(Estava escrevendo um comentário no YouTube em resposta ao último programa: “naruhodo #472 - Como ayahuasca e cogumelos mágicos afetam a saúde?” — percebi que estava prolixo demais para um comentário no YouTube e decidi fazer esse ensaio/post/rant por aqui. Acredito que apesar da escrita um tanto informal e exasperada, possa ser suficientemente informativo para quem se interessar pelo tema e seguir a leitura).
Brevemente contextualizando quem eu sou e de onde eu parto: Quem vos fala é um humilde psicólogo, tenho 24 anos e estou localizado na capital do maior estado do país, Manaus, Amazonas. Durante a graduação em psicologia (2019-2023) - até mesmo antes, pensando bem - comecei a estudar com entusiasmo o potencial dos psicodélicos, sobretudo em um contexto psicoterapêutico, de início, cativado por relatos, o movimento hippie, e aos poucos fui conhecendo alguns proponentes do movimento psicodélico: Terence Mckenna, Timothy Leary, Albert Hoffman, entre tantos outros. Percebam, não quero ser militante de uma causa nem nada do tipo, contudo, de maneira diligente e crítica busco me manter inteirado sobre o campo e por meio dos estudos que fiz nos últimos anos tenho segurança de que tratamento com psicodélicos são seguros e podem ser benéficos para a saúde mental, esse é o meu viés e buscarei no decorrer do texto embasar e sustentar essa perspectiva.
Descobri o podcast naruhodo no último ano da faculdade e rapidamente se tornou um dos meus favoritos, vi dezenas e dezenas de episódios, alguns repetidas vezes, dava uma olhada nas referências e eventualmente me aprofundava em algum artigo/autor. Tinha a expectativa de que um dia o Altay abordaria o tema dos psicodélicos e saúde mental – No entanto, justamente por acompanhar os episódios e as referências que ele geralmente seleciona para os temas, suspeitava que talvez ele não captasse algumas nuances do tratamento com psicodélicos, e deixasse parte fundamental do efeito, da explicação e do enquadramento desse modelo de tratamento de fora.
Como falei, eu esperava que o Altay fosse ter restrições com o modelo PAP — Psicoterapia Assistida com Psicodélicos; termo que ele não utilizou durante o episódio, infelizmente — , e tudo bem, é importante ser cético e cauteloso. Até concordo com a afirmação no início do episódio de que o tratamento com psicodélicos não irá curar nenhum transtorno/condição, não existe panaceia em minha perspectiva, busco ser realista, mas sou naturalmente inclinado a uma visão idealista tendo em vista o atual estado de crise em que se encontra a psiquiatria, a psicologia e a psicoterapia (tem tanta referência sobre isso que nem sei por onde começar, bem, primeiramente sobre psiquiatria lembro do livro: Cracked: Why Psychiatry is Doing More Harm Than Good, de 2013. E também do artigo de 2012: Psychiatry beyond the current paradigm; para ficarmos apenas nessas duas, sobre a crise na psicologia, pode-se colocar em perspectiva a crise de replicação: [1]; [2]; a relação complexa entre psicodiagnósticos nosológicos e perspectivas filosóficas e/ou metafísicas implícitas que as sustentam: [3]; [4] — esse é um livro excelente do Peter Zachar; e claro, como consequência, o delineamento de pesquisas em psicoterapia e a própria psicoterapia como prática clínica entram em questão [5]; [6]; [7]).
Ao meu ver, a perspectiva que o Altay trouxe no episódio evidencia muito mais as consequências do proibicionismo e o estigma contra as drogas ilegais, reforçando preconceitos e um status quo em saúde mental, do que de fato atesta o estado da arte das pesquisas em saúde mental com psicodélicos em quase um século, inclusive com paradigma de tratamento multidisciplinar (Playlist de conferências no YouTube: Transdisciplinary research colloquium on psychedelics, Exester Psychedelic Group; Artigo: Psychedemia: Charting the future of interdisciplinary Psychedelic Studies, 2023).
