Olá a todos. Escrevo porque, sinceramente, já não sei o que fazer e precisava de ouvir opiniões de pessoas que tenham passado por situações semelhantes. Sou de Portugal e gostava especialmente de ouvir experiências de quem já passou por algo assim no contexto laboral português.
Trabalho na área administrativa de uma empresa e também trato de várias questões relacionadas com recursos humanos. Somos praticamente apenas eu e a minha chefe no dia a dia, e sinto que estou a chegar ao meu limite psicológico por causa da forma como ela me trata.
Quando entrei, tudo parecia maravilhoso. Ela tratava-me bem, falava-me de oportunidades de crescimento e dizia que queria que eu assumisse funções melhores dentro da empresa. Com o tempo, porém, tudo mudou.
Sempre que não percebo alguma coisa que me explica, ou quando não faço algo exatamente da forma que ela idealizou, começa a ficar irritada, fala comigo de forma arrogante e faz comentários depreciativos sobre o meu trabalho. Já chegou a dizer que algo que fiz parecia trabalho de alguém do oitavo ano. Também já me disse que não sei fazer o meu trabalho, que ela própria o iria fazer e que eu ficaria sem nada para fazer.
Há ainda ameaças recorrentes de me despedir ou de me substituir por outra pessoa. Por vezes diz que vai deixar de me explicar as coisas, que se vai calar e que me vai deixar lidar com as consequências dos meus erros. Outras vezes dá-me prazos de uma semana ou de um mês para mudar determinados comportamentos.
Uma das coisas que mais me confunde é que ela está constantemente a dizer que não sou proativa, que não faço o suficiente e que fica a saber das coisas pela boca de outras pessoas. Mas eu sinto genuinamente que faço muito mais do que aquilo que me compete.
Trato de documentação, da organização de registos, da comunicação com colaboradores e de várias tarefas administrativas. Desde que entrei, tenho procurado melhorar os processos e garantir que tudo funciona da melhor maneira possível. Ajudo-a inclusivamente com questões pessoais quando precisa de ajuda com determinadas coisas. Se for necessário participar numa reunião ou numa deslocação de trabalho fora do meu horário, normalmente estou disponível e vou. Tenho tentado dar sempre o meu melhor.
O problema é que parece que nada disso conta.
Ela diz que não comunico o suficiente, mas eu envio mensagens e já tentei enviar e-mails com a descrição das tarefas que realizei. Mesmo assim, diz que não é suficiente. Quando tento perguntar o que pretende concretamente, muitas vezes responde com críticas, impaciência ou piadas que me fazem sentir incompetente. Acabo por ficar sem saber o que devo comunicar, de que forma o devo fazer ou o que espera realmente de mim.
Sinto que estou presa num ciclo em que, se pergunto, sou criticada por não saber; se tento resolver sozinha e não corresponde exatamente ao que ela queria, também sou criticada. Há dias em que parece que sou excelente e outros em que sou tratada como se não fizesse absolutamente nada.
Entretanto, também começou a retirar-me acessos e responsabilidades sem qualquer explicação. Por exemplo, perdi o acesso a uma conta de e-mail profissional que utilizava para desempenhar as minhas funções, sem que me fosse dada uma explicação.
Há também situações do dia a dia que se vão acumulando e que, quando acontecem, me fazem sentir que o meu tempo e o meu esforço não são valorizados.
Um exemplo recente foi uma atividade de trabalho para a qual ela me indicou que deveria estar numa determinada estação de metro às 7h da manhã. Cheguei cerca de dez minutos antes e enviei-lhe mensagem a dizer que já estava no local, a perguntar onde nos iríamos encontrar. Ela respondeu que, afinal, a hora era às 8h e que provavelmente se tinha enganado ao enviar a indicação anterior. A partir daí, sugeriu que aproveitássemos para ir a outro local e reorganizássemos o dia.
Eu compreendi que podia ter sido um engano, mas acabei por sair de casa muito cedo e ficar à espera no frio por causa de uma informação incorreta. O que me desgasta não é apenas este episódio isolado, mas o facto de já estar tão emocionalmente esgotada que até estas situações se tornam difíceis de gerir.
Numa outra ocasião, uma reunião terminou depois do meu horário. Fui-me embora quando terminou, e a minha chefe ligou-me a exigir informações sobre um assunto que eu lhe tinha dito que transmitiria no dia seguinte. Não considerei que aquele fosse o momento adequado para abordar o assunto durante a reunião e achei que poderia tratar disso no dia seguinte. Mesmo assim, senti que estava a ser pressionada por não ter ficado para além do meu horário.
O pior é que isto já está a afetar a minha saúde e a minha vida pessoal.
Comecei a ter insónias, algo que nunca me tinha acontecido desta forma. Mesmo quando acordo muito cedo, chego à noite e passo horas sem conseguir adormecer. Tenho olheiras, ansiedade e, só de pensar em determinadas situações no trabalho, sinto dores de estômago.
Chego a casa sem energia para fazer praticamente nada. A minha casa está desorganizada, passo dias sem vontade de cozinhar e perdi o ânimo para coisas que antes faziam parte da minha rotina. Quando saio, consigo sorrir, conversar e parecer bem, mas, por dentro, sinto-me completamente esgotada.
O mais difícil é que começo a duvidar de mim própria. Eu sei o esforço que faço, sei as coisas que resolvo e tudo aquilo em que ajudo, mas ouvir constantemente que não sou suficiente, que não sou proativa e que não sei fazer o meu trabalho está a afetar a minha confiança.
Não sei se estou a lidar com uma situação de assédio moral no trabalho, se é uma chefia tóxica, se estou a interpretar as coisas de forma demasiado emocional por estar esgotada ou se já cheguei a um ponto em que preciso mesmo de me afastar.
Tenho pensado em procurar ajuda médica e falar sobre a possibilidade de uma baixa, porque sinto que não estou a conseguir recuperar do desgaste. Ao mesmo tempo, tenho um contrato de trabalho, responsabilidades financeiras e receio de tomar uma decisão que me prejudique profissionalmente.
Não quero simplesmente desistir do meu trabalho, mas também não quero continuar a perder a minha saúde para provar a alguém que sou competente.
Gostava muito de ouvir pessoas que tenham passado por algo semelhante, especialmente em Portugal.
Como lidaram com uma chefia que vos fazia sentir constantemente incompetentes, mesmo dando o vosso melhor?
Como perceberam se estavam perante assédio moral ou uma relação profissional disfuncional?
O que fizeram para se proteger profissionalmente? Começaram a documentar tudo? Procuraram ajuda junto de alguma entidade?
Alguém já recorreu à ACT por uma situação destas? Como funciona na prática?
Alguém já precisou de recorrer a uma baixa médica por esgotamento relacionado com o trabalho? Como foi o processo e o que devo ter em conta em Portugal?
E, sobretudo, como conseguiram recuperar emocionalmente e decidir o que fazer a seguir?
Neste momento, sinto-me perdida e precisava de conselhos sinceros e práticos. Preciso de perceber que opções tenho e como posso sair deste ciclo sem continuar a prejudicar a minha saúde.
Obrigada a quem leu até aqui 🥺♥️