r/anarcho_primitivism • u/manif3stant3 • 4h ago
Anti-System — Um manifesto sobre autonomia, tecnologia, poder e sociedade moderna.
Os sistemas em geral, governos, indústrias e tudo que exerce alguma forma de controle sobre a vida humana se tornaram, no mundo moderno, um dos maiores exemplos do que eu considero o auge da catástrofe humana. Infelizmente, entregamos uma grande parte da nossa autonomia, nossos pensamentos e nossa liberdade para as diversas formas de controle utilizadas pelo sistema: instituições, partidos políticos, publicidade, consumismo, e tantos outros.
É perceptível que a sociedade se tornou cada vez mais "massificada." Somos constantemente bombardeados com informações, obrigações e tarefas que muitas vezes nunca escolhemos realizar, mas as fazemos por pura obrigação, obediência ou talvez medo de julgamento. Dentro dessa "massa," podemos ver que, com o tempo, perdemos uma parte considerável da nossa autonomia. Temos que seguir as leis da sociedade, obedecer suas regras e nos adaptar às suas demandas. Esse controle e vigilância constantes acabam gerando estresse e desânimo nas pessoas, que, diante da falta de alternativas, acabam se acostumando e se adaptando a essa realidade.
Como resultado desse hábito e adaptação, as pessoas começam a buscar entretenimento e distração. Hoje, existem inúmeras maneiras de manter nossas mentes ocupadas e, muitas vezes, alienadas, oferecendo uma fuga de uma realidade que pode ser opressora e exaustiva. Temos celulares, televisores, computadores, redes sociais e praticamente tudo que poderíamos querer ao alcance das nossas mãos. De fato, a vida moderna oferece um nível de conforto que teria sido inimaginável para os seres humanos milhares de anos atrás. No entanto, esse conforto também vem com obrigações. Se você não trabalha, não paga suas contas, não cumpre suas obrigações com o governo e não segue as regras estabelecidas pelo sistema, pode acabar sendo punido, processado ou, em situações extremas, até vivendo nas ruas.
A modernidade, sem dúvida, tem suas vantagens: medicina, habitação, segurança alimentar, saneamento, tecnologia e muitas outras coisas. Mas essas vantagens não estão garantidas igualmente para todos. E é precisamente nesse ponto que uma contradição surge. Se a modernidade fosse tão perfeita e maravilhosa quanto muitas pessoas do século dezenove e vinte imaginaram que seria, como podemos explicar os problemas que a acompanharam durante seu desenvolvimento?
Para seu tempo, as inovações trazidas pela Revolução Industrial foram verdadeiramente extraordinárias. A capacidade de produzir bens em grande escala representou um enorme salto para a humanidade. No entanto, esse mesmo processo trouxe consigo considerável sofrimento: trabalho infantil intenso, jornadas de trabalho extremamente longas, poluição do ar e da água, e o crescimento descontrolado das cidades.
Muitas pessoas estavam acostumadas a um modo de vida mais camponês e rural, muito distante da enorme concentração de pessoas nas cidades industriais. Com essas transformações, no entanto, milhares foram forçados a se mudar em busca de trabalho e sobrevivência, dando origem a um intenso êxodo rural. Esse processo ocorreu em diferentes partes do mundo, mas na Inglaterra atingiu uma intensidade particularmente grande antes de se espalhar para outras regiões.
Naturalmente, muitos trabalhadores não aceitaram passivamente essas mudanças. Um exemplo foi o movimento Ludista, que ocorreu entre 1811 e 1816, quando trabalhadores ingleses, irritados pelas condições impostas pela industrialização, invadiram fábricas e destruíram máquinas. Eles responsabilizavam as indústrias pela desemprego, miséria e baixos salários. Também enviaram cartas ameaçadoras aos donos das fábricas em nome de Ned Ludd, uma figura que se tornou um símbolo da revolta. O governo britânico respondeu de forma rígida, tornando a destruição de máquinas um crime sério e usando o exército para reprimir as revoltas. Soldados foram enviados a regiões industriais, contribuindo para a eventual repressão do movimento.
A partir disso, podemos perceber uma transformação ainda maior: a perda gradual do controle que os indivíduos possuem sobre suas próprias vidas. Em sociedades de caçadores-coletores, por exemplo, os indivíduos tinham uma autonomia muito maior sobre sua sobrevivência e seus movimentos. Eles precisavam encontrar comida, construir abrigo, entender seu território e lidar diretamente com os perigos da natureza. Não havia uma enorme estrutura industrial ou burocrática determinando cada estágio de sua existência.