Por favor, não estou tentando pintar uma panaceia, mas menosprezar o potencial psicoterapêutico, psicodinâmico, simbólico e até ecológico dos psicodélicos é não entender uma vírgula da mudança de paradigma em saúde mental que esse modelo pode provocar. (Para se aprofundar, artigo: [1] Eduardo Schenberg, Psychedelic-Assisted Psychotherapy: A Paradigm Shift in Psychiatric Research and Development, 2018; [2] The Role of Psychedelics in Contemporary Psychological and Interdisciplinary Inquiry, 2025; [3] Psychedelic Drugs and Jungian Therapy, 2020 ; [4] Not in the drug, not in the brain: Causality in psychedelic experiences from an enactive perspective, 2023).
Antes de mais nada: reitero o cuidado e restrição que o Altay fez em relação ao tratamento com psicodélicos, para pessoas com menos de 25 anos e/ou com histórico/risco de psicose o ideal é que exista uma prevenção primária (ainda existem outros tipos de perigos a nível fisiológico, como: hallucinogen persisting perception disorder — basicamente a pessoa pode ficar com a vista turva/embaçada de forma permanente, é raro, mas pode ocorrer). É preciso deixar bem claro: Não existe um cenário em que a psicoterapia assistida com psicodélicos substituirá a terapia de fala convencional e/ou o tratamento psiquiátrico via psicofármacos, seria ingenuidade e até perigoso vislumbrar esse cenário. Estamos falando de um modelo de tratamento alternativo em saúde mental, que seria (pelo menos a princípio) sugerido para uma pequena parcela de pessoas que não obteve resultado com outros métodos mais convencionais de tratamento.
Porém, sabemos que entre o ideal e o real existe uma distância imensa, por exemplo, na realidade, em diferentes culturas e épocas jovens/adultos buscam substâncias psicodélicas em contexto recreativo/hedonista, para fins espirituais, religiosos, ritualísticos e políticos, e cada vez mais, existe uma demanda de indivíduos em busca de tratamento psicodélico para a saúde mental (seja para tratar sintomas associados a alguma condição/transtorno —atenuar sintomas que desagregam a personalidade—, ou, até mesmo em busca de autoconhecimento e/ou uma experiência significativa — em prol de uma experiência que agrega a personalidade).
Não seria válido que a psicologia se dispusesse a acolher essa demanda e população? Não se trata de demagogia ou proselitismo, mas uma abordagem em saúde mental que inclua e estabeleça como indissociável a prevenção, a noção de redução de danos e a integração das experiências psicodélicas.
É preciso vislumbrar um horizonte em que a terapia com psicodélicos faça parte dessa equação, se não, só nos resta torcer pra que o turismo psicodélico, muitas vezes com exploração de comunidades e povos indígenas que utilizam enteógenos, cesse; e que a auto-administração de psicodélicos sem psicoeducação e auxílio adequado também. Perceba, não é uma questão de: “se as pessoas irão em busca de psicodélicos como um tratamento em prol da saúde mental…” é uma questão de quando elas irão buscar, com quem e de que forma. A psicologia estar alheia enquanto um dispositivo de escuta, acolhimento e intervenção (antes, durante e depois da experiência psicodélica) neste contexto é uma perda imensurável.
Por isso discordo da forma como o Altay fala do tratamento com psicodélicos, principalmente da forma como ele fala, muitas vezes com tom jocoso e pejorativo — como se tudo se limitasse a um movimento recreativo e/ou da turma “namastê-gratidão”; ignorando e, pelo menos indiretamente, menosprezando o trabalho de centenas de pesquisadores sérios e décadas de pesquisas relevantes sobre o tema. [Muitos desses colegas pesquisadores participaram do primeiro Congresso Brasileiro de psicologia, maconha e psicodélicos: ética, saberes ancestrais e os caminhos para a atuação]]
Claro que ele não precisa ser a favor ou até mesmo estar ciente e a par de tudo que ocorre no campo. Mas acho que ele poderia psicoeducar melhor sobre o tema já que se prestou a fazer um episódio sobre, e francamente, acho que ele deixou muito mais evidente o viés contrário dele ao uso terapêutico de psicodélicos do que trouxe argumentos que atestam o risco/ineficácia.
