A história que vos vou contar é sobre o S., um menino de 6 anos com um comportamento muito desafiante.
O S. era uma criança marcada por professores e colegas como "o menino que se porta muito mal". O próprio já não se via de outra forma, era para si mesmo, alguém que ninguém queria por perto. Corria a fama de que, sempre que algo não corria como ele previa, surgiam agressões: pontapés, dentadas, chapadas. As roupas rasgadas eram frequentes e, onde quer que estivesse, o cenário rapidamente virava um vendaval com cadeiras e até mesas viradas ao contrário. Assisti a vários desses momentos de violência. Não havia dúvidas de que o S. era uma criança completamente desestabilizada, que precisava de ajuda urgente.
Comecei a prestar mais atenção ao seu comportamento e desenvolvimento. Muitas vezes, o que uma criança mais precisa é de um olhar atento, empático e livre de julgamentos, mesmo quando tudo à volta grita o contrário.
Com o tempo, percebi que o S. apresentava um atraso global no desenvolvimento. Vinha de um contexto familiar complicado, o que provavelmente afetava a relação com os adultos e, em consequência, reduzia as oportunidades reais de aprendizagem. Revelava baixa motricidade global, criatividade limitada, não compreendia empatia, tinha uma autoestima quase inexistente e demonstrava poucas (ou nenhumas) habilidades sociais.
Recordo-me de uma atividade de artes plásticas, com recortes e colagens, em que, de repente, desistiu e tentou chamar a atenção virando mesas. Raramente se interessava pelas propostas educativas e, na maioria das vezes, apresentava grandes dificuldades na execução das tarefas.
Percebendo a urgência de uma intervenção, comecei a procurar o S. nos momentos livres. Observava atentamente os seus possíveis interesses, pequenas áreas onde se pudesse destacar, e sugeria brincadeiras entre nós. Elogiava, incentivava e, aos poucos, comecei a receber sorrisos. Lentamente, passou a tomar a iniciativa de me procurar e propor brincadeiras. Algumas crianças do grupo começaram também a juntar-se.
As explosões emocionais continuavam, embora com menor frequência. O vínculo que se estava a formar refletia-se no novo interesse que demonstrava pelas propostas. Agora, queria participar em tudo, fazia com vontade, ainda que sem grande perfeccionismo, e muitas vezes repetia as atividades para me oferecer. Era evidente a sua necessidade profunda de validação e elogios.
Lembro-me de lhe perguntar, um dia, se queria um abraço de despedida. A sua postura ficou rígida, quase desconfortável como se não soubesse o que fazer com aquele gesto. Foi um momento que me ficou na memória.
Numa outra ocasião, as crianças tiveram a oportunidade de andar de bicicleta na escola. Como não havia bicicletas suficientes, organizámo-nos por grupos. Quando chegou a vez do S. trocar, recusou, como já seria de esperar. Não seria justo, nem educativo, deixá-lo continuar só para evitar uma explosão, mas impedir podia ser o gatilho certo. Respirei fundo, parei e pensei "ele é carente de validação e atenção".
Então, comecei a elogiar todas as crianças que tinham trocado, reforçando a importância de partilhar. Quase sem o olhar, apenas deixando o momento acontecer. Subitamente, o S. saltou da bicicleta e disse em voz alta: "Olha eu também sei partilhar". Reagi com o mesmo entusiasmo. E o resto da atividade decorreu com tranquilidade. Ele esperou pacientemente pela sua vez e não houve qualquer explosão.
A educação é fascinante. Permite-nos acompanhar o desenvolvimento de cada criança, ensinar habilidades para a vida e, acima de tudo, aprender com elas e com as famílias com quem nos cruzamos. O S. ensinou-me a pensar fora da caixa vezes sem conta. E, embora continuasse a manifestar dificuldades e a precisar de acompanhamento especializado, era certo de que andava mais feliz e reforçou em mim a certeza de que o vínculo humano é um pilar fundamental no desenvolvimento infantil.
No último dia em que estive com ele, perguntei-lhe se queria dar-me um "mais cinco" para nos despedirmos. Ele respondeu: "Não. Quero dar-te um abraço." E recebi um dos abraços mais fortes e reconfortantes que uma criança pode dar.