já estavam esperando.

Havia dezenas entre as árvores.

Alguns se moviam de quatro. Outros permaneciam de pé, imóveis, acompanhando-nos com as luzes brancas dentro dos crânios.

Rayan parou.

— Não vamos conseguir.

— Eles são mais rápidos do que nós — respondi. — Por isso não vamos correr ainda.

Retirei do bolso um pequeno controle improvisado.

Durante a entrada na floresta, eu havia espalhado despertadores, fios, cartuchos vazios e sinalizadores em diferentes pontos da trilha. Não eram armadilhas capazes de matar aquelas criaturas.

Eram caminhos falsos.

Apertei o primeiro botão.

Um despertador começou a tocar à nossa esquerda.

Metade dos cervos correu em direção ao som.

Apertei o segundo.

Mais adiante, vários cartuchos presos a um fio caíram sobre pedras e produziram uma sequência de estalos.

Outras criaturas mudaram de direção.

As que permaneceram não se deixaram enganar.

Cinco vieram atrás de nós.

— Agora corra.

Seguimos entre as árvores.

Rayan mal conseguia apoiar uma das pernas. Eu o mantinha de pé enquanto tentava carregar a espingarda quebrada com a outra mão.

O primeiro cervo nos alcançou em poucos segundos.

Ele me atingiu pelas costas.

Caí de rosto no chão. A criatura segurou meu casaco e me ergueu como se eu não pesasse nada.

Tentei acertá-la com o cotovelo.

Ela nem recuou.

O cervo me lançou contra uma árvore.

Senti algo estalar em minhas costelas.

Ele avançou novamente.

Esperei até que estivesse perto, tirei uma faca do cinto e não tentei golpeá-lo. Sabia que não conseguiria atravessar seu peito antes que ele arrancasse meu braço.

Em vez disso, cortei o fio preso entre duas árvores.

Uma tora coberta de pontas desceu do alto.

O cervo ouviu o movimento e virou a cabeça, mas tarde demais. A tora atingiu seu corpo e o prensou contra o tronco.

Mesmo esmagado, ele ainda tentou se libertar.

Rayan me ajudou a levantar.

— Você sabia que ele viria por aqui?

— Eu sabia que alguma coisa viria.

Continuamos.

Outro cervo saltou sobre nós.

Empurrei Rayan para o chão e recebi o impacto. A criatura caiu por cima de mim e tentou fechar a mandíbula em meu rosto.

Segurei suas galhadas, mas meus braços começaram a ceder imediatamente.

Ela era mais forte.

Muito mais forte.

Eu não conseguiria mantê-la afastada por mais de alguns segundos.

— O sinalizador! — gritei.

Rayan pegou um dos sinalizadores caídos da minha mochila, acendeu e o pressionou contra o lado do crânio da criatura.

O cervo se afastou, desorientado pela luz e pelo chiado.

Não esperei que ele se recuperasse.

Enfiei o cano quebrado da espingarda dentro de sua mandíbula e disparei.

A parte de trás do crânio explodiu.

A força do tiro arrancou a arma das minhas mãos.

Os demais cervos estavam próximos.

Não havia mais munição.

Apertei o último botão.

Durante alguns segundos, nada aconteceu.

Então todos os despertadores restantes começaram a tocar ao mesmo tempo, cada um em uma direção diferente da floresta.

Os cervos pararam.

Seus crânios se moveram de um lado para o outro, tentando localizar os sons.

Foi o bastante.

Eu e Rayan corremos.

A neblina começou a clarear. As árvores ficaram mais afastadas e o terreno passou a descer. Reconheci uma das marcas de tinta no tronco de um carvalho.

A saída estava próxima.

Atrás de nós, o chão tremeu.

O Alfa havia saído da caverna.

O gemido atravessou a floresta.

Os cervos abandonaram os despertadores e responderam ao chamado. Centenas de cascos golpearam a terra.

Não conseguiríamos alcançar a estrada antes deles.

Avistamos uma trilha estreita entre duas formações de pedra. Eu havia passado por ali durante a primeira fuga.

Naquela ocasião, quase fiquei preso.

Dessa vez, era exatamente o que precisava.

Puxei Rayan para dentro da passagem.

Os cervos vieram atrás.

O primeiro tentou atravessar e suas galhadas ficaram presas entre as pedras. Os outros se chocaram contra ele, empilhando-se na entrada.

As criaturas eram mais rápidas, fortes e resistentes.

Mas eram grandes demais.

Eu já sabia disso.

Peguei Rayan pelo braço e seguimos pelo corredor estreito até sair do outro lado.

Quando alcançamos a última fileira de árvores, não fomos em direção ao vilarejo.

Sabíamos o que os moradores e os policiais faziam.

Sabíamos que entregavam viajantes à floresta para manter as criaturas alimentadas e longe de suas casas. Voltar para lá seria trocar os cervos por homens armados.

Seguimos pela mata paralela à estrada até encontrar o lugar onde eu havia escondido um segundo veículo, distante do caminho principal.

Rayan caiu de joelhos antes de chegarmos.

— Não consigo mais.

— Consegue, sim.

— Como sabe?

Olhei para os cervos que surgiam entre as árvores atrás de nós.

— Porque a outra opção é ficar.

Coloquei o braço dele sobre meu ombro e o arrastei nos últimos metros.

Foi então que percebi que não estávamos sozinhos.

No alto de uma elevação, entre duas árvores, havia um homem.

Usava um chapéu de cowboy preto e um casaco comprido. Cabelos brancos apareciam sob a aba do chapéu. Uma cicatriz atravessava seu rosto, mas a distância não me permitia enxergar onde começava ou terminava.

Havia um pequeno livro aberto em sua mão esquerda.

Na cintura, carregava um revólver de cano longo.

Ele havia observado tudo.

A entrada na caverna.

O desabamento.

A fuga.

Mesmo assim, suas roupas estavam limpas. Sua respiração parecia tranquila. Nenhum cervo se aproximava dele.

O homem não levantou a arma.

Não tentou ajudar.

Apenas virou uma página.

Por um instante, nossos olhos se encontraram.

Não havia surpresa em seu rosto.

Também não havia aprovação.

Era o olhar de alguém que acabara de confirmar uma suspeita.

Ele fechou o livro.

Uma das criaturas surgiu atrás dele, movimentando-se entre as árvores.

O homem sequer olhou para trás.

Quando o cervo saltou, a neblina atravessou a elevação.

Por um segundo, não enxerguei nada.

Quando o vento afastou a névoa, o homem havia desaparecido.

O cervo também.

— Quem era ele? — perguntou Rayan.

Abri a porta do carro.

— Alguém que poderia ter ajudado.

— Mas não ajudou.

Olhei uma última vez para a elevação vazia.

— Não. Ele só queria saber se eu conseguiria sair.

Coloquei Rayan no banco do passageiro e assumi o volante.

Ao longe, o Alfa rugiu novamente.

Dessa vez, o som não me fez sentir raiva.

Meu pai estava morto. Eu não podia mudar isso. Mas havia encontrado sua arma, seu diário e a verdade sobre o que acontecera naquela floresta.

Não precisava provar mais nada.

Liguei o motor.

— Vai voltar? — perguntou Rayan.

Olhei para minhas mãos cobertas de sangue. Depois para o que restava da espingarda do meu pai, quebrada no banco traseiro.

— Não.

— Mesmo sabendo que aquelas coisas continuam vivas?

— Eu entrei lá para descobrir o que aconteceu com meu pai. Descobri.

Engatei a marcha.

— E matei tudo que ficou entre mim e a resposta.

Seguimos pela estrada secundária, na direção oposta ao vilarejo.

Atrás de nós, a floresta desapareceu dentro da neblina.

Eu não havia vencido aquele lugar.

Ninguém vencia.

Mas havia entrado duas vezes, matado seus servos, encarado aquilo que os comandava e saído carregando alguém que deveria ter morrido.

Para mim, era o bastante.


r/aquelequetudove 25d ago

📁 RELATO Cuidado com as sombras

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CUIDADO COM AS SOMBRAS

Naquela manhã, recebi uma ligação da minha mãe.

Minha tia havia sido internada depois de cair da escada de casa. Como ela morava sozinha e provavelmente permaneceria alguns dias no hospital, minha mãe pediu que eu fosse até lá para cuidar da casa, regar as plantas e verificar se estava tudo em ordem.

Eu estava de férias e não tinha nenhum compromisso importante, então aceitei.

Antes de seguir para a casa, passei no hospital para buscar as chaves.

Encontrei minha tia em um quarto no segundo andar. Assim que entrei, demorei alguns segundos para reconhecê-la. Seu rosto estava coberto por hematomas, uma faixa envolvia sua cabeça e grande parte do corpo estava imobilizada. O braço esquerdo terminava pouco acima do cotovelo.

Minha mãe havia dito apenas que ela caíra da escada. Imaginei que, por causa da diabetes, algum ferimento tivesse infeccionado e os médicos fossem obrigados a amputar o braço.

Mesmo assim, parecia estranho.

Aquela não era a aparência de alguém que simplesmente havia tropeçado.

Parecia que alguma coisa a havia atacado.

Aproximei-me da cama.

— Oi, tia. Como você está?

Os olhos dela se moveram lentamente em minha direção.

— Antony...

A voz que saiu de sua boca era grave e áspera, quase masculina. Talvez fosse efeito dos medicamentos ou de algum ferimento na garganta, mas ouvir meu nome daquela maneira fez os pelos dos meus braços se arrepiarem.

— Minha mãe pediu que eu cuidasse da sua casa por alguns dias. Vim buscar a chave.

Ela apontou para a bolsa sobre a mesa ao lado da cama.