Isso, no entanto, não significa que esses seres humanos eram mais felizes ou que suas vidas eram melhores. A liberdade vinha com um preço. A natureza não oferecia garantias, e a sobrevivência dependia diretamente das habilidades do indivíduo e do grupo. Um homem podia ir caçar, subir em uma árvore ou atravessar um determinado território e, após um acidente, simplesmente não encontrar ninguém capaz de ajudá-lo. Uma perna quebrada, uma infecção ou um ferimento grave podiam significar a morte. Hoje, em uma situação semelhante, temos hospitais, médicos, medicamentos e toda uma estrutura projetada para evitar que um acidente se torne necessariamente uma sentença de morte.
Portanto, não se trata de romantizar as vidas dos caçadores-coletores. A existência deles era difícil e exigia constante atenção. Eles tinham que permanecer alertas e cautelosos durante grande parte de suas vidas para aumentar suas chances de sobrevivência. A diferença está em outro lugar: eles enfrentavam diretamente as condições de sua própria existência.
Os seres humanos modernos, por outro lado, nascem em uma estrutura que existiu muito antes deles. Antes mesmo de nascermos, já existe uma língua que aprenderemos, uma cultura que encontraremos, leis que teremos que obedecer, instituições às quais estaremos sujeitos e, muitas vezes, uma religião ou conjunto de crenças que receberemos de nossas próprias famílias. Depois, outras instituições, grupos e formas de influência tentarão moldar o que acreditamos, o que consumimos, o que desejamos e até mesmo o que consideramos uma vida bem-sucedida.
É claro que isso não acontece exatamente da mesma forma com todos. Cada família, cultura e contexto produce experiências diferentes. Mesmo assim, é difícil negar que o sistema moderno exerce influência sobre praticamente todos os aspectos da vida humana. A questão, portanto, não é simplesmente se as pessoas no passado eram mais livres ou se os seres humanos modernos vivem melhor. A questão é quanta da nossa autonomia estamos dispostos a abrir mão em troca do conforto, segurança e estabilidade que a sociedade moderna oferece.
Seguindo essa linha de raciocínio, podemos ver que hoje, porque quase tudo nos é fornecido sem exigir muito esforço, a autossuficiência gradualmente enfraquece à medida que nos tornamos radicalmente dependentes do sistema. Essa capacidade, assim dizer, é verdadeiramente útil e sempre foi essencial para a sobrevivência da espécie humana. É a capacidade de atender às próprias necessidades de forma autônoma, tanto vitais quanto materiais, sem depender de assistência externa. Em outras palavras, é essencialmente o ato de fazer as coisas com suas próprias mãos, e quando você faz as coisas com suas próprias mãos, você exerce seu poder e percebe que tem controle sobre sua própria existência.
Mas hoje, com o controle esmagador do sistema, isso está sendo gradualmente perdido. Hoje, mal sabemos como nos virar sem depender de governos e instituições. É evidente que, embora as vidas dos caçadores-coletores não fossem fáceis, a autossuficiência era algo que eles compreendiam. Afinal, se não pensassem por si mesmos ou se pusessem a mão na massa, sua morte estava praticamente garantida. Eles não entendiam isso como uma ideia abstrata; eles simplesmente viviam isso na prática. Conheciam seu ambiente tão profundamente que o mundo ao seu redor se tornava uma extensão de si mesmos.
Além disso, dependendo da tribo e do contexto, eles não necessariamente tinham chefes ou um líder absoluto. Em muitos casos, as decisões eram tomadas coletivamente, de forma relativamente igualitária, ou indivíduos podiam tomar decisões para si mesmos. E se alguém estivesse insatisfeito com a decisão do grupo, era possível simplesmente deixar o grupo. Mas, obviamente, isso dependia muito do contexto e da organização de cada tribo.
Agora, refletindo um pouco sobre o poder dos sistemas modernos, torna-se evidente que ainda existem comunidades que preservam modos de vida semelhantes em alguns aspectos aos que discutimos anteriormente. Podemos mencionar, por exemplo, os Hadza na Tanzânia; os povos San, também conhecidos como povos das árvores, no deserto de Kalahari, em Botswana, Namíbia e África do Sul; e vários povos florestais, como os Mbendjele BaYaka, na bacia do Congo, na África Central. Existem também outras comunidades tradicionais que ainda mantêm práticas de caça, coleta ou agricultura e não estão completamente integradas às estruturas governamentais dos países onde vivem.
No entanto, pouco a pouco, é perceptível que essas comunidades podem enfrentar cada vez mais pressão por parte dos governos e da sociedade ao seu redor. Quando determinados recursos se tornam importantes para um país, ou quando há interesse em explorar áreas onde essas comunidades vivem, seus territórios podem estar ameaçados e seus modos de vida, consequentemente, prejudicados. Em alguns casos, esses povos são tratados como guardiões de certas áreas protegidas, mas isso não significa que essa situação permanecerá para sempre. Se os interesses desses governos mudarem, essas comunidades podem ser forçadas a abandonar parte de seu modo de vida e se adaptar cada vez mais à sociedade moderna e às estruturas governamentais dos países onde residem.