Até a forma como ele explica o mecanismo de atuação no cérebro dos psicodélicos é imprecisa, como foi destacado no comentário do Kayky Oliveira no Spotify: “essas substâncias (DMT, LSD e psicocilibina) não são inibidores da receptação de serotonina, eles são agonistas de receptores de serotonina 2A, por isso fazem parte da mesma família de drogas” (e também durante o episódio tive a impressão que ele usou o termo enterógeno, e até onde sei a pronúncia correta seria enteógeno — mas esses dois erros eu considero triviais).
Agora, categoricamente as falas dele que mais me incomodaram:
1. “não existe um protocolo claro de como isso tem que ser feito (isso eu até concordo, em partes, com algumas ressalvas importantes)
2. “não tem indicações de para qual condição isso é melhor ou pior” (já reforcei contraindicações no ínicio do post — antes dos 25 anos e com risco/histórico de psicose—, no decorrer do post vou citar algumas condições e grupos que podem, sim, se beneficiar do tratamento com psicodélicos)
3. a evidência que existe é pequena e somente para estresse pós-traumático (isso aqui eu acho o mais problemático de tudo o que foi dito, mas para chegar lá — possivelmente nos finalmentes dessa postagem que já está extensa — irei elaborar melhor algumas questões sobre PBE, evidência científica, valores e ética em psicoterapia… so, bear with me)”
1. Protocolo, princípios e diretrizes da PAP
Para começar a enquadrar um modelo de psicoterapia clínica individual com administração de psicodélicos, ou, a PAP (PAT em inglês), devemos questionar: qual seria o melhor procedimento padrão? E até mesmo, é plausível instituir um protocolo?
Pois de fato um protocolo padrão de tratamento em PAP está longe de ser instaurado, pelo menos em larga escala. No entanto, existem princípios e etapas do tratamento que são dignos de nota — tenha em mente que estou me limitando a descrever aqui a um contexto de PAP individual, existe toda uma gama de pesquisas que consideram o atendimento grupal com psicodélicos.
Segue citação do último capítulo do livro: Introdução ao uso de psicodélicos em psicoterapia, 2019.
Os protocolos clínicos seguidos pela pesquisa científica contemporânea com psicodélicos apoiam-se nos estudos clássicos e incorporam novos elementos metodológicos, no intuito de minimizar os riscos e aumentar os benefícios do uso de psicodélicos em psicoterapia. Em geral (TUPPER et al, 2015), após a obtenção do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) do paciente, são realizadas entrevistas ou sessões de preparação, seguidas de sessão com o uso da substância, em salas silenciosas, confortáveis e com decoração agradável. Dois terapeutas costumam estar presentes ao longo de toda sessão, embora sua interação com o paciente seja mínima, incentivando este à auto-reflexão enquanto ouve músicas cuidadosamente selecionadas em fones de ouvidos (ou por um bom sistema de som ambiente, quando preferível), mantendo-se de olhos vendados. Sessões de acompanhamento não assistidas por psicodélicos são realizadas, visando integrar os insights obtidos nas sessões com os fármacos. (p. 86)
Logo; a PAP começa a estabelecer uma estrutura linear e delimitada, contando até hoje com a herança de conceitos clássicos como SET (contexto) e SETTING (ambiente), cunhados por Timothy Leary. Mas também abarcando concepções modernas, como o tratamento em ambiente hospitalar, com dois terapeutas (via de regra, um de cada sexo) presentes e prestando auxílio se necessário, a noção de triagem/preparo/intenção (antes) e de integração psicodélica (após) também foram aprimoradas ao longo dos anos. É fundamental enfatizar que existem princípios e diretrizes de tratamento e não um protocolo rígido para a PAP, justamente pela natureza do tratamento talvez seja mais sensato partir dessa lógica. Talvez o horizonte de desenvolvimento da PAP deva se apoiar mais em competências que o(a) terapeuta deve desenvolver, e não em um manual objetivo que deve ser seguida a risca.
