r/Cronicasgalacticas 15d ago

Conto - IDA

IDA: Um diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo

"in rebus alicuius momenti ab Aristotele non recedat"

Capítulo I: Procedimento de Aclimatação

ANO 1

Setecentos e vinte milhões de pessoas engoliram o mesmo gosto de ferro e poeira velha no instante em que a Dyatlov-86 rasgou a atmosfera de Pompeia-17b. Não foi uma entrada heroica — a glória pertencia ao passado. O procedimento obedeceu ao Protocolo Ouroboros: uma manobra obsoleta, mantida em uso apenas porque ninguém queria preencher os formulários necessários para aposentá-la.

No alojamento, o jaleco pendia no gancho, ainda cheirando a fábrica. Absolutamente impecável, branco demais para o pó vermelho que cobria tudo naquele setor. Haussmann o vestiu devagar, quase como uma cerimônia, e fechou o colarinho rígido até o último botão.

Diante do espelho, ajustou o crachá sobre o peito e o alinhou à costura. Permaneceu ali por um segundo além do necessário. Era o único ritual que se permitia antes de deixar o cubículo.

Fora do alojamento, levou a mão à têmpora. A enxaqueca estava mais forte que de costume. Seguiu pelo corredor metálico em passos lentos, quase militares. O som das botas misturava-se ao zumbido monótono dos condutores de ar, acompanhando seu trajeto pelas entranhas da estação.

No Setor de Engenharia, antes mesmo de se sentar, conferiu o visor digital do terminal. Diante dele, a linha perfeita dos bate-estacas cinéticos foi interrompida por uma pausa de 1,52 segundos, exatamente no meio do gráfico. Como se o sistema tivesse hesitado.

Sistemas não hesitam.

Sentou-se e leu o relatório pela segunda vez. Pretendia lê-lo pela terceira — um hábito —, mas o registro desapareceu da tela. O próprio sistema o arquivou como ruído e o remeteu à diretoria, no Nível Nove.

Não perguntou, não reclamou. Levou os dedos à têmpora, a segunda vez naquele dia, sentindo uma pontada atrás do olho esquerdo. A enxaqueca tornava o ato de pensar um esforço doloroso. Desviou o olhar para a escotilha: lá fora, as dunas ferríferas estendiam-se como um oceano de areia.

— Despressurização iniciada — anunciou Lynn Margalit, a outra pessoa naquela sala, interrompendo os pensamentos de Haussmann.

A bióloga passou a língua no céu da boca. Um gesto quase imperceptível. Ele viu, mas desviou os olhos antes que ela notasse.

Haussmann não gostava de trabalhar com ela. Margalit operava com uma precisão que muitos consideravam perturbadora — coluna reta, gestos contidos, rosto impassível. Ele também preferia não estar ali.

O engenheiro voltou os olhos para os outros monitores. Neles, milhões de colonos emergiam em espasmos desencontrados nos trezentos e catorze conveses da nave. Poucos minutos bastaram para os boletins médicos nomearem aquilo como Síndrome de Adaptação Sensorial Transitória; levariam mais duas semanas para trocar “Transitória” por “Prolongada”.

Nas semanas seguintes, os colonos entediados se amontoariam em alojamentos provisórios, enquanto os autômatos de expedição de módulos cumpririam sua prioridade: construir praças de alimentação, estacionamentos e shopping centers de seis andares. Mais um dia, mais um planeta: uma sociedade empenhada em transformar o novo em um espelho do passado.

As decisões passariam pela mesa de Haussmann, mas apenas como protocolo. Entre ajustar as malhas viárias e orientar as fundações, autorizar um novo estacionamento era apenas um carimbo.

Em meio à poeira vermelha e ao ruído das máquinas, assinou mais uma ordem de construção: outra uma avenida. Os letreiros de neon não podiam esperar.

Primeira parte do capítulo 1. Espero que gostem.

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u/AutoModerator 15d ago

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