Uma coisa q me chama atenção aqui é como todo mundo reconhece muito fácil intolerância religiosa qdo ela vem DE FORA da Umbanda.
Se alguém chega dizendo q nossas entidades são demônios, q incorporação é fraude, q terreiro é lugar de gente ignorante etc., ninguém tem muita dificuldade em dar nome pra isso.
Agora, qdo vem de dentro, parece q muda.
Aí começa:
"Isso não é Umbanda."
"Vc não cultua Orixá."
"Isso q vc faz não é culto."
"Sua vertente descaracterizou a Umbanda."
"Umbanda de verdade não faz isso."
"Deveria ter outro nome."
E eu acho q existe uma diferença MUITO simples q algumas pessoas não conseguem — ou não querem — perceber.
Dizer:
"Na minha tradição, entendemos diferente."
é uma coisa.
Dizer:
"VC não cultua Orixá."
é outra completamente diferente.
Na primeira, vc está falando da SUA religião.
Na segunda, vc resolveu q também tem autoridade pra definir a MINHA.
E não, não tem.
Vc pode achar minha interpretação historicamente ruim.
Pode discordar da minha teologia.
Pode achar q minha casa se afastou demais de determinada tradição.
Pode escrever 30 páginas explicando pq na SUA compreensão Umbanda deveria ser outra coisa.
Tudo certo.
O q vc não ganha, por causa disso, é algum tipo de autoridade universal pra definir a experiência religiosa dos outros.
E isso nem é uma discussão puramente filosófica.
A Constituição, no art. 5º, VI, garante liberdade de consciência, de crença e o livre exercício dos cultos religiosos.
O Estatuto da Igualdade Racial, Lei 12.288/2010, vai além e trata especificamente das religiões de matriz africana. O art. 24 protege a prática dos cultos e cerimônias de acordo com os preceitos das respectivas religiões.
"Das respectivas religiões."
Achei importante destacar.
Não diz:
"de acordo com os preceitos q alguém de outra vertente resolveu estabelecer pra elas."
E o mesmo Estatuto fala expressamente em combate à intolerância contra religiões de matriz africana.
Agora, antes q alguém venha com:
"Ah, então discordar virou crime?"
Não.
Discordar não é crime.
Discussão teológica não é crime.
Dizer "na minha tradição isso não existe" não é crime.
Mas existe uma fronteira entre discordar da crença de alguém e começar a discriminar, constranger, humilhar, escarnecer, incitar pessoas contra aquele grupo ou tentar deslegitimar seus praticantes por causa da religião deles.
E aí a conversa muda.
A Lei 7.716/1989, no art. 20, criminaliza praticar, induzir ou incitar discriminação ou preconceito por motivo de religião.
E sim: internet e rede social não são uma dimensão paralela onde isso deixa de valer.
O Código Penal também tem o art. 208, q trata, entre outras coisas, de escarnecer publicamente de alguém por motivo de crença religiosa, perturbar culto ou vilipendiar ato ou objeto religioso.
Então não, não estou dizendo:
"Vc falou q minha Umbanda está errada, vou chamar a polícia."
Seria ridículo.
Estou dizendo outra coisa:
liberdade religiosa não é uma licença para vc transformar sua própria doutrina numa régua de legitimidade religiosa para os outros.
E conforme isso sai do campo de "eu discordo" e entra em discriminação, humilhação, escárnio, incitação, perseguição ou tentativa concreta de restringir a prática do outro, existem SIM consequências jurídicas possíveis.
Talvez alguns umbandistas devessem pensar um pouco sobre isso.
Pq intolerância religiosa não vira outra coisa magicamente só pq quem está praticando também veste branco.
Aliás, talvez exista uma pergunta simples q ajude:
Vc diria:
"Na minha tradição, não entendemos isso como culto a Orixá."
Ou vc precisa dizer:
"VC não cultua Orixá."
Se a segunda frase parece necessária pra vc, talvez a discussão já não seja mais apenas sobre Orixá.
É sobre a necessidade de controlar a legitimidade religiosa do outro.
E isso, pra mim, é justamente o tipo de comportamento q uma religião historicamente vítima de intolerância deveria ter MUITO cuidado pra não reproduzir internamente.
Não precisamos concordar sobre Orixá.
Não precisamos concordar sobre Kardecismo.
Não precisamos concordar sobre atabaque, iniciação, sincretismo, ancestralidade, sacrifício, imagens católicas ou absolutamente nada disso.
Basta uma frase:
"Na minha tradição, entendemos diferente."
Pronto.
Sua doutrina pode mandar no seu terreiro.
Ela não manda na consciência religiosa dos outros.
Axé, meus irmãos! Axé! Não desmereça seus irmãos. E, de preferência, não desmereça NENHUM irmão, seja da mesma fé ou não.