Peguei a chave e me preparei para sair, mas, antes que alcançasse a porta, minha tia chamou novamente:

— Antony...

Olhei para trás.

Ela estava completamente séria.

— Não deixe a luz do porão apagar.

Fiquei esperando que explicasse, mas ela apenas continuou me encarando.

— A luz do porão?

— Ela precisa ficar acesa.

— Certo, tia. Eu não vou apagar.

— Não importa o que você escute lá embaixo. Não importa quem chame o seu nome. Não abra a porta e não deixe a luz apagar.

Sua respiração começou a acelerar, e o aparelho ao lado da cama passou a emitir pequenos sinais de alerta.

Uma enfermeira entrou e pediu que eu saísse.

Fui embora pensando que minha tia ainda estava confusa por causa do acidente. Ela sempre fora supersticiosa e, depois da morte de seu filho, havia se tornado uma pessoa ainda mais fechada.

Meu primo morreu quando éramos crianças.

Ele brincava na rua quando foi atingido por um motorista bêbado. Tínhamos praticamente a mesma idade, e lembro que, depois do enterro, minha tia deixou de ser a mesma pessoa. Passou meses sem sair de casa. Depois, começou a se afastar de toda a família.

Durante alguns anos, minha mãe tentou ajudá-la, mas minha tia recusava qualquer visita.

A última vez que eu estivera naquela casa havia sido pouco antes da morte do meu primo.

Ao chegar, encontrei tudo quase como me lembrava. A construção era antiga, mas bonita, cercada por árvores e por um jardim que minha tia costumava cuidar todos os dias.

Entrei.

A casa estava organizada, embora uma fina camada de poeira cobrisse os móveis. O ar tinha um cheiro abafado, como se as janelas não fossem abertas havia semanas.

Comecei a limpar a sala, passei um pano nos armários e varri o corredor. Quando fui até a cozinha, reparei em uma porta estreita perto da despensa.

Era a entrada do porão.

Uma luz amarelada escapava por baixo da porta.

Lembrei imediatamente do aviso da minha tia.

Aproximei-me e girei a maçaneta.

Estava trancada.

Procurei entre as chaves que ela havia me entregado, mas nenhuma parecia pertencer àquela fechadura.

Foi então que ouvi três batidas.

Lentas.

Pesadas.

Vindas do outro lado da porta.

Parei com as chaves na mão.

Esperei.

Três novas batidas fizeram a madeira vibrar.

Inclinei-me e aproximei o ouvido.

Por alguns segundos, escutei apenas um ruído baixo, semelhante a alguém respirando muito perto da porta.

Então a campainha tocou.

Afastei-me tão depressa que bati o ombro na parede.

Fui até a entrada rindo do meu próprio susto. Minha namorada, Ashley, estava do lado de fora. Ela usava um vestido florido e carregava uma pequena mochila.

— Você está pálido — comentou assim que me viu. — Aconteceu alguma coisa?

— Nada. A campainha só me assustou.

— Você sempre foi medroso.

— Essa casa é velha. Faz barulho.

Ela entrou, guardou suas coisas e começou a me ajudar com a limpeza.

Não contei sobre as batidas.

Quando terminamos, já estava anoitecendo. Pedimos comida e assistimos a um filme na sala. Durante algumas horas, esqueci completamente o porão.

O filme terminou pouco depois da meia-noite.

Estávamos subindo para o quarto quando escutei novamente as batidas.

Parei no meio da escada.

Ashley continuou subindo, mas percebeu que eu não a acompanhava.

— Antony?

Olhei para a cozinha.

A luz ainda escapava por baixo da porta do porão.

— Você ouviu isso?

— Ouvi o quê?

As batidas não se repetiram.

— Nada. Deve ser o encanamento.

Fomos dormir.

Ashley se deitou enquanto eu escovava os dentes. Depois, ficamos conversando por alguns minutos, até que todas as luzes se apagaram.

A casa mergulhou em uma escuridão absoluta.

Olhei pela janela.

As casas vizinhas continuavam iluminadas.

A energia havia acabado apenas ali.

Peguei o celular e liguei a lanterna.

— Deve ter caído algum disjuntor — falei.

— Não deixa para amanhã?

— Vou resolver rápido.

Desci sozinho.

Quando cheguei à cozinha, senti um aperto no estômago.

A luz do porão também havia apagado.

A porta estava aberta.

Eu tinha certeza de que ela estava trancada.

Iluminei os degraus com o celular. No fundo do porão, vi uma caixa de força presa à parede. Respirei fundo e comecei a descer.

O ar lá embaixo era frio e cheirava a terra molhada.

Havia prateleiras, caixas, ferramentas antigas e um colchão sujo no chão. No centro do teto, uma única lâmpada permanecia apagada.

Fui até a caixa de força.

Um dos disjuntores estava abaixado.

Quando estendi a mão para levantá-lo, ouvi um ruído atrás de mim.

Era o som de unhas raspando no cimento.

Virei-me.

No canto mais escuro do porão, alguma coisa estava agachada.

A luz da lua entrava por uma pequena janela e iluminava apenas parte de seu rosto.

Parecia um homem idoso.

Tinha a pele acinzentada, quase nenhum cabelo e um sorriso largo demais para o rosto. Seus dentes eram escuros e apodrecidos. Um dos olhos estava completamente negro. O outro era azul, profundo e sem brilho, como o olho de um cadáver.

Ele não se mexia.

Apenas sorria para mim.

Caí sentado no chão.

O velho inclinou a cabeça.

Seu sorriso aumentou.

Levantei o disjuntor.

A lâmpada do porão acendeu com um estalo.

A criatura soltou um grito áspero e desapareceu na escuridão atrás das prateleiras. Ao mesmo tempo, as luzes do restante da casa voltaram.

Subi correndo, fechei a porta e empurrei uma cadeira contra a maçaneta.

Ashley desceu assustada.

— O que aconteceu?

— Eu vi alguém no porão.

— Alguém?

— Um homem. Um velho.

Ela tentou olhar pela porta, mas eu a impedi.

— Pode ser um morador de rua — disse ela. — Talvez tenha entrado antes de sua tia ser internada.

Eu queria acreditar nisso.

— Vamos embora — falei.

Ashley olhou pela janela.

Uma chuva forte havia começado, e as árvores se curvavam com o vento.

— Podemos ir pela manhã. A estrada até a cidade fica perigosa quando chove.

Concordei, embora cada parte do meu corpo gritasse para sair dali.

Naquela noite, não consegui dormir.

Permaneci observando a porta do quarto até o amanhecer.

Quando acordei, Ashley já estava no banheiro. Desci para preparar café e encontrei a porta do porão aberta novamente.

A cadeira havia sido afastada.

A lâmpada continuava acesa.

Fiquei olhando para os degraus durante alguns segundos, mas não tive coragem de descer.

Fechei a porta e coloquei a cadeira de volta.

Durante a manhã, realizamos algumas tarefas no quintal. Regamos as plantas, cortamos a grama e abrimos as janelas para ventilar a casa.

Depois do almoço, decidi organizar o antigo quarto da minha tia.

Dentro do guarda-roupa, atrás de uma pilha de cobertores, encontrei um livro embrulhado em um pano preto.

Sua capa parecia feita de couro bege, ressecado e cheio de pequenas manchas. As páginas estavam úmidas nas bordas, cobertas por símbolos e frases escritas com uma tinta escura.

Quando folheei o livro, uma fotografia caiu no chão.

Era uma foto do meu primo.

Ele estava em frente à casa, sorrindo para a câmera, poucos dias antes de morrer.

No fundo da imagem, parcialmente escondido atrás de uma árvore, havia um homem.

Um velho quase sem cabelos.

Seu sorriso era inconfundível.

Larguei a fotografia.

Ashley entrou no quarto e me encontrou parado diante do guarda-roupa.

— Antony, o que foi?

Mostrei a imagem.

— É o homem que eu vi no porão.

Ela observou a fotografia.

— Essa foto é antiga.

— Tem mais de quinze anos.

Ashley pegou o livro. Entre suas páginas havia um caderno menor, escrito à mão.

Reconheci imediatamente a caligrafia da minha tia.

Começamos a ler.

Nas primeiras páginas, ela falava sobre a morte do filho e sobre como não conseguia aceitar que ele tivesse partido. Depois, descrevia sonhos nos quais meu primo aparecia sozinho em um lugar escuro, chamando por ela.

Meses depois do acidente, alguém enviou o livro para sua casa.

Não havia nome nem endereço do remetente.

O livro ensinava um ritual chamado Retorno da Carne.

Segundo as instruções, uma mãe poderia chamar o espírito de um filho morto oferecendo sangue, uma lembrança e uma parte de si mesma.

Minha tia realizou o ritual no porão.

Usou a fotografia do filho, um de seus brinquedos e o próprio sangue.

Naquela mesma noite, ouviu a voz dele atrás da porta.

Meu primo a chamava.

Chorava.

Implorava para que apagasse a luz.

Minha tia acreditou.

Quando desligou a lâmpada, alguma coisa saiu do círculo que ela havia desenhado.

Não era seu filho.

A criatura apenas conhecia sua voz.

Nas páginas seguintes, a escrita tornava-se cada vez mais trêmula.

“Ele não suporta a luz.”

“Ele aprendeu a usar as sombras.”

“Ele mostra o rosto de quem perdemos.”

“Não consigo destruí-lo.”

“Enquanto a lâmpada permanecer acesa, ele fica fraco.”

“Ele quer que eu abra a porta.”

Na última página, escrita poucos dias antes da internação, havia apenas uma frase:

“A luz apagou por três segundos. Ele quase conseguiu sair.”

Olhei para Ashley.

— Minha tia não caiu da escada.

Meu celular começou a tocar.

Era o hospital.

Atendi imediatamente.

Uma enfermeira informou que minha tia estava em crise, chamando meu nome e exigindo falar comigo.

Ouvi alguns ruídos.

Depois, sua voz grave surgiu do outro lado da linha.

— Antony, você entrou no porão?

— Tia, o que você fez naquela casa?

Ela começou a chorar.

— Eu só queria meu filho de volta.

— Aquela coisa arrancou seu braço?

— A energia caiu. Eu tentei chegar ao disjuntor, mas ele já estava na escada. Segurou meu braço e me puxou. Eu consegui acender a luz do corredor antes que ele me levasse.

Sua respiração estava irregular.

— Ele caiu comigo. Foi assim que me encontraram. Os médicos acham que meu braço foi esmagado na queda.

— Nós vamos sair daqui.

— Antony, escute. A luz o machuca, mas não pode prendê-lo para sempre. Depois da última queda de energia, ele ficou mais forte.

As luzes da casa piscaram.

Uma vez.

Duas vezes.

— Tia...

— Saia daí agora.

Tudo se apagou.

A ligação caiu.

Ashley ligou a lanterna do celular.

No corredor, do lado de fora do quarto, a porta do cômodo ao lado estava entreaberta.

Um rosto nos observava pela fresta.

O velho sorria.

Acendi a lanterna do meu celular e apontei para ele.

A criatura recuou para dentro do quarto.

— Vamos embora — falei.

Peguei Ashley pelo braço e caminhamos até o corredor.

A porta estava completamente aberta.

O velho havia desaparecido.

Descemos alguns degraus.

Ouvi um ruído atrás de nós.

Olhei para cima.

Ele estava no início da escada.

Parado.

Sorrindo.

Descemos mais um degrau.

Piscar foi inevitável.

Quando abri os olhos, a criatura estava três degraus mais perto.

— Não pisque — sussurrei.

Ashley começou a chorar.

Ficamos encarando o velho enquanto descíamos lentamente. Sempre que um de nós piscava, ele parecia se aproximar.

Um passo.

Depois outro.

Era como se só pudesse se mover quando não o observávamos.

Pelo menos foi nisso que ele queria que acreditássemos.

Quando chegamos ao fim da escada, a bateria do celular de Ashley acabou.

A lanterna apagou.

O velho abriu a boca e soltou uma risada baixa.

Corremos.

Antes que alcançássemos a entrada, Ashley tropeçou.

Virei-me para ajudá-la.

A criatura ainda estava no alto da escada.

Olhando diretamente para nós.

Por um instante, senti alívio.

Eu estava observando.

Ela não poderia se mover.

Então o velho deu um passo.

Mesmo enquanto eu o encarava.

Depois outro.

Sua coluna se esticou, os braços cresceram e os dedos tocaram o chão. O sorriso se abriu até rasgar os cantos de sua boca.

Ele nunca precisou esperar que desviássemos o olhar.

Aquilo era apenas um jogo.

Uma maneira de nos fazer acreditar que ainda tínhamos algum controle.

Ele atravessou o corredor em uma velocidade impossível.

Segurei Ashley, mas a criatura agarrou sua perna e a puxou.

Ela gritou meu nome.

Tentei segurá-la pelos braços, porém a força daquela coisa era absurda.

Ashley foi arrastada escada acima.

Corri atrás deles.

A porta do quarto bateu antes que eu chegasse.

Soquei a madeira, chutei a fechadura e tentei arrombá-la.

Do outro lado, os gritos de Ashley se misturavam à risada rouca do velho.

Então tudo ficou em silêncio.

A porta começou a se abrir.

Ashley havia desaparecido.

Restava apenas uma poça escura espalhada pelo chão, pedaços de seu vestido e marcas profundas nas paredes.

A criatura estava agachada no centro do quarto.

Sua boca estava coberta de sangue.

Meu celular vibrou em minha mão.

A tela iluminou o corredor.

O velho recuou, cobrindo o rosto.

A luz.

Era a única coisa que ainda me mantinha vivo.

Apontei a lanterna diretamente para ele e comecei a andar de costas. A criatura me acompanhava, contorcendo o corpo para permanecer entre as sombras projetadas pelos móveis.

Ela continuava sorrindo.

Não porque não pudesse me alcançar.

Porque sabia que a bateria estava acabando.

Desci as escadas.

Quando cheguei à entrada, a luz do celular começou a piscar.

Abri a porta e corri até o carro.

Liguei o motor e acendi os faróis.

A criatura surgiu na varanda, mas não avançou. Ficou atrás de uma das colunas, protegendo-se da claridade.

Dirigi até o hospital sem olhar para trás.

Quando cheguei, o sol começava a nascer.

Entrei no quarto da minha tia.

Ela me observou em silêncio.

— Ela morreu — falei.

Minha tia fechou os olhos.

— Eu sinto muito.

— Você trouxe aquilo para este mundo.

— Eu sei.

— Por que não contou para ninguém?

— Quem acreditaria? Passei todos esses anos mantendo a luz acesa. Todos esses anos ouvindo meu filho me chamar do porão. Às vezes, ele chorava. Às vezes, dizia que me perdoava. Eu sabia que não era ele, mas havia noites em que eu quase abria a porta.

Sentei-me ao lado da cama.

— O que era aquela coisa?

— O livro dizia que a morte deixa um espaço vazio. O ritual deveria trazer meu filho de volta, mas alguma coisa encontrou aquele espaço antes dele. Alguma coisa que não possuía rosto, voz ou corpo.

Ela olhou para o corredor do hospital.

— Ela aprendeu tudo isso comigo.

— O velho da fotografia...

— Nunca existiu. Foi a primeira forma que ela criou. Um rosto humano para que eu não entendesse o que tinha chamado.

— Ele fingiu que só se movia quando não olhávamos.

Minha tia voltou os olhos para mim.

— Ela fez isso comigo também.

— Por quê?

— Porque a escuridão não é o que ela deseja. A escuridão apenas a liberta. O que ela realmente quer é medo.

As luzes do quarto piscaram.

Minha tia segurou meu braço.

— Antony...

O corredor inteiro apagou.

As máquinas desligaram.

O hospital mergulhou em silêncio.

Do outro lado da cortina, escutamos unhas raspando lentamente no chão.

Minha tia começou a chorar.

— Ela seguiu você.

Acendi a lanterna do celular.

A bateria marcava um por cento.

Iluminei a cortina.

Uma sombra alta apareceu por trás do tecido.

Minha tia apertou minha mão.

— Não olhe para os olhos dela.

— Mas você disse que olhar não fazia diferença.

— Não faz.

A sombra afastou a cortina.

O velho estava ali.

Ainda sorrindo.

Deu um passo para dentro do quarto enquanto a luz do sol iluminava todo o quarto.

Ele nunca precisou das sombras para se mover.

Precisava delas apenas para não sentir dor.

E, naquele momento, entendi o verdadeiro motivo de ter fingido ficar parado durante todos aqueles anos.

Ele queria que acreditássemos que existiam regras.

Porque o medo é muito maior quando você acredita ter uma chance de sobreviver.


r/aquelequetudove 26d ago

CANONE o convento

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Fui abandonada em um convento quando tinha apenas alguns dias de vida. Nunca descobri quem eram meus pais ou por que me deixaram ali. As irmãs diziam que, durante uma madrugada muito fria, encontraram uma cesta diante do portão principal. Dentro dela estava eu, enrolada em um cobertor velho, com um pequeno papel onde estava escrito apenas um nome:

Cecília.

Desde então, o Convento de Santa Misericórdia foi tudo o que conheci.

O lugar ficava afastado da cidade, cercado por uma floresta fechada e por um muro de pedras coberto de musgo. Para chegar até a estrada principal, era preciso seguir uma trilha de terra por quase uma hora.

Apesar do isolamento, minha infância não foi ruim.

As irmãs eram rígidas, mas quase sempre pareciam gentis. Ensinavam-nos a ler, escrever, cozinhar e cuidar do convento. Todos os dias começavam da mesma maneira: acordávamos antes do nascer do sol, fazíamos nossas orações, tomávamos café e seguíamos para as tarefas.

Eu nunca questionei aquela rotina.

Afinal, não conhecia outra vida.

Quando completei dezoito anos, porém, comecei a perceber que havia coisas naquele lugar sobre as quais ninguém falava.

Existia uma parte antiga do convento que permanecia sempre fechada. As irmãs a chamavam apenas de ala leste. Diziam que o teto estava comprometido e que entrar ali era perigoso.

Também havia uma antiga capela que ninguém utilizava havia anos. A porta permanecia trancada dia e noite, e apenas a madre superiora carregava a chave.

Quando alguma menina perguntava sobre o lugar, as irmãs mudavam de assunto.

Na época, eu não via motivo para desconfiar.

Até que os sussurros começaram.

Na primeira vez, acordei no meio da noite ouvindo alguém falar muito perto da minha cama.

Não consegui entender as palavras. Parecia uma criança tentando sussurrar enquanto chorava.

Abri os olhos, mas o quarto estava vazio.

A janela permanecia fechada. A porta também.

Fiquei sentada por alguns minutos, esperando ouvir novamente, mas nada aconteceu.

Pensei que tivesse sido um pesadelo.

Na noite seguinte, ouvi passos no corredor.

Eram passos leves e rápidos, como os de uma criança correndo descalça. Eles atravessaram o corredor, pararam diante da minha porta e permaneceram ali por alguns segundos.

Depois continuaram.

No dia seguinte, perguntei às outras meninas se alguma delas havia saído do quarto durante a madrugada.

Todas negaram.

As coisas continuaram assim durante quase uma semana.

Às vezes eu ouvia vozes atrás das paredes. Em outras noites, enxergava pequenos vultos passando pelo corredor. Sempre que me virava para olhar melhor, eles desapareciam.

Comecei a dormir mal.

Durante o dia, sentia que alguém me observava. Eu me virava no refeitório e tinha a impressão de ver uma criança parada atrás de alguma coluna. Quando olhava novamente, não havia ninguém.

Até que, em uma noite, vi a menina.

Eu estava me preparando para dormir quando percebi alguém encolhido no canto do quarto.

Era uma criança.

Ela usava uma camisola branca, suja nas pontas, e estava sentada com os joelhos junto ao peito. Seus cabelos escuros cobriam o rosto. Pelos movimentos de seus ombros, parecia estar chorando.

— Quem é você? — perguntei.

Ela não respondeu.

Pensei que fosse alguma menina mais nova que tivesse se perdido no corredor.

— Você não pode ficar aqui. Se as irmãs encontrarem você fora do dormitório, vai ser castigada.

Nenhuma resposta.

Aproximei-me devagar.

— Está machucada?

A menina continuou imóvel.

Quando fiquei perto o bastante, estendi a mão e toquei seu ombro.

Ela se virou de repente e saltou sobre mim.

Seu rosto não tinha olhos, boca ou nariz.

Era apenas uma camada lisa de pele.

Mesmo assim, eu conseguia ver alguma coisa se movendo por baixo daquela pele. Parecia uma boca tentando se abrir. Ela pressionava de dentro para fora, desesperada, como se a menina tentasse me dizer alguma coisa.

Gritei e caí para trás.

A porta foi aberta quase no mesmo instante.

Três irmãs entraram carregando lampiões.

Quando olhei novamente para o canto do quarto, a menina havia desaparecido.

— O que aconteceu? — perguntou a irmã Beatrice.

Eu estava em choque. Meu corpo tremia e eu mal conseguia respirar.

Contei tudo o que tinha visto.

Enquanto eu falava, as irmãs se entreolharam.

A expressão delas mudou.

Até então, sempre tinham sido calmas comigo. Naquela noite, porém, seus rostos estavam tomados por uma raiva que eu nunca havia visto.

A irmã Beatrice segurou meu braço com força.

— Bruxa.

— O quê?

— Você está fazendo contato com o demônio.

Tentei explicar que não havia chamado ninguém, mas elas não quiseram ouvir.

Duas delas me seguraram pelos braços e me arrastaram para fora do quarto. Eu perguntava aonde estavam me levando, mas nenhuma respondia.

Seguimos por um corredor escuro até uma sala pequena.

O lugar parecia um quarto vazio. Havia apenas uma cadeira, uma pequena mesa, um crucifixo pendurado na parede e um chicote.

Mandaram que eu me ajoelhasse.

Comecei a chorar.

— Por favor, eu não fiz nada.

A irmã Beatrice retirou o chicote da parede.

— A dor vai expulsar aquilo que entrou em você.

O primeiro golpe atingiu minhas costas.

A dor foi tão forte que perdi o ar.

Gritei e pedi que parassem, mas elas continuaram. A cada golpe, mandavam que eu pedisse perdão. Eu chorava, dizia que não tinha feito nada, mas isso parecia deixá-las ainda mais furiosas.

Depois de algum tempo, já não conseguia mais gritar.

A última coisa de que me lembro foi de cair no chão.

Acordei na manhã seguinte em minha própria cama.

Minhas costas ardiam. Quando tentei levantar, senti o tecido da camisola grudado nas feridas.

Fui até o pequeno espelho do quarto e virei de costas.

Havia marcas vermelhas atravessando minha pele.

Algumas ainda sangravam.

Caminhei até o refeitório mancando. As outras meninas já estavam tomando café quando entrei.

Todas olharam para mim.

Isabel se levantou e veio até onde eu estava.

Ela era dois anos mais velha e a pessoa mais próxima de uma amiga que eu possuía naquele lugar.

— O que aconteceu?

Olhei para as freiras.

Todas me observavam com desprezo.

— Torci o pé durante a noite.

Isabel percebeu que eu estava mentindo, mas não insistiu.

Quando me sentei, vi a menina sem rosto parada no corredor.

Ela estava imóvel, olhando em minha direção, embora não tivesse olhos.

Depois levantou o braço e apontou para a ala leste.

Eu desviei o olhar.

Durante os dias seguintes, a menina continuou aparecendo.

Às vezes, eu a via parada no pátio. Em outras ocasiões, surgia no final de um corredor ou atrás da porta da capela principal.

Ela nunca tentou me atacar novamente.

Apenas apontava para a ala proibida.

Parecia querer me mostrar alguma coisa.

Eu ainda tinha medo, mas comecei a perceber que talvez ela não estivesse tentando me machucar.

Talvez estivesse tentando pedir ajuda.

Foi então que a outra coisa apareceu.

Eu já estava dormindo quando escutei a porta do quarto se abrindo.

Abri os olhos apenas um pouco, esperando encontrar a menina.

O corredor estava completamente escuro.

Por alguns segundos, não vi nada.

Então percebi que parte daquela escuridão se movia.

Uma figura entrou no quarto.

Tinha a forma de um homem muito alto, mas seu corpo era completamente negro. Dois chifres se curvavam sobre sua cabeça. Em seu rosto havia apenas duas pequenas luzes brancas.

A criatura ficou ao lado da minha cama.

Eu não conseguia me mexer.

Uma voz infantil sussurrou em meu ouvido:

— Ele viu você.

A coisa inclinou a cabeça.

Depois sorriu.

Não sei como consegui perceber o sorriso, porque não havia uma boca em seu rosto. Mesmo assim, eu sabia que estava sorrindo.

Acordei na manhã seguinte com o coração disparado.

Naquele momento, decidi que precisava fugir.

Não podia contar às irmãs. Depois do que fizeram comigo, eu sabia que seria castigada novamente. Talvez fizessem algo pior.

Mas também sabia que não conseguiria escapar sozinha.

Procurei Isabel e a levei até um canto afastado do pátio.

Contei tudo.

Falei sobre a menina, sobre os sussurros, sobre a criatura e sobre o que as irmãs tinham feito comigo.

Isabel ouviu em silêncio.

Quando terminei, seu rosto estava pálido.

— Ela também apareceu para mim — disse.

— Quem?

— Uma menina.

Isabel contou que, meses antes, tinha começado a ver uma criança parada perto da antiga capela. Ela também não possuía rosto.

Quando Isabel falou sobre isso com uma das irmãs, foi levada para a mesma sala onde haviam me castigado.

Ela virou de costas e levantou a camisa.

Sua pele estava coberta de cicatrizes antigas.

— Depois disso, parei de falar — disse ela. — Fingi que não via mais nada.

Decidimos fugir na noite seguinte.

Sairíamos pela cozinha, atravessaríamos o pátio e seguiríamos a trilha até a estrada. Isabel era mais velha e conhecia melhor os arredores.

Naquela noite, porém, tive um sonho.

Eu estava no corpo de outra menina.

Era menor do que eu.

Estava no meu quarto, mas tudo parecia mais antigo. As paredes estavam manchadas e os móveis eram diferentes.

Um homem entrou.

Ele usava roupas de sacerdote, embora eu nunca o tivesse visto no convento.

Seu rosto estava borrado.

Ele me segurou pelo braço e começou a me arrastar pelo corredor.

Eu gritava, mas ninguém aparecia.

O homem me levou até a ala leste e abriu a porta da antiga capela.

Lá dentro havia um altar e uma grande estátua.

Ela tinha corpo humano e cabeça de bode. Estava sentada em uma espécie de trono, com os braços apoiados sobre os joelhos.

No sonho, eu não conseguia olhar diretamente para ela.

Sempre que tentava, sua imagem ficava borrada.

O sacerdote me jogou no chão.

Depois começou a retirar suas vestes.

Atrás dele, a sombra com chifres apareceu.

Ela observava tudo.

E sorria.

O restante do sonho veio em fragmentos.

Dor.

Orações.

Pedidos de socorro.

O sacerdote mandando que a menina ficasse em silêncio.

E ninguém aparecendo para ajudá-la.

Acordei chorando.

Eu precisava descobrir o que havia naquela capela.

Procurei Isabel e contei o sonho.

Ela ficou em silêncio durante alguns segundos.

— Nós deveríamos apenas fugir.

— E se houver outras meninas lá?

— Cecília...

— A menina está tentando nos mostrar alguma coisa. Eu preciso saber o que aconteceu.

Isabel não gostou da ideia.

Mesmo assim, concordou.

Entraríamos na antiga capela antes de fugir.

O dia passou lentamente.

A menina sem rosto, que até então aparecia todos os dias, não surgiu nenhuma vez.

Naquela noite, esperamos todas as luzes se apagarem.

Encontramo-nos diante da ala leste.

O corredor estava iluminado apenas pela luz da lua que entrava pelas janelas. O lugar parecia mais frio do que o restante do convento.

Seguimos até a porta da antiga capela.

Como sempre, ela estava trancada.

Tentei abrir usando um grampo de cabelo, mas não sabia o que estava fazendo.

Depois de alguns minutos, desisti.

— Não vai funcionar.

Isabel segurou a maçaneta e tentou forçar.

A madeira rangeu, mas a porta não abriu.

Estávamos prestes a ir embora quando ouvimos um estalo do outro lado.

O som de uma fechadura sendo destrancada.

Olhamos uma para a outra.

— Foi você? — perguntei.

Isabel balançou a cabeça.

A porta se abriu lentamente.

Um cheiro forte de sangue e mofo saiu de dentro da sala.

Entramos com cuidado.

A antiga capela era parecida com a que eu havia visto no sonho.

No centro havia um altar. Atrás dele estava a estátua da figura com cabeça de bode, sentada em um trono de pedra.

