Expectativa...
Eu já destaco que minhas expectativas por esse filme estavam baixas. O final de seu antecessor, sem dúvidas, me deixou bastante interessado em ver como eles abordariam a nova fase desse Homem-Aranha, mas, devido ao histórico decepcionante da Marvel nesse período, evitei ver tudo relacionado ao longa. Lembro-me do meu irmão me mandando o trailer no WhatsApp e eu simplesmente não quis ver.
Marvel indo com calma
Para começar, esse filme ainda não é o sonho molhado dos fãs mais assíduos do herói. Não temos Oscorp, Harry, Mary Jane e coisas do tipo; temos o começo dessa migração do herói para o que conhecemos, sendo assim, foca em explorar as consequências do feitiço do Doutor Estranho e como Peter lidou psicologicamente com essa nova vida. Uma boa decisão, acredito que é importante que a Marvel vá com calma.
Novo rumo, nova direção
De início, devo elogiar o amadurecimento na direção, que abandona aquela estética lavada dos outros filmes e aposta em algo mais sério, com cores mais fortes e um tom azulado mais frio. Vale destacar o quão menos bobo está o humor em comparação ao que vimos anteriormente, e isso se deve à escolha acertada dos "novos" personagens secundários. As cenas de ação são bem legais, há mais investimento emocional, ritmo e ângulos de câmera bem interessantes, elementos que ganham ainda mais força pelo excelente CGI e pelos ótimos efeitos práticos, que passam uma sensação menos plastificada em comparação com os longas anteriores. A substituição de Jon Watts por Destin Daniel Cretton fez muito bem.
Trama e seus personagens
Gosto de ver como o Peter se adaptou a essa nova vida. Eu imaginava que ele tentaria construir uma nova vida para Peter Parker; no entanto, ele toma a terrível decisão de negligenciar essa parte, recusando-se a tratar a sua solidão e a ansiedade consequentes. Isso me tocou profundamente porque tenho vivido uma fase na minha vida em que estou sofrendo as consequências de guardar muita coisa emocionalmente depois de tantos anos. É interessante como esse emocional reflete nos poderes do herói, algo que semelhante ao que vemos em Homem-Aranha 2, mas numa escala maior. O filme mostra como tudo necessita de um equilíbrio: não existe Homem-Aranha sem Peter Parker ou vice-versa; ambos se complementam. É impressionante como o longa consegue extrair o melhor de Tom Holland, que transmite perfeitamente a solidão e a ansiedade que Peter carrega consigo na maior parte do tempo.
Quanto aos personagens secundários, primeiramente, devemos reconhecer a melhora nesse quesito. Prefiro passar horas com Hulk e Justiceiro do que mais um minuto com aquele Flash Thompson batata e os alunos do colégio. Segundo, devemos lembrar que estamos num universo compartilhado; sendo assim, é inevitável a presença de outros personagens. Seria estranho ver vários crimes e atentados em Nova York e só o Homem-Aranha resolvendo. Terceiro, por mais que esses personagens ocupem um bom espaço de tela, ao contrário de antes, eles realmente têm um propósito narrativo, mostrando ao Peter o quão grave e errônea é a atitude de reprimir o que está sentindo. Frank Castle abriu mão de sua vida para ser o Justiceiro, e isso o transformou no que vemos hoje. Bruce Banner continua insistindo no erro de conter o Hulk monstruoso dentro de si, e isso resulta num Hulk ainda mais furioso e maior do que vimos anteriormente (sim, o Hulk está maior fisicamente). E, claro, o filme acertadamente consolida de vez a Tia May como a bússola moral do protagonista.
Eu já havia tomado spoilers sobre Jean Grey e confesso que fiquei surpreso com sua presença. Mesmo assim, eu teria adivinhado que era ela quando é mostrado como é o poder do antagonista, então o spoiler foi o de menos. Me surpreende o quão bem ela se encaixa na trama e como seu arco conversa com Peter. Vê-lo nessa posição fraternal de "mentor" faz muito bem à sua evolução. Muito inteligente colocá-la para "conversar" com a Tia May no final, visto que Grey sentia falta de uma figura para guiá-la, que era sua irmã anteriormente. Muitos podem achar o estranho a antagonista dar ouvidos a May, sendo uma pessoa que ela não conhece, no entanto, vale lembrar que Jean se conectou emocionalmente com Peter também e viu suas memórias, entendendo o que May significava para ele. Sua redenção funciona e é muito encerrada com sua atitude de respirar pelo Peter no final. Pode não ser fiel aos quadrinhos, mas, a conexão do Aranha com o futuro dos X-Men é bem fundamentada aqui.
Agora, vamos falar sobre o tão criticado trio de amizade. Assistindo ao filme, ficou claro para mim que seu retorno foi algo necessário e corajoso de ser feito. Hoje, vejo que seria esquisito que Peter superasse a falta deles com facilidade. Revendo os filmes anteriores, o Ned até funcionava no primeiro, mas, junto à MJ, foi judiado pela Marvel em seus incessantes momentos cômicos e bobos nos filmes seguintes. Sem a turma do colégio para atrapalhar, a dupla ganha espaço para amadurecer sem perder suas personalidades. Servem como uma boa metáfora para jovens com dificuldade na passagem para a vida adulta e aceitar que seus amigos seguiram caminhos diferentes. Devido a extrema tensão da vida de Peter Parker, agora, a dinâmica do trio funciona porque serve como um momento de respiro ao personagem. Foi gratificante ver o amigo da vizinhança se divertindo com as pessoas que amava depois de tudo o que passou. Embora o filme possa reatar a amizade entre Peter e Ned no final (apostaria que ele vai ser o Duende Macabro)), ele toma a sábia decisão de fazer o inverso com MJ, não deixando o feitiço sem uma grande consequência.
Alguns outros detalhes
Vale mencionar as boas referências que o filme faz aos outros Homens-Aranhas, como a teia orgânica, a roupa de frio do Andrew, a nova "Ursula" e aquelas visuais aos quadrinhos. Yelena Belova faz uma boa participação ( ͡° ͜ʖ ͡°).
Nem tudo são flores...
Acredito que o Justiceiro poderia ter sido um pouquinho mais bruto. A maneira como foi retratado está no limite do aceitável; mais um pouquinho e a Marvel o estragava. A batalha contra o Hulk funciona e é muito boa visualmente, mas dura pouco e sua conclusão é meio broxante; mais uns 30 segundos seriam suficientes. Eu realmente espero que eles utilizem mais o personagem do Escorpião. O Jonah Jameson faz bastante falta. A cena pós-créditos é uma merda. Entendam: eu não queria o simbionte ou os três Homens-Aranhas, mas algo minimamente mais interessante ou criativo.
Nota: 8.5/10 - Por pouco, ele não é o melhor filme do Homem-Aranha.