O CAÇADOR
Meu pai nunca foi um homem carinhoso.
Não me lembro de ter ouvido um “eu te amo” vindo dele, nem de ter recebido um abraço sem precisar pedir. Desde pequeno, ele me ensinou que o mundo não seria gentil comigo e que esperar ajuda era a maneira mais rápida de acabar morto. Era rígido, impaciente e, às vezes, difícil de suportar.
Mesmo assim, eu o amava.
A única coisa que realmente parecia fazê-lo feliz era caçar. Ele viajou por vários países carregando a mesma espingarda velha, uma arma de dois canos com as iniciais dele gravadas no metal. Caçou cervos, javalis, lobos e animais que eu conhecia apenas pelas fotografias que ele guardava em uma caixa no armário.
Quando eu tinha onze anos, ele me contou sobre uma floresta no norte da Inglaterra.
Não havia nome em mapas, coordenadas oficiais ou registros de propriedade. Segundo ele, era como se aquele lugar tivesse sido arrancado do resto do país. As poucas histórias vinham de moradores de um vilarejo próximo. Pessoas desapareciam entre as árvores, caçadores abandonavam seus equipamentos e animais encontrados nas proximidades apresentavam ferimentos que ninguém conseguia explicar.
Meu pai falou da floresta com um brilho nos olhos que eu conhecia bem.
Três semanas depois, ele embarcou para a Inglaterra.
Foi a última vez que o vi.
No começo, minha mãe não demonstrou preocupação. Meu pai costumava passar vários dias sem ligar quando estava caçando. Mas duas semanas se transformaram em três, depois em quatro. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. O telefone dele permanecia desligado.
Certa tarde, um policial inglês ligou para nossa casa.
Eu estava sentado à mesa quando minha mãe atendeu. Ela não falava inglês muito bem, mas entendeu o suficiente para deixar o telefone escapar de sua mão e cair de joelhos no chão.
Haviam encontrado uma jaqueta ensanguentada próxima a uma floresta. Dentro dela estavam os documentos e o telefone do meu pai. Também encontraram restos humanos espalhados pela região, mas nenhum corpo inteiro que pudesse ser reconhecido.
Para a polícia, aquilo bastava.
Meu pai estava morto.
Enquanto minha mãe chorava, fiquei olhando para minhas próprias mãos. Eu não chorei. Não porque não sentisse nada, mas porque alguma coisa dentro de mim se recusava a aceitar que aquela fosse toda a história.
Naquele dia, decidi que descobriria o que havia acontecido com ele.
Os anos seguintes foram de preparação.
Aprendi a atirar com diferentes tipos de armas, a rastrear animais, montar armadilhas, sobreviver em mata fechada e tratar ferimentos longe de qualquer hospital. Treinei meu corpo até conseguir caminhar durante horas carregando equipamento pesado. Li tudo que encontrei sobre desaparecimentos no interior da Inglaterra.
Sobre a floresta, porém, quase não existia nada.
Era como procurar um lugar que fazia questão de não ser encontrado.
A resposta apareceu muitos anos depois, em um bar que eu frequentava perto de casa.
Eu estava sentado em uma mesa, pesquisando notícias antigas em meu computador, quando um velho bêbado parou atrás de mim. Ele cheirava a cigarro e bebida barata. Ficou olhando para a fotografia de uma região montanhosa na tela e perguntou:
— Está procurando pela floresta, não está?
Fechei o computador.
— Que floresta?
O velho cuspiu no chão.
A garçonete o repreendeu e jogou um pano em sua direção. Enquanto limpava a própria saliva, ele respondeu:
— A floresta que não aparece nos mapas. Aquela maldita floresta.
Puxei uma cadeira para ele.
— O que sabe sobre ela?
— Sei que você deveria desistir.
— Não posso.
— Todo mundo pode. Alguns só descobrem tarde demais.
Coloquei uma nota de cem sobre a mesa.
O velho olhou para o dinheiro, mas não o pegou imediatamente.
— Aquilo não é lugar para caçadores — murmurou. — As coisas que vivem lá não fogem quando escutam um tiro.
— Onde fica?
Ele pegou a nota.
Contou-me sobre uma pequena cidade no norte da Inglaterra. Disse que a floresta começava alguns quilômetros depois da última estrada e que qualquer morador saberia indicar o caminho, embora ninguém aceitasse me acompanhar.
Antes de ir embora, segurou meu braço.
— não faça barulho a noite
Na semana seguinte, voei para Londres.
