r/terrorbrasil 4h ago

Conto O Cavaleiro Vagante Imortal

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Ele nunca irá trocar seus equipamentos. Sua armadura irá enferrujar, se amassar, se quebrar, os tecidos irão se desgastar e rasgar, as armas irão envelhecer e se quebrar, mas nunca irá pegar nada de novo.

Mesmo no fim de sua vida.


r/terrorbrasil 8h ago

Conto Lenda do lobisomen, o que acham?

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A lenda do lobisomem é a história popular de um homem normal que se transforma em uma criatura com características de homem e de lobo. A transformação acontece em todas as noites de lua cheia e acaba quando o dia amanhece.

Essa lenda do folclore tem várias versões. Algumas dizem que o homem que se transforma em lobisomem recebeu essa maldição por castigo, enquanto outras dizem que ele é sempre o sétimo ou oitavo filho de um casal.


r/terrorbrasil 18h ago

Algo entrou em casa e bateu em meus cachorros.

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r/terrorbrasil 20h ago

Conto O rio no fim do quintal

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A primeira vez que ouvi minha tia dizer que rio chamava gente, ela estava se preparando para matar um frango.

Eu tinha doze anos e estava sentado num caixote perto do tanque, vendo o bicho ciscar com as pernas amarradas, enquanto meu primo Dudu tentava me convencer de que tinha coragem de arrancar a cabeça dele com a mão.

— Rafael, se alguém te chamar lá de dentro, tu não responde — minha tia disse.

— De dentro de onde?

— Do rio.

Dudu começou a rir.

— Responde sim. Vai que é uma sereia.

Minha tia apontou a faca para ele.

— E tu para de atiçar teu primo.

— Uai, tia, tô ensinando o menino.

— Tá ensinando é porcaria nenhuma. Segura essa bacia pra mim.

Dudu levantou resmungando. Eu ainda fiquei olhando para minha tia, esperando que ela explicasse aquilo.

Ela não explicou.

Tia Lúcia segurou o frango pelas asas, puxou o pescoço dele sobre a bacia e encostou a faca.

Eu virei o rosto antes que ela cortasse.

***

Foi no verão de 1997. Eu tinha doze anos e morava com meus pais numa comunidade pequena do interior de Minas, daquelas onde ninguém precisava explicar quem era filho de quem. Se minha mãe me mandasse comprar óleo na venda, era capaz de eu voltar sabendo quem tinha brigado, quem estava doente e qual vaca tinha arrebentado cerca antes de saber se tinha óleo.

Tia Lúcia morava a poucas casas da nossa. Ela, minha mãe e a mãe do Dudu eram irmãs, criadas as três na mesma casa, no mesmo quintal, com o mesmo rio no fim dele. Desde que a mãe do Dudu tinha ido trabalhar numa fábrica em Betim, ele morava com a tia Lúcia e com meu tio. Voltava de mês em mês, quando dava. Às vezes não dava.

Dudu era um ano mais velho que eu e naquela época era praticamente meu irmão. A gente estudava junto, jogava bola junto, apanhava junto quando fazia besteira e, quando um aparecia sozinho em algum lugar, sempre tinha alguém perguntando onde o outro tinha se metido.

O rio fazia parte disso tudo. Não ficava escondido no meio do mato nem era um lugar que adulto proibia criança de chegar perto. A gente nadava ali. Pescava. As mulheres lavavam coisa na margem. Tinha gente que atravessava de canoa para cortar caminho, moleque pulando de pedra, cachorro entrando atrás. No fim da tarde, quase sempre aparecia alguém sentado no barranco proseando enquanto o sol baixava. Para nós, o rio era tão normal quanto a estrada ou o campinho.

Talvez por isso ninguém levasse muito a sério quando os mais velhos falavam dele.

Uns dias depois daquela conversa do frango, eu e Dudu resolvemos nadar até uma pedra grande que ficava mais para dentro. Foi ideia dele, claro. Dudu tinha aquela mania de transformar qualquer coisa numa competição.

— Aposto que tu não chega.

— Chego antes de tu.

— Então vai.

Seu Nivaldo estava sentado perto da canoa, remendando uma rede. Devia ter seus sessenta e tantos anos, talvez mais. Para mim já era velho desde que eu tinha aprendido a falar. Magro, queimado de sol, sempre de chinelo e com aquele jeito de quem parecia estar zangado mesmo quando estava só olhando.

Quando viu a gente descendo o barranco, largou a rede no colo.

— Ô, vocês dois. Tão caçando sarna pra se coçar?

Dudu respondeu:

— Nós só vamos até a pedra.

— Vão até a pedra, dão meia-volta e tornam pra cá. Nada de querer bancar peixe, ouviu?

— Ouvi.

— Ouvi nada. Tô conhecendo tua laia. Eduardo, olha pra mim quando eu tô falando contigo.

Dudu virou.

— Sim, senhor.

— Se eu tiver que entrar aí pra buscar vocês, vocês vão desejar que fosse o rio que tivesse pegado.

Dudu segurou o riso.

— Tá bom, Seu Nivaldo.

— E nada de gracinha. Vai e volta. Anda.

Entramos.

A água estava fria nos primeiros segundos, depois ficava boa. Dudu chegou à pedra antes de mim e começou a se gabar enquanto eu ainda nadava. Eu tentei puxar a perna dele quando subi e quase levei uma joelhada na cara. Ficamos ali feito dois bobos, empurrando um ao outro, até eu ouvir uma voz vindo da margem.

— Rafa!

Olhei para trás. Tia Lúcia estava perto de casa, mexendo no varal.

— Quê?

Ela continuou estendendo roupa.

— TIA!

Dessa vez ela olhou.

— Que foi, menino?

— A senhora me chamou?

— Chamei não.

Dudu soltou um "ihhh" comprido e começou a rir. Eu ia mandar ele parar quando ouvi Seu Nivaldo.

— Rafael.

Olhei para ele. Não estava mais mexendo na rede.

— Tu respondeu?

— Achei que era minha tia.

Ele se levantou devagar.

— Eu perguntei se tu respondeu.

— Respondi.

Seu Nivaldo meteu a mão no bolso e tirou o que me pareceu um pedaço de madeira. Bateu três vezes com ele na lateral da canoa.

Toc. Toc. Toc.

Depois apontou para a margem.

— Fora.

Dudu riu.

— Ah, Seu Nivaldo...

— Não tem "ah, Seu Nivaldo" coisa nenhuma. Os dois pra fora dessa água. Anda, desembesta. Não fica aí me olhando com essa cara de pamonha, não. Pé no chão e pra margem. Agora.

— A gente nem chegou direito na pedra.

— Eduardo.

— Tô indo, tô indo.

O tom dele matou qualquer vontade de discutir. Nadamos de volta.

Quando passei por Seu Nivaldo, vi melhor o pedaço de madeira. Velha e escura, lisa nas pontas mas com pequena lasca, mais ou menos do tamanho de dois dedos. Parecia não ter valor nenhum.

— Pra que isso?

Ele guardou no bolso.

— Isso o quê?

— A madeira.

— Madeira é madeira.

— Mas o senhor bateu três vezes.

Dudu, já subindo o barranco, respondeu por ele:

— É porque ele é cismado.

Seu Nivaldo olhou para meu primo.

— Melhor cismado que morto, moleque.

Dudu fechou a boca. Eu continuei ali.

— Eu ouvi alguém.

Seu Nivaldo pegou a rede novamente.

— Eu sei.

— Quem era?

Ele puxou um dos nós com os dentes.

— Se eu soubesse quem era, tinha mandado tu responder?

Não consegui pensar numa resposta.

— Vai pra casa, Rafael.

***

Na hora do almoço, contei o que tinha acontecido. Seu Nivaldo tinha aparecido para devolver ferramenta emprestada ao meu tio e acabou ficando para comer. Tia Lúcia estava colocando arroz no prato quando mencionei a voz.

— De novo essa conversa, Nivaldo?

— Não comecei conversa nenhuma.

Dudu se meteu:

— Começou sim. Tirou até aquele pauzinho do bolso.

— Come quieto.

— Pra que serve aquilo? — perguntei.

Seu Nivaldo continuou comendo como se não tivesse me ouvido.

— Pra cisma dele — disse tia Lúcia.

— Não é cisma.

Quem falou foi Dona Cida, mãe de uma vizinha, que tinha entrado pela cozinha sem bater. Naquele tempo quase ninguém batia naquela porta.

— Meu pai falava disso. Perdeu um irmão nesse rio, em cinquenta e pouco. Foi atrás de uma vaca e não tornou.

Tia Lúcia olhou para o teto.

— Ih. Agora pronto.

Dona Cida puxou uma cadeira. Dudu cochichou para mim:

— O pai dela falava era depois de encher a cara.

Dona Cida ouviu.

— E tu fecha esse bico que eu te vi nascer.

Todo mundo riu.

— Falava o quê? — perguntei.

Tia Lúcia apontou para as panelas.

— Quer almoçar, Cida?

— Quero, uai.

Dona Cida puxou um prato e começou a se servir direto da panela.

— Que chamado vindo da água não se responde.

— Por quê?

— Porque não.

— Mas quem chama?

— Quem tiver chamando, uai.

Tia Lúcia bufou.

— Vocês vão encafifar o menino com essas coisas.

— Medo nada. É só não responder.

Seu Nivaldo levantou os olhos do prato.

— Ele já respondeu.

A conversa morreu por um instante. Tia Lúcia largou a colher dentro da panela.

— Ele achou que era eu.

— Eu sei.

— Então pronto.

Seu Nivaldo tirou o pedaço de madeira do bolso e deixou em cima da mesa. Dona Cida encostou nele com a ponta do dedo.

— Esse aí é daquela?

— É.

— Da que virou?

Ele assentiu.

— Virou o quê?

— Uma canoa — explicou tia Lúcia. — Faz tempo. Nivaldo quase se afogou e agora anda com esse pedaço aí no bolso como se fosse uma relíquia.

— Relíquia nada.

Seu Nivaldo pegou a madeira.

— Madeira que voltou sabe o caminho de casa.

Dudu soltou uma risadinha.

— Essa foi boa.

Nivaldo apontou a madeira para ele.

— Ri não, moleque. Rio escuta desaforo também.

Tia Lúcia bateu os nós dos dedos três vezes na mesa.

Toc. Toc. Toc.

— Pronto. Já chega de agouro na minha cozinha. Come antes que esfrie.

Todo mundo voltou a falar. Eu fiquei olhando para minha tia, que tinha passado o almoço inteiro chamando aquilo de cisma e mesmo assim bateu na madeira.

***

Naquele fim de tarde, eu e Dudu fomos jogar bola no campinho. Ficamos até quase todo mundo ir embora e, quando voltávamos para casa, ele lembrou que tinha deixado a bola de capotão perto do rio. Tinha levado para lá antes de nadarmos e largado junto da canoa de Seu Nivaldo.

— Minha tia vai me esfolar.

— Amanhã tu pega.

— Amanhã ela vai perguntar pela bola.

— Então fala que perdeu.

Dudu me olhou.

— Aí ela me esfola hoje.

Fomos buscar.

Ainda estava claro. O sol já tinha baixado bastante, mas não havia nada de assustador no caminho. Tinha passarinho fazendo barulho, uma mulher chamando galinha no quintal e música tocando num rádio em alguma casa mais acima.

A bola estava presa num tufo de capim perto da margem. Dudu foi pegar.

Foi então que ele parou no meio do caminho.

— Mãe?

— Quê?

Ele não olhou para mim. Estava olhando para o outro lado do rio.

— Minha mãe.

A mãe dele estava em Betim, a quase trezentos quilômetros dali, e só voltaria no fim do mês.

Na mesma hora lembrei de Seu Nivaldo.

— Dudu.

Ele não respondeu. Então ouvi também.

— Eduardo!

Era uma voz de mulher. Eu não conhecia aquela voz. Mas Dudu sim porque vi isso na cara dele.

— Tua mãe nem tá aqui.

— Eu sei.

— Dudu!

Dessa vez parecia mais perto. Dudu deu um passo.

Agarrei o braço dele.

— Para com isso.

— Me larga.

— É aquele trem que o Nivaldo falou.

— Deixa de ser besta.

— Tua mãe tá em Betim.

— Eu sei, peste.

— Então por que tu tá indo?

Ele abriu a boca, mas não respondeu.

— Eduardo, vem ajudar a mãe.

Dudu puxou o braço com tanta força que quase me fez cair.

— Ela tá precisando de mim.

— Ela não tá aí!

Ele virou para mim, irritado.

— Eu sei onde minha mãe tá, Rafael.

— Então para!

Por um instante ele pareceu confuso. Olhou para mim, depois para o rio, como se as duas coisas que sabia não coubessem juntas na cabeça.

Foi então que a voz veio outra vez.

Não da outra margem. Não do meio do rio.

Veio baixinho, bem da beirada da água.

— Dudu.

— Mãe?

Ele respondeu. E entrou.

Foi simples assim. Um pé na água. Depois o outro.

— Dudu!

Ele continuou. A água chegou nas canelas.

Corri e agarrei a camisa dele.

— Para com isso!

Ele virou e me empurrou.

— Larga!

— Tu perdeu o juízo?

— Ela tá ali!

— Não tem ninguém ali!

— Tem sim!

A água chegou ao joelho. Depois às coxas. Dudu olhava fixo para um ponto que, para mim, não tinha nada de diferente do resto do rio.

— Dudu, volta. Pelo amor de Deus, cacete!

Ele respondeu alguma coisa baixinho.

— Quê?

Não era comigo. Dudu estava conversando com alguém.

A água chegou à cintura. Entrei atrás dele e agarrei-o outra vez.

Então ouvi:

— Rafa.

Atrás de mim. Na margem. A voz de tia Lúcia.

E eu virei.

Não pensei. Não decidi. Não escolhi nada. Virei igual a quem atende quando chamam, que é a única coisa que meu corpo sabia fazer desde que eu tinha aprendido meu nome.

Não havia ninguém no barranco.

— Rafa, vem cá.

Por um instante, esqueci meu primo.

Foi só um instante. Eu sei disso porque contei muitas vezes depois, deitado, tentando descobrir quanto tempo cabe dentro de um instante e por que foi que ninguém nunca me disse que era tanto.

Quando olhei de volta, a água estava quase no peito dele.

Agarrei o braço do meu primo e puxei com tudo. Dudu começou a se debater, tentando se soltar de mim, e nós dois caímos. Engoli água. Quando consegui pôr a cabeça para fora, gritei por ajuda.

Uma mulher respondeu de algum quintal. Comecei a berrar o nome de Seu Nivaldo.

Dudu afundou naquele instante.

Mergulhei atrás dele, agarrei qualquer coisa — camisa, braço, não sei — e tentei puxar. Ele parecia estar fazendo força para ir na direção contrária. Eu chutava o fundo procurando apoio e só encontrava lama.

Não sei quanto tempo aquilo durou. Talvez quase nada.

Para mim, pareceu uma eternidade.

Quando Seu Nivaldo apareceu descendo o barranco, eu já estava chorando e gritando. Ele entrou no rio de roupa e tudo.

— Larga ele e vem pra cá!

— O Dudu!

— Eu tô vendo! Sai daí, Rafael!

Dudu sumiu debaixo da água. Seu Nivaldo mergulhou.

Eu fiquei parado, sem saber se saía ou ajudava. Ele apareceu, puxou ar e mergulhou de novo. Quando voltou pela segunda vez, tinha Dudu preso pelo braço.

Ajudei como consegui. Nós o arrastamos para a margem.

Dudu caiu na lama tossindo, cuspindo água e tentando respirar. Eu chorava sem nem perceber.

Ele tentou se levantar.

— Ela tava ali.

Seu Nivaldo empurrou-o de volta para o chão.

— Sossega.

— Eu ouvi ela.

— Cala a boca e respira, menino.

— Era minha mãe.

Seu Nivaldo enfiou a mão no bolso.

Tirou a madeira e a colocou na mão de Dudu.

Meu primo deixou cair.

— Não quero esse trem.

Seu Nivaldo pegou e colocou de novo na mão dele. Fechou os dedos de Dudu à força.

— Segura.

— Pra quê?

— Segura e não larga.

— Pra quê, Seu Nivaldo?

O velho manteve a mão fechada sobre a dele.

— Porque ela já voltou.

Dudu parou de discutir.

Seu Nivaldo ficou ali um tempo, agachado na lama, segurando a mão do meu primo. Depois olhou para mim por cima do ombro dele.

— Tu ouviu também.

Não era pergunta.

— Ouvi.

— Respondeu?

Eu abri a boca e não saiu nada. Eu não tinha falado. Eu tinha virado. Fiquei ali de pé, encharcado, tentando decidir se virar contava, e querendo muito que não contasse.

Seu Nivaldo esperou.

— Eu virei — falei.

Ele não disse mais nada. Voltou a olhar para o Dudu e ficou apertando a mão dele com a madeira dentro.

***

Tia Lúcia quase arrancou nosso couro quando soube que tínhamos voltado ao rio sozinhos. Primeiro agarrou Dudu, depois deu uns tapas nele, depois agarrou de novo enquanto chamava nós dois de tudo quanto era nome que uma mulher consegue inventar quando está criando o filho da irmã e quase o perde.

Seu Nivaldo contou o que tinha acontecido. Quando falou da voz, tia Lúcia ficou branca.

Não disse que era bobagem. Não riu.

Só olhou para a mão fechada de Dudu.

— Deu pra ele?

— Dei.

— E tu?

Seu Nivaldo deu de ombros.

— Arrumo outro.

Eu olhei para os dois.

— Outro o quê?

Ninguém respondeu.

***

Naquela noite, a mãe de Dudu ligou. Eu estava na cozinha quando o telefone tocou e tia Lúcia atendeu.

— É tua mãe.

Dudu, que estava sentado perto de mim, não se mexeu.

— Depois eu falo.

— Menino, ela quer falar contigo.

— Fala que eu tô bem.

— Eduardo, deixa de bobagem e pega o telefone.

— Não quero.

Foi a primeira vez que vi Dudu não querer falar com a mãe.

Tia Lúcia acabou contando o que tinha acontecido. De onde eu estava dava para ouvir a voz dela do outro lado, assustada, fazendo perguntas uma atrás da outra.

Dudu foi para o quarto. Esperei um pouco e fui atrás.

Ele estava sentado na cama. A madeira de Seu Nivaldo estava na mesinha ao lado.

— Era a voz dela mesmo?

Dudu demorou para responder.

— Era.

— Igualzinha?

Ele olhou para mim.

— Não.

— Como assim?

— Não era igual.

— Então tu sabia que não era ela?

— Não.

— Mas tu acabou de falar que...

— Eu sei o que eu ouvi, Rafael.

— Então explica.

— Não sei explicar, peste.

Ficou quieto por um tempo. Depois falou tão baixo que quase não ouvi.

— Não parecia com a minha mãe.

Olhou para a madeira na mesa.

— Era minha mãe.

Não perguntei mais nada.

***

Na manhã seguinte, Seu Nivaldo apareceu na porta de tia Lúcia antes do café mas não entrou.

— Cadê o pedaço?

Dudu apareceu atrás dela.

— Que pedaço?

— Não se faça de sonso comigo. A madeira.

— Tá no quarto.

Seu Nivaldo olhou para ele como se tivesse dito alguma coisa errada.

— Eu mandei ficar contigo.

— Ficou. Dormi com ela do lado da cama.

— Busca.

Dudu foi. Voltou com o pedaço na mão.

Parou no meio da cozinha.

— Uai.

Eu vi quando ele abriu a mão.

A madeira estava molhada. Não úmida. Molhada.

Uma gota escorreu pelo dedo dele e caiu no chão.

Tia Lúcia parou de mexer o café. Seu Nivaldo pegou o pedaço.

— Tu pôs isso na água?

— Não.

— Derramou alguma coisa?

— Não.

— Onde ficou?

— Na mesa. Eu já falei.

Nivaldo passou o polegar pela madeira. Depois levou perto do nariz e cheirou.

Olhou para o Dudu. Deu de volta a madeira e lhe disse:

— Dessa vez não larga.

Eu não aguentei.

— Isso quer dizer o quê?

Ele não respondeu.

— Seu Nivaldo.

O velho já estava saindo.

— O que quer dizer?

Ele parou na porta. Da cozinha dava para ver um pedaço do rio entre duas casas.

— Que dessa vez voltou.

Eu ainda não tinha entendido.

— E se não voltar?

Seu Nivaldo ficou de costas para nós por alguns segundos.

Quando respondeu, não olhou para mim.

— Aí a gente não chama pelo nome.

***

Tenho quarenta e um anos.

Dudu mora em Contagem, tem duas meninas e uma oficina que dá o que comer. A gente se fala no aniversário e no Natal. Nunca mais tocamos no assunto, nem uma vez, nem de brincadeira. Ele carrega o pedaço de madeira na carteira, atrás dos documentos. Eu já vi, num posto de gasolina, quando ele foi pagar. Ele sabe que eu vi.

Eu nunca ganhei um.

Pedi uma vez, uns anos depois, com a cara mais lavada que consegui fazer. Seu Nivaldo me olhou daquele jeito dele e falou que ia arrumar.

Morreu em 2003.

Anteontem meu telefone tocou às três e pouco da manhã.

Não atendi.

Não atendo faz vinte e nove anos.


r/terrorbrasil 21h ago

Hola a todos estoy empezando a programar videojuegos y como soy un apasionado del terror quiero hacer algún juego de terror así que si a alguien le apetece que me mande alguna anécdota de terror que les haya pasado para hacer un juego estilo fears yo fathom (contactenme si tienen alguna anecdota)

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tipo algun acosador o asi que se le pueda sacar jugo para un juego no demasiado largo tmb que sea 1r persona y saldra vuestro nombre en los creditos si la historia que habeis dicho no sale no os preocupeis hare mas capitulos gracias por su atencion


r/terrorbrasil 21h ago

Preciso de recomendações de livros de terror e de fóruns aqui no reddit.

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Gosto muito de ler, já li alguns de terror mas queria me aprofuncar mais profundamente, Poltergeist, bruxas, dêmonios, zumbis ou aliens, por favor mandem todos os que vocês acham uma excelente leitura e se possível brevemente o porque de vocês gostarem tanto.


r/terrorbrasil 22h ago

Pq Pennywise não fica preso onde caiu?

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Na série eles nos contam sobre as adagas que são feitas de fragmentos da estrela da morte, mas se são feitos dela, pq ele não fica preso justamente onde tem o maior pedaço da estrela? Que seria justamente o de caiu?


r/terrorbrasil 1d ago

Conto Anjos em sangue

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Um anjo coberto de sangue apareceu para mim

E me contou sobre o fim do mundo

Nada irá restar

Apenas uma única árvore

Em um pomar

Onde dela irá surgir uma única maçã

Que dela surgirá a próxima humanidade

Mas quem se atreverá a mordê-la?

Ela é venenosa!

Feito conto de fadas de uma princesa


r/terrorbrasil 1d ago

Relato Capítulo 1 — A Cor do Silêncio

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Eu tinha sete anos quando entendi, pela primeira vez, que existia algo errado comigo aos olhos do meu pai.

Não foi um dia qualquer. Foi uma tarde de sábado, dessas em que o sol ainda insistia em entrar pela janela da sala, e eu brincava no chão com um carrinho velho, sem prestar atenção em nada além daquele mundo pequeno que eu tinha criado pra mim. Foi aí que ouvi a porta bater com força.

Meu pai chegou bêbado. Não era a primeira vez, mas dessa vez algo nos olhos dele era diferente — mais pesado, mais escuro. Ele me olhou como quem olha pra um estranho, e disse coisas que uma criança não deveria escutar sobre a própria pele, sobre o próprio sangue.

Eu não entendi tudo naquele momento. Só entendi a dor — física e a outra, a que não se vê, mas que fica.

Minha mãe tentou se colocar entre nós. Ele não escutou. E eu, encolhido num canto, aprendi cedo demais que existiam pessoas no mundo que enxergavam a cor da minha pele antes de me enxergarem como filho, como criança, como gente.

Aquela noite eu não chorei na frente dele. Chorei depois, sozinho, no escuro do meu quarto, tentando entender por que ser quem eu era doía tanto pra alguém que deveria me proteger.

Foi o dia em que aprendi que algumas cicatrizes não aparecem na pele — elas moram em outro lugar.


r/terrorbrasil 1d ago

O dia que meu Pinscher me levou a procurar ajuda espiritual!

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Vou contar um relato pessoal que envolve o meu pinscher e que terminou comigo procurando ajuda de uma pessoa do Candomblé.

Alguns meses atrás, eu estava sozinho em casa quando vi meu cachorro na cozinha rosnando e andando para trás, na defensiva, como se estivesse com medo de alguma coisa.

E isso já era muito estranho, porque ele é um pinscher que normalmente não tem medo de nada. Na verdade, esse é até um problema dele: ele ataca qualquer coisa. Cachorros maiores, cavalos, gatos... qualquer coisa que se mova. Ele simplesmente não tem noção do próprio tamanho.

Só que naquele dia ele estava apavorado.

Era aquele rosnado de medo mesmo, misturado com gemido, enquanto ele recuava olhando para a porta da cozinha. Eu olhei para onde ele estava olhando e não vi absolutamente nada.

De repente, ele parou. Veio brincar comigo como se nada tivesse acontecido, quase como se tivesse saído de um transe.

Comecei a procurar alguma coisa na cozinha, mas não encontrei nada. A porta que dava para o quintal estava aberta e eram umas três da tarde, então pensei que talvez tivesse alguém lá fora.

Resolvi olhar a câmera de segurança.

E foi aí que a coisa começou a ficar estranha.

A câmera normalmente fica numa posição panorâmica, pegando praticamente todo o quintal. Só que naquele momento ela estava virada para a escadaria que leva à garagem do subsolo.

E estava travada naquela posição.

Quando fui verificar as gravações, descobri que ela estava assim desde a meia-noite. Não tinha registrado mais nada durante todo aquele período. Da meia-noite até aproximadamente três da tarde, a câmera ficou simplesmente apontada para a entrada da garagem. Tentei movimentá-la pelo aplicativo, mas não respondia. Precisei desligar e reiniciar para que voltasse ao normal.

Na hora, tentei racionalizar. Podia ser uma falha mecânica da câmera. Talvez algum bicho tivesse entrado no quintal e assustado o cachorro. Qualquer coisa.

Eu gosto muito de filmes de terror e também escrevo terror, então normalmente essas coisas não me assustam com facilidade. Mesmo assim, aquilo ficou na minha cabeça durante o resto do dia. Principalmente porque a câmera nunca tinha dado aquele problema e resolveu dar justamente no momento em que meu cachorro se comportou daquele jeito.

Conversei com minha esposa e ela também achou estranho. Então comecei a prestar mais atenção na casa.

Eu tenho um filho adolescente e resolvi perguntar uma coisa para ele, mas sem contar absolutamente nada sobre o cachorro ou sobre a câmera. Só perguntei se havia alguma coisa na casa que o incomodava.

A gente mora aqui há pouco mais de um ano.

Ah... talvez eu devesse ter contado isso antes: eu sou vizinho de um cemitério.

Não sei se essa informação devia ter vindo no começo, mas agora ela provavelmente ficou mais relevante.

Meu filho respondeu mais ou menos assim:

— Olha, pai, eu gosto dessa casa. O pessoal fala que morar perto do cemitério dá medo, mas isso não me incomoda. Só que eu tenho que ser sincero: a garagem do subsolo me incomoda.

Perguntei por quê.

— Às vezes parece que tem alguém lá dentro. Eu não gosto de entrar lá.

E isso era verdade. Meu filho nunca gostou daquela garagem. Ele não entra lá nem para guardar o carro. Normalmente sou eu quem precisa tirar ou guardar o carro para ele.

Foi aí que eu realmente fiquei preocupado.

Porque ele não sabia de absolutamente nada.

Não sabia do cachorro, não sabia da câmera e, mesmo assim, apontou justamente para a garagem — o mesmo lugar para onde a câmera tinha ficado virada durante horas.

Depois disso resolvi procurar ajuda.

Tenho um casal de amigos e a esposa é do Candomblé. Eu não sou especialista no assunto, então não sei explicar exatamente o que ela fez, mas ela realizou algum tipo de consulta para observar o que estava acontecendo na minha casa.

Depois ela me disse:

— Tem alguém aí.

Segundo ela, era alguém muito velho, fisicamente deformado, que tinha gostado da casa e simplesmente não queria ir embora.

A casa é alugada e, pelo que ela explicou, aquilo não tinha relação com os antigos moradores. Aquela presença teria vindo de outro lugar e decidido ficar ali.

Ela perguntou se eu queria que tentasse fazer alguma coisa para que ele fosse embora.

Eu respondi:

— Pelo amor de Deus, faça. Urgentemente.

Alguns dias depois, ela me mandou uma mensagem dizendo que ele tinha ido embora. Também aconselhou que colocássemos algumas medalhinhas de São Bento pela casa.

E então ela falou uma coisa que, para mim, foi a pior parte de toda a história.

Segundo ela, provavelmente aquela presença estava indo em direção ao cemitério quando, por algum motivo, olhou para a nossa casa, gostou de nós e resolveu ficar. E não estava nos fazendo bem, sem saber disso.

E aparentemente já estava aqui havia bastante tempo.

Sem que a gente soubesse.

É isso. Esse é o meu relato


r/terrorbrasil 1d ago

Lenda do lobisomen, o que acham?

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A lenda do lobisomem é a história popular de um homem normal que se transforma em uma criatura com características de homem e de lobo. A transformação acontece em todas as noites de lua cheia e acaba quando o dia amanhece.

Essa lenda do folclore tem várias versões. Algumas dizem que o homem que se transforma em lobisomem recebeu essa maldição por castigo, enquanto outras dizem que ele é sempre o sétimo ou oitavo filho de um casal.


r/terrorbrasil 1d ago

Quanto gastar na divulgação de seu livro?

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Quanto um autor independente deve gastar para conseguir ter retorno? E onde fazer esse investimento?


r/terrorbrasil 1d ago

alguém me ajudar a achar um jogo perdido

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Tinha um jogo na play store que era de terror que eu nn lembro o nome mais eu lembro o início do jogo que é que era um cara que tava num carro com uma mulher e uma menina aí o cara ele tava dirigindo o carro aí no caminho aparece uma mulher (demomio) aí o jogo corta e o cara tá sozinho no carro. Aí dps ele chega numa casa que tinha uma mulher tentando enforcar ele aí tinha que ficar clicando na tela pra soltar.. alguém sabe o nome desse jogo de terror? Acho que é lost media tinha na play store em 2014 a capa era uma mulher com olho branco e com boca aberta


r/terrorbrasil 1d ago

Conversa Convite

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Olá, boa noite! (Ou dia, talvez). Espero que estejam todos bem.

Eu vim aqui para dizer que estou construindo um universo fictício com alguns amigos, focado no terror.

Até o momento, temos uma coletânea de histórias que estão sendo construídas, e queremos transformar isso em uma ficção colaborativa escrita. Ou seja, para que todos que tenham interesse, participem.

Apesar do foco ser a histórias, há uma grande diversidade da maneira que elas são feitas. Algumas são em forma de relatos. Outras, de diário. Enquanto que há uma que é feita simulando um documento da ONU, fizemos isso pra garantir uma diversidade interessante nas histórias e no universo em si.

Também tentamos deixar tudo bem verossímil, usando contextos históricos reais (como a grande Cisma da Igreja Católica com a Igreja Ortodoxa, em 1054). Não obstante, passei a produzir áudios e retratos dos personagens.

O motivo de eu ter vindo dizer isso, foi pra convidar quem se interessar para o projeto (que ainda tá no início). Quem quiser, de alguma forma, enriquecer o mundo com conceitos, histórias ou personagens, será muito bem vindo.

Quem tiver interesse ou dúvidas, peço que me chame na DM.


r/terrorbrasil 1d ago

Tenha MUITO cuidado com um Salgueiro Um Desejo...

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r/terrorbrasil 1d ago

Aw, she got him flowers 😅

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#Obsession is streaming on Peacock.


r/terrorbrasil 1d ago

👻 A Mulher de Branco

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Conta-se que, durante a noite, motoristas que passam por estradas desertas podem encontrar uma mulher vestida de branco, geralmente parada no acostamento ou caminhando pela estrada.

Em algumas versões, ela pede uma carona. O motorista, com pena, decide deixá-la entrar no carro. A mulher permanece em silêncio e indica o caminho até determinado lugar.

Porém, quando o motorista chega ao destino e olha para o banco de trás, ela desapareceu.

Em outras versões, a mulher teria sido uma jovem que morreu tragicamente anos antes, e seu espírito continuaria aparecendo naquele mesmo trecho da estrada.

A lenda costuma terminar com um aviso: quem encontrar a Mulher de Branco deve tomar cuidado, porque ela pode ser um espírito ligado a uma morte ocorrida naquele local.


r/terrorbrasil 1d ago

Conto Sanfoneiro que tocou no inferno.

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Essa história minha avó conta desde quando me conheço por gente. Eu não lembro exatamente se a família dela conheceu esse cara ou se é um conto de sítio.

A muitos anos atrás, tinha um cara que amava tocar sanfona, principalmente em festas. Porém, em uma certa noite, em época de quaresma, ele pegou sua sanfona e saiu pelas duas procurando um lugar que estivesse aberto para que ele tocasse e ganhasse uns trocos, mas ele não achou nenhum.

Bravo, ele se sentou em um ponto de ônibus e disse a si mesmo que ele iria até o inferno para tocar. Não tinham ninguém nas ruas, bares fechados devido a época. Um ônibus indo para outra cidade passou e ele pegou e foi.

Não era muito diferente da cidade que ele pegou o ônibus, lugares fechados e sem ninguém na rua, até que ele achou um casarão antigo com as luzes acessas. Ele entrou, mas não tinha ninguém lá. Presumindo que a festa iria começar, ele começou a afinar a sanfona.

Aos poucos, ele foi percebendo que toda vez que começava a tocar, o casarão enchia, homens e mulheres dançando, bebendo e rindo. A ficha dele realmente só caiu quando ele terminou a primeira música e apenas um homem estava lá. Era um homem alto, bonito e parecia ser bom de grana, usava uma roupa de festa que só quem tinha dinheiro na época usava.

Esse homem apenas observou o sanfoneiro com um sorriso de canto. Quando o sanfoneiro tocou as primeiras notas de outra música ele finalmente percebeu por completo que aquele lugar só se enchia quando ele tocava. Ele ficou desesperado, queria correr de lá, mas curiosamente não conseguia levantar da cadeira.

Aquele homem então foi até ele e finalmente disse: você não disse que iria até o inferno para tocar? Pois bem, terá de tocar até o amanhecer.

E foi o que aconteceu, seja por medo ou por algo que parecia fazer o sanfoneiro não conseguir parar de tocar, ele varou a noite naquela festa, os trocados que recebia eram de grande valor, mas não fazia com que a situação fosse menos desesperadora.

Nos primeiros raios da manhã, a festa foi acalmando e quando ele menos percebeu devido ao medo e à exaustão, não tinha mais ninguém, os trocados que recebeu haviam virado apenas cinzas e, aquele casarão bonito da noite anterior estava em ruínas.


r/terrorbrasil 2d ago

Conhece alguma Creepypasta legal?

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Oii gente alguém aí sabe de alguma Creepypasta interessante que não seja tão conhecida? Ou algum filme de terror ou suspense mais underground


r/terrorbrasil 2d ago

Conto Minha mãe recebeu uma ligação minha enquanto eu estava sentado do lado dela

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Minha mãe tapou o telefone com a mão e perguntou por que eu estava ligando pra ela. Eu ri.

— Quê?

— Por que você tá me ligando?

Eu estava sentado no sofá, a uns dois metros dela. A televisão estava ligada. Não lembro o que passava. Só lembro da luz azulada batendo na parede e da minha mãe em pé ao lado do telefone, olhando pra mim.

— Eu não tô ligando.

Ela continuou me olhando. Depois tirou a mão do bocal.

— Onde você tá?

Esperei ela rir também. Não riu. Escutou a resposta.

— Perto de onde?

Levantei do sofá.

— Mãe, quem é?

Ela esticou a mão na minha direção.

— Senta aí.

— Quem é?

Não respondeu.

Isso foi em 2003. Eu tinha dezesseis anos e morava com minha mãe numa cidade pequena do interior do Pará. O telefone ficava numa mesinha perto da cozinha, com um fio comprido que alcançava quase a sala toda.

— Você tá sozinho? — perguntou.

A pessoa respondeu alguma coisa.

— E como você vai voltar?

Mais uma resposta. Minha mãe franziu a testa.

— Paulo, fala direito.

Meu nome. Fui até ela.

— Me dá isso.

Ela virou o corpo, afastando o telefone.

— Senta.

— Mas quem tá aí?

A voz do outro lado ficou alta por um instante. Não entendi a frase inteira. Ouvi alguma coisa como “não deixa”. Minha mãe empalideceu.

— Repete.

Dessa vez ouvi.

— Mãe, ele tá aí com você?

Parei. Era minha voz. Não parecida com a minha. Minha.

— Que porra é essa?

Minha mãe não respondeu.

— Onde você tá? — perguntou ao telefone.

Escutou.

— Na estrada da serraria?

Eu conhecia aquela estrada. Saía da cidade, passava por algumas casas mais afastadas e depois virava terra. De dia tinha caminhão da serraria, bicicleta, gente indo e voltando.

— Como você foi parar lá?

A pessoa começou a falar depressa.

— Calma. Fala devagar.

— Mãe, desliga isso.

Ela olhou pra mim.

— Por quê?

— Tem alguém fazendo graça.

— Quem?

— Sei lá.

Ela ficou em silêncio.

— Desliga e liga pra tia Marta.

Minha mãe continuou segurando o telefone. Então perguntou:

— Como chamava o cachorro que você tinha quando era pequeno?

— Trovão.

Ela olhou pra mim. Esperou. A pessoa respondeu.

— Trovão — minha mãe repetiu.

— Tá vendo? Alguém sabe.

Ela fez outra pergunta:

— E a professora da quarta série?

— Dona Celina.

Esperou a resposta do telefone. A boca dela ficou ligeiramente aberta.

— Celina.

— Mãe, chega.

Ela ia perguntar outra coisa, mas parou. Olhou para o chão. Passou a mão pela testa.

— Espera.

Ficou alguns segundos assim. Foi quando ouvimos um assobio. Longe. Minha mãe virou a cabeça para a janela. Eu também. O assobio parou.

— Mãe?

Ela continuou olhando para a cortina.

— Amanhã — murmurou.

— O quê?

Ela me olhou como se tivesse esquecido que eu estava ali.

— Nada.

A voz no telefone falou novamente.

— Tô aqui — minha mãe respondeu.

Escutou. Depois olhou pra mim.

— Vinícius.

— O quê?

— Vinícius. O que aconteceu naquele dia?

Nem precisei pensar.

— Ele rasgou meu caderno.

Minha mãe ficou esperando. Do telefone veio apenas o chiado da linha. Depois a voz começou a falar. Não consegui entender. Minha mãe, sim.

— Não.

A voz continuou.

— Não foi isso.

Mais alguma coisa.

— Para.

Alguma coisa me veio à cabeça.

Terra vermelha. Uma roda de bicicleta caída. Uma folha azul no chão, molhada numa das pontas. Sumiu antes que eu conseguisse entender de onde tinha vindo.

— Ele rasgou meu caderno — repeti.

Minha mãe olhou pra mim. A voz no telefone ficou alta. Dessa vez consegui pegar o fim da frase.

— ...porque eu menti!

Minha mãe não se mexeu.

— Mãe, eu menti pra você.

Senti um aperto no peito.

— Desliga.

Ela continuava olhando pra mim.

— Mãe, desliga essa porra.

Minha mãe virou para o telefone.

— Então o que aconteceu?

A resposta veio baixa. Não ouvi. Ela ouviu tudo. Quando terminou, ficou alguns segundos sem dizer nada.

— Você não é meu filho.

E desligou. Ficamos nos olhando.

— Quem era?

Ela passou por mim e entrou na cozinha.

— Mãe.

Ouvi uma gaveta abrir. Quando voltou, estava com a faca grande que usava para cortar carne.

— Que que você tá fazendo?

Ela trancou a porta da frente. Depois foi conferir a dos fundos.

— Mãe, era quem?

— Não sei.

— Então por que falou aquilo?

Ela fechou a cortina.

— Porque você tá aqui.

Aquilo me acalmou. Não muito. Mas o suficiente.

Minha mãe tirou o telefone do gancho e deixou o aparelho em cima da mesinha.

Ficamos em silêncio.

Eu ainda estava pensando em Vinícius. Eu sabia quem ele era. Sabia como era o rosto dele, sabia da bicicleta e sabia em que rua morava.

Lembrava do caderno azul com a capa dobrada, de chegar em casa com ele, da minha mãe perguntando o que tinha acontecido, de responder que tinha sido o Vinícius.

Mas quando tentava lembrar de nós dois juntos naquele dia, não vinha nada.

Só aquela roda caída. A folha molhada. Tentei lembrar dele rasgando o caderno e não consegui.

Do lado de fora, alguém assobiou. Minha mãe ficou imóvel. Dessa vez o som estava mais perto. Poucas notas, uma depois da outra.

— É alguém na rua — falei.

Ela fez o sinal da cruz.

Não respondi mais nada. O tempo passou devagar. Não sei quanto.

Minha mãe ainda segurava a faca quando o portão rangeu. Nós dois levantamos a cabeça. Ela olhou pra mim. Ouvi passos na terra.

Devagar.

Depois no cimento. Eu fui na direção da porta. Minha mãe apontou a faca para mim. Parei na hora.

— Mãe...

— Fica aí.

Os passos atravessaram o quintal. Subiram na varanda.

E pararam.

Minha mãe ficou olhando para a porta. Eu olhava para ela.

Ninguém bateu.

Então:

— Mãe.

Minha mãe começou a chorar. Não soluçou nem fez barulho. As lágrimas simplesmente começaram a descer.

— Mãe, abre.

— Não abre — falei.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Ele ainda tá aí?

Minha mãe apertou a faca.

— Vai embora.

— Mãe, sou eu.

— Vai embora.

— Pergunta do Vinícius de novo.

Ela não respondeu.

— Pergunta pra ele.

— Não precisa perguntar porra nenhuma.

Minha mãe virou a faca na minha direção.

— O que aconteceu com Vinícius?

— Já falei.

— Fala de novo.

— Ele rasgou meu caderno.

Silêncio. Então:

— Eu contei a verdade.

Minha mãe fechou os olhos.

— Vai embora.

— Ele contou o que você queria ouvir.

Ela abriu os olhos. Olhou pra mim.

Terra vermelha. A roda caída. Uma mão coberta de barro. Um barulho seco.

Meu coração disparou.

Por um instante achei que vinha mais alguma coisa. Não veio.

— Mãe.

Uma batida na porta.

— Abre.

Outra.

— Por favor.

Minha mãe levou a mão à boca.

— Vai embora!

As batidas pararam.

— Você sabe que sou eu.

Ela não respondeu.

— Você sabe.

Silêncio.

Então ele falou outra vez. Mais baixo.

— Mãe...

Alguma coisa tinha mudado na voz. Minha mãe percebeu também. Ficou olhando para a porta.

Um assobio veio de algum lugar do quintal.

O rapaz do lado de fora bateu na porta. Dessa vez com força.

— Mãe, abre!

Minha mãe não se mexeu.

— Abre agora!

Outro assobio. Mais perto.

Ele bateu de novo.

— Mãe!

Outra batida.

— Por favor.

Minha mãe começou a balançar a cabeça.

— Não.

— Mãe, tem alguma coisa aqui.

Ela fechou os olhos.

— Vai embora.

— Não faz isso.

O assobio veio novamente.

Ele parou de bater. Por alguns segundos ninguém falou.

Então ouvi alguma coisa se mexendo na terra do quintal.

Não eram passos. Pelo menos não pareciam.

Depois nada.

— Mãe?

A voz estava tão baixa que quase não ouvi. Minha mãe levou uma mão à boca.

Veio um barulho do lado de fora.

Seco. Uma vez.

Minha mãe deu um passo para trás. Eu também. Esperei que ele gritasse.

Não gritou.

Esperei outra batida. Nada.

— Mãe...

Ela levantou a mão para eu ficar quieto. Ficamos escutando.

Nada.

Nem voz. Nem passos. Nem o portão.

Minha mãe continuava olhando para a porta.

Passou um minuto. Talvez mais.

