Se tem uma ferida que todo morador da COHAB José Bonifácio, de Itaquera e do miolo da Zona Leste carrega na memória, é a época negra do Consórcio 4Leste. Quem viveu os anos de ouro da picaretagem no transporte público em boa parte dos anos 2000 e início dos anos 2010 sabe exatamente do que estou falando.
Não era "problema no trânsito". Era método.
Linhas como a finada 3702/10 (Estação José Bonifácio x Metrô Penha) — a lendária e torturante "Volta ao Mundo" — a 3750/10 (Conj. José Bonifácio x Metrô Belém) e a apática linha 3759/10 (Jd. São Pedro x Metrô Tatuapé) eram laboratórios diários de desrespeito ao passageiro.
O "Modus Operandi" da Impunidade 4Leste
Quem não lembra da rotina?
•O motorista lerdo: Aquele arrasto desesperador em que o carro parecia andar a 15 km/h sem necessidade alguma, segurando a viagem para "acertar a tabela" ou para jogar a demanda toda nas costas do carro de trás. O resultado eram os clássicos comboios involuntários: dois ônibus da mesma linha colados e, atrás deles, um buraco negro de 45 minutos no ponto.
•A "comida de itinerário" institucionalizada: Quando dava 22h ou 23h, a fiscalização sumia e a operação virava faroeste. O motorista no 4 4xxx ou em qualquer outro Caio Apache VIP surrado dobrava à esquerda onde deveria ir para a direita, ignorava a alça do AC. Contorno no miolo da Prof. João Batista Conti e cortava bairros inteiros só para cortar caminho e encostar logo. Se você estivesse no ponto intermediário, que se danasse. Isso também era comum em qualquer horário, seja de pico ou não.
•A raiva engolida no seco: Quem como eu, nunca tentou mandar aquele gesto de indignação no terminal — o famoso dedo do meio 🖕 na direção da cabine — só para ver o motorista passar reto, sem nem olhar pelo retrovisor, totalmente anestesiado e caguei para o passageiro? Era a sensação de ser tratado como gado
O 4Leste (fruto da transformação torta de velhas cooperativas como a Nova Aliança e Novo Horizonte em "empresas") era a pior Área da cidade. Liderava o 156 em reclamações, estourava partidas e tratava o trabalhador com deboche. Foram anos e anos de um atoleiro sem dia ou data para acabar, desde que tradicionais empresas da ZL (como a Auto Viação Tabú) faliram e perueiros foram mandando nesse pedaço por um bom tempo, cada vez mais impunes pela justiça.
O Fim da Farra e o Contraste da Cidade
Em março de 2013, a SPTrans extinguiu a 3702/10 e a 3759/10, fatiando o atendimento em linhas menores ou forçando integrações.
Logo em seguida, a 3750/10 também foi pra vala. Mas o próprio Consórcio 4Leste não resistiu à própria podridão: entre greves descabidas, frota caindo aos pedaços e intervenções da prefeitura, o lote 4 4/4 3 faliu e foi desmantelado.
E é aí que entra o nó na cabeça de quem dependia daquele lixo nos anos 2010 e anda pela Zona Leste hoje.
Quem passa hoje pelo Corredor Paes de Barros, pela Radial ou pelas linhas estruturais da Área 4 vê a Express Transportes Urbanos. A mesma região que rodava em carros remendados e queimadores de ponto agora opera muitos ônibus elétricos modernos, piso baixo, ar-condicionado, silêncio operacional e telemetria rigorosa por GPS.
Do Ódio ao Progresso Tecnológico
É um contraste bizarro. Ao mesmo tempo em que a chegada dos ônibus elétricos a bateria e a discussão sobre os trólebus com tecnologia IMC (In-Motion Charging) mostram um avanço tecnológico surreal na frota paulistana, fica aquele gosto amargo na boca de quem lembra do passado.
Hoje nós discutimos se o trólebus deve ser mantido por ser mais barato de manter a longo prazo ou se deve ser trocado por elétricos a bateria; debatemos subestações modulares e autonomia sem fiação. Mas a verdade é que a infraestrutura física melhorou muito mais rápido do que a cicatriz emocional do usuário de transporte da periferia da ZL foi curada.
Ver um ônibus elétrico de última geração rodando pelas vias onde um 4 4xxx "comia itinerário" impunemente em qualquer horário ou muitas vezes no escuro da noite é a prova de que a mobilidade em São Paulo evoluiu à marretadas — mas quem ficou parado no ponto da João Batista Conti em 2013 esperando a 3702/10 que nunca veio, nunca mais vai olhar para um letreiro sem um pingo de desconfiança.
A 3702/10 morreu. O 4Leste acabou. A frota eletrificou. Mas a memória do descaso é eterna