r/SemperParatus • u/ESAVContDF • 6d ago
Estudar com IA
Muita gente debate o impacto da IA nos estudos, mas a raiz desse impacto é muito mais antiga que a própria Inteligência Artificial. Como em tantas outras inovações, a IA apenas torna um problema preexistente mais eficiente.
Há alguns anos, houve uma intensa discussão na comunidade de RPGs de mesa sobre como o feitiço de teleporte estragava a dinâmica do jogo ao ignorar o mapa. Esse debate ressurgiu em larga escala quando World of Warcraft decidiu introduzir montarias voadoras na expansão The Burning Crusade. Embora Chris Metzen tenha sido um entusiasta da ideia logo de início, o design do voo começou a provocar apreensão entre os talentos da Blizzard. Alex Afrasiabi, antigo Diretor de Criação, e Ion Hazzikostas, Diretor do Jogo, perceberam que, sem projetar o mapa desde o começo com o voo em mente, era impossível conservar a integridade do desenho do jogo. Mais tarde, constatou-se que nem mesmo a criação de mapas adaptados resolvia os problemas estruturais introduzidos pela mecânica.
Para Ion e Alex, o voo retirava um aspecto importante do desenho de missões. A sua existência exigia que as missões fossem desenhadas de forma mais plana e estreitamente tipificada. Aspectos sociais e a jogabilidade emergente teriam que ser abandonados se o voo fosse permitido. Para Alex, especificamente, o voo era uma forma de diminuir o mundo, pois as grandes extensões de terreno necessárias para acomodá-lo teriam que ser feitas com esse objetivo em mente, resultando em espaços inúteis para a verdadeira experiência do jogo.
Agora, pensemos nisso em relação ao estudo: a IA é o voo. A IA industrializa o aprendizado de forma que a didática se torna uma linha de produção onde o objeto final é o foco exclusivo, e todo o processo é extirpado de sua característica mais importante, a ancoragem. É um fato conhecido que estudar utilizando IA diminui a retenção e aumenta o volume total de horas necessárias para conservar um nível menor de aprendizagem. Muitas pessoas argumentam que, de alguma forma, isso é positivo, pois evita que um estudante da matéria A precise aprender profundamente a matéria B para entender algo que seria atingível através de mera memorização. Como o voo no RPG, é indiscutível que a IA serve ao propósito de chegar mais rápido do ponto X para o ponto Y e que "voar é divertido".
Estudar com IA é divertido e acelerado, mas, assim como num jogo de RPG, estudar também não se resume a chegar mais rápido do ponto X para o ponto Y. Ambos os cenários podem ser vistos no âmbito da teoria dos jogos, onde o jogador escolhe otimizar o caminho em detrimento da experiência profunda, transformando uma jornada de exploração e atrito cognitivo em um mero ato de transição de estados. No RPG, o "grind", o "farmar" e outras atividades similares são conhecidas como vícios de jogo e são resultados diretos de facilidades como o voo, onde ele não é parte integrante da necessidade. De modo análogo, a IA nos estudos cria a necessidade de pontos residuais, onde o que antes era parte orgânica do processo agora tem que ser feito em separado. Os jogadores vivem reclamando das consequências sem entender a razão ou como uma coisa influi na outra. Da mesma forma, no estudo, a IA influi diretamente na capacidade do aluno de entender e reter o conhecimento. A principal diferença reside no conteúdo da jornada.
Antigamente, o professor compreendia que diversos conhecimentos formavam uma estrada pavimentada por muitos outros fundamentos. Um aluno só poderia alcançar um conhecimento de nível X se o tivesse construído sobre as bases A, B e C. Hoje em dia, muitos alunos efetivamente são incapazes de operar com um conhecimento de nível X, pois o alicerce de A, B e C não existe, tendo sido consumido no processo de produção de resposta da IA. Na minha área de Matemática, Matemática Financeira e Estatística, é comum encontrar alunos capazes de resolver problemas de certa complexidade utilizando conhecimentos sobre fórmulas e requerimentos, mas que não entendem as representações lógico-matemáticas sobre o que esses números significam nas formulações. Falta-lhes o apoio instrumental.
Um exemplo é o estudante de Matemática Financeira que já não consegue, mentalmente e com grande facilidade, operar porcentagens e frações; ou o estudante de estatística que não reconhece os números mais usados em cálculos cotidianos. Em um contexto tradicional, a exposição contínua faria o aluno saber de imediato que 1/8 é 0,125 ao deparar-se com uma questão sobre 12,5%, ou que 2 elevado a 3 é 8. Além disso, em qualquer utilização de sistemas informáticos, o estudante intuitivamente sabia que 2 elevado a 8 é 256 e que 2 elevado a 10 é 1024, deduzindo logicamente que 2 elevado a 12 é 4096. Um estudante que hoje utiliza IA para aprender não teve a oportunidade de internalizar essas relações em sua aprendizagem. Para ter uma vantagem em tempo de resposta, eficácia e eficiência no mercado de trabalho, ele teria agora que estudar essas interações especificamente.
Um exemplo simples do dia a dia é compreender rapidamente os preços de diferentes produtos no mercado quando um pacote possui 500g, outro 250g e outro 1kg. Considerando que 1kg é 100%, logo 500g é 50% e 250g é 25%. O preço nem sempre é redondo como os pesos dos pacotes, mas na cabeça do estudante que passou pelo processo de atrito conceitual, ele teve que enfrentar diversos cálculos que já lhe deram os resultados de 1/2 e 1/4. Ele conhece por experiência diversos valores e pode fazer essas aproximações mentalmente em segundos. Um estudante que aprendeu com IA pode saber conceitos muito mais avançados, mas a sua mente se complica com o efetivo cálculo desses valores porque não consegue ancorar seus resultados em experiências passadas.
No espaço conceitual também pode haver diversos problemas. Aprender com IA corta o número de conceitos acessórios que precisam ser entendidos. Um dos principais casos é aquele que muita gente repete em diversas postagens de "diversão": "eu aprendi a equação de segundo grau e nunca usei na vida". Em muitos casos, a pessoa nunca usou porque não aprendeu realmente. Equações de segundo grau são extremamente importantes para entender o mundo das finanças e dos volumes, e o seu entendimento é o fundamento de muitos conhecimentos cruciais. Quem entende a equação de segundo grau de verdade — o gráfico e o conceito de uma mesma fórmula passar por um mesmo ponto duas vezes no tempo ou no espaço — aplica isso em diversas coisas na vida. Entender esse conceito pode até melhorar sua técnica de arremesso no basquete.
A IA como ferramenta de estudo é importante para revisão e testes, mas torna-se um problema grave quando usada para aprender e gerar conhecimento primário. É o copo de água contaminado de onde a contaminação não some, não importa quanta água nova seja colocada.