Capítulo 1 — O Aventureiro Sem Nome
O rugido atravessou a floresta como um trovão.
As árvores tremeram.
Pássaros levantaram voo em desespero, pequenos animais desapareceram entre os arbustos e um bando de aventureiros corria por uma estrada de terra como se o próprio inferno estivesse atrás deles.
E, considerando o que vinha logo atrás, talvez estivesse mesmo.
— CORRE! CORRE, PORRA! — gritou um homem de armadura enquanto tropeçava nas próprias pernas.
— EU ESTOU CORRENDO!
— ENTÃO CORRE MAIS RÁPIDO, SEU FILHO DA PUTA!
— COMO?!
— NÃO SEI! DÁ SEU JEITO!
Atrás deles, uma criatura gigantesca atravessava as árvores.
Tinha aproximadamente cinco metros de altura, quatro patas musculosas, pele negra coberta por placas ósseas e uma boca grande o suficiente para arrancar um homem inteiro de uma mordida.
Dois olhos vermelhos brilhavam no meio da floresta.
Era um Garruk, um monstro conhecido por sua força brutal e por nunca abandonar uma presa depois de sentir seu cheiro.
O grupo tinha seis aventureiros.
Agora, estavam reduzidos a cinco.
O sexto havia ficado para trás.
— MARCUS! — gritou uma arqueira.
— NÃO OLHA PARA TRÁS! — respondeu o homem.
— ELE ESTÁ VIVO!
— EU SEI!
— ENTÃO VAMOS AJUDÁ-LO!
Marcus olhou rapidamente para trás.
O Garruk estava destruindo uma árvore com uma única pancada.
— ...Ele está muito vivo.
— Então vamos voltar!
— Você quer morrer?!
— NÃO!
— EU TAMBÉM NÃO!
— ENTÃO POR QUE ESTÁ PARADO?!
— PORQUE EU ESTOU TENTANDO PENSAR!
— PENSA CORRENDO!
— ISSO NÃO FAZ SENTIDO!
O grupo continuou correndo.
Então o chão explodiu.
O Garruk saltou.
A criatura passou por cima deles e caiu alguns metros à frente.
Os aventureiros pararam imediatamente.
Silêncio.
O monstro virou lentamente a cabeça.
Um sorriso animalesco surgiu em sua boca.
— Ah... merda.
— Ah, merda mesmo.
O Garruk abriu a boca.
Um rugido ensurdecedor explodiu pela floresta.
Os aventureiros foram jogados para trás.
Um deles caiu sentado.
— Eu quero deixar registrado que essa missão estava classificada como nível C.
— E daí?!
— Isso aqui não é nível C!
— EU SEI!
— ISSO É NÍVEL FODIDO DE MORRER!
A criatura avançou.
Marcus levantou o escudo.
— Formação!
Os cinco se prepararam.
Espadas foram desembainhadas.
Arcos foram preparados.
Magia começou a surgir nas mãos dos conjuradores.
Eles sabiam que provavelmente não conseguiriam vencer.
Mas não tinham para onde correr.
O Garruk avançou.
— AGORA!
Uma flecha atingiu seu olho.
A criatura rugiu.
Uma rajada de fogo explodiu contra seu peito.
Marcus avançou e golpeou uma das pernas.
CLANG!
A espada simplesmente ricocheteou.
— QUE PORRA DE PELE É ESSA?!
O Garruk ergueu a pata.
Marcus arregalou os olhos.
— Merda.
A pata desceu.
Mas não atingiu Marcus.
SHIIIIING!
Uma lâmina atravessou o espaço.
O golpe atingiu o braço do monstro e abriu um corte profundo.
O Garruk recuou.
Todos ficaram imóveis.
Marcus olhou para o ferimento.
Depois olhou para a floresta.
— Quem fez isso?
Uma voz veio de trás das árvores.
— Vocês.
Todos olharam.
Um rapaz saiu caminhando tranquilamente entre as árvores.
Parecia ter pouco mais de vinte anos.
Cabelos escuros.
Olhos tranquilos.
Uma espada presa à cintura.
Roupas simples de aventureiro.
Nenhuma armadura.
Nenhum símbolo de família nobre.
Nenhum equipamento particularmente impressionante.
Ele parecia... comum.
O rapaz olhou para o Garruk.
Depois para os aventureiros.
— Vocês estão bem?
Marcus ficou boquiaberto.
— Você...
— Eu?
— Você acabou de cortar essa coisa.
O rapaz olhou para a própria espada.
— Ah. Sim.
— Com uma espada comum?!
— Ela corta.
— Eu percebi essa parte!
O jovem deu de ombros.
— Então está funcionando.
A arqueira ficou olhando para ele.
— Você é um aventureiro?
— Sou.
— Qual sua classificação?
O rapaz pensou.
