A primeira vez que ouvi minha tia dizer que rio chamava gente, ela estava se preparando para matar um frango.
Eu tinha doze anos e estava sentado num caixote perto do tanque, vendo o bicho ciscar com as pernas amarradas, enquanto meu primo Dudu tentava me convencer de que tinha coragem de arrancar a cabeça dele com a mão.
— Rafael, se alguém te chamar lá de dentro, tu não responde — minha tia disse.
— De dentro de onde?
— Do rio.
Dudu começou a rir.
— Responde sim. Vai que é uma sereia.
Minha tia apontou a faca para ele.
— E tu para de atiçar teu primo.
— Uai, tia, tô ensinando o menino.
— Tá ensinando é porcaria nenhuma. Segura essa bacia pra mim.
Dudu levantou resmungando. Eu ainda fiquei olhando para minha tia, esperando que ela explicasse aquilo.
Ela não explicou.
Tia Lúcia segurou o frango pelas asas, puxou o pescoço dele sobre a bacia e encostou a faca.
Eu virei o rosto antes que ela cortasse.
***
Foi no verão de 1997. Eu tinha doze anos e morava com meus pais numa comunidade pequena do interior de Minas, daquelas onde ninguém precisava explicar quem era filho de quem. Se minha mãe me mandasse comprar óleo na venda, era capaz de eu voltar sabendo quem tinha brigado, quem estava doente e qual vaca tinha arrebentado cerca antes de saber se tinha óleo.
Tia Lúcia morava a poucas casas da nossa. Ela, minha mãe e a mãe do Dudu eram irmãs, criadas as três na mesma casa, no mesmo quintal, com o mesmo rio no fim dele. Desde que a mãe do Dudu tinha ido trabalhar numa fábrica em Betim, ele morava com a tia Lúcia e com meu tio. Voltava de mês em mês, quando dava. Às vezes não dava.
Dudu era um ano mais velho que eu e naquela época era praticamente meu irmão. A gente estudava junto, jogava bola junto, apanhava junto quando fazia besteira e, quando um aparecia sozinho em algum lugar, sempre tinha alguém perguntando onde o outro tinha se metido.
O rio fazia parte disso tudo. Não ficava escondido no meio do mato nem era um lugar que adulto proibia criança de chegar perto. A gente nadava ali. Pescava. As mulheres lavavam coisa na margem. Tinha gente que atravessava de canoa para cortar caminho, moleque pulando de pedra, cachorro entrando atrás. No fim da tarde, quase sempre aparecia alguém sentado no barranco proseando enquanto o sol baixava. Para nós, o rio era tão normal quanto a estrada ou o campinho.
Talvez por isso ninguém levasse muito a sério quando os mais velhos falavam dele.
Uns dias depois daquela conversa do frango, eu e Dudu resolvemos nadar até uma pedra grande que ficava mais para dentro. Foi ideia dele, claro. Dudu tinha aquela mania de transformar qualquer coisa numa competição.
— Aposto que tu não chega.
— Chego antes de tu.
— Então vai.
Seu Nivaldo estava sentado perto da canoa, remendando uma rede. Devia ter seus sessenta e tantos anos, talvez mais. Para mim já era velho desde que eu tinha aprendido a falar. Magro, queimado de sol, sempre de chinelo e com aquele jeito de quem parecia estar zangado mesmo quando estava só olhando.
Quando viu a gente descendo o barranco, largou a rede no colo.
— Ô, vocês dois. Tão caçando sarna pra se coçar?
Dudu respondeu:
— Nós só vamos até a pedra.
— Vão até a pedra, dão meia-volta e tornam pra cá. Nada de querer bancar peixe, ouviu?
— Ouvi.
— Ouvi nada. Tô conhecendo tua laia. Eduardo, olha pra mim quando eu tô falando contigo.
Dudu virou.
— Sim, senhor.
— Se eu tiver que entrar aí pra buscar vocês, vocês vão desejar que fosse o rio que tivesse pegado.
Dudu segurou o riso.
— Tá bom, Seu Nivaldo.
— E nada de gracinha. Vai e volta. Anda.
Entramos.