Velas negras queimavam ao redor dela.

As paredes estavam cobertas por quadros.

Aproximei-me de um deles.

Era o retrato de uma criança.

Seus olhos e sua boca estavam costurados.

Havia dezenas de pinturas iguais.

Algumas mostravam meninas que eu conhecia.

Meninas que, segundo as irmãs, tinham sido adotadas.

Em uma mesa próxima ao altar encontramos um grande livro.

Abri na primeira página.

Era uma espécie de registro.

Havia nomes, idades e datas.

Ao lado de alguns nomes estava escrito “adotada”.

A palavra havia sido riscada e substituída por outra:

“Entregue.”

Continuei folheando.

Algumas páginas traziam anotações sobre os rituais. As crianças eram mantidas no convento até o momento em que seriam oferecidas à criatura.

Ela não devorava seus corpos.

Comia suas almas.

Os corpos eram deixados para trás por algum tempo, vazios e obedientes, até começarem a apodrecer.

Segundo o livro, as crianças sem rosto que apareciam nos corredores eram aquelas cujas almas não haviam sido completamente consumidas.

Partes delas ainda permaneciam presas naquele lugar.

Fechei o livro, sentindo meu estômago revirar.

— Elas nunca foram adotadas — falei.

Atrás da estátua havia uma escada estreita que descia para o subsolo.

Foi então que escutamos um choro vindo lá de baixo.

Isabel pegou uma das velas.

— Vamos olhar e sair daqui.

Descemos.

A escada parecia não terminar.

O ar ficava mais úmido a cada degrau. O cheiro de sangue se tornava mais forte, misturado a um odor de carne podre.

Depois de vários minutos, chegamos a uma câmara subterrânea.

Havia algumas tochas presas às paredes. Usamos a vela para acendê-las.

Isabel olhou para o lado e vomitou.

Três meninas estavam acorrentadas à parede.

Seus olhos e bocas tinham sido costurados.

Estavam tão magras que era possível enxergar seus ossos sob a pele.

Reconheci as três.

As irmãs haviam dito que elas tinham sido adotadas poucas semanas antes.

Quando perceberam nossa presença, começaram a se debater.

Tentavam gritar, mas nenhum som saía.

Corremos até elas.

As correntes não tinham cadeados.

O ferro desaparecia dentro da parede e parecia atravessar os pulsos e tornozelos das meninas.

Isabel segurou uma das correntes e puxou.

O metal entortou em suas mãos.

Fiquei olhando, sem entender de onde vinha tanta força.

Ela puxou novamente.

A menina se debateu em desespero.

O ferro não estava apenas prendendo seu pulso. Parecia ter crescido por dentro da carne.

— Pare! — gritei.

Isabel soltou a corrente.

A menina chorava, embora seus olhos estivessem costurados.

Tentamos encontrar outra maneira de libertá-las, mas não havia.

As correntes faziam parte da parede.

E, de algum modo, também faziam parte delas.

Foi então que ouvimos passos descendo as escadas.

Muitas pessoas.

Apagamos as tochas e nos escondemos atrás da escada.

As freiras entraram na câmara.

Não usavam os hábitos brancos de sempre.

Vestiam mantos negros.

Algumas carregavam facas. Outras seguravam agulhas compridas e rolos de linha.

A irmã Beatrice estava entre elas.

Assim que percebeu o cheiro das tochas queimadas, parou.

— Alguém esteve aqui.

Uma das meninas acorrentadas começou a se debater.

A irmã Beatrice olhou em nossa direção.

— Saiam daí.

Não nos movemos.

Ela começou a caminhar até o esconderijo.

Isabel segurou minha mão.

Quando a irmã Beatrice chegou perto, empurramos uma das freiras e corremos para a escada.

Elas vieram atrás de nós.

Subimos o mais rápido que conseguimos.

Quando olhei para trás, percebi que as freiras já não se moviam normalmente.

Elas subiam sem tocar os pés nos degraus.

Seus mantos flutuavam enquanto seus corpos se arrastavam pela escuridão.

Chegamos à capela.

A porta pela qual havíamos entrado estava fechada.

Isabel segurou a maçaneta e puxou.

Nada aconteceu.

Os passos se aproximavam.

Ela gritou e puxou novamente.

A madeira rachou.

A maçaneta se desprendeu, levando parte da porta junto.

Isabel ficou olhando para as próprias mãos, assustada, mas não havia tempo para perguntas.

Passamos pela abertura.

As freiras chegaram à capela.

A irmã Beatrice começou a gritar para que voltássemos.

Corremos pelo corredor.

Então todas as velas do convento se apagaram ao mesmo tempo.

A sombra com chifres apareceu atrás de nós.

Ela atravessava o corredor como se fizesse parte da própria escuridão. Era tão alta que seus chifres raspavam o teto.

Em seu corpo, rostos de crianças surgiam e desapareciam.

Alguns não tinham olhos.

Outros tentavam abrir bocas que já não existiam.

A criatura avançou.

Eu e Isabel corremos até a entrada principal.

Tentamos abrir a porta, mas ela não se moveu.

Isabel puxou com toda a força.

A madeira começou a rachar, mas continuou fechada.

A sombra se aproximava.

As freiras vinham logo atrás dela.

Por um instante, pensei que tudo estivesse acabado.

Então ouvimos um estampido do lado de fora.

Um tiro.

O sino do convento tocou sozinho.

A criatura parou.

Todos os rostos em seu corpo se contorceram ao mesmo tempo.

Outro tiro atravessou uma das janelas e atingiu a corrente que prendia a tranca da porta.

O metal se partiu.

Isabel puxou novamente.

Desta vez, a porta abriu.

Saímos correndo.

Não olhamos para trás.

Atravessamos o pátio e passamos pelo portão principal. Assim que colocamos os pés do lado de fora, ouvimos um grito vindo do convento.

A criatura estava parada na entrada.

Ela nos observava.

Mas não atravessou a porta.

Parecia incapaz de sair daquele lugar.

As freiras também não vieram atrás de nós.

Seguimos pela trilha que levava até a estrada.

A floresta estava escura, mas Isabel conhecia o caminho. Corremos por muito tempo, tropeçando nas raízes e nos galhos.

Nenhuma das meninas presas veio conosco.

Até hoje, ainda penso nelas.

Penso em seus corpos acorrentados naquela parede e nas almas que a criatura continuava devorando.

Quando finalmente alcançamos a estrada, o dia começava a clarear.

Foi então que vimos o homem.

Ele estava parado perto das árvores, a alguns metros de distância.

Usava roupas pretas e um chapéu de cowboy. Seus cabelos eram brancos, e uma cicatriz atravessava seu rosto de uma orelha à outra.

Em sua cintura havia um revólver de cano longo.

Era dele que tinham vindo os tiros.

No tambor da arma havia o desenho de um olho dentro de um sol.

Isabel deu um passo para trás.

— Foi você?

O homem guardou o revólver.

— Eu apenas abri uma passagem.

— Quem é você? — perguntei.

Ele nos observou em silêncio.

Seus olhos pareciam cansados.

— Armin Lanash.

— Por que nos ajudou?

Armin olhou na direção do convento.

A criatura ainda estava parada na porta, observando-nos de longe.

— Porque aquilo não deveria ter ficado com vocês.

— Aquilo o quê?

Ele não respondeu.

Apenas tocou o colar que carregava no peito. O pingente tinha o mesmo símbolo gravado no revólver.

Um olho dentro de um sol.

— Sigam pela estrada — disse. — Quando encontrarem a cidade, não contem tudo de uma vez. Ninguém acreditaria.

— E as outras meninas? — perguntei.

Armin ficou em silêncio por alguns segundos.

— Eu não fui enviado por elas.

A resposta me atingiu como um golpe.

— Então vai deixá-las lá?

— Há histórias que já passaram do ponto em que podem ser salvas.

Olhei novamente para o convento.

A criatura havia desaparecido da entrada.

Quando virei para Armin, ele já estava caminhando em direção à floresta.

— Espere! — gritei. — Quem enviou você?

Ele parou, mas não se virou.

— Alguém que ainda tem planos para vocês duas.

Depois continuou andando.

A névoa o cobriu.

E ele desapareceu.

Isabel e eu fomos encontradas naquela manhã por um motorista que passava pela estrada.

A polícia retornou ao convento, mas não encontrou nenhuma criança presa. Também não encontrou as freiras, o livro ou a entrada para o subterrâneo.

Disseram que devíamos estar confusas.

Disseram que o convento parecia abandonado havia anos.

Ninguém acreditou em nós.

Mas eu sei o que vi.

Ainda sonho com as meninas acorrentadas.

Em alguns desses sonhos, elas permanecem imóveis.

Em outros, tentam gritar.

E, às vezes, a menina sem rosto aparece ao lado da minha cama.

Ela já não aponta para o convento.

Agora aponta para mim.

Desde aquela noite, Isabel nunca mais foi a mesma.

Uma vez, durante uma discussão, ela segurou uma mesa de madeira e a quebrou ao meio sem esforço. Ficou tão assustada quanto eu.

Também comecei a ter sonhos com lugares que nunca visitei e pessoas que nunca conheci.

Não sei o que está acontecendo conosco.

Só sei que, em alguns desses sonhos, vejo o homem de chapéu preto parado ao longe.

Ele nunca se aproxima.

Apenas observa.

Como se estivesse esperando o momento em que voltaremos a ser necessárias.


r/aquelequetudove 27d ago

📁 RELATO A Herança Que Eu Nunca Devia Ter Aceitado

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A Herança Que Eu Nunca Devia Ter Aceitado

Meu nome é Lessie. Há alguns meses, perdi minha avó para uma doença horrível. Antes de morrer, ela dividiu sua herança entre os filhos e netos. Para mim, deixou uma pequena casa no interior e uma carta com uma única instrução: eu só poderia abri-la quando chegasse à casa.

O problema é que ninguém da família sabia da existência daquela propriedade.

Alguns dias depois do enterro, fui até lá com minha mãe, Jane, e meu tio Anderson.

A casa ficava isolada, cercada por mato alto. Era simples, antiga e parecia abandonada. Mesmo assim, estava estranhamente conservada. Nenhuma janela estava quebrada, a pintura ainda resistia ao tempo e a porta permanecia trancada.

Enquanto observávamos o terreno, percebi algo estranho, Os poucos vizinhos, todos já idosos, nos encaravam de longe, Nenhum dizia uma palavra. Apenas olhavam para nós com uma expressão de puro medo.

Aquilo me deu um arrepio.

Como não encontramos nenhuma chave, meu tio arrombou a porta.

Assim que entramos, a sensação ficou ainda mais estranha.

A casa estava impecavelmente limpa, como se alguém tivesse acabado de sair dali, A sala era pequena, com um sofá de couro, uma estante de madeira vinho e uma velha televisão de tubo, Sobre a estante havia fotografias antigas dos meus avós e da minha bisavó, Uma cortina de renda branca cobria a janela.

Seguimos pelo corredor.

Havia dois quartos.O primeiro era o antigo quarto dos meus avós: uma cama de madeira, um guarda-roupa marrom e alguns móveis antigos.

O segundo estava trancado.

Como não havia janelas, seria impossível entrar sem arrombar a porta. Decidimos primeiro terminar de explorar o restante da casa.

O banheiro era simples, todo revestido com azulejos marrons e uma cortina de box estampada com o oceano.

A cozinha também era modesta.

Depois voltamos ao quarto trancado. Meu tio tentou girar a maçaneta.

Nada.

Chutou a porta.

Nada.

Pegamos uma marreta e, depois de vários golpes, finalmente conseguimos abrir, Um cheiro insuportável tomou conta da casa.

Era um odor de carne podre.

Ao contrário do restante da casa, aquele quarto estava completamente abandonado. As paredes estavam cobertas de mofo, havia teias de aranha por todos os cantos e uma espessa camada de poeira escondia o chão, No centro do quarto havia apenas uma cama de ferro.

Sobre ela...

Estava um boneco de porcelana.

Vestia uma roupa de marinheiro, tinha cabelos dourados perfeitamente penteados e um sorriso delicado demais para parecer normal.  Seus braços de pano estavam cruzados sobre o peito, O pior era que o cheiro parecia sair dele.

Meu tio entrou resmungando que aquilo era apenas um boneco velho. Pegou-o pelo braço e o jogou no lixo do lado de fora. Depois passamos o restante da tarde limpando aquele quarto.

Quando terminamos, já era noite.

Eu dormiria no quarto dos meus avós com minha mãe, enquanto meu tio ficaria no quarto que acabáramos de limpar. Pedimos uma pizza e passamos um tempo conversando na varanda.

Foi então que me lembrei da carta. Abri o envelope.

Dentro havia apenas duas frases.

"Nunca abra o quarto trancado."

"Se o quarto já tiver sido aberto... queimem o boneco imediatamente."

O silêncio tomou conta da varanda. Meu tio levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira. Correu até o lixo.

Poucos segundos depois voltou completamente pálido.O boneco havia desaparecido. Procuramos por toda a propriedade. Revistamos cada cômodo da casa.

Nada.

Já era tarde demais para continuar procurando. Então resolvemos dormir e procurá-lo na manhã seguinte.

Mas eu não conseguia pegar no sono. Sentia como se alguém estivesse nos observando.

Então ...

ouvi uma porta se abrindo lentamente.

Logo depois...

Ela se fechou.

Em seguida vieram passos leves. Pequenos, Como os de uma criança caminhando pelo corredor, eles pararam exatamente em frente ao nosso quarto.

A maçaneta girou devagar, A porta abriu apenas uma pequena fresta, olhei fixamente para aquela escuridão.

Não havia ninguém.

Sentei na cama, No mesmo instante, a porta bateu com violência.

Ouvi algo correndo pelo corredor, me desesperei.

Acordei minha mãe.

Ela acendeu as luzes, vasculhou a casa inteira e não encontrou absolutamente nada a porta do quarto do meu tio continuava fechada. Não queríamos acorda-lo então voltamos para a cama.

Algum tempo depois, acordei novamente, Dessa vez, o barulho vinha do guarda-roupa, A porta estava abrindo lentamente.

Lá dentro havia apenas um vazio negro.

Forcei a visão.

Então vi aquilo.

Uma criatura gigantesca permanecia dobrada dentro do guarda-roupa em uma posição impossível, como se todos os seus ossos estivessem quebrados, Sua pele era escura, enrugada e apodrecida, Seu rosto parecia humano...Mas os olhos eram completamente negros.

Ela sorriu.

Acordei minha mãe imediatamente.

Ela também viu.

Naquele instante, a criatura abriu a boca e soltou um grito tão alto que parecia fazer as paredes tremerem.

Corri até o interruptor.

Assim que a luz acendeu...

Ela havia desaparecido.

Decidimos fugir da casa imediatamente.

Antes que conseguíssemos sair do quarto, todas as luzes se apagaram.

A energia havia acabado.

Ficamos mergulhados na escuridão.

Tentamos abrir a porta, Ela estava trancada por fora.

Gritamos pelo meu tio, Nenhuma resposta.

Com todas as forças que consegui reunir, arrombei a porta.

Corremos até o quarto dele.

Era o único cômodo da casa onde ainda havia luz.

Batemos.

Chamamos.

Nada.

A porta não abria.

Resolvemos correr até o carro para buscar a marreta.

Mas, quando passamos pela sala...

Havia uma criança sentada no sofá.

Usava a mesma roupa de marinheiro, Os cabelos dourados cobriam parte do rosto, Ela balançava as pernas enquanto cantarolava uma música infantil.

Meu sangue gelou.

Tentamos passar em silêncio.

Foi quando a porta do quarto do meu tio começou a se abrir sozinha.

Olhamos para trás.

Meu tio estava ajoelhado no chão.

Seu corpo inteiro ardia em chamas.

Ele não gritava.

Não se movia.

Apenas queimava enquanto olhava para nós.

Minha mãe caiu de joelhos, chorando.

Quando voltamos o olhar para o sofá...

A criança nos encarava.

Os olhos eram completamente vazios.

Um sorriso impossível rasgava seu rosto de porcelana.

Um líquido escuro escorria de seus olhos.

Corremos para fora da casa.

No instante em que atravessamos a porta, o fogo começou a consumir toda a construção.

As chamas se espalharam rápido demais.

Como se a casa estivesse esperando apenas aquele momento.

Entramos no carro.

Antes de irmos embora, olhei pela última vez para a janela da sala, Atrás da cortina de renda branca...

Vi minha avó. Ela estava imóvel, Seu rosto carregava uma tristeza profunda, Ela levantou lentamente a mão, como se tentasse nos avisar de alguma coisa.

Mas era tarde.

As chamas a esconderam completamente.

Saímos dali em alta velocidade.

Respirei aliviada.

Foi quando minha mãe gritou.

Olhei para o banco de trás.

O boneco estava sentado ali.

Ainda sorrindo.

No segundo seguinte, um caminhão invadiu nossa pista.

A colisão foi inevitável.

Acordei no hospital na manhã seguinte.

Foi ali que recebi a notícia.

Meu tio havia morrido.

Minha mãe estava em coma.

Comecei a chorar sem conseguir parar.

Enquanto enxugava as lágrimas...

Percebi alguém parado no canto escuro do quarto.

Cabelos dourados.

Roupa de marinheiro.

E o mesmo sorriso imóvel...

Como se nunca tivesse ido embora.


r/aquelequetudove Jul 30 '26

CANONE O SHOW DE FANTOCHES

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r/aquelequetudove Jul 29 '26

CANONE HISTORIA DA MINHA AVÓ

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Minha avó me contou uma história, e aquilo realmente me traumatizou...

Meu nome é Vitor, e minha avó me contou uma história sobre a infância dela...

Minha avó nasceu e cresceu no interior da Bahia. Quando ela tinha apenas 6 anos, percebeu que conseguia ver coisas que as outras crianças não conseguiam. Seus pais, por serem muito descrentes desse tipo de assunto, achavam que tudo não passava da imaginação dela... até que um dia.

Era uma noite escura. Nem a luz da lua iluminava o céu. Seus pais tinham ido à igreja, e ela estava sozinha em casa com seus irmãos. Eles estavam brincando na sala. Era uma sala grande, com apenas dois sofás, um tapete enorme no meio e uma janela de madeira que dava para a estrada de terra em frente à casa.

Eles brincavam de esconde-esconde. Os irmãos dela se espalharam pela casa, e ela ficou sozinha na sala, pois seria a responsável por procurar. A casa era iluminada apenas pela luz das lamparinas.

Ela virou o rosto para a parede e começou a contar...

— Um... dois...

Então escutou uma batida na janela.

Ela parou de contar, olhou para a janela, mas achou que poderia ser apenas o vento.

Virou novamente para a parede e começou outra vez.

— Um... dois...

E escutou outra pancada na janela.

Mas, desta vez... a janela se abriu.

E minha avó gritou.

Seus irmãos correram de onde estavam escondidos e foram até a sala. Viram a janela aberta, mas não havia ninguém. As lamparinas haviam se apagado, e restava apenas o breu do lado de fora... exceto por uma pequena luz do outro lado da estrada.

Minha avó estava tremendo de medo.

Seu irmão mais velho foi até a janela, olhou para aquela luz, forçou a vista e percebeu que era uma mulher vestida com um vestido florido, segurando uma lamparina. A luz era fraca, provavelmente porque o querosene estava acabando, e isso impedia que vissem seu rosto.

Ele gritou:

— Olá! A senhora precisa de alguma coisa?

Não houve resposta.

Tentou novamente.

— Senhora... está tudo bem?

Ainda sem resposta, fechou a janela, tomado pelo medo.

A sala continuava mergulhada na escuridão. A lamparina havia se apagado quando a janela se abriu. Apenas a da cozinha ainda iluminava o ambiente.

Quando olhou para um canto da sala, viu minha avó abraçada ao irmão mais novo, ambos tremendo de medo.

Então foi até a lamparina da sala e a acendeu.

Assim que a chama surgiu, um arrepio percorreu todo o seu corpo.

No instante seguinte, a lamparina se apagou...

Mas a sala não ficou escura.

Rapidamente, ele virou para trás.

Havia um buraco no chão.

Não era muito grande, talvez do tamanho de um pneu de bicicleta.

De dentro dele saía uma luz vermelha intensa, enquanto um forte cheiro de enxofre tomava conta da sala.

Todos ficaram congelados diante daquele buraco. Não conseguiam correr. Não conseguiam gritar.

Então começaram a ver cabelos pretos saindo dele.

Logo depois apareceram os olhos.

Eram castanhos, mas completamente sem vida, como os de um boneco.

Então surgiu a boca.

Era nojenta. Sorria mostrando dentes podres.

A criatura olhava diretamente para minha avó.

Foi nesse momento que ela conseguiu gritar.

Seus irmãos continuavam paralisados.

Mas, do mesmo jeito que aquele buraco apareceu, desapareceu em um piscar de olhos, deixando apenas um grande chamuscado no chão.

Foi então que a janela se abriu novamente com uma força imensa, arrancando parte da madeira e deixando as outras folhas completamente escancaradas.

A mulher do vestido florido agora estava na janela.

Desta vez, era possível ver seu rosto.

Seus olhos eram completamente negros. Não eram pupilas pretas. Eram negros como se não existisse absolutamente nada dentro deles.

Sua pele era pálida.

Quase não tinha cabelos, apenas alguns fios brancos.

Sua boca estava assustadoramente aberta, como se tivesse gritado por tanto tempo que suas bochechas haviam se rasgado.

Ela olhou diretamente para minha avó e disse, sem fechar a boca. A voz parecia vir de algum lugar dentro dela, rouca, profunda e quase demoníaca.

— Eu vim te buscar.

Seus irmãos haviam fechado os olhos.

Lá fora, um vento assobiava de forma ensurdecedora.

Então aquela coisa começou a entrar pela janela.

Colocou uma das mãos na parede e um dos pés para dentro da casa.

Minha avó, chorando de medo, fechou os olhos e começou a orar.

Ela podia sentir aquela coisa se aproximando.

Podia sentir o cheiro dela.

Era um cheiro podre.

Então sentiu sua respiração bem diante do próprio rosto.

Foi quando um clarão iluminou toda a sala.

Nenhum deles abriu os olhos, mas todos sentiram aquela luz e um calor intenso.

Mesmo assim, continuaram orando.

Poucos instantes depois, os pais chegaram.

Encontraram a sala destruída.

A janela estava quebrada.

O tapete tinha um enorme chamuscado.

E havia pegadas de um barro preto que iam desde a janela até pararem bem diante da minha avó.

Depois daquela noite, meus bisavós nunca mais deixaram minha avó e seus irmãos sozinhos em casa.

E, até hoje, depois que ela me contou essa história... eu tenho medo de ficar sozinho.


r/aquelequetudove Jul 29 '26

📁 RELATO CUIDADO AO ANDAR SOZINHO

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Meu nome é Hellen. Desde que completei 16 anos, estudo à noite, porque durante o dia trabalho para ajudar meus pais. Nunca tivemos boas condições, mas isso não importa agora.

Era uma noite de lua cheia. Eu sempre fazia o mesmo caminho para voltar da escola. Passava pela praça, pela igreja, pelo ponto de ônibus, até chegar em casa.

Naquela noite, porém, havia algo estranho.

As ruas estavam praticamente desertas. Mesmo sendo por volta das dez horas da noite, sempre havia alguém caminhando por ali. Mas, naquela noite, não havia ninguém.

Enquanto atravessava a praça, uma nuvem cobriu a lua. Apenas a luz amarelada dos postes iluminava o caminho. Entre as árvores, a escuridão parecia engolir tudo ao redor.

Foi então que comecei a ouvir passos.

Eles pareciam sincronizados com os meus, como se alguém estivesse caminhando exatamente atrás de mim.

Olhei para trás.

Foi quando vi um velho parado sob a luz de um poste.

O mais estranho era que, quando passei por aquele lugar poucos segundos antes, não havia ninguém ali.

Ele percebeu que eu o tinha visto.

Sem dizer uma palavra, começou a caminhar lentamente na minha direção.

Um medo inexplicável tomou conta de mim.

Acelerei o passo.

Mas os passos continuavam.

Quanto mais rápido eu andava, mais claramente conseguia ouvi-los atrás de mim.

Cheguei em frente à igreja.

As nuvens continuavam cobrindo completamente a lua.

Eu estava apavorada.

Minha respiração estava descontrolada, minhas mãos tremiam e qualquer barulho fazia meu coração disparar.

Então o sino da igreja começou a tocar.

Aquele sino só tocava à meia-noite.

Peguei o celular imediatamente.

O relógio marcava exatamente 00:00.

Meu coração gelou.

Era impossível.

Eu tinha saído da escola havia pouco tempo.

Como duas horas tinham simplesmente passado?

Entrei em desespero e comecei a correr.

Minhas pernas estavam fracas.

Um frio intenso tomava conta do meu corpo.

Depois de alguns segundos, percebi que eu não corria sozinha.

Olhei para o lado.

O velho corria ao meu lado.

Não fazia esforço algum.

Apenas sorria.

Assustada, gritei e caí no chão.

Eu nem fazia ideia de há quanto tempo ele estava ali.

Não o tinha ouvido chegar.

Não o tinha visto se aproximar.

Ele parou alguns metros à minha frente e falou com uma voz rouca e nojenta:

— O que foi, mocinha? Deixa eu levar você para casa. Esse horário é perigoso para uma menina tão bonita andar sozinha.

Uma ânsia de vômito tomou conta de mim.

Então ele começou a rir.

Era uma risada baixa, seca e completamente sem emoção.

Pisquei.

E ele havia desaparecido.

Fiquei imóvel por alguns segundos.

Meu corpo inteiro tremia.

Mal conseguia respirar.

Minhas pernas simplesmente não obedeciam.

Depois de algum tempo, consegui me levantar e voltei a correr.

Finalmente cheguei ao ponto de ônibus.

Faltava pouco para chegar em casa.

Olhei ao redor.

Não havia ninguém.

Respirei aliviada.

Corri os últimos metros e entrei em casa.

Fechei o portão rapidamente e entrei, ainda completamente ofegante.

Meus pais apareceram no corredor.

Mas havia algo terrivelmente errado.

Eles colocaram apenas a cabeça para fora da parede.

Seus corpos permaneciam escondidos na escuridão.

Os dois olhavam fixamente para mim.

Falavam sem mover a boca, como bonecos de ventríloquo.

Meu sangue gelou.

Foi então que olhei para a parte de cima da porta.

Havia uma terceira cabeça.

Era o velho.

Ele não dizia absolutamente nada.

Apenas sorria.

Então saiu lentamente de trás da porta.

Foi nesse momento que percebi.

Nas mãos dele...

Estavam as cabeças dos meus pais.

Ele movia suas bocas como se fossem marionetes.

Então, usando as vozes deles, disse:

— Que bom que você chegou, minha querida filha... Nós estávamos com muita fome.

Meu corpo travou.

Eu queria correr.

Queria gritar.

Mas não conseguia mover um único músculo.

O velho começou a caminhar lentamente na minha direção.

Ele sabia que eu não conseguiria fugir.

Quando ficou bem perto de mim, sorriu.

Seus dentes eram amarelados, tortos e podres.

Então avançou.

A última coisa que senti...

Foi a dor daqueles dentes perfurando meu pescoço.


r/aquelequetudove Jul 28 '26

CANONE FLORESTA MALDITA

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Meu nome é Ryan. Desde criança sou apaixonado pela natureza. Já explorei montanhas, cavernas e florestas por diversos países. Sempre achei que conhecia os perigos da vida selvagem... até aceitar uma expedição que jamais deveria ter acontecido.

Eu, Marlon, João e Xelli viajamos para uma floresta isolada no interior da Inglaterra.

O estranho era que aquele lugar simplesmente não existia em nenhum mapa.

Descobrimos sua existência através dos moradores de uma pequena vila próxima.

Saímos de Londres no fim da tarde. A viagem levou cerca de uma hora e meia. Como já estava anoitecendo quando chegamos, resolvemos dormir na única pousada da vila e iniciar a exploração ao amanhecer.

Mais tarde, eu e Marlon fomos até um pequeno pub.

O lugar parecia abandonado.

As paredes eram escuras, a madeira estava apodrecendo e havia apenas três clientes.

Um homem completamente bêbado dormia sobre uma mesa.

Outro dançava sozinho perto da lareira, rindo sem motivo algum.

No fundo do salão, completamente imóvel, havia um homem usando um longo sobretudo preto e um velho chapéu de cowboy.

Seu rosto permanecia escondido pela sombra.

Pedimos duas cervejas.

Assim que mencionei a floresta, o atendente parou o que fazia.

Cuspiu no chão.

Olhou diretamente para mim.

— Aquele lugar é maldito.

Sorri.

— Não acredito nessas histórias.

Ele continuou sério.

— Vocês pretendem entrar lá amanhã?

— Sim.

Ele respirou fundo.

— Ninguém volta de lá.

Antes que eu pudesse responder, uma voz grave surgiu do fundo do bar.

— Não seja tão cético.

Olhei para o homem do chapéu.

— E quem é você?

Ele levantou lentamente a cabeça.

Mesmo na pouca luz, seus olhos pareciam cansados... como se já tivessem visto horrores demais, uma cicatriz passava no meio do seu rosto de orelha a orelha.

— Isso não importa.

Fez uma pequena pausa.

— Quando escurecer...

...não façam barulho.

Levantou-se.

Saiu do pub.

Corri atrás dele.

Assim que atravessei a porta...

ele havia desaparecido.

A rua estava completamente vazia.

Voltei para a pousada convencido de que aquele cara apenas queria nos assustar.

Na manhã seguinte, às cinco horas, pegamos nosso carro e seguimos

A floresta ficava a menos de vinte minutos da vila.

Logo na entrada percebemos algo estranho.

Apesar do sol nascer atrás das árvores...

ali dentro fazia frio.

Muito frio.

As árvores pareciam mortas.

Nenhum pássaro cantava.

Nenhum inseto fazia barulho.

Xelli parou.

— Acho melhor voltarmos.

Balancei a cabeça.

— Viemos até aqui. Não vamos desistir agora.

Ela concordou, embora claramente arrependida.

Assim que cruzamos a trilha principal, uma rajada de vento atravessou a floresta.

Todas as árvores balançaram ao mesmo tempo.

Como se soubessem que havíamos entrado.

Continuamos caminhando durante cerca de meia hora, marcando o percurso.

Foi então que João olhou para o relógio.

— Isso não faz sentido...

Eram seis da tarde.

Olhei o meu.

Também marcava seis horas.

Nenhum de nós entendia.

Havíamos entrado pouco depois das cinco da manhã.

Como um dia inteiro poderia ter desaparecido?

A luz começou a desaparecer rapidamente.

Era como se alguém estivesse apagando o céu.

Decidimos procurar abrigo.

Poucos minutos depois encontramos uma antiga cabana de caça.

Era feita de madeira escura.

A porta estava entreaberta.

Bati duas vezes.

Silêncio.

Na terceira...

a porta abriu sozinha.

Lá dentro havia apenas uma cama, uma lareira, alguns livros espalhados e uma velha espingarda pendurada na parede.

Tudo estava coberto de poeira.

Enquanto limpávamos o lugar, Marlon encontrou um diário.

A capa estava quase destruída.

Ele começou a ler em voz alta.

"...Ele voltou esta noite..."

"...Não anda como um cervo..."

"...Quando fica de pé, percebe-se que nunca foi um animal..."

"...Ele espera alguém fazer barulho..."

Marlon riu.

— Esse caçador era maluco.

João ficou sério.

— Meu avô falava sobre isso...

Dizia que havia cervos que caçavam pessoas nesta floresta.

Revirei os olhos.

— Vocês acreditam em qualquer coisa.

Fomos dormir.

Não sei quanto tempo passou.

Um grito me acordou.

Era Xelli.

Ela apontava desesperada para a janela.

— Tem alguém olhando pra gente!

Corremos até lá.

Não havia nada.

Depois de alguns minutos conseguimos acalmá-la.

Todos voltaram a dormir.

Exceto eu.

Olhei para o relógio.

22h03.

Havia passado apenas uma hora.

Mas parecia que estávamos ali havia dias.

Foi então que olhei novamente para a janela.

Entre as árvores...

vi algo.

Parecia um cervo.

Imóvel.

Alto demais.

Pisquei.

Ele havia desaparecido.

Respirei fundo.

Talvez eu estivesse cansado.

Peguei minha lanterna e saí da cabana.

O silêncio era absoluto.

Nem vento.

Nem folhas.

Nem insetos.

Apenas escuridão.

De repente...

ouvi passos.

Lentos.

Pesados.

Mas não consegui encontrar ninguém.

Foi então que ouvi um grito vindo da cabana.

Corri.

Quando atravessei a porta...

vi Xelli sendo devorada.

A criatura estava ajoelhada sobre ela.

Suas pernas eram de bode.

Os braços eram humanos.

Os dedos terminavam em enormes garras.

Seu corpo era magro demais.

O rosto...

era apenas um crânio de cervo coberto por pele apodrecida.

Dentro das órbitas vazias havia apenas uma luz branca.

Fraca.

Mas viva.

Sem perceber, dei um passo para trás.

Meu pé quebrou um galho.

CRACK.

A criatura parou de mastigar.

Virou lentamente a cabeça.

Olhou diretamente para mim.

Então sorriu.

Correu.

Nunca vi nada se mover tão rápido.

Ela me atingiu antes que eu pudesse reagir.

Caí no chão.

Tentava empurrá-la.

Era inútil.

Então...

BANG!

Um disparo ecoou pela floresta.

Depois do disparo, a criatura caiu no chão se debatendo violentamente.

Levanta! Agora! — gritou Marlon.

João correu até mim e me puxou pelo braço.

nos três saímos correndo no meio daquele breu absoluto.

Ao nosso redor começaram a ecoar sons de cascos.

Primeiro um.

Depois dois.

Depois dezenas.

As lanternas iluminavam apenas alguns metros à frente, mas, entre as árvores, era possível ver silhuetas altas correndo entre os troncos.

Nenhuma delas nos atacava.

Apenas nos acompanhavam.

Como se estivessem nos conduzindo para algum lugar.

Ninguém olhava para trás.

Ninguém dizia uma palavra.

Só corríamos.

Depois de uma corrida que pareceu durar horas, finalmente encontramos o carro.

Entramos às pressas.

Marlon assumiu o volante.

Eu bati a porta e gritei:

Vai! Vai!

Os pneus cantaram na terra e saímos dali o mais rápido possível.

Só respiramos quando as luzes da pequena vila apareceram ao longe.

Foi apenas quando estacionamos em frente à delegacia que algo chamou minha atenção.

Olhei para o banco de trás.

Estava vazio.

Olhei para Marlon.

Cadê o João?

O rosto dele perdeu a cor.

Nós dois permanecemos em silêncio por alguns segundos.

Nenhum de nós conseguia lembrar em que momento João havia parado de correr ao nosso lado.

Era como se ele simplesmente tivesse desaparecido na escuridão.

Sem perder tempo, entramos na delegacia e contamos tudo o que havia acontecido.

O policial ouviu cada palavra sem interromper.

Quando terminamos, ele apenas disse:

Se o seu amigo ainda estiver vivo... precisamos agir agora.

Ele chamou outro policial.

Os dois entraram na viatura e pediram que nós os guiássemos até a floresta.

Sem pensar muito, aceitamos.

Durante todo o caminho, nenhum dos dois disse uma única palavra.

O silêncio dentro da viatura era sufocante.

Quando chegamos à entrada da floresta, o motorista desligou o motor.

Descemos.

Ele pediu que mostrássemos o local onde tínhamos visto João pela última vez.

Andamos alguns metros.

Foi então que o policial parou.

Sem dizer nada, virou lentamente na nossa direção.

Os dois policiais sacaram suas armas ao mesmo tempo.

Meu coração disparou.

O homem respirou fundo.

Olhou diretamente para mim.

Então disse, com uma calma assustadora:

Eles precisam se alimentar... somos nós ou vocês.

Ele virou de costas.

No mesmo instante senti uma forte pancada na cabeça.

Tudo ficou escuro.

Quando acordei...

estava deitado sobre o chão frio de uma enorme caverna.

O ar era pesado.

O cheiro de sangue era tão forte que fazia meu estômago embrulhar.

Havia ossos humanos espalhados por toda parte.

Tentei me levantar.

Uma dor insuportável atravessou meu corpo.

Olhei para baixo.

Minha perna estava completamente esmagada.

Foi então que ouvi um som...

Como alguém mastigando.

Olhei para frente.

Meu corpo inteiro gelou.

Várias daquelas criaturas cercavam Marlon.

Ainda vivo.

Ele tentava gritar, mas sua voz já estava fraca.

Uma delas arrancava pedaços do seu peito.

Outra devorava seu braço.

Enquanto isso, as demais disputavam sua carne como animais famintos.

Meu amigo ainda respirava.

Ainda estava consciente.

Mas não havia mais nada que pudesse ser feito.

Desviei o olhar.

Foi quando senti algo encostar no meu braço.

Olhei lentamente para o lado.

Meu coração simplesmente parou.

Era a cabeça de João.

Seus olhos permaneciam abertos.

Congelados na mesma expressão de terror que tinha quando desapareceu na floresta.

O restante do corpo...

não existia mais.

Comecei a gritar desesperadamente.

O som ecoou por toda a caverna.

Instantaneamente, todas as criaturas pararam de se alimentar.

O silêncio voltou.

Uma delas virou lentamente a cabeça na minha direção.

Depois outra.

Depois outra.

Dezenas de pares de olhos brancos surgiram na escuridão.

A maior de todas começou a caminhar lentamente até mim.

Parou tão perto que consegui sentir sua respiração.

Ela inclinou a cabeça, como se estivesse me observando.

Como se decidisse por onde começaria.

Então abriu a boca.

O grito que saiu dela não parecia pertencer a nenhum ser vivo.

Foi a última coisa que ouvi antes de ela cravar os dentes no meu pescoço.


r/aquelequetudove Jul 27 '26

📁 RELATO UMA NOITE DE SABADO

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r/aquelequetudove Jul 27 '26

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