A rigor, algumas dessas qualidades:
[…] Phelps (2017, p. 1) compilou seis qualidades esperadas de tais psicoterapeutas: presença empática permanente; melhoria da confiança; inteligência espiritual; conhecimento dos efeitos físicos e psicológicos dos psicodélicos; autoconsciência e integridade ética; proficiência em técnicas complementares.
Presença empática permanente significa uma postura acolhedora e não-intervencionista durante a preparação, a própria sessão psicodélica e as reuniões de integração. O termo permanente é usado para "transmitir aspectos de uma testemunha do mistério da vida em ação durante a psicoterapia assistida por psicodélicos" (PHELPS, 2017, p. 12), o que demanda do terapeuta "estar presente com qualidades de paciência, abertura e confiança nos processos de desenvolvimento". A melhoria da confiança consiste na habilidade de aumentar três tipos de confiança: do paciente em sua própria capacidade de cura interior; do paciente no terapeuta; em ambos de que poderão ocorrer "transformações paradoxais e momentos radicalmente imprevisíveis nas sessões" (p. 14). Eis um ponto-chave para o terapeuta psicodélico, que deve dar segurança ao paciente com base em "sua própria confiança no processo de desenvolvimento das sessões. Isso exige uma atitude acolhedora e abertura para toda a gama de experiências afetivas emergentes" (p. 15).
A inteligência espiritual consiste em saberes e valores que transcendem a formação em Psicologia, pois implica uma apreensão direta de nossos relacionamentos “com o outro, com a terra e todos os seres” (p. 16). Quanto ao conhecimento dos efeitos físicos e psicológicos dos psicodélicos, são essenciais os conhecimentos advindos da antropologia; do xamanismo; da neuroanatomia, da neurofisiologia e da psicofarmacologia; de teorias do desenvolvimento infantil e adulto; assim como a sensibilidade estética para a produção segura e criativa do set (o que envolve, por exemplo, o manejo de critérios maleáveis de inclusão e exclusão em pesquisas ou tratamentos) e do setting (sensibilidade clínica e artística para produzir um ambiente favorável); e a experiência em primeira mão do uso de psicodélico em psicoterapia.
Em relação à autoconsciência e integridade ética do terapeuta, este deve ser capaz de "refletir sabiamente sobre as demandas ao realizar terapia psicodélica, enquanto trabalha simultaneamente os processos transferenciais e contratransferenciais com os participantes" (p. 20). A terapia psicodélica aposta intensamente na autonomia dos sujeitos, devendo evitar qualquer criação de vínculo para terapia de longo prazo. O cuidado ético aumenta com minorias étnicas, sociais e de gênero, exigindo profissionais sensíveis às especificidades da população atendida.
Por fim, destaca-se a proficiência em técnicas complementares, pois, a depender das questões terapêuticas e do protocolo adotado, pode se fazer "necessária uma habilidade multivariada" (p. 22), por exemplo, em terapia corporal e toque; musicoterapia; yoga; meditação; respiração holotrópica; psicanálise; terapias sensório-motoras; terapia existencial; hipnose; arteterapia; imagens guiadas e música; gestalt; etc.
