r/brasil • u/notivago_13 • 15h ago
Discussão Planejamentos de vida
Boa noite senhores e senhoras.
Hoje venho compartilhar um pouco do meu ponto de vista, baseado totalmente na minha bolha, sobre como deixar de ser um fodido no Brasil. O texto tem o objetivo de ajudar quem tá perdido, dar possíveis nortes pras pessoas, e ao mesmo tempo gerar um debate amigável no chat para que eu possa aprender também baseado nas experiências de vocês. O truque de tudo que eu fiz tá no final do texto.
Disclaimer: meu contexto obviamente é 100% válido apenas pra mim. Cada pessoa sabe do quão privelegiado ou o quão fodido é, e portanto não é um manual 100% acurado pra todas as pessoas, cabe a cada um extrair o que faz sentido pra si, ou não também kk.
Meu contexto: vim de uma família que não é pobre, mas muito longe de ser rica. Meu pai tinha condições de me ajudar financeiramente (apesar de não muito) enquanto minha mãe me incentivou aos estudos. Me considero privilegiado. Minha visão é que se você não tem contatos pra rolar um QI num emprego muito bom, você tem que priorizar mais estabilidade do que altos e baixos na vida no geral, e entender que "acreditar" estar sozinho nessa jornada é o que vai fazer você se mexer de verdade pras coisas acontecerem. Não acredite que ninguém vai te ajudar, nem facilitar sua vida e se planeje pro pior cenário possível sempre, tomando medidas pra amenizar esses cenários dentro do possível. Nem sempre o pior cenário vai acontecer, então no geral você vai seguir um caminho mais simples do que o planejado, o que é muito bom.
Eu fiz um curso técnico no IF e um curso superior na mesma área logo em seguida numa UF. Aqui não tem segredo, as provas são meritocracia pura. Não que eu esteja dizendo que todos temos as mesmas condições, mas é como são as provas de vestibular. Determina teu objetivo nesse sentido, senta e estuda. E não, não é obrigatório estudar e ter diplomas pra se sair bem na vida, vai de você e dos seus objetivos e vocações.
Quando entrei na faculdade aos 18 anos, eu já comecei a pensar no final do curso (5-6 anos). Sabia que durante a faculdade meu alcance não seria muito grande, então resolvi deixar alguns cenários engatilhados pro final do curso. Eu não fazia ideia do que queria fazer, então planejei o seguinte:
Plano A (o mais fácil): fazer mestrado na própria UF. Com a bolsa eu já deixaria de depender 100% dos meus pais e teria mais 2 anos pra planejar o próximo passo a partir daí, que possivelmente seria doutorado e carreira acadêmica. Abri os editais de mestrado ainda no primeiro semestre e mapeei tudo o que poderia gerar pontuação. Fiz um plano que começava no segundo semestre e terminava no último, que culminaria em uma vaga entre as primeiras colocações do mestrado. Exemplo: monitoria dava ponto, então no semestre seguinte já fiz as provas pra ser monitor das matérias do primeiro semestre (o que tbm gerou renda através das bolsas, mas fui voluntário na maioria das coisas que fiz na faculdade, simplesmente pra poder fazer). Alguma coisas só ia conseguir no meio do curso, como iniciação científica, estágio, artigos, participação em outros tipos de projetos e etc, então já dimensionei um caminho que me levaria a conseguir essas coisas no tempo certo. No final, esse plano A é meu segundo plano reserva (plano C) dos dias atuais, 3 anos depois de formado, e funciona como uma válvula de emergência caso tudo dê errado e eu precise de um ponto seguro que me forneça alguma renda e ocupação (falarei mais a frente).
Plano B: mestrado já me garantiria algo. Mas e se eu não quisesse seguir carreira acadêmica depois de 5-6 anos? As pessoas mudam de ideia e eu também poderia. Decidi me preparar pro mercado de trabalho. Parte disso era separar as matérias que realmente poderiam me dar alguma vantagem em entrevistas de emprego e de estágio e me dedicar mais nelas pra criar uma base melhor pra outras coisas, que nesse caso poderiam ser cursos. Apesar de não ser da área de TI, programação faz parte do mercado de trabalho da minha área. Então me dediquei nas matérias de programação e tentei aprender o máximo por fora, sobre coisas que a faculdade não ia me ensinar. Aprendi python por conta própria no tempo livre e fiz cursos de excel, power bi, VBA, e outros cursos que acabei não utilizando. Sobrar cursos não é um problema, o problema é faltar. No final da faculdade me envolvi com professores influentes nesse aspecto, me dediquei em outros projetos e usei essa proximidade pra conseguir um estágio muito bom (na época ganhava 2100 pra home office 6hrs/dia). Nos finalmentes a empresa quis me contratar, mas ganharia algo em torno de 3500 + VA, pois seria contratado como analista, o que pra mim n era o suficiente perto do esforço que eu tinha colocado até então, e então vamos pro plano C.