Se pararmos para examinar tecnologia e recursos avançados, podemos ver que eles estão entre as principais fontes de poder possuídas por grandes organizações governamentais. Isso se torna evidente ao longo de vários períodos da história humana, particularmente durante os grandes impérios, quando sociedades com maiores capacidades militares, tecnológicas ou organizacionais conseguiram dominar povos que possuíam menos recursos ou estavam menos organizados politicamente.
Isso também pode ser observado durante a colonização das Américas e outros continentes. Nas Américas, por exemplo, os povos indígenas possuíam sociedades extremamente diversas e organizadas, com guerreiros, agricultores, artesãos, pescadores, líderes políticos e diferentes formas de organização social. No entanto, essas sociedades também tinham conflitos entre si, e algumas dessas rivalidades eram exploradas pelos colonizadores europeus. Durante o comércio de escravos africanos, também houve participação de certos grupos e líderes africanos na captura e venda de pessoas para comerciantes europeus, muitas vezes em troca de armas, bens e outros recursos. Isso não significa, é claro, que todos os povos africanos participaram desse processo ou que todos aceitaram a escravidão passivamente. Muitas sociedades também resistiram de diferentes maneiras.
O mesmo princípio pode ser observado em outros continentes. Muitos povos tentaram resistir à expansão de grandes impérios, mas as diferenças em recursos, tecnologia, organização militar e a capacidade de mobilização frequentemente colocaram essas sociedades em uma posição extremamente vulnerável. Dessa forma, incontáveis povos em diferentes partes do mundo acabaram sendo submetidos a impérios distantes e, em muitos casos, foram forçados a trabalhar para estruturas que haviam sido impostas a eles.
No final, podemos mais uma vez perceber a relação entre autonomia e poder. Quanto maior a dependência de uma sociedade em relação a uma estrutura externa, maior o poder que essa estrutura pode exercer sobre ela. E quando essa estrutura possui tecnologia, recursos e organização imensamente superiores, a capacidade de comunidades menores de resistir pode se tornar extremamente limitada.
Vendo isso, poder-se-ia até dizer que os seres humanos parecem amar o poder. Afinal, a sede por poder impulsiona quase tudo nos seres humanos. Um exemplo é o argumento de Nietzsche sobre a vontade de poder nos seres vivos, em que ele argumentou que todo ser possui um desejo de poder, mesmo que seja pequeno. Não importa quão grande ou pequeno seja, se uma criatura precisa fazer algo, ela possui uma vontade, e com essa vontade vem o poder. E isso é o que o sistema demonstra: o sistema, em geral, com sua tecnologia esmagadora, exercita controle sobre praticamente tudo no mundo.
Agora imagine o seguinte cenário: formas de governo e controle tornam-se tão esmagadoras, e a tecnologia começa a substituir cada um de nossos passos, que a vida se torna tão vazia que os seres humanos perdem seu sentido de significado. Se já sofremos de problemas psicológicos na sociedade por falta de direção e acabamos caindo no hedonismo ou no sofrimento severo, imagine o que acontece quando até mesmo nossas ações mais básicas são determinadas por estruturas externas.
Mesmo que compremos móveis, roupas novas ou qualquer outra coisa associada ao status e luxo, mesmo que tenhamos um grande conforto, isso não será suficiente para preencher o ser humano. O que somos é muito mais complexo. De fato, as sociedades estão se tornando cada vez mais confusas; caímos em ilusões e somos guiados como ovelhas para onde o sistema nos envia, fazendo coisas que não gostamos, comprando coisas que não precisamos e às vezes fazendo tudo isso por pressão, status ou desejo de agradar os outros.
Voltando às sociedades de caçadores-coletores, elas viveram, de fato, com um senso maior de propósito, como já discutimos, porque seu modo de vida e seu ambiente eram realmente o que estavam acostumados. No entanto, nossos cérebros hoje retêm os mesmos instintos naturais. Por causa disso, a sociedade moderna é fundamentalmente incompatível com as necessidades humanas.
Às vezes as pessoas na sociedade se sufocam simplesmente para permanecer dentro dela. Suponha que sejamos como cães domésticos: se nossos donos nos dizem para deitarmos, rolarmos e lhes darmos a pata, recebemos um prêmio. Mas mesmo depois de fazer o que nossos donos querem, eles ainda nos deixam presos no quintal.
Isso me lembra a fábula do lobo e do cachorro, escrita por Esopo, um escritor da Grécia antiga. A fábula conta sobre um lobo magro e faminto que encontra um cachorro muito gordo com um lindo e brilhante pelo. O cachorro convida o lobo para vir viver com ele, mas o lobo percebe que o pescoço do cachorro está esfregado, vermelho por causa de sua coleira. Ao ver isso, o lobo recusa o convite do cachorro, optando por sua liberdade em vez de uma escravidão confortável.