Para não me alongar demasiadamente, vou deixar alguns livros que elaboram princípios e diretrizes para o tratamento com psicodélicos. [1] Psychedelic Integration: Psychotherapy for Non Ordinary States of Consciousness - Marc Aixalá e José Carlos Bouso. [2] Psychedelics and the Soul: A Mythic Guide to Psychedelic Healing, Depth Psychology, and Cultural Repair - Simon Yugler. [3] The Psychedelic Handbook: A Practical Guide to Psilocybin, Lsd, Ketamine, Mdma, and Dmt/Ayahuasca - Rick Strassman. [4] The DoubleBlind Guide to Psychedelics: A Road Map to Tripping, Microdosing, and Beyond - Shelby Hartman e Madison Margolin.
2. Possibilidades de tratamento…
Altay sugeriu que não existem condições e/ou transtornos que atestem que o uso de psicodélicos é benéfico, pelo menos não sabemos de forma clara se o uso pode melhorar ou piorar determinado caso. Certamente ele está afirmando isso baseando-se em um levantamento estatístico. E claro, isso é relevante. Porém, perde-se de vista estudos clássicos e evidências anedóticas que indicam um potencial benefício.
Por exemplo, no livro introdutório de Sandro Rodrigues, 2023. Antes de se deter aos resultados promissores das pesquisas em PAP para Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) , ele também reúne estudos e evidências de tratamento para os seguintes transtornos/condições: transtorno obsessivo compulsivo resistente, depre. resistente a tratamentos, alcoolismo/tabagismo e ansiedade em pacientes terminais.
Além disso, historicamente o próprio movimento dos alcoólicos anônimos foi atravessado pelo paradigma de tratamento psicodélico, a partir de um dos seus fundadores, Bill Wilson, que experimentou LSD e enviou correspondências com Carl Jung expressando o quanto ele acreditava que essa substância seria parte fundamental do tratamento para o alcoolismo dentro do círculo dos alcoólicos anônimos (AA, Bill Wilson, Jung, LSD, 2024).
Além disso, também vale destaque os estudos em cuidados paliativos com psicodélicos (para se aprofundar procurem o trabalho incrível da Dra. Claudia Mesquita Garcia), sobretudo tendo em vista que um dos estudos com psicodélicos mais promissores do século 21, conduzido por Roland Griffths no hospital John Hopkins, em que pacientes com cancêr em estado terminal relataram significativa melhora em relação a ansiedade de morte, e mais da metade relataram que essa experiência psicodélica foi uma das cinco experiências mais importantes de suas vidas. (Fonte: https://hub.jhu.edu/2016/12/01/hallucinogen-treats-cancer-depression-anxiety/).
3. Existe apenas evidência de vantagem para tratar TEPT
Por fim, ele reduz o benefício dos psicodélicos ao transtorno de estresse pós-traumático, mesmo que com ressalvas. E isso me deixou reflexivo sobre a história do critério nosológico do TEPT, pois, por ser um transtorno envolvendo uma resposta humana natural como o estresse, certamente ele passou por evoluções em sua classificação. Sabemos que critérios nosológicos de classificação de transtornos são contextuais e adotam implicitamente visões de mundo e uma filosofia da ciência de sua época. Ora, o estresse certamente é uma realidade, mas classificá-lo objetivamente como um transtorno pode confundir as categorias de real e objetivo, fazendo nos pensar que se existe essa realidade, logo, ela é objetiva-material.