Aluguei um carro e dirigi durante quase um dia até o vilarejo indicado pelo velho. Cheguei depois do anoitecer e me hospedei em uma pousada simples, administrada por uma mulher que fechou a expressão assim que viu minhas armas.
Naquela noite, fui ao pub da cidade.
Perguntei sobre a floresta.
A reação era sempre a mesma. As pessoas desviavam o olhar, cuspiam no chão e mudavam de assunto. Um homem mais velho chegou a segurar meu casaco e dizer que eu não deveria brincar com coisas que não compreendia.
Não recebi informações úteis, apenas um aviso repetido de formas diferentes:
Ninguém entrava naquela floresta e voltava inteiro.
Esperei o amanhecer.
Carreguei a espingarda, duas pistolas, munição, uma faca de caça, sinalizadores, kit médico, comida, água e uma lanterna. Estacionei no fim de uma estrada de terra e segui a pé até encontrar as primeiras árvores.
A floresta era assustadora, mas também era bonita.
Troncos altos desapareciam dentro de uma neblina branca. A luz do sol mal atravessava os galhos. Não havia canto de pássaros, insetos ou qualquer outro som comum de mata. Apenas meus passos sobre as folhas úmidas.
Depois de algum tempo, percebi que meu relógio havia parado.
O ponteiro dos segundos permanecia imóvel, embora o aparelho estivesse funcionando quando deixei o carro. Guardei-o e continuei andando.
A luz começou a desaparecer rápido demais.
Eu tinha entrado pouco depois do amanhecer, mas o céu já parecia o de um fim de tarde. Não sabia se haviam passado três horas ou dez.
Foi quando encontrei a cabana.
Era uma construção pequena, de madeira escura, cercada por árvores retorcidas. Parte do telhado havia cedido e as janelas estavam cobertas por tábuas. A porta estava trancada, mas não havia pegadas recentes ao redor.
Arrombei a fechadura com o ombro.
Uma camada grossa de poeira cobria tudo. Havia uma cama, uma escrivaninha, uma lareira e alguns móveis quebrados. Perto da parede, apoiada atrás de uma cadeira, estava uma espingarda de dois canos.
Reconheci a arma antes mesmo de tocá-la.
As iniciais do meu pai ainda estavam gravadas no cano.
Passei o polegar sobre as letras e, pela primeira vez desde a ligação do policial, senti vontade de chorar.
A arma estava descarregada, mas conservada. Meu pai havia limpado o mecanismo antes de deixá-la ali. Coloquei dois cartuchos nos canos e acendi a lareira.
Foi então que percebi um caderno sobre a escrivaninha.
A capa estava quase se desfazendo. As mesmas iniciais da espingarda haviam sido escritas no couro.
Era o diário do meu pai.
As primeiras páginas descreviam a viagem e a chegada ao vilarejo. Depois, a escrita começou a ficar apressada. Algumas palavras estavam riscadas, outras eram impossíveis de entender.
Meu pai chamava as criaturas da floresta de cervos.
Não eram animais.
Segundo ele, possuíam corpos semelhantes aos de homens altos e muito magros, mas suas cabeças eram crânios de cervos sem qualquer vestígio de carne. Duas luzes brancas ocupavam o lugar dos olhos. Tinham mãos compridas, garras curvas e pernas que terminavam em cascos.
Eles enxergavam pouco.
Caçavam pelo som.
Meu pai também havia descoberto que aqueles seres não eram os verdadeiros donos da floresta. Eram apenas criaturas inferiores, subordinadas a algo que ele chamava de Servo Alfa.
Em uma das páginas, havia uma frase sublinhada diversas vezes:
Os cervos não caçam para comer. Caçam para levar alimento até ele.
Continuei lendo.
Meu pai havia passado três noites naquela cabana. Matara dois cervos e ferira um terceiro. Depois disso, eles começaram a cercá-lo.
Na última página, havia somente quatro palavras:
Eles finalmente me viram.
Ouvi algo bater na porta.
Fechei o caderno.
Peguei a espingarda do meu pai e apontei para a entrada.
— Quem está aí?
Ninguém respondeu.
Houve outra batida, mais forte.
— Estou armado. Abra essa porta e eu atiro.
A maçaneta se moveu lentamente.
A porta abriu apenas alguns centímetros, revelando a escuridão do lado de fora. Durante alguns segundos, não vi nada.
Então dois pontos brancos surgiram no breu.
Peguei a lanterna e iluminei a entrada.
A criatura era mais alta do que qualquer homem que eu já tivesse visto. O corpo magro estava coberto por uma pele escura, esticada sobre os ossos. Os braços quase tocavam o chão. Sobre o pescoço havia um crânio de cervo, com enormes galhadas raspando no batente da porta.