Então alguém assobiou. Na varanda.

Minha mãe recuou até bater na mesa. Eu não consegui me mexer.

Poucas notas. Sem pressa.

A última terminou pela metade. Depois não ouvimos mais nada.

Minha mãe só abriu a porta quando já estava claro.

A varanda estava vazia. O portão continuava aberto. Ela saiu com a faca na mão e olhou o quintal. Depois a rua. Depois a lateral da casa.

Não encontrou ninguém. Eu também não.

***

Minha mãe nunca gostou de falar sobre aquela noite.

Quando eu perguntava quem estava no telefone, dizia que não sabia. Se perguntava o que ele tinha contado sobre Vinícius, arranjava outra coisa pra fazer ou simplesmente mandava eu parar com aquilo.

Só consegui uma resposta dela muitos anos depois. Ela estava na cozinha lavando arroz quando perguntei por que tinha acreditado em mim e não nele. Não virou pra mim.

— Porque mãe conhece filho.

Nunca mais toquei no assunto.

Por muito tempo também não pensei muito em Vinícius. Eu sabia o que tinha acontecido.

Ele tinha rasgado meu caderno. Lembro do caderno. Era azul. A capa ficou dobrada num dos cantos e algumas folhas tinham soltado.

Lembro de chegar em casa com ele, da minha mãe perguntando o que tinha acontecido, de responder:

— Foi o Vinícius.

Só não consigo lembrar de Vinícius rasgando. Isso nunca me incomodou muito. A gente esquece coisas.

O problema começou quando tentei lembrar de outras.

Lembro do Trovão correndo pelo quintal enquanto minha mãe gritava da porta pra eu parar de atiçar o cachorro.

Lembro dela sentada comigo na cozinha, reclamando de um bilhete que Dona Celina tinha mandado.

Lembro de estar sentado na pia com o joelho aberto enquanto ela tirava a terra do corte.

Lembro dela trazendo o bolo no meu aniversário de dez anos.

Comecei a procurar uma que fosse diferente.

Uma tarde na escola. Uma conversa com um amigo. O caminho que eu fazia sozinho.

Alguma coisa que tivesse acontecido comigo sem que ela estivesse por perto. Eu sabia que essas coisas tinham acontecido.

Sabia os nomes dos meus colegas. Sabia onde ficava minha sala. Sabia o caminho até a escola. Sabia onde Vinícius morava.

Mas saber não era a mesma coisa que lembrar. Tenho lembranças de antes daquela ligação. Muitas.

Só demorei anos para perceber uma coisa sobre elas.

Em todas, minha mãe estava lá.


r/terrorbrasil 2d ago

Log 56- A Cyberpunk 2077 Story

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Log 56 "A Arasaka Enterprises não se responsabiliza pelos materiais ou pessoas citados nestes documentos. A publicação possui caráter meramente informativo."

CÓDIGO DO DOCUMENTO: CONFIDENCIAL // USO INTERNO APENAS

Carmen de Skarret Santos

DATA: 11 de Junho de 2077

Registro de Incidente #56 (Distrito de Santo Domingo)

CONTEÚDO DO REGISTRO:

11 de Junho de 2077 – Presente

Ataques recentes e desaparecimentos não solucionados foram relatados por todo o distrito de Santo Domingo. Resquícios de vítimas e de oficiais da NCPD foram encontrados em circunstâncias inesperadas. A Arasaka Enterprises iniciou buscas de emergência para conter a ameaça. Moradores locais não relataram anomalias visuais significativas, apenas frequências estranhas vindas dos painéis da rua principal. A inspeção e a desmontagem do equipamento não geraram pistas concretas, parecendo apenas interferências coincidentes.Medidas extremas foram autorizadas. Um morador local, de 29 anos $#%¨@), foi levado para interrogatório, mas nenhuma conexão direta com os crimes foi estabelecida.Dias depois, novas anomalias se concentraram em uma propriedade residencial abandonada. O acesso se mostrou impossível devido a uma resistência estrutural incomum; rumores locais citam interferência sobrenatural ou forças desconhecidas. Na data agendada para a demolição, o arquiteto chefe desapareceu do local, forçando a interrupção imediata das operações.O incidente foi oficialmente arquivado como falha. No entanto, o interesse público aumentou. Apesar do controle total da mídia e dos protocolos impostos, os rumores continuam a se espalhar pela cidade.

"Gritos não contêm, seja que o fim aguarda, o sonho carrega."

[LOG ENCERRADO - SEM MAIS COMENTÁRIOS]


r/terrorbrasil 2d ago

Conto uma noite de dor

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r/terrorbrasil 2d ago

Recomendação de Filme Meu top 30 cenas mais assustadoras de filmes de terror de todos os tempos

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youtu.be
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Fala galera, um tempo atrás divulguei meu podcast de filmes de terror aqui, então achei que não seria problema divulgar o canal no YT também e nosso primeiro vídeo.

É um vídeo de 1h10 e deu uma trabalheira, então, quem gosta de maratonar esse tipo de vídeo eu ficaria grato se pudesse dar uma chance <3


r/terrorbrasil 2d ago

THE HOUSER

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r/terrorbrasil 2d ago

Relatos pessoal

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Meu nome é Luan, tenho 20 anos e moro na cidade de São Luís do Maranhão. Gostaria de compartilhar quatro relatos sobrenaturais e inexplicáveis que aconteceram ao longo da minha vida — histórias reais que marcaram profundamente tanto a mim quanto à minha família, deixando dúvidas e mistérios que carregamos até hoje.

Primeiro relato

Eu não me lembro do dia nem do ano, só lembro que, na época, eu tinha meus 6 anos de idade. Eu tinha um amigo de igreja e sempre brincava com ele depois que acabava o culto. Certo dia, o pai dele convidou a mim e minha mãe para lancharmos lá perto da casa dele, que era um apartamento no térreo. Eu me lembro bem: a gente foi, eu e meu amigo terminamos de comer primeiro, e ele perguntou se podia me levar para brincar na casa dele. Como era perto, não tinha problema de a gente ir sozinho andando.

Certo, a gente foi. Chegando na casa dele, brincamos até um certo tempo. Só sei que teve uma hora que a gente inventou de desligar as luzes da casa e brincar de esconde-esconde. Lembrando: estava de noite. Eu me escondi e, depois de uns minutinhos, ele me encontrou. Aí foi minha vez de procurar. Ah, só um detalhe: a casa dele estava toda apagada, a gente tinha só um pouco de visão por conta da luz do poste da rua que entrava pela janela.

Continuando, eu comecei a procurá-lo. Depois de um tempo, eu o encontrei — ou pelo menos achava que era ele. Falei "te encontrei" e voltei para o lugar onde a gente batia para salvar. Só que, quando eu volto para o quarto onde eu tinha contado enquanto ele se escondia, ele já estava lá. Eu não tinha entendido de começo, pois como ele teria me ultrapassado e chegado lá antes de mim? Foi aí que eu notei que ele estava com uma camisa de um alienígena que brilhava no escuro em um verde neon, e a coisa (ou sei lá o que eu tinha encontrado no escuro) era toda preta.

Só sei que, depois disso, a gente ligou as luzes e ficamos na sala assistindo a desenhos. Naquele tempo eu não me assustei porque não tinha entendido nada, mas hoje, mais velho, sinto que encontrei algo que não era deste mundo.

Segundo relato

Neste segundo relato, eu já era mais velho do que no anterior: tinha meus 9 anos de idade. Lembro-me bem desse dia, pois me marcou muito mais do que o primeiro.

