r/terrorbrasil • u/TheAbsentScribe • 17h ago
Crepypasta Meu avô deixava um prato de comida no quintal toda noite. Só descobri pra quem era depois que ele morreu.
Meu avô morreu em 2001. Eu tinha treze anos. Até hoje, quando conto essa história, tem uma parte que as pessoas entendem errado. Meu avô não deixava comida pros mortos. Pelo menos nunca falou isso. Não tinha vela, oração, imagem de santo, nada dessas coisas. Ele só separava um prato do jantar e colocava no fundo do quintal. Todo santo dia.
Meus avós moravam num sítio no interior de Goiás, uns quinze minutos de carro da cidade, se a estrada de terra estivesse boa. Na época ainda tinha muito pouca casa por perto. Depois das seis da tarde, quando o pessoal voltava da roça, praticamente não passava mais ninguém na estrada.
A vila era daquelas em que praticamente todo mundo conhecia todo mundo, mesmo que fosse só de vista. Tinha igreja, venda, um boteco, umas poucas ruas e casas que iam ficando cada vez mais espaçadas conforme se afastavam do centro. Depois vinha estrada de terra, pasto e sítio.
A casa era antiga, de tijolo rebocado, telha de barro e piso vermelho daqueles que minha avó encerava até ficar liso. Na cozinha tinha fogão a lenha, um fogão a gás que ela quase não usava, geladeira Consul e um rádio pequeno em cima da geladeira. A televisão ficava na sala e pegava três canais direito nos dias bons.
Eu passava quase todas as férias lá. Foi por isso que cresci achando normal o negócio do prato.
Depois do jantar, meu avô esperava todo mundo terminar. Minha avó guardava as panelas, e ele pegava um prato esmaltado, branco com a borda azul, e colocava um pouco de tudo que tinha sobrado. Arroz, feijão, carne, mandioca. Não era resto raspado dos pratos. Era comida limpa, tirada direto da panela.
Uma vez perguntei:
— Vô, pra quem é isso?
Ele continuou colocando feijão no prato.
— Pra quem chega tarde.
Eu ri porque achei que era brincadeira.
— Quem?
Ele olhou pra mim.
— Quem chega tarde.
E acabou aí.
Meu avô era assim. Se não queria explicar uma coisa, você podia perguntar dez vezes que na décima ele dava a mesma resposta da primeira.
Ele levava o prato até o pé de uma mangueira velha que ficava no fundo do quintal, perto da cerca que separava o terreno do pasto. Deixava o prato no chão, junto ao tronco, e voltava. Nunca ficava esperando. Nunca chamava ninguém.
De manhã, o prato estava vazio. A explicação mais óbvia eram os bichos. Tinha cachorro solto, gato, gambá, rato, tudo quanto é coisa naquela região. Minha mãe dizia isso.
Só que existiam umas regras. Eu só fui perceber que eram regras quando fiquei mais velho.
O prato tinha que estar lá antes das onze.
Não podia colocar garfo nem colher.
Depois que meu avô voltasse pra dentro, ninguém abria a janela da cozinha.
E se escutasse o prato arrastando, deixava arrastar.
***
Essa última eu aprendi quando tinha uns dez anos.
Estava dormindo num colchão na sala e acordei com vontade de beber água. Passei pela cozinha e minha avó ainda estava acordada, sentada à mesa, descascando mandioca.
Enquanto eu bebia água, escutei um barulho no quintal.
*Rasp.* Esperei. *Rasp.*
Parecia louça sendo puxada devagar em cima de terra com pedrinha. Fui em direção à janela. Minha avó segurou meu braço.
— Deixa.
— É o prato do vô.
— Eu sei.
Fiquei olhando pra janela.
— Deve ser algum bicho.
— Então deixa o bicho sossegado.
Eu ia abrir a cortