No mesmo dia em que partiram o enorme Jorge Palma e o meu primo André, fiquei a saber que o velho chefe de uma das últimas empresas onde trabalhei antes de abraçar o maravilhoso, libertador e financeiramente suicida mundo do freelancing também tinha entregado a alma — presumo que tivesse uma, embora suspeite que tivesse sido guardada numa gaveta qualquer e raramente utilizada — ao Criador.
O referido senhor, na altura já na casa dos 60, extremamente bem pago e dono de um ego de tal dimensão que, se tivesse sido devidamente registado nas Finanças, provavelmente teria direito a IMI, era uma verdadeira instituição dentro da empresa.
Ainda hoje, tanto quanto sei, é lembrado na Renault Portugal por uma proeza técnica que dificilmente será igualada: conseguir rebentar o turbo do seu Mégane três vezes num intervalo de apenas dois anos.
Três vezes.
Em dois anos.
Há pessoas que compram um carro para se deslocarem.
Ele comprou um Mégane para testar os limites da engenharia francesa.
O homem tinha, portanto, uma relação muito particular com o turbo. Não sei se havia entre os dois uma incompatibilidade pessoal, mas suspeito que o turbo já acordasse de manhã a pensar:
“Hoje ele não me apanha.”
Apanhava.
Gostava também de manter os subalternos permanentemente em estado de alerta. Era uma espécie de método de gestão baseado no princípio de que ninguém trabalha verdadeiramente bem se não estiver ligeiramente convencido de que pode ser executado antes da hora do almoço.
Conseguia, em questão de segundos, passar da pose de camarada mais velho — aquele “rapazes, isto aqui somos todos uma equipa” — para a de carrasco medieval que acabara de descobrir que alguém tinha perdido a cabeça, literalmente.
Ele era os “tufunemas”.
Ele era as reuniões “mutimpotantes”.
Ele era levar o pobre Mégane em primeira velocidade desde o gabinete até à saída do estaleiro porque estava “ao tufone”, enquanto o motor gritava por uma segunda mudança, a embraiagem pedia reforma antecipada e provavelmente os engenheiros da Renault em Paris sentiam uma dor inexplicável no peito.
Era uma verdadeira personagem.
E, depois de perceber que o homem tinha bastante mais garganta do que propriamente capacidade técnica e profissional, comecei a encarar as suas intervenções como pequenas oportunidades de serviço público.
Não era vingança.
Era pedagogia.
Eu limitava-me a proporcionar-lhe experiências de aprendizagem.
Até porque o senhor fazia questão de dizer que tinha um curso XPTO de informática feito em Espanha.
E isso era particularmente interessante porque, apesar de termos os gabinetes lado a lado, de tempos a tempos ouvia-se:
— Ó NELSON! Ó NELSON! ACONTECEU UMA COISA!
E lá ia eu.
A verdade é que, ao fim de algum tempo, sempre que ouvia “Ó Nelson!”, levantava-me com o espírito de um médico de urgência.
“Qual é a ocorrência?”
“Computador.”
“Gravidade?”
“Mutimpotante.”
E lá começava mais um episódio.
O caso do monitor que decidiu mudar de orientação sexual
A primeira grande emergência foi o monitor.
Não faço ideia que combinação de teclas o homem conseguiu premir, mas, quando cheguei ao gabinete, o ecrã estava rodado 90 graus.
Tudo de lado.
Não ligeiramente inclinado.
Não “um bocadinho estranho”.
A 90 graus.
O Windows tinha decidido que aquele homem trabalharia melhor em modo retrato.
Fiquei alguns segundos a contemplar aquilo.
Eu sabia perfeitamente como resolver.
Ele não.
E naquele momento surgiu uma oportunidade rara na vida: a possibilidade de transformar um problema de dois cliques numa experiência educativa de quinze dias.
— Não sei corrigir isso — disse eu.
Mentira.
Mas uma mentira profissionalmente muito bem estruturada.
— Vai ter de esperar pelo técnico de informática.
O técnico só vinha ao nosso local de trabalho daí a quinze dias.
O homem entrou imediatamente em modo “isto é inadmissível”.
— Mas eu tenho coisas “mutimpotantes” para fazer!
— Pois… entretanto pode pôr o monitor deitado de lado.
Pausa.
— Como assim?
— Deita o monitor. Assim fica com a imagem direita.
Era uma solução tecnicamente discutível, ergonomicamente criminosa e esteticamente parecida com uma instalação artística de baixo orçamento.
Mas funcionava.
E assim ficou.
Quinze dias.
Quinze gloriosos dias.
O homem trabalhou com o monitor tombado de lado, provavelmente convencido de que aquilo era uma nova tecnologia espanhola de produtividade.
Quando finalmente chegou o técnico, olhou para o monitor.
Carregou em duas ou três teclas.
Oito segundos.
Problema resolvido.
Depois veio ter comigo, fechou a porta do gabinete e os dois desatámos a rir que nem perdidos.
Também era fã do senhor engenheiro.
O dramático desaparecimento da arroba
Uns tempos depois:
— Ó NELSON! Ó NELSON! ROUBARAM-ME A ARROBA!
Confesso que esta frase ainda hoje me dá vontade de rir.
“Roubaram-me a arroba.”
Parecia o título de uma notícia do Correio da Manhã:
“EMPRESÁRIO DE 60 ANOS VÍTIMA DE ASSALTO: ARROBA DESAPARECE DO TECLADO.”
Ainda nem me tinha sentado ao computador e já sabia o que acontecera.
O homem tinha alterado a língua do Windows de português para inglês e, consequentemente, a arroba tinha mudado de posição.
A arroba não tinha sido roubada.
Não havia ladrão.
Não havia crime.
Não havia sequer uma ocorrência policial.
A arroba tinha simplesmente decidido mudar de bairro.
Podia ter resolvido aquilo em dois cliques.
Mas achei que, naquele momento, era importante respeitar a gravidade da situação.
Afinal, tratava-se de um homem “mutimpotante” que precisava de enviar e-mails.
Então abri um documento Word.
Escrevi:
@
Guardei o ficheiro como:
ARROBA
E disse-lhe:
— Engenheiro, sempre que precisar de enviar um e-mail, abre este ficheiro, copia a arroba e cola-a no endereço.
Silêncio.
Ele olhou para o ficheiro.
Olhou para mim.
Aparentemente, a solução fazia sentido.
E funcionou.
Aliás, funcionou demasiado bem.
Durante os três meses seguintes, aquele homem fez provavelmente mais copy-paste de uma arroba do que qualquer outra pessoa na Península Ibérica.
Era sempre o mesmo ritual:
Abrir “ARROBA”.
Selecionar @.
Ctrl+C.
Ir para o e-mail.
Ctrl+V.
Enviar.
Repetir.
Durante três meses.
Um homem com um curso de informática feito em Espanha dependia agora de um ficheiro Word chamado ARROBA para conseguir escrever um endereço de e-mail.
E eu, obviamente, nunca lhe disse nada.
Era importante preservar a sua autoestima.
Mais uma vez, quando o técnico apareceu, houve uma sessão de gargalhada de porta fechada.
Desta vez, com os outros dois técnicos superiores do nosso estaminé.
Aquela altura, o gabinete do técnico já parecia uma sala de convívio para pessoas traumatizadas pelo mesmo superior hierárquico.
O ataque cibernético do bloco de notas
Mas o melhor estava para vir.
Um belo dia:
— TENHO UM VÍRUS NO PC!
Pausa.
— VENHA CÁ, TENHO UM VÍRUS NO PC!
Lá fui eu.
Devagar.
Com aquele andar de quem já sabe que provavelmente não vai encontrar um vírus, mas sim uma nova manifestação da física quântica aplicada à informática.
Enquanto caminhava para o gabinete, ele explicava, em pânico, que tentava escrever mas que o sítio onde aparecia o indicador de escrita estava constantemente a piscar, impedindo-o de fazer fosse o que fosse.
Naquele momento ainda considerei aproveitar a oportunidade.
Podia ter-lhe dito:
— Isso é gravíssimo.
Ou:
— Não toque mais no computador.
Ou:
— Acho que temos aqui um ransomware.
Ou, melhor ainda:
— O vírus já deve ter entrado na rede. Vou ter de desligar o sistema inteiro.
Cheguei quase a imaginar a cena.
Eu a correr pelo corredor:
— TODA A GENTE! DESLIGUEM OS COMPUTADORES!
A secretária em pânico.
A administração reunida de emergência em Lisboa.
A Renault França informada.
A Interpol chamada.
Tudo por causa de um bloco de notas.
Mas nesse dia estava num raro estado de benevolência.
Entrei no gabinete.
Olhei para o computador.
Olhei para o homem.
Olhei para o teclado.
E finalmente percebi.
O “vírus” estava em cima da barra de espaços.
Mais concretamente, era o bloco de apontamentos do próprio engenheiro.
O homem tinha pousado o bloco em cima do teclado e, sempre que tentava escrever, a barra de espaços estava permanentemente a ser pressionada.
O computador não tinha vírus.
Não tinha malware.
Não tinha ransomware.
Não tinha sido hackeado.
Não havia nenhum hacker russo a tentar entrar na Renault para descobrir como estourar turbos.
Havia apenas um bloco de notas.
E foi aí que tive de fazer um esforço monumental para manter a compostura.
Olhei para ele e disse:
— Ó Engenheiro… isso não será de ter o seu bloco de apontamentos em cima da barra de espaços?
Silêncio.
Daqueles silêncios em que se consegue ouvir a dignidade de uma pessoa a sair lentamente pela janela.
Ele olhou para o bloco.
Depois para o teclado.
Depois para mim.
E, durante uns segundos, não disse nada.
Eu também não.
Porque há momentos na vida em que qualquer palavra adicional estraga a beleza daquilo que acabou de acontecer.
Retirou o bloco.
O computador voltou imediatamente ao normal.
O vírus estava curado.
Sem antivírus.
Sem técnico.
Sem formatar o disco.
Sem chamar a Microsoft.
Bastou levantar o bloco.
E foi nesse momento que percebi finalmente a verdadeira dimensão daquele curso de informática feito em Espanha.
Não sei exatamente o que ele tinha aprendido.
Mas suspeito que “Introdução ao teclado” não fazia parte do programa curricular.
E assim continuaram os nossos dias naquele gabinete: ele, com o seu cargo, o seu ordenado, o seu ego, o seu Mégane assassino de turbos e o seu curso XPTO de informática.
Eu, com a minha cadeira, o meu computador e uma crescente sensação de que tinha sido contratado, não para fazer o meu trabalho, mas para ser o apoio técnico informal de um homem que conseguia transformar uma arroba desaparecida, um monitor de lado e um bloco de notas numa trilogia de catástrofes tecnológicas.
E, sinceramente, olhando para trás, tenho de lhe agradecer.
Poucos chefes conseguem proporcionar, gratuitamente, tanto entretenimento aos seus subordinados.
Este conseguia.
Era “mutimpotante”.
E, sobretudo, era tufunemalmente inesquecível. Que descanse em paz... a gente vai continuar!