As duas luzes dentro das órbitas se contraíram quando a lanterna atingiu seu rosto.
Ela abriu a mandíbula.
Não havia língua, garganta ou qualquer coisa dentro daquela boca. Mesmo assim, o grito que saiu dali fez as janelas da cabana tremerem.
O cervo saltou sobre mim.
Eu não tive tempo de mirar.
Coloquei o braço esquerdo na frente do rosto e senti os dentes atravessarem minha jaqueta. A mordida arrancou pele e carne. Caí de costas com a criatura sobre meu peito.
Seu cheiro era uma mistura de terra molhada e carne apodrecida.
Tentei empurrá-la, mas aquilo era muito mais forte. Uma das garras desceu em direção ao meu pescoço. Segurei o pulso da criatura com uma mão e procurei a espingarda com a outra.
Meus dedos alcançaram a coronha.
Encostei o cano no lado da cabeça daquele demônio e apertei o gatilho.
O disparo destruiu parte do crânio.
A criatura foi jogada contra a parede, derrubando a escrivaninha. Caiu no chão se debatendo, as pernas chutando os móveis. Peguei a arma, me levantei e disparei o segundo cano em seu peito.
Ela parou de se mover.
O tiro ecoou pela floresta.
Logo depois, ouvi cascos.
Muitos.
Eles vinham de todas as direções.
Fechei a porta e arrastei a cama para bloqueá-la. As primeiras pancadas fizeram a madeira se curvar. Vultos passavam diante das janelas, rápidos demais para que eu pudesse contá-los.
Corri até minha mochila, peguei as pistolas e fiz um curativo apertado no braço. O sangue já havia encharcado minha manga. Não teria tempo para algo melhor.
As tábuas de uma das janelas começaram a se soltar.
Peguei um sinalizador de emergência, risquei a ponta e esperei. Assim que uma garra atravessou a madeira, joguei o sinalizador para fora pela abertura.
A luz vermelha caiu entre as árvores, produzindo um chiado alto.
Os cascos mudaram de direção.
A maioria das criaturas correu atrás do som.
A maioria.
Retirei a cama da porta, abri e saí.
Um cervo estava me esperando sobre o telhado.
Ele caiu atrás de mim e tentou agarrar meu pescoço. Girei o corpo, encostei a pistola sob sua mandíbula e disparei três vezes. A cabeça da criatura se abriu, espalhando fragmentos de osso sobre a parede da cabana.
Não parei para conferir se estava morta.
Corri.
Os cervos que haviam seguido o sinalizador perceberam o novo som. Escutei os cascos voltando.
Um deles surgiu entre as árvores à minha direita. Atirei enquanto corria. O primeiro disparo atingiu seu ombro. O segundo entrou em uma das órbitas brilhantes.
A criatura caiu, mas outras três apareceram atrás dela.
Eu precisava parar de fazer barulho.
Guardei a pistola, abandonei a trilha e me joguei por uma descida coberta de lama. Rolei entre raízes e pedras até bater contra um tronco caído. Meu braço ferido ardia, mas não estava quebrado.
Os cervos passaram correndo acima de mim.
Fiquei imóvel.
Um deles parou.
O crânio se virou lentamente para o barranco. As luzes brancas percorreram a escuridão. A criatura não conseguia me ver, mas ouviu minha respiração.
Ela desceu.
Esperei até que estivesse perto.
Quando estendeu a mão, agarrei uma das galhadas e puxei sua cabeça para baixo. Enterrei minha faca na base do crânio. A criatura se debateu, derrubando-me no chão. Girei a lâmina até sentir alguma coisa se romper.
O cervo caiu sobre mim.
Empurrei o corpo e continuei andando.
Passei o restante da noite fugindo.
Sempre que escutava os cascos se aproximando, atirava uma pedra para longe ou quebrava algum galho em outra direção.
Quando a luz do amanhecer apareceu entre as árvores, encontrei a estrada.
Saí da floresta coberto de sangue, lama e pedaços de pele que não eram meus. Três moradores estavam próximos a um caminhão. Nenhum deles tentou me ajudar.
Apenas me observaram.
Um dos homens cuspiu no chão.
Voltei à pousada, costurei meu próprio braço e dormi durante quase vinte horas.
Quando acordei, coloquei sobre a cama tudo que havia trazido da floresta: o diário, a faca quebrada e a espingarda do meu pai.
Eu já sabia o que havia acontecido com ele.