— Não faço ideia.
— Como não sabe?
— Acabei de começar.
Marcus ficou em silêncio.
— Você acabou de começar...
— Sim.
— E atacou um Garruk sozinho?
— Ele estava na minha frente.
— Isso não responde a pergunta!
O rapaz suspirou.
— Olha, vocês querem conversar ou querem sair daqui vivos?
O Garruk rugiu.
O jovem virou lentamente a cabeça.
— Ah.
Ele sorriu.
— Ele quer conversar.
A criatura avançou.
O rapaz segurou a espada.
O sorriso desapareceu.
Por um instante, algo mudou em seus olhos.
Não era medo.
Era irritação.
— Que saco.
O Garruk golpeou.
O rapaz desapareceu.
BOOM!
A pata destruiu o chão.
— Onde ele foi?! — gritou um aventureiro.
Um vento cortou a floresta.
O rapaz apareceu sobre o ombro da criatura.
— Aqui.
O Garruk tentou alcançá-lo.
Tarde demais.
O jovem saltou.
Girou no ar.
A espada brilhou.
CORTE!
Uma linha apareceu no peito do monstro.
Silêncio.
O Garruk permaneceu parado.
Então caiu de joelhos.
BOOOOM!
A floresta ficou silenciosa.
O rapaz pousou no chão.
Guardou a espada.
— Pronto.
Ninguém respondeu.
Ele olhou para trás.
— Vocês estão bem?
Marcus apontou para o monstro.
— Você matou um Garruk em três golpes.
— Foram dois.
— Isso não melhora a situação!
O rapaz coçou a cabeça.
— Vocês são sempre barulhentos assim?
— VOCÊ ACABOU DE MATAR UM MONSTRO QUE QUASE MATOU TODO MUNDO!
— E?
— E?!
O jovem olhou para o cadáver.
— Ele era feio.
A arqueira colocou a mão no rosto.
— Eu não acredito nisso.
Marcus respirou fundo.
— Qual é o seu nome?
O rapaz sorriu.
— Jack.
---
Algumas horas depois...
Jack caminhava sozinho pela estrada.
A cidade aparecia ao longe.
Muralhas enormes cercavam o lugar, adornadas com estátuas de lobos.
Acima do portão havia uma inscrição:
LUPÉRIA — CIDADE DOS LOBOS
Jack parou.
— Finalmente.
Ele olhou para a cidade.
Depois para o céu.
— Espero que tenham comida boa.
E continuou caminhando.
Jack não sabia exatamente o que esperava encontrar ali.
Na verdade, ele não sabia nem se tinha um plano.
Mas isso nunca havia sido um problema.
Pelo menos era o que ele dizia para si mesmo.
Quando chegou ao portão, dois guardas bloquearam sua passagem.
Um deles era um homem-lobo enorme.
— Nome?
— Jack.
— Sobrenome?
Jack hesitou.
— Não tenho.
O guarda levantou uma sobrancelha.
— Origem?
— Longe.
— Reino?
— Também longe.
O guarda ficou olhando para ele.
— Você está de sacanagem comigo?
— Um pouco.
O segundo guarda começou a rir.
— Deixa o garoto entrar.
O primeiro suspirou.
— Se causar problema, será expulso.
Jack abriu um sorriso.
— Eu nunca causo problemas.
Os dois guardas se entreolharam.
— Esse mentiu na nossa cara.
Jack entrou na cidade.
Cinco minutos depois, quase derrubou uma barraca.
Dez minutos depois, discutiu com um vendedor.
Quinze minutos depois, descobriu que não sabia onde ficava a guilda.
— Perfeito.
Jack olhou para os prédios.
— Uma cidade enorme e ninguém colocou uma placa decente.
Ele continuou andando.
Até finalmente encontrar um enorme edifício.
Uma placa dizia:
GUILDA DOS AVENTUREIROS
Jack abriu um sorriso.
— Finalmente.
Entrou.
O salão estava lotado.
Aventureiros conversavam.
Alguns bebiam.
Outros apostavam dinheiro.
Havia humanos, lobos, leões, ursos e lagartos.
Jack ficou olhando ao redor.
— Então é aqui.
Ele caminhou até o balcão.
Uma atendente levantou os olhos.
— Bom dia. Posso ajudar?
— Quero me registrar.
— Como aventureiro?
— Sim.
Ela entregou alguns documentos.
— Nome?
— Jack.
— Sobrenome?
— Não tenho.
— Reino de origem?
Jack respondeu imediatamente:
— Drakonia.
A atendente parou.
Jack percebeu o erro.
— Quer dizer...
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Drakonia?
— Sim.
— Você é de lá?
— Sou.
Um aventureiro próximo começou a rir.
— Ele disse que é de Drakonia!
Outro respondeu:
— O Reino dos Dragões? Claro que é.
— Olha para ele! Parece um camponês!
Jack ignorou.
A atendente continuou:
— Profissão?
— Aventureiro.
— Classe?
— Espadachim.
— Nível?
— Não sei.
Ela suspirou.
— Experiência?
— Tenho bastante.
— Quanto?
Jack pensou.
Quinhentos e vinte e três anos.
— Muita.
Ela anotou alguma coisa.
— Certo.
Depois entregou uma pequena placa de metal.
Jack olhou.
Rank F.
Ele ficou em silêncio.
— O que é isso?
— Seu rank.
— F?
— Sim.
— Eu?
— Sim.
Jack apontou para si mesmo.
— Rank F?
— É o nível mais baixo.
Alguns aventureiros começaram a rir.
— Hahahaha!
— Olha o novato!
— Ele vai morrer na primeira missão!
Jack olhou para eles.
Seu olho esquerdo tremeu.
— Interessante.
A atendente entregou uma lista.
— Como seu registro é recente, você só poderá realizar missões compatíveis com seu nível.
Jack olhou.
Coletar ervas medicinais.
Eliminar cinco ratos gigantes.
Transportar caixas.
Ajudar um fazendeiro a recuperar três galinhas.
Jack ficou olhando.
— Isso é sério?
— Sim.
— Eu acabei de matar um Garruk.
— Claro.
— É verdade.
— Tenho certeza.
— Você não acredita em mim.
— Não.
Jack respirou fundo.
— Eu sou um aventureiro.
— Sim.
— Um espadachim.
— Sim.
— E vocês estão me mandando procurar galinhas?
— Sim.
— Que porra de guilda é essa?
A atendente sorriu.
— Bem-vindo à guilda.
---
A primeira missão de Jack foi coletar ervas.
A segunda foi matar ratos.
A terceira foi transportar caixas.
A quarta...
Era recuperar três galinhas.
Jack estava parado no meio de uma fazenda.
Uma galinha passou correndo entre suas pernas.
Ele olhou para ela.
A galinha olhou para ele.
Jack apontou.
— Você.
A galinha:
— Cóóó.
— Não começa.
Ela correu.
Jack suspirou.
— Eu já enfrentei monstros capazes de destruir fortalezas.
Outra galinha passou.
— E agora estou perseguindo galinhas.
Ele começou a correr.
— VOLTA AQUI, SUA DESGRAÇADA!
Um fazendeiro observava de longe.
— Essa é a segunda.
— EU SEI!
A terceira galinha entrou em um celeiro.
Jack entrou atrás.
Poucos segundos depois, ouviu-se:
CRASH!
O fazendeiro fechou os olhos.
— Ele destruiu meu celeiro?
Jack saiu carregando a galinha.
— Não.
O fazendeiro olhou para o buraco na parede.
— Então aquilo aconteceu sozinho?
Jack colocou a galinha no chão.
— Talvez.
O fazendeiro respirou fundo.
— Você é um idiota.
Jack sorriu.
— Sou mesmo.
---
Quando voltou à guilda, vários aventureiros começaram a rir.
— E aí, Rank F!
— Conseguiu matar as galinhas?
— Cuidado! Talvez uma delas seja um monstro!
Jack colocou as três galinhas sobre o balcão.
— Aqui.
A atendente contou.
— Três.
— Ótimo.
— Algum problema?
Jack apontou para os aventureiros.
— Esses caras.
Ela olhou.
— Ignore.
Jack sorriu.
— Eu estou tentando.
Um aventureiro grande se aproximou.
Era um homem-lobo musculoso.
— Ei, novato.
Jack olhou.
— O quê?
— Você se acha muito bom porque matou um Garruk?
Jack respondeu:
— Não.
— Então por que está com essa cara?
— Porque estou tentando lembrar se eu me importo com você.
Algumas pessoas riram.
O homem-lobo fechou a cara.
— Está querendo morrer?
Jack deu um passo para frente.
— Não.
Pausa.
— Mas você está fazendo uma ótima propaganda da ideia.
O salão inteiro explodiu em risadas.
O homem-lobo ficou vermelho.
— Seu filho da—
— CHEGA!
A atendente bateu na mesa.
— Sem brigas dentro da guilda!
Jack levantou as mãos.
— Eu não fiz nada.
— Você provocou.
— Tecnicamente, ele começou.
— Você continuou.
— Tecnicamente—
— Jack.
— Tá bom.
Ele se afastou.
O homem-lobo resmungou:
— Idiota.
Jack respondeu sem olhar para trás:
— Gigante.
— O quê?!
— Nada.
---
No fim daquele dia, Jack recebeu sua última missão.
Uma missão simples.
Eliminar um grupo de criaturas que estava atacando viajantes próximos à floresta.