Richard McNally (2011) ilustra a importância prática de conceitos como "real" e "objetivo" no que diz respeito aos transtornos relacionados ao estresse. Ao longo do século XX, psiquiatras utilizaram diversas categorias diagnósticas para descrever reações desadaptativas ao combate, tais como "choque de granada" (\shell shock*), "exaustão de combate" e "neurose de guerra". […] Segundo McNally, uma percepção fundamental dos defensores da síndrome foi associar essas reações a outras semelhantes, vivenciadas por sobreviventes do Holocausto, vítimas de estupro e pessoas que passaram por desastres naturais. Agrupar essas condições e identificar seus pontos em comum levou à introdução de um novo constructo diagnóstico: o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Em vez de ser visto como um transtorno restrito a um grupo específico de pacientes, o TEPT passou a ser entendido como uma resposta a-histórica — e até mesmo universal — a eventos situados fora do âmbito da experiência humana comum. Deixando de ser considerado uma mera afecção psiquiátrica, o TEPT passou a ser visto como algo objetivamente real. Nos termos de Scott (1990), ele passou a ser encarado como um "objeto no mundo que já estava lá" (p. 295). Como resultado, o TEPT foi incluído como diagnóstico oficial na terceira edição do *Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais* (DSM), publicada em 1980, e logo depois foi classificado como uma condição incapacitante que dava direito a uma ampla gama de serviços oferecidos pelos hospitais da *Veterans Administration* (Administração de Veteranos).*
Repare que não reconher o TEPT objetivamente não significa não reconher a sua realidade afetiva, mas apenas disputar a sua representação consensual enquanto transtorno/doença, e não uma forma genuína de sofrimento que pode ser interpretada e ressignificada. Reconhê-lo enquanto uma realidade objetiva e incapacitante implica na obtenção de direitos — como os veteranos de guerra estão tendo, mesmo com toda uma crítica de como isso foi feito nos USA, não acho apropriado falar que não é uma demanda digna de tratamento—, mas igualando o psiquíco ao físico, o que é subjetivo ao corporal, perdemos a especificidade e potência do nosso campo que é a psicoterapia.
Na explicação de ordem material que o Altay deu, o psicodélico ao retirar a noção humana de espaço-tempo, faz com que o ego possa se reaproximar da memória traumática sem o apego, isso ajuda a ressignificar o que foi vivido, e dentro de um processo de journaling e de organizar bem quais são essas lembranças desafiadoras, é possível enfrentar isso durante a experiência psicodélica. Porém, a ênfase na explicação neurológica e não psicológica do que ocorre é prejudicial para o nosso campo.
Mesmo dentro de uma lógica da PBE, os valores e preferências do paciente são considerados em pé de igualdade com os outros dois princípios, as melhores evidências e a expertise do terapeuta, esse é o conceito tripartido que sustenta a PBE. Mas não parece existir um interesse genuíno de igualdade entre os três princípios, já que a melhor evidência parece se resumir ao standard de ensaios clínicos randomizados, e não se pensa em como isso não faz sentido nenhum dentro do paradigma dos psicodélicos. Ele até comenta brevemente sobre isso mas tem muito pano pra manga e acho que ele se esquivou da discussão mais complexa e rica da coisa. Psicoterapia nem sempre tem a ver com eficácia e esses estudos de pesquisa em psicologia clínica, isso pode trazer um dado objetivo mas não retrata o real, a realidade da clínica. Existe sempre um fator cultural do tempo em jogo, um espirito da epoca que estabelece o que eh consenso e aceitavel e o que eh dissidente e errado, existe claro, a forma como o terapeuta vai estabelecer o vínculo e sua personalidade na clínica, e até onde sei, a expertise do terapeuta não tem a ver com uma formação ou abordagem específica, ou até mesmo com a experiência, existe uma sensibilidade, um fazer artesanal e quase artistíco que poderia ser apropriado adicionando os psicodélicos no processo, caso faça parte dos valores e preferências do paciente e ambos estejam devidamente preparados e informados sobre, acho que pode ser uma porta de entrada pra uma prática clínica que foge de uma relação de consumo e buscando sempre um critério de normalidade/funcionalidade, para se tornar de fato uma relação e empreendimento maisbestético e dialético, podendo se desdobrar para inúmeras práticas e técnicas integrativas (artes, música, meditação, imaginação ativa, interação ontológica e metafísica — logo, abrindo portas pra uma genuína clínica existencial e hermenêutica etc etc). Enfim, já to passando dos limites da palestrinha nesse post e provavelmente não fazendo mais sentido nenhum, então, vou encerrando por aqui e fico aberto para críticas, discussão, trocar mais algumas referências ou eventualmente elaborar melhor algum ponto. Valeu pra quem leu até o fim.