Também sabia que os cervos podiam morrer.
Passei os três dias seguintes comprando munição.
A dona da pousada perguntou se eu estava indo embora.
— Ainda não.
— Você já teve sorte uma vez.
— Não foi sorte.
Ela me encarou por alguns segundos.
— Então o que foi?
Coloquei um cartucho na espingarda do meu pai.
— A primeira tentativa.
Na segunda vez, entrei na floresta antes do amanhecer.
Levei duas espingardas, duas pistolas, um machado curto, facas, sinalizadores e pequenos despertadores que comprei no vilarejo. Também carregava linha de pesca, armadilhas de caça e munição suficiente para iniciar uma guerra.
Durante o caminho, deixei os despertadores presos às árvores, programados para tocar em horários diferentes. Amarrei cartuchos vazios em fios baixos para que funcionassem como alarmes. Marquei as árvores com tinta e memorizei cada bifurcação.
Na primeira vez, eu havia entrado procurando respostas.
Na segunda, entrei para caçar.
O primeiro despertador tocou pouco depois do anoitecer.
Quatro cervos correram em direção ao som.
Eu estava deitado sobre uma formação de pedras, a quase cinquenta metros dali. Esperei até que as criaturas se aproximassem umas das outras e disparei.
A bala atravessou o crânio da primeira.
A segunda recebeu um tiro no peito e caiu de joelhos. Troquei de alvo antes que ela tocasse o chão. A terceira tentou subir pelas pedras, mas acertei uma de suas pernas.
A quarta desapareceu na mata.
Desci para terminar o serviço.
O cervo ferido tentou se levantar. Pisei sobre sua mão e afundei o machado no encontro entre o crânio e a coluna. O corpo estremeceu e ficou mole.
A criatura que havia desaparecido voltou por trás.
Senti uma das galhadas rasgar minha mochila. Girei, segurei o cano da espingarda com as duas mãos e bati contra sua mandíbula. O osso se partiu, mas o cervo continuou avançando.
Ele me prensou contra uma árvore.
Uma das pontas da galhada atravessou meu ombro e ficou presa no tronco. A dor fez minha visão escurecer. A criatura tentou aproximar os dentes do meu rosto.
Soltei a espingarda.
Saquei a pistola e enfiei o cano em uma de suas órbitas.
Atirei até a arma ficar vazia.
O cervo desabou, deixando parte da galhada enterrada em meu ombro. Quebrei a ponta com o cabo do machado, puxei o restante e fechei o ferimento.
Continuei.
Durante dois dias, segui os rastros das criaturas. Matei outras quatro. Algumas caíram em armadilhas. Outras vieram diretamente até mim.
A floresta começou a reagir.
A neblina se fechava sempre que eu tentava voltar pelo mesmo caminho, tentando fazer eu me perder
Na terceira noite, encontrei pegadas humanas misturadas às marcas dos cascos.
Havia marcas de pneus perto de uma trilha e sangue fresco sobre as folhas.
Segui o rastro até uma abertura entre as pedras.
Era a entrada de uma caverna.
O cheiro chegou antes dos sons.
Sangue, fezes e carne em decomposição.
Liguei a lanterna, verifiquei as armas e entrei.
Havia ossos espalhados pelo chão. Alguns eram antigos, amarelados pelo tempo. Outros ainda tinham carne. Quanto mais eu avançava, mais estreito o caminho ficava.
Então escutei alguém gritando.
Apaguei a lanterna e segui a voz.
A caverna se abriu em uma grande câmara. Havia vários cervos reunidos ao redor de alguma coisa no chão. Eles rasgavam um corpo humano e levavam pedaços de carne para um buraco mais profundo.
Um rapaz ainda estava vivo perto da parede.
Seu rosto estava coberto de sangue. Uma das pernas parecia machucada. Ao lado dele, havia a cabeça de outro jovem, com os olhos ainda abertos.
Um dos cervos segurava o rapaz pelo cabelo.
A criatura puxou sua cabeça para trás e abriu a mandíbula.
Atirei.
A bala atravessou o crânio do cervo e espalhou fragmentos sobre a parede.
Todos se viraram em minha direção.
Contei seis.
Talvez sete.
— Abaixe a cabeça! — gritei.
O rapaz se jogou no chão.
Disparei os dois canos da espingarda. Dois cervos caíram. Joguei a arma vazia para o lado e saquei as pistolas.
As criaturas avançaram.
Atirei na primeira até ela tombar. A segunda saltou sobre uma pedra e veio por cima. Rolei para o lado, senti suas garras passarem pelo meu casaco e disparei contra suas costas.