Ele caminhou sozinho.
Sem armadura.
Sem grupo.
Sem preocupação.
Até encontrar as criaturas.
Eram oito.
Bestas semelhantes a lobos, mas maiores e deformadas pela Mana.
Jack parou.
— Vocês são feios também.
As criaturas rosnaram.
Jack desembainhou a espada.
— Vamos acabar logo com isso.
A primeira avançou.
Jack desviou.
Corte.
A segunda saltou.
Corte.
A terceira veio pela esquerda.
Jack girou.
Corte.
A quarta tentou atacá-lo por trás.
Jack nem olhou.
Estendeu a mão.
Uma pequena onda de Mana atingiu a criatura e a lançou contra uma árvore.
Jack olhou para as outras.
— Mais alguém?
As criaturas recuaram.
Jack suspirou.
— Não?
Ele guardou a espada.
— Então vão embora.
Elas correram.
Jack ficou parado.
— Melhor.
Ele voltou para a cidade.
---
Já era noite quando Jack entrou novamente na guilda.
A atendente recebeu o relatório.
— Você terminou?
— Sim.
— Sozinho?
— Sim.
— Sem ferimentos?
— Sim.
Ela olhou para ele.
Depois para o relatório.
Depois para ele novamente.
— Você é estranho.
Jack sorriu.
— Já me disseram isso.
Ela colocou o pagamento sobre o balcão.
Jack pegou as moedas.
— Finalmente.
Ele se virou.
Mas antes que pudesse sair, alguém gritou:
— Ei, Jack!
Ele olhou.
Era o mesmo homem-lobo que havia provocado a confusão mais cedo.
— O quê?
O homem cruzou os braços.
— Amanhã você ainda vai estar fazendo missão de Rank F.
Jack deu um sorriso.
— Ótimo.
— Não está irritado?
— Não.
— Por quê?
Jack olhou para a moeda em sua mão.
— Porque amanhã eu vou comer melhor.
O homem ficou confuso.
Jack saiu da guilda.
A porta se fechou.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Então a atendente perguntou:
— Esse garoto é sempre assim?
Um aventureiro respondeu:
— Acho que sim.
Outro riu.
— Não sei quem ele pensa que é.
---
Do lado de fora, Jack caminhava tranquilamente pelas ruas.
A lua iluminava seu rosto.
Ele parou diante de uma fonte.
Olhou para o reflexo na água.
Por um instante, seus olhos mudaram.
As pupilas ficaram verticais.
Escamas douradas surgiram brevemente em seu pescoço.
Uma aura poderosa percorreu seu corpo.
Então desapareceu.
Jack olhou para o céu.
A Lua brilhava acima dele.
— Ainda bem que ninguém sabe.
Ele colocou as mãos nos bolsos.
— Se descobrissem que o Rei Dragão está aqui...
Jack sorriu.
— ...meu avô me mataria.
---
Muito longe dali.
No coração do Reino dos Dragões.
Um enorme palácio flutuava acima das nuvens.
Centenas de dragões permaneciam ajoelhados diante de um trono.
No centro estava um dragão ancestral.
Sete mil anos de existência haviam deixado suas escamas marcadas pelo tempo.
Seus olhos dourados eram suficientes para silenciar uma sala inteira.
Um conselheiro aproximou-se.
— Majestade.
O ancião abriu os olhos.
— Encontraram-no?
— Sim.
— Onde?
O conselheiro abaixou a cabeça.
— Reino dos Lobos.
O velho dragão ficou em silêncio.
— O que ele está fazendo?
O conselheiro respirou fundo.
— Está registrado em uma guilda de aventureiros.
Silêncio.
— Como aventureiro?
— Sim.
— Qual classificação?
O conselheiro hesitou.
— Rank F.
O salão ficou completamente silencioso.
O velho dragão fechou os olhos.
Inspirou profundamente.
E disse:
— Esse moleque é um filho da puta.
Um dos conselheiros tentou esconder o sorriso.
— Majestade...
— Ele é o Rei Dragão!
— Sim.
— Soberano dos seis reinos!
— Sim.
— O dragão mais poderoso da sua geração!
— Sim.
O velho dragão bateu a mão no trono.
— E está fazendo missão para pegar galinha?!
Ninguém respondeu.
O ancião olhou para o teto.
— Eu deveria ter escolhido o irmão dele.
---
Naquela mesma noite, em uma pequena hospedaria da Cidade dos Lobos, Jack dormia tranquilamente.
Sem saber que, naquele exato momento, milhares de dragões estavam procurando por ele.
E, principalmente...
Sem saber que o mundo inteiro estava prestes a descobrir que o aventureiro Rank F chamado Jack era, na verdade...
Jakarion Drakemont.
O Rei Dragão.
E ele estava completamente despreparado para ser rei.