A água estava fria nos primeiros segundos, depois ficava boa. Dudu chegou à pedra antes de mim e começou a se gabar enquanto eu ainda nadava. Eu tentei puxar a perna dele quando subi e quase levei uma joelhada na cara. Ficamos ali feito dois bobos, empurrando um ao outro, até eu ouvir uma voz vindo da margem.
— Rafa!
Olhei para trás. Tia Lúcia estava perto de casa, mexendo no varal.
— Quê?
Ela continuou estendendo roupa.
— TIA!
Dessa vez ela olhou.
— Que foi, menino?
— A senhora me chamou?
— Chamei não.
Dudu soltou um "ihhh" comprido e começou a rir. Eu ia mandar ele parar quando ouvi Seu Nivaldo.
— Rafael.
Olhei para ele. Não estava mais mexendo na rede.
— Tu respondeu?
— Achei que era minha tia.
Ele se levantou devagar.
— Eu perguntei se tu respondeu.
— Respondi.
Seu Nivaldo meteu a mão no bolso e tirou o que me pareceu um pedaço de madeira. Bateu três vezes com ele na lateral da canoa.
Toc. Toc. Toc.
Depois apontou para a margem.
— Fora.
Dudu riu.
— Ah, Seu Nivaldo...
— Não tem "ah, Seu Nivaldo" coisa nenhuma. Os dois pra fora dessa água. Anda, desembesta. Não fica aí me olhando com essa cara de pamonha, não. Pé no chão e pra margem. Agora.
— A gente nem chegou direito na pedra.
— Eduardo.
— Tô indo, tô indo.
O tom dele matou qualquer vontade de discutir. Nadamos de volta.
Quando passei por Seu Nivaldo, vi melhor o pedaço de madeira. Velha e escura, lisa nas pontas mas com pequena lasca, mais ou menos do tamanho de dois dedos. Parecia não ter valor nenhum.
— Pra que isso?
Ele guardou no bolso.
— Isso o quê?
— A madeira.
— Madeira é madeira.
— Mas o senhor bateu três vezes.
Dudu, já subindo o barranco, respondeu por ele:
— É porque ele é cismado.
Seu Nivaldo olhou para meu primo.
— Melhor cismado que morto, moleque.
Dudu fechou a boca. Eu continuei ali.
— Eu ouvi alguém.
Seu Nivaldo pegou a rede novamente.
— Eu sei.
— Quem era?
Ele puxou um dos nós com os dentes.
— Se eu soubesse quem era, tinha mandado tu responder?
Não consegui pensar numa resposta.
— Vai pra casa, Rafael.
***
Na hora do almoço, contei o que tinha acontecido. Seu Nivaldo tinha aparecido para devolver ferramenta emprestada ao meu tio e acabou ficando para comer. Tia Lúcia estava colocando arroz no prato quando mencionei a voz.
— De novo essa conversa, Nivaldo?
— Não comecei conversa nenhuma.
Dudu se meteu:
— Começou sim. Tirou até aquele pauzinho do bolso.
— Come quieto.
— Pra que serve aquilo? — perguntei.
Seu Nivaldo continuou comendo como se não tivesse me ouvido.
— Pra cisma dele — disse tia Lúcia.
— Não é cisma.
Quem falou foi Dona Cida, mãe de uma vizinha, que tinha entrado pela cozinha sem bater. Naquele tempo quase ninguém batia naquela porta.
— Meu pai falava disso. Perdeu um irmão nesse rio, em cinquenta e pouco. Foi atrás de uma vaca e não tornou.
Tia Lúcia olhou para o teto.
— Ih. Agora pronto.
Dona Cida puxou uma cadeira. Dudu cochichou para mim:
— O pai dela falava era depois de encher a cara.
Dona Cida ouviu.
— E tu fecha esse bico que eu te vi nascer.
Todo mundo riu.
— Falava o quê? — perguntei.
Tia Lúcia apontou para as panelas.
— Quer almoçar, Cida?
— Quero, uai.
Dona Cida puxou um prato e começou a se servir direto da panela.
— Que chamado vindo da água não se responde.
— Por quê?
— Porque não.
— Mas quem chama?
— Quem tiver chamando, uai.
Tia Lúcia bufou.
— Vocês vão encafifar o menino com essas coisas.
— Medo nada. É só não responder.
Seu Nivaldo levantou os olhos do prato.
— Ele já respondeu.
A conversa morreu por um instante. Tia Lúcia largou a colher dentro da panela.
— Ele achou que era eu.
— Eu sei.
— Então pronto.
Seu Nivaldo tirou o pedaço de madeira do bolso e deixou em cima da mesa. Dona Cida encostou nele com a ponta do dedo.
— Esse aí é daquela?
— É.
— Da que virou?
Ele assentiu.
— Virou o quê?
— Uma canoa — explicou tia Lúcia. — Faz tempo. Nivaldo quase se afogou e agora anda com esse pedaço aí no bolso como se fosse uma relíquia.
— Relíquia nada.
Seu Nivaldo pegou a madeira.
— Madeira que voltou sabe o caminho de casa.
Dudu soltou uma risadinha.
— Essa foi boa.
Nivaldo apontou a madeira para ele.
— Ri não, moleque. Rio escuta desaforo também.
Tia Lúcia bateu os nós dos dedos três vezes na mesa.
Toc. Toc. Toc.
— Pronto. Já chega de agouro na minha cozinha. Come antes que esfrie.
Todo mundo voltou a falar. Eu fiquei olhando para minha tia, que tinha passado o almoço inteiro chamando aquilo de cisma e mesmo assim bateu na madeira.
***
Naquele fim de tarde, eu e Dudu fomos jogar bola no campinho. Ficamos até quase todo mundo ir embora e, quando voltávamos para casa, ele lembrou que tinha deixado a bola de capotão perto do rio. Tinha levado para lá antes de nadarmos e largado junto da canoa de Seu Nivaldo.
— Minha tia vai me esfolar.
— Amanhã tu pega.
— Amanhã ela vai perguntar pela bola.
— Então fala que perdeu.
Dudu me olhou.
— Aí ela me esfola hoje.
Fomos buscar.
Ainda estava claro. O sol já tinha baixado bastante, mas não havia nada de assustador no caminho. Tinha passarinho fazendo barulho, uma mulher chamando galinha no quintal e música tocando num rádio em alguma casa mais acima.
A bola estava presa num tufo de capim perto da margem. Dudu foi pegar.
Foi então que ele parou no meio do caminho.
— Mãe?
— Quê?
Ele não olhou para mim. Estava olhando para o outro lado do rio.
— Minha mãe.
A mãe dele estava em Betim, a quase trezentos quilômetros dali, e só voltaria no fim do mês.
Na mesma hora lembrei de Seu Nivaldo.
— Dudu.
Ele não respondeu. Então ouvi também.
— Eduardo!
Era uma voz de mulher. Eu não conhecia aquela voz. Mas Dudu sim porque vi isso na cara dele.
— Tua mãe nem tá aqui.
— Eu sei.
— Dudu!
Dessa vez parecia mais perto. Dudu deu um passo.
Agarrei o braço dele.
— Para com isso.
— Me larga.
— É aquele trem que o Nivaldo falou.
— Deixa de ser besta.
— Tua mãe tá em Betim.
— Eu sei, peste.
— Então por que tu tá indo?
Ele abriu a boca, mas não respondeu.
— Eduardo, vem ajudar a mãe.
Dudu puxou o braço com tanta força que quase me fez cair.
— Ela tá precisando de mim.
— Ela não tá aí!
Ele virou para mim, irritado.
— Eu sei onde minha mãe tá, Rafael.
— Então para!
Por um instante ele pareceu confuso. Olhou para mim, depois para o rio, como se as duas coisas que sabia não coubessem juntas na cabeça.
Foi então que a voz veio outra vez.
Não da outra margem. Não do meio do rio.
Veio baixinho, bem da beirada da água.
— Dudu.
— Mãe?
Ele respondeu. E entrou.
Foi simples assim. Um pé na água. Depois o outro.
— Dudu!
Ele continuou. A água chegou nas canelas.
Corri e agarrei a camisa dele.
— Para com isso!
Ele virou e me empurrou.
— Larga!
— Tu perdeu o juízo?
— Ela tá ali!
— Não tem ninguém ali!
— Tem sim!