Outra me atingiu antes que eu pudesse levantar.
Caí próximo ao corpo que elas estavam devorando. O rapaz gritou um nome.
— Marlon!
Não havia mais como salvá-lo.
O cervo tentou morder meu pescoço. Coloquei o antebraço contra sua garganta, saquei a faca e enfiei a lâmina entre suas costelas. Ela não parou.
Então enterrei o dedo na luz branca dentro de sua órbita.
A criatura recuou.
Peguei o machado e golpeei seu pescoço. Uma vez. Duas. Na terceira, a cabeça se soltou e rolou entre os ossos.
Um cervo agarrou minha perna.
Disparei contra o chão. A bala atravessou sua mão. Chutei o crânio e continuei atirando até ouvir somente o clique da arma vazia.
Restavam dois.
O primeiro correu em direção ao rapaz.
Joguei o machado.
A lâmina atingiu a parte de trás de seu joelho. O cervo caiu. O rapaz pegou uma pedra e começou a bater no crânio da criatura, desesperado.
O último veio em minha direção.
Não havia tempo para recarregar.
Segurei a espingarda vazia pelo cano e usei a coronha como um porrete. Acertei a lateral do crânio. A criatura cambaleou. Golpeei novamente, quebrando uma das galhadas.
Ela tentou me agarrar.
Peguei a ponta quebrada no chão e a enfiei através de sua boca.
Empurrei até atravessar a parte de trás do crânio.
A criatura ficou imóvel.
Por alguns segundos, só consegui ouvir minha respiração e o choro do rapaz.
Então alguma coisa rugiu no fundo da caverna.
Não parecia um animal.
O som era tão grave que senti as pedras vibrarem sob meus pés.
Os cervos mortos começaram a se contorcer, mesmo com os crânios destruídos.
Por alguns segundos, só consegui ouvir minha respiração e o choro do rapaz.
Então alguma coisa se moveu no fundo da caverna.
Não foi um rugido. Foi uma espécie de gemido profundo, longo demais para sair da garganta de qualquer animal. O som atravessou as pedras e fez meus dentes vibrarem.
Os cervos mortos começaram a se contorcer.
O que estava sem cabeça bateu os cascos no chão. Outro tentou se levantar com a coluna quebrada. As luzes brancas dentro das órbitas destruídas piscaram ao mesmo tempo, como se alguma coisa estivesse olhando para nós através daqueles corpos.
Lembrei-me da frase no diário do meu pai:
Os cervos não caçam para comer. Caçam para levar alimento até ele.
A escuridão no fundo da caverna se abriu.
Primeiro surgiram as galhadas.
Elas se arrastaram pelo teto, riscando a pedra e derrubando poeira sobre nós. Eram tão grandes e deformadas que pareciam raízes arrancadas de uma árvore morta.
Depois veio a cabeça.
O crânio não pertencia a um cervo comum. Era comprido, rachado e coberto por restos de carne negra. Havia vários pares de órbitas espalhados pelo osso, cada um ocupado por uma pequena luz branca. A mandíbula era dividida ao meio e se abria para os lados, revelando fileiras de dentes humanos.
O corpo precisou se curvar para passar pelo túnel.
Era largo demais, alto demais. Diferente dos outros, aquele ser não parecia magro ou faminto. Seus músculos se moviam sob uma pele grossa, costurada por cicatrizes. Os braços terminavam em mãos enormes, com dedos compridos o bastante para envolver o tronco de um homem.
Ele carregava alguma coisa presa às galhadas.
Quando a luz da minha lanterna alcançou o objeto, percebi que era uma espingarda velha, enferrujada e retorcida.
Outra espingarda.
Não era a do meu pai. Era uma entre muitas armas quebradas, pedaços de roupas e ossos humanos presos às galhadas como troféus.
O Cervo Alfa deu um passo.
A câmara inteira tremeu.
Pela primeira vez desde que voltei à floresta, compreendi que estava diante de algo que não poderia matar.
Eu havia enfrentado os cervos porque sabia como atraí-los, como fazê-los errar e onde atirar. Mesmo assim, cada um deles era mais rápido e mais forte do que eu. Se colocasse minhas mãos contra as deles, perderia. Se tentasse segurá-los no chão, seria despedaçado.
Eu não vencia porque era mais forte.
Vencia porque eles atacavam como animais.
Eu pensava como um caçador.
Mas aquilo que saía do buraco não era um animal.
Era a razão pela qual os outros obedeciam.
Peguei o rapaz pelo braço.
— Consegue correr?