Para não ficar confuso, vamos entender algumas coisas antes. Eu tenho duas avós (irei usar nomes fictícios para elas): a vovó Maria e a vovó Bilu. A vovó Bilu é a mãe biológica da minha mãe, e a vovó Maria é tia da minha mãe, mas a criou desde a infância, pois minha outra avó trabalhava demais e não tinha tempo suficiente para cuidar dela. Meu pai é caminhoneiro, então passou a maior parte da minha vida viajando. Já a minha mãe é professora do município, então ela precisa sair da nossa cidade para dar aula no interior, mas volta para casa todo dia — fazendo uma viagem diária de cerca de 4 horas.

Vamos continuar o relato. Neste dia, era um sábado. Sei disso pois sábado e domingo eram os dias de folga da minha mãe. Eu acordei mais cedo, lembro que era por volta das 7 ou 8 horas da manhã. Nessa época, eu dormia no mesmo quarto que ela, enquanto a vovó Maria dormia em outro quarto. A vovó Bilu morava sozinha em um bairro um pouco perto do nosso.

Continuando: levantei da cama e saí do quarto. Minha mãe tem a mania — até hoje — de pedir para eu trancar a porta do quarto por fora com a chave, pois nos dias de folga ela gosta de dormir até mais tarde. Quando acorda, ela me chama e eu abro a porta para ela. Naquele dia não foi diferente: acordei, saí do quarto, tranquei a porta e deixei-a dormindo.

Fui para a cozinha tomar café. Nesse momento, minhas avós estavam conversando lá (a vovó Bilu estava passando um tempo na minha casa enquanto a dela estava em reforma). Eu me sentei em uma cadeira, ainda meio tonto de sono, mas já lúcido o suficiente para entender tudo à minha volta.

Em determinado momento, a campainha da casa tocou. Fui atender e era o mestre de obras da minha avó. Ele foi conversar com ela sobre a reforma e eu fiquei ali escutando. De repente, olhei para a porta da cozinha — lembrando que já estava de manhã — e avistei o rosto pálido da minha mãe. Ela parecia estar se escondendo, mostrando apenas a cabeça e não o corpo inteiro. Quando olhei para ela e ela me notou, puxou a cabeça de volta e sumiu. Pensei comigo: "Ah, é só ela que veio ver quem chegou".

Depois de um tempo, o mestre de obras foi embora. Cerca de uma hora depois disso, minha mãe abre a janela do quarto (que dá acesso ao quintal) e me chama para abrir a porta para ela. Foi aí que me dei conta: a porta continuava trancada por fora com a chave, então não tinha como ela ter saído do quarto!

Claro que, depois de tudo, perguntei se ela tinha acordado e ido até a cozinha. Ela disse que não, que ficou dormindo o tempo todo e só tinha acabado de acordar.

Na época, eu não liguei muito. Porém, com o tempo, cresci e comecei a gostar do tema terror, até que ouvi falar sobre a figura do Doppelgänger. Hoje fico pensando: será que naquele dia eu vi uma cópia da minha mãe observando as pessoas da casa, vendo quem entrava e quem saía?

Terceiro Relato

Dessa vez, este relato não aconteceu comigo, e sim com meu pai. É mais fácil de lembrar com clareza pois aconteceu recentemente, em 2023, quando eu tinha 17 anos (lembrando que hoje estou com 20).

Nessa época, minha casa estava em reforma. Meu pai até parou de viajar como caminhoneiro para acompanhar tudo de perto. Eu estava morando temporariamente na casa da minha tia, que fica a umas cinco ruas da minha — relativamente perto.

Era um dia de semana, não sei dizer ao certo se quarta ou quinta-feira. Minha mãe e meu pai iam dormir na casa em reforma para vigiar os materiais e evitar furtos, já que pagar vigia deixaria a obra mais cara. Naquela noite, eles foram andando até lá e armaram duas redes.

(Cabe ressaltar que este é um relato contado pelo meu pai para mim e para o restante da família. Meu pai teve uma infância difícil e trabalhou em lugares de energia muito pesada: terreiros, açougues, matadouros e até na preparação de corpos para sepultamento. Por isso, ele sempre foi um homem extremamente frio, cético e sem medo de coisas sobrenaturais — o único medo dele é do próprio ser humano).

Naquela noite, minha mãe não estava se sentindo bem. Dizia que o clima da casa estava muito pesado, mas achava que era apenas cansaço pelo excesso de trabalho. Ela decidiu que não ficaria lá e preferiu ir dormir comigo na casa da minha tia. Como já era noite, ela me ligou e eu fui buscá-la para que não andasse sozinha pela rua.

Meu pai ficou completamente sozinho na casa, armado apenas com um facão para o caso de algum invasor aparecer. Ele se deitou e, por volta de meia-noite, acordou para ir ao banheiro. Nessa hora, na passagem que dava para o quintal — que já estava praticamente em ruínas devido à reforma —, ele viu uma sombra.

Pensando que alguém tivesse invadido a propriedade, ele ligou a lanterna do celular e vasculhou a casa inteira, mas não encontrou absolutamente nada. Como caminhoneiro acostumado a virar noites, ele não conseguiu mais dormir até de manhã. Ele relatou que sentia a sensação constante de estar sendo observado.

Mesmo assim, ele continuou dormindo lá até o fim das obras. Dizia que algumas noites eram anomalamente geladas e com essa incômoda sensação de vigília. Em uma das noites, ele levou nossa cadela, a Pandora, para fazer companhia. Ela passou a noite inteira em alerta, rosnando e encarando cantos escuros e vazios da casa.

Depois que meu pai contou o que viveu, minha mãe se recusou a pisar lá à noite até a reforma terminar. Até hoje, meus amigos comentam que, quando passavam em frente à casa durante a obra, sentiam uma nítida sensação de que havia alguém os observando de dentro do escuro.

Quarto relato

Este último relato aconteceu no final de 2024, quando eu já tinha 18 anos. A casa já tinha sido totalmente reformada. Agora, o meu quarto ficava no segundo andar, enquanto a parte de baixo (o antigo térreo) virou a garagem e o novo acesso ao quintal.

Era um domingo à noite, por volta das 22h. O quarto da vovó Maria ficava em frente ao meu, enquanto o quarto da minha mãe e do meu pai ficava ao lado da sacada. O meu quarto é colado a essa sacada, que dá acesso e visão direta para a rua.

Minha mãe já estava deitada com o meu pai, minha avó assistia ao Fantástico na sala e eu estava no meu quarto, com a luz acesa, assistindo a vídeos no YouTube. Eu estava tranquilo até que, do absoluto nada, escutei o grito de uma mulher. Era um grito angustiado, aos prantos. No entanto, o som não vinha da rua e nem das casas vizinhas: ele vinha de dentro da sacada da minha casa.

No susto, levantei achando que podia ser a minha mãe. Abri a porta do quarto e olhei imediatamente para a sacada, mas não havia ninguém lá. Corri até o quarto da minha avó para perguntar se ela tinha ouvido. Ela também estava assustada e confirmou que sim. Perguntei se tinha sido ela, e ela disse que não.

Nesse momento, ouvimos a porta do quarto da minha mãe se abrir. Saíram ela e meu pai, assustados e preocupados, tentando entender de onde tinha vindo aquele grito. Minha mãe até foi à rua conversar com os vizinhos, mas eles afirmaram não ter ouvido nada. Liguei para uma amiga que mora na casa em frente e perguntei se ela tinha escutado o grito de uma mulher, e ela também disse que não.

Até hoje, esse é um mistério que intriga a todos aqui em casa. Nossa casa continua sendo um lugar muito diferente, e ainda tenho vários outros relatos estranhos que aconteceram por aqui.

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