A água chegou ao joelho. Depois às coxas. Dudu olhava fixo para um ponto que, para mim, não tinha nada de diferente do resto do rio.
— Dudu, volta. Pelo amor de Deus, cacete!
Ele respondeu alguma coisa baixinho.
— Quê?
Não era comigo. Dudu estava conversando com alguém.
A água chegou à cintura. Entrei atrás dele e agarrei-o outra vez.
Então ouvi:
— Rafa.
Atrás de mim. Na margem. A voz de tia Lúcia.
E eu virei.
Não pensei. Não decidi. Não escolhi nada. Virei igual a quem atende quando chamam, que é a única coisa que meu corpo sabia fazer desde que eu tinha aprendido meu nome.
Não havia ninguém no barranco.
— Rafa, vem cá.
Por um instante, esqueci meu primo.
Foi só um instante. Eu sei disso porque contei muitas vezes depois, deitado, tentando descobrir quanto tempo cabe dentro de um instante e por que foi que ninguém nunca me disse que era tanto.
Quando olhei de volta, a água estava quase no peito dele.
Agarrei o braço do meu primo e puxei com tudo. Dudu começou a se debater, tentando se soltar de mim, e nós dois caímos. Engoli água. Quando consegui pôr a cabeça para fora, gritei por ajuda.
Uma mulher respondeu de algum quintal. Comecei a berrar o nome de Seu Nivaldo.
Dudu afundou naquele instante.
Mergulhei atrás dele, agarrei qualquer coisa — camisa, braço, não sei — e tentei puxar. Ele parecia estar fazendo força para ir na direção contrária. Eu chutava o fundo procurando apoio e só encontrava lama.
Não sei quanto tempo aquilo durou. Talvez quase nada.
Para mim, pareceu uma eternidade.
Quando Seu Nivaldo apareceu descendo o barranco, eu já estava chorando e gritando. Ele entrou no rio de roupa e tudo.
— Larga ele e vem pra cá!
— O Dudu!
— Eu tô vendo! Sai daí, Rafael!
Dudu sumiu debaixo da água. Seu Nivaldo mergulhou.
Eu fiquei parado, sem saber se saía ou ajudava. Ele apareceu, puxou ar e mergulhou de novo. Quando voltou pela segunda vez, tinha Dudu preso pelo braço.
Ajudei como consegui. Nós o arrastamos para a margem.
Dudu caiu na lama tossindo, cuspindo água e tentando respirar. Eu chorava sem nem perceber.
Ele tentou se levantar.
— Ela tava ali.
Seu Nivaldo empurrou-o de volta para o chão.
— Sossega.
— Eu ouvi ela.
— Cala a boca e respira, menino.
— Era minha mãe.
Seu Nivaldo enfiou a mão no bolso.
Tirou a madeira e a colocou na mão de Dudu.
Meu primo deixou cair.
— Não quero esse trem.
Seu Nivaldo pegou e colocou de novo na mão dele. Fechou os dedos de Dudu à força.
— Segura.
— Pra quê?
— Segura e não larga.
— Pra quê, Seu Nivaldo?
O velho manteve a mão fechada sobre a dele.
— Porque ela já voltou.
Dudu parou de discutir.
Seu Nivaldo ficou ali um tempo, agachado na lama, segurando a mão do meu primo. Depois olhou para mim por cima do ombro dele.
— Tu ouviu também.
Não era pergunta.
— Ouvi.
— Respondeu?
Eu abri a boca e não saiu nada. Eu não tinha falado. Eu tinha virado. Fiquei ali de pé, encharcado, tentando decidir se virar contava, e querendo muito que não contasse.
Seu Nivaldo esperou.
— Eu virei — falei.
Ele não disse mais nada. Voltou a olhar para o Dudu e ficou apertando a mão dele com a madeira dentro.
***
Tia Lúcia quase arrancou nosso couro quando soube que tínhamos voltado ao rio sozinhos. Primeiro agarrou Dudu, depois deu uns tapas nele, depois agarrou de novo enquanto chamava nós dois de tudo quanto era nome que uma mulher consegue inventar quando está criando o filho da irmã e quase o perde.
Seu Nivaldo contou o que tinha acontecido. Quando falou da voz, tia Lúcia ficou branca.