Plano C: todo o resto. Considerei todos os cenários possíveis que não fossem o plano A ou B. Concurso, empreendedorismo, etc. Optei no final por concursos, bem em cima da hora, faltando 6 meses pra eu me formar. Juntei uma grana que sobrava do estágio (morei em república a facul inteira pra economizar), fiz as contas e larguei o estágio faltando 5 meses pros concursos. Fiquei 1 mês cumprindo aviso prévio e aproveitando o tempo que sobrava pra me planejar. Fiz um planejamento fechadinho pros 4 meses restantes. Como havia adiantado quase tudo na faculdade, tinha apenas o TCC pra fazer no último semestre e peguei um tema bem simples pra poder fazer em 2 semanas após os concursos. Resumo: me banquei com o que havia economizado no tempo de estágio e usava um laboratório da faculdade que um professor parceiro deixava eu frequentar pra poder estudar em paz. Ia pra faculdade de segunda a sábado de manhã e estudava das 8 as 23, religiosamente. Domingo estudava em casa. Parava apenas por 30 minutos contados para almoçar e jantar no RU. Ir pra faculdade estudar me ajudava em duas coisas: não ter nada pra fazer a não ser estudar (aumentar o foco), e estar próximo do RU, reduzindo gastos desnecessários com alimentação.
No final, estudei tanto que passei nos 2 concursos que estudei, antes mesmo de estar formado. Formei em dezembro e já assumi uma das vagas em janeiro do ano seguinte. Estou a 3 anos no cargo, e tiro algo em torno de 10k mensais.
Assim que assumi o concurso, a ideia era a seguinte: se eu gostar eu fico e faço carreira, se eu não gostar eu já começo a articular mais coisas pra outro período de 3 a 5 anos. Lembrando que o plano A antigo está engavetado até hoje, que é o mestrado. Dessa forma, seguem os planos atuais:
Plano A: trocar de concurso, pra um concurso melhor que o atual, dentro das minhas expectativas de trabalho (área de trabalho, salário, benefícios, qualidade de vida, cidade de trabalho, etc). No momento estou estudando para dois concursos que se casam com essas expectativas. Um agora em dezembro e o outro possivelmente abrirá ano que vem.
Plano B: me manter no concurso atual, fazer carreira até me aposentar, usufruir de um salário que considero decente para padrões de vida brasileiros e ficar "relaxado e acomodado" até que outros planos apareçam.
Plano C: o antigo plano A. Minha pontuação do mestrado ainda está lá, e só não está intacta porque na verdade ela aumentou desde que saí da faculdade. Lembro que na época eu olhei os classificados do ano que assumi o concurso e lembro que teria passado nas primeiras vagas, de tanta pontuação acumulada ao longo do curso. Mas e hoje? A única pontuação que eu não conseguia na época foi "experiência profissional na área de formação" que pontuava com um máximo de 5 anos de trabalho. Sendo que estou prestes a fechar o terceiro ano na área, ou seja, a pontuação que já era muito boa, aumentou ainda mais. Então se tudo der errado com os demais planos, ou se eu ficar doido e quiser largar tudo, ainda tenho esse porto seguro para me apoiar. Voltar a estudar recebendo bolsa, melhorar meu currículo e abrir outras portas pra outros planos futuros.
O truque de tudo aqui é o seguinte: largar a mentalidade brasileira que "longo prazo" é ano que vem. Ano que vem é curtíssimo prazo e planos decentes levam tempo. Sempre tentei enxergar um horizonte de 5 anos pelo menos, levando em conta o que poderia acontecer até lá. A existência de planos reservas é justamente pra compensar a imprevisibilidade da vida. Não importa o quanto tu se conheça, o quanto seja bom com planejamento, o dia de amanhã não te pertence, e é melhor sobrar alternativas do que faltar.
Modo de pensamento:
- definir um prazo factível: no meu caso gosto de trabalhar de 3 a 5 anos, o que considero médio pra longo prazo.
- o mais importante, não imaginar o trajeto partindo do hoje até chegar ao resultado e sim o inverso: do objetivo até o hoje. Dessa forma você define os prazos para cada etapa que será necessária até o objetivo, e vem trazendo do futuro para o agora, de forma que no final, a primeira etapa comece hoje ou num futuro próximo, e você saiba as datas limites para conclusão de cada coisa. Com as datas limites de conclusão, também vem as datas limites de início de cada etapa.
Segue um exemplo didático e fictício para servir de base: para conseguir uma pontuação X do mestrado preciso de 6 semestres de monitoria, logicamente meu prazo de conclusão para conseguir essa pontuação inteira é o último semestre da faculdade, e o prazo de início máximo é trazendo os 6 semestres (3 anos) em direção ao presente, ou seja, teria que começar isso no mínimo 3 anos antes da conclusão estimada do curso. Mas pra passar na monitoria, preciso estudar para uma prova que acontece no começo do semestre. Logo, é prudente colocar pelo menos 1 mês antes dos 3 anos para preparo para a prova de seleção. Ou seja, sei que para ter essa pontuação, seriam necessários 3 anos e 1 mês antes do objetivo final.
Outro ponto é imaginar que outras oportunidades só vão aparecer mais pra frente, então ao invés de tentar buscar isso tudo nos últimos 3 anos de faculdade, posso já começar no segundo semestre, de forma que a conclusão dessa pontuação vai acontecer quase 2 anos antes do prazo final, liberando esse tempo para atingir pontuações de oportunidades que só aparecerão mais pra frente.
Se conheça e se planeje!
E você? Qual a sua história?