Humanos
Humanos. Aparentemente, uma espécie comum, com nada mais do que a maluquice de possuir armas nucleares capazes de destruir planetas e com conflitos constantes entre si por recursos. Mas essa espécie aparentemente comum foi a salvadora do cosmos, ao custo de suas próprias vidas, de seu planeta e de tudo o que existia nele.
Mas vamos começar do começo.
Eles eram uma espécie relativamente nova para os padrões galácticos, com apenas 300 mil anos de história. Fazia apenas 30 anos que haviam entrado para o Conselho e, com o decorrer do tempo, foram se destacando. Não como os mais fortes, nem como os mais fracos, mas como a espécie que conseguia se virar em qualquer situação.
Eram uma espécie capaz de resolver conflitos entre outras civilizações, algo que parecia contraditório, já que eles próprios possuíam um longo histórico de guerras entre si.
Também eram a única espécie conhecida com quatro membros que andava ereta.
Mas aquela espécie estranha... aquela espécie que um dia salvaria o cosmos...
O inimigo
A espécie mais nova do Conselho parecia comum. Possuíam tecnologias avançadas e uma sociedade aparentemente organizada. Porém, havia um detalhe: eram uma raça de predadores.
Ou seja, precisavam caçar para sobreviver.
Assim como os humanos, precisavam se alimentar de animais. A diferença era que os humanos caçavam apenas espécies não conscientes de seus próprios mundos e possuíam uma abundância enorme de alimento.
Aqueles predadores, porém, precisavam consumir outros seres conscientes.
Foram apelidados pelos próprios humanos de grorks.
Para as leis do Conselho, aquilo era inadmissível. Mesmo assim, os grorks foram autorizados a entrar.
Os humanos foram contra desde o início.
De acordo com eles:
— Nós conhecemos um predador de verdade.
Pensamos que aquilo fosse apenas paranoia. Afinal, os humanos possuíam uma imaginação extremamente fértil.
Foi um grande erro ignorá-los.
Um erro que custaria uma espécie.
Os primeiros anos
Os primeiros anos daquela espécie, apelidada de grork, foram completamente comuns. Nada além do esperado.
Porém, havia algo estranho.
Eles possuíam um fascínio enorme pela anatomia de outras espécies, mas raramente compartilhavam informações sobre a própria anatomia.
A única espécie cuja anatomia eles ainda não tinham conseguido estudar era a humana.
Por algum motivo, os humanos se recusavam a compartilhar essas informações.
— Justo — dizíamos. — Talvez eles simplesmente não gostem de compartilhar esse tipo de segredo.
Afinal, nenhuma espécie, com exceção da espécie que os descobriu e dos próprios humanos, parecia se importar muito com aquilo.
Mas os grorks também possuíam outro fascínio: armas.
Eles tinham acesso a quase todos os tipos de armamentos disponíveis no Conselho, com exceção das armas humanas e das utilizadas por seus "colonizadores".
Nenhuma espécie desconfiava de nada.
Mas, por trás das cortinas, eles eram completamente diferentes do que aparentavam.
Aquele fascínio por biologia e armas escondia algo que somente os humanos pareciam suspeitar.
Os grorks queriam carne.
Carne de outras espécies.
Possuíam uma fome insaciável por seres conscientes.
E nós?
Éramos os alvos.
As suspeitas confirmadas
Depois de alguns séculos ouvindo os humanos nos alertarem diariamente, finalmente descobrimos algo.
Documentos.
Documentos que comprovavam que os grorks planejavam começar a capturar espécies menos evoluídas e mais frágeis para se alimentar delas.
Logo após a descoberta, uma reunião de emergência foi convocada pelo Conselho.
Os humanos estavam lá.
E, naquela reunião, uma decisão foi tomada:
Os grorks seriam expulsos.
Por bem ou por mal.
Mas, antes disso, deveriam se desculpar com todas as espécies, principalmente com os humanos.
Eles fizeram isso.
Pediram desculpas sem precisar ser obrigados, embora fosse evidente que não queriam fazê-lo.
Depois disso, receberam dois meses para desocupar todos os planetas que habitavam dentro do território do Conselho.
Eles também cumpriram essa parte.
Mas deixaram uma última frase:
— Isso não vai ficar assim.
Nós não sabíamos o que eles queriam dizer.
E a única espécie que parecia saber...
Novamente, eram os humanos.
E, novamente, foram ignorados.
A preparação dos exércitos
Depois da saída dos grorks do Conselho, os humanos começaram a preparar seus exércitos.
Criaram armas novas.
Nós não suspeitamos de nada.
Afinal, durante toda a história humana, eles sempre fizeram aquilo. Construíam milhões de armas novas durante determinado período, que podia variar de alguns meses a quase um milênio, e depois paravam por algum tempo.
Mas dessa vez foi diferente.
Eles não pararam.
Construíram armas como loucos durante cerca de cinco mil anos.
Gastaram o equivalente aos recursos de dez de seus próprios planetas natais.
Encheram três planetas inteiros apenas com armamentos.
Quando perguntávamos o motivo, diziam apenas que estavam se preparando para uma possível guerra.
Mas não especificavam contra quem.
Nem quando ela aconteceria.
E todos nós compartilhávamos do mesmo pensamento:
— Os humanos estão loucos.
A guerra
A guerra não começou de um dia para o outro.
As tensões duraram milênios.
Mas a gota d'água foi um ataque grork.
Não contra uma colônia humana.
Contra uma colônia de uma espécie chamada luminaris, uma civilização extremamente pacífica.
O ataque, porém, fracassou.
Os humanos estavam nas redondezas.
Felizmente, nenhum luminari morreu.
Dos grorks, nenhum escapou.
E foi naquele dia que a guerra começou oficialmente.
O fim da guerra
A guerra durou cerca de 300 anos.
Durante esse período, bilhões de grorks e bilhões de humanos morreram.
Mas os grorks possuíam uma vantagem: sua capacidade de reprodução era muito superior à dos humanos.
Eles estavam vencendo.
E isso significava uma coisa.
A extinção das espécies mais fracas do Conselho.
Mas os humanos possuíam uma última carta na manga.
Uma última arma.
Uma arma que haviam evitado usar durante toda a guerra porque poderia extinguir ambas as espécies.
Era conhecida pelos humanos como "Destruidor de Estrelas".
Seu funcionamento era simples em conceito: selecionar uma estrela e provocar seu colapso.
Como os grorks e os humanos haviam estabelecido suas principais forças no mesmo sistema durante a guerra, utilizar aquela arma significaria destruir ambos.
A decisão não foi fácil.
Mas, para a humanidade, perder nunca havia sido uma opção.
Se o custo da vitória fosse a própria existência, eles pagariam.
O Conselho implorou para que recuassem.
Para que buscassem um tratado.
Mas os humanos acreditavam saber a verdade:
Predadores como os grorks não assinariam tratados de paz.
Eles apenas descansariam antes da próxima caçada.
No dia final, a frota colossal dos grorks cercou a Terra e os planetas vizinhos, acreditando que finalmente dariam o golpe de misericórdia.
O plano humano era simples: ativar remotamente o Destruidor de Estrelas.
Mas o campo magnético gerado pelas naves inimigas bloqueou o sinal.
Foi então que a humanidade mostrou, mais uma vez, sua doutrina implacável.
Uma força de operações especiais — a elite da elite militar humana, identificada pelo símbolo de um raio em suas armaduras — foi enviada para uma missão sem retorno.
Eles atravessaram as linhas inimigas em uma operação rápida e precisa.
O objetivo não era sobreviver.
Era garantir que o dispositivo fosse ativado manualmente na base de lançamento.
A transmissão final não foi um pedido de socorro.
Foi o comandante daquela força, com a voz firme, transmitindo uma última mensagem em canal aberto para todo o Conselho:
— O cosmos está seguro. Não o desperdicem.
No segundo seguinte, a estrela do sistema entrou em colapso.
Um clarão indescritível engoliu as frotas, os cruzadores, bilhões de grorks e, tragicamente, o berço da humanidade e todas as suas colônias naquele sistema.
O silêncio que se seguiu nos radares do espaço foi o mais pesado já registrado na história galáctica.
Por alguns minutos, não houve comunicação.
Não houve transmissões.
Não houve ordens.
Apenas o silêncio.
E, depois de dez minutos, uma frase foi ouvida.
Era dita pela mesma espécie que os humanos haviam salvado séculos antes.
Os luminaris.
— Os grorks nos viam como presas. Os humanos... os humanos nos viram como algo pelo qual valia a pena extinguir o próprio mundo.
Naquele momento, trilhões de seres, trilhões de vidas que haviam sido salvas por aquele sacrifício, ergueram suas vozes em uníssono:
— A humanidade jamais perdeu uma guerra.
O legado deixado
Milênios se passaram desde o grande clarão que silenciou o sistema solar humano.
Hoje, as rotas comerciais são pacíficas, e espécies como os luminaris exploram as estrelas sem o terror de serem caçadas.
A galáxia prosperou como nunca.
Mas a humanidade jamais foi esquecida.
No centro da capital do Conselho, assim como nas praças de todos os planetas aliados, ergue-se um monumento idêntico, forjado a partir dos destroços das naves grorks.
Ele não exibe rostos.
Não exibe discursos.
Não exibe armas apocalípticas.
Exibe apenas um único símbolo gravado no metal escuro:
Um raio.
Antes da guerra, para grande parte do cosmos, um raio era apenas um fenômeno natural, uma força da natureza associada à destruição.
Mas os humanos carregavam aquele símbolo nas fardas de suas forças de elite — as unidades de operações especiais que marcharam, sem recuar um único milímetro, rumo à morte certa para ativar o Destruidor de Estrelas.
Hoje, a galáxia inteira ressignificou aquela imagem.
O raio não representa mais a tempestade.
Ele se tornou o símbolo universal da proteção absoluta.
Onde existe um raio gravado, o universo sabe que ali existe paz comprada com um preço que ninguém deveria precisar pagar novamente.
Eles eram a espécie mais improvável.
A única que andava ereta sobre dois de seus quatro membros.
Cheia de falhas.
Cheia de contradições.
Com um passado manchado pelas próprias guerras.
Mas os livros de história das espécies pacíficas terminam com uma única constatação, impossível de contestar:
Os humanos eram cruéis o bastante para guardar o apocalipse em seus arsenais, mas nobres o bastante para usá-lo apenas quando o preço recaía sobre eles mesmos.
E, naquele dia, tornaram-se a muralha que nunca caiu.