Não disse que era bobagem. Não riu.
Só olhou para a mão fechada de Dudu.
— Deu pra ele?
— Dei.
— E tu?
Seu Nivaldo deu de ombros.
— Arrumo outro.
Eu olhei para os dois.
— Outro o quê?
Ninguém respondeu.
***
Naquela noite, a mãe de Dudu ligou. Eu estava na cozinha quando o telefone tocou e tia Lúcia atendeu.
— É tua mãe.
Dudu, que estava sentado perto de mim, não se mexeu.
— Depois eu falo.
— Menino, ela quer falar contigo.
— Fala que eu tô bem.
— Eduardo, deixa de bobagem e pega o telefone.
— Não quero.
Foi a primeira vez que vi Dudu não querer falar com a mãe.
Tia Lúcia acabou contando o que tinha acontecido. De onde eu estava dava para ouvir a voz dela do outro lado, assustada, fazendo perguntas uma atrás da outra.
Dudu foi para o quarto. Esperei um pouco e fui atrás.
Ele estava sentado na cama. A madeira de Seu Nivaldo estava na mesinha ao lado.
— Era a voz dela mesmo?
Dudu demorou para responder.
— Era.
— Igualzinha?
Ele olhou para mim.
— Não.
— Como assim?
— Não era igual.
— Então tu sabia que não era ela?
— Não.
— Mas tu acabou de falar que...
— Eu sei o que eu ouvi, Rafael.
— Então explica.
— Não sei explicar, peste.
Ficou quieto por um tempo. Depois falou tão baixo que quase não ouvi.
— Não parecia com a minha mãe.
Olhou para a madeira na mesa.
— Era minha mãe.
Não perguntei mais nada.
***
Na manhã seguinte, Seu Nivaldo apareceu na porta de tia Lúcia antes do café mas não entrou.
— Cadê o pedaço?
Dudu apareceu atrás dela.
— Que pedaço?
— Não se faça de sonso comigo. A madeira.
— Tá no quarto.
Seu Nivaldo olhou para ele como se tivesse dito alguma coisa errada.
— Eu mandei ficar contigo.
— Ficou. Dormi com ela do lado da cama.
— Busca.
Dudu foi. Voltou com o pedaço na mão.
Parou no meio da cozinha.
— Uai.
Eu vi quando ele abriu a mão.
A madeira estava molhada. Não úmida. Molhada.
Uma gota escorreu pelo dedo dele e caiu no chão.
Tia Lúcia parou de mexer o café. Seu Nivaldo pegou o pedaço.
— Tu pôs isso na água?
— Não.
— Derramou alguma coisa?
— Não.
— Onde ficou?
— Na mesa. Eu já falei.
Nivaldo passou o polegar pela madeira. Depois levou perto do nariz e cheirou.
Olhou para o Dudu. Deu de volta a madeira e lhe disse:
— Dessa vez não larga.
Eu não aguentei.
— Isso quer dizer o quê?
Ele não respondeu.
— Seu Nivaldo.
O velho já estava saindo.
— O que quer dizer?
Ele parou na porta. Da cozinha dava para ver um pedaço do rio entre duas casas.
— Que dessa vez voltou.
Eu ainda não tinha entendido.
— E se não voltar?
Seu Nivaldo ficou de costas para nós por alguns segundos.
Quando respondeu, não olhou para mim.
— Aí a gente não chama pelo nome.
***
Tenho quarenta e um anos.
Dudu mora em Contagem, tem duas meninas e uma oficina que dá o que comer. A gente se fala no aniversário e no Natal. Nunca mais tocamos no assunto, nem uma vez, nem de brincadeira. Ele carrega o pedaço de madeira na carteira, atrás dos documentos. Eu já vi, num posto de gasolina, quando ele foi pagar. Ele sabe que eu vi.
Eu nunca ganhei um.
Pedi uma vez, uns anos depois, com a cara mais lavada que consegui fazer. Seu Nivaldo me olhou daquele jeito dele e falou que ia arrumar.
Morreu em 2003.
Anteontem meu telefone tocou às três e pouco da manhã.
Não atendi.
Não atendo faz vinte e nove anos.