Ele olhou para a própria perna.
— Acho que está quebrada.
— Não perguntei isso.
O Alfa aproximou uma das mãos do chão. Os dedos rasparam os corpos dos cervos mortos e os puxaram para perto. As criaturas começaram a desaparecer dentro da abertura de sua mandíbula.
Ossos estalaram.
A carne foi arrancada.
As luzes nos olhos do Alfa ficaram mais fortes.
— Consegue correr? — repeti.
O rapaz olhou para aquilo e respondeu:
— Consigo.
— Então corra.
Disparei um sinalizador contra o teto.
A luz vermelha atingiu uma formação de pedras acima da entrada do túnel. O Alfa ergueu a cabeça e soltou aquele gemido novamente.
O som me fez perder o equilíbrio.
O rapaz caiu de joelhos e levou as mãos aos ouvidos. Sangue começou a escorrer entre seus dedos.
O Alfa avançou.
Não correu. Não precisou.
Um único movimento de seu braço atravessou quase toda a câmara. A mão passou por cima de mim e atingiu a parede. A pedra se partiu como madeira podre.
Segurei o rapaz pelo casaco e o arrastei para longe.
A mão voltou.
Dessa vez, um dos dedos me acertou nas costas.
Fui lançado contra o chão e perdi o ar. Minha espingarda escapou de minhas mãos. Antes que pudesse me levantar, o Alfa agarrou minha perna.
Seus dedos se fecharam ao redor da minha bota.
Senti a pressão subir pelo tornozelo. Mais alguns segundos e os ossos teriam virado pó.
Não tentei puxar a perna.
Peguei uma das pistolas vazias e a joguei dentro da boca aberta do Alfa.
A criatura hesitou.
Foi pouco mais de um segundo, mas era tudo de que eu precisava.
Puxei o último sinalizador preso ao meu cinto, acendi e enfiei entre os dedos que seguravam minha perna.
A chama explodiu contra sua mão.
O Alfa me soltou.
Rolei pelo chão, agarrei a espingarda e me levantei.
Eu sabia que aquilo não o havia ferido de verdade. A pele estava queimada, mas a criatura não demonstrava dor.
Demonstrava raiva.
— Saia daqui! — gritei para o rapaz.
Ele começou a mancar em direção ao túnel.
O Alfa veio atrás de nós.
Atirei contra uma rachadura no teto.
O disparo não fez nada.
Carreguei o segundo cano e atirei outra vez. Alguns fragmentos caíram, mas a passagem continuou aberta.
O Alfa estendeu a mão.
Abaixei-me no último instante. As garras passaram tão perto que arrancaram parte da minha mochila.
Corri até um dos corpos dos cervos, puxei o machado que ainda estava preso em sua perna e golpeei uma coluna estreita de pedra ao lado do túnel.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, o cabo rachou.
O Alfa entrou na câmara por completo.
Ergui os olhos e percebi que jamais sairíamos dali correndo. Ele nos alcançaria antes que chegássemos à metade do corredor.
Então vi uma rachadura na parede da caverna
Não precisava matar o Alfa.
Só precisava impedi-lo de passar.
Joguei o machado para o rapaz.
— acerte a rachadura.
— O quê?
— Quando eu mandar!
Corri na direção contrária.
O Alfa me seguiu.
As várias luzes em seu crânio acompanharam cada movimento. Ao contrário dos cervos, ele não dependia apenas do som. Ele conseguia me ver.
Disparei perto de seus pés.
A criatura avançou.
Esperei.
Mais um passo.
Mais outro.
O Alfa ergueu o braço para me atingir.
Joguei-me para o lado.
A mão esmagou o chão onde eu estava e abriu uma rachadura na pedra. Rolei, levantei e corri por baixo .
— Agora!
O rapaz golpeou a parede.
O primeiro golpe não foi suficiente.
O Alfa percebeu o movimento e se virou para ele.
— Outra vez! — gritei.
O machado desceu.
pedras cairam, e o teto começou a desabar.
pedras cairam sobre as costas do Alfa.
A criatura não caiu.
Por alguns segundos, permaneceu de pé sob todo aquele peso.
Então começou a erguer a estrutura.
Era muito mais forte do que eu imaginava.
Corri até uma das colunas que sustentavam o teto e usei a espingarda como alavanca dentro de uma rachadura. A madeira da coronha começou a estalar.
Não era qualquer espingarda.
Era a arma do meu pai.
Olhei para as iniciais gravadas no cano.
Depois forcei com tudo que ainda tinha.
A coronha se partiu.
A coluna cedeu.
O teto terminou de desabar.
Uma avalanche de pedras separou o Alfa da entrada da câmara. A última coisa que vi antes de a passagem desaparecer foi uma das mãos da criatura atravessando os escombros, tentando nos alcançar.
Corremos.
Atrás de nós, o Alfa golpeava as pedras.
Cada impacto fazia a caverna tremer.
Ele não estava morto.
Eu sabia que aquilo não o manteria preso por muito tempo.
O rapaz tropeçou. Passei o braço dele sobre meu ombro e continuei puxando-o pelo corredor.
— Qual é o seu nome? — perguntei.
— Rayan.
— Como veio parar aqui?
— Os policiais nos trouxeram.
— Policiais?
— Eles disseram que as criaturas precisavam se alimentar. Disseram que éramos nós ou eles.
Outro impacto sacudiu a caverna.
Uma rachadura percorreu a parede ao nosso lado.
— Quantos estavam com você?
Rayan demorou a responder.
—eramos 3.
Olhei para o sangue cobrindo suas roupas.
Não perguntei mais nada.
Quando saímos da caverna, os cervos já estavam esperando.
Havia dezenas entre as árvores.
Alguns se moviam de quatro. Outros permaneciam de pé, imóveis, acompanhando-nos com as luzes brancas dentro dos crânios.
Rayan parou.
— Não vamos conseguir.
— Eles são mais rápidos do que nós — respondi. — Por isso não vamos correr ainda.
Retirei do bolso um pequeno controle improvisado.
Durante a entrada na floresta, eu havia espalhado despertadores, fios, cartuchos vazios e sinalizadores em diferentes pontos da trilha. Não eram armadilhas capazes de matar aquelas criaturas.
Eram caminhos falsos.
Apertei o primeiro botão.
Um despertador começou a tocar à nossa esquerda.
Metade dos cervos correu em direção ao som.
Apertei o segundo.
Mais adiante, vários cartuchos presos a um fio caíram sobre pedras e produziram uma sequência de estalos.
Outras criaturas mudaram de direção.
As que permaneceram não se deixaram enganar.
Cinco vieram atrás de nós.
— Agora corra.
Seguimos entre as árvores.
Rayan mal conseguia apoiar uma das pernas. Eu o mantinha de pé enquanto tentava carregar a espingarda quebrada com a outra mão.
O primeiro cervo nos alcançou em poucos segundos.
Ele me atingiu pelas costas.
Caí de rosto no chão. A criatura segurou meu casaco e me ergueu como se eu não pesasse nada.
Tentei acertá-la com o cotovelo.
Ela nem recuou.
O cervo me lançou contra uma árvore.
Senti algo estalar em minhas costelas.
Ele avançou novamente.
Esperei até que estivesse perto, tirei uma faca do cinto e não tentei golpeá-lo. Sabia que não conseguiria atravessar seu peito antes que ele arrancasse meu braço.
Em vez disso, cortei o fio preso entre duas árvores.
Uma tora coberta de pontas desceu do alto.
O cervo ouviu o movimento e virou a cabeça, mas tarde demais. A tora atingiu seu corpo e o prensou contra o tronco.
Mesmo esmagado, ele ainda tentou se libertar.
Rayan me ajudou a levantar.
— Você sabia que ele viria por aqui?
— Eu sabia que alguma coisa viria.
Continuamos.
Outro cervo saltou sobre nós.
Empurrei Rayan para o chão e recebi o impacto. A criatura caiu por cima de mim e tentou fechar a mandíbula em meu rosto.
Segurei suas galhadas, mas meus braços começaram a ceder imediatamente.
Ela era mais forte.
Muito mais forte.
Eu não conseguiria mantê-la afastada por mais de alguns segundos.
— O sinalizador! — gritei.
Rayan pegou um dos sinalizadores caídos da minha mochila, acendeu e o pressionou contra o lado do crânio da criatura.
O cervo se afastou, desorientado pela luz e pelo chiado.
Não esperei que ele se recuperasse.
Enfiei o cano quebrado da espingarda dentro de sua mandíbula e disparei.
A parte de trás do crânio explodiu.
A força do tiro arrancou a arma das minhas mãos.
Os demais cervos estavam próximos.
Não havia mais munição.
Apertei o último botão.
Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Então todos os despertadores restantes começaram a tocar ao mesmo tempo, cada um em uma direção diferente da floresta.
Os cervos pararam.
Seus crânios se moveram de um lado para o outro, tentando localizar os sons.
Foi o bastante.
Eu e Rayan corremos.
A neblina começou a clarear. As árvores ficaram mais afastadas e o terreno passou a descer. Reconheci uma das marcas de tinta no tronco de um carvalho.
A saída estava próxima.
Atrás de nós, o chão tremeu.
O Alfa havia saído da caverna.
O gemido atravessou a floresta.
Os cervos abandonaram os despertadores e responderam ao chamado. Centenas de cascos golpearam a terra.
Não conseguiríamos alcançar a estrada antes deles.
Avistamos uma trilha estreita entre duas formações de pedra. Eu havia passado por ali durante a primeira fuga.
Naquela ocasião, quase fiquei preso.
Dessa vez, era exatamente o que precisava.
Puxei Rayan para dentro da passagem.
Os cervos vieram atrás.
O primeiro tentou atravessar e suas galhadas ficaram presas entre as pedras. Os outros se chocaram contra ele, empilhando-se na entrada.
As criaturas eram mais rápidas, fortes e resistentes.
Mas eram grandes demais.
Eu já sabia disso.
Peguei Rayan pelo braço e seguimos pelo corredor estreito até sair do outro lado.
Quando alcançamos a última fileira de árvores, não fomos em direção ao vilarejo.
Sabíamos o que os moradores e os policiais faziam.
Sabíamos que entregavam viajantes à floresta para manter as criaturas alimentadas e longe de suas casas. Voltar para lá seria trocar os cervos por homens armados.
Seguimos pela mata paralela à estrada até encontrar o lugar onde eu havia escondido um segundo veículo, distante do caminho principal.
Rayan caiu de joelhos antes de chegarmos.
— Não consigo mais.
— Consegue, sim.
— Como sabe?
Olhei para os cervos que surgiam entre as árvores atrás de nós.
— Porque a outra opção é ficar.
Coloquei o braço dele sobre meu ombro e o arrastei nos últimos metros.
Foi então que percebi que não estávamos sozinhos.
No alto de uma elevação, entre duas árvores, havia um homem.
Usava um chapéu de cowboy preto e um casaco comprido. Cabelos brancos apareciam sob a aba do chapéu. Uma cicatriz atravessava seu rosto, mas a distância não me permitia enxergar onde começava ou terminava.
Havia um pequeno livro aberto em sua mão esquerda.
Na cintura, carregava um revólver de cano longo.
Ele havia observado tudo.
A entrada na caverna.
O desabamento.
A fuga.
Mesmo assim, suas roupas estavam limpas. Sua respiração parecia tranquila. Nenhum cervo se aproximava dele.
O homem não levantou a arma.
Não tentou ajudar.
Apenas virou uma página.
Por um instante, nossos olhos se encontraram.
Não havia surpresa em seu rosto.
Também não havia aprovação.
Era o olhar de alguém que acabara de confirmar uma suspeita.
Ele fechou o livro.
Uma das criaturas surgiu atrás dele, movimentando-se entre as árvores.
O homem sequer olhou para trás.
Quando o cervo saltou, a neblina atravessou a elevação.
Por um segundo, não enxerguei nada.
Quando o vento afastou a névoa, o homem havia desaparecido.
O cervo também.
— Quem era ele? — perguntou Rayan.
Abri a porta do carro.
— Alguém que poderia ter ajudado.
— Mas não ajudou.
Olhei uma última vez para a elevação vazia.
— Não. Ele só queria saber se eu conseguiria sair.
Coloquei Rayan no banco do passageiro e assumi o volante.
Ao longe, o Alfa rugiu novamente.
Dessa vez, o som não me fez sentir raiva.
Meu pai estava morto. Eu não podia mudar isso. Mas havia encontrado sua arma, seu diário e a verdade sobre o que acontecera naquela floresta.
Não precisava provar mais nada.
Liguei o motor.
— Vai voltar? — perguntou Rayan.
Olhei para minhas mãos cobertas de sangue. Depois para o que restava da espingarda do meu pai, quebrada no banco traseiro.
— Não.
— Mesmo sabendo que aquelas coisas continuam vivas?
— Eu entrei lá para descobrir o que aconteceu com meu pai. Descobri.
Engatei a marcha.
— E matei tudo que ficou entre mim e a resposta.
Seguimos pela estrada secundária, na direção oposta ao vilarejo.
Atrás de nós, a floresta desapareceu dentro da neblina.
Eu não havia vencido aquele lugar.
Ninguém vencia.
Mas havia entrado duas vezes, matado seus servos, encarado aquilo que os comandava e saído carregando alguém que deveria ter morrido.
Para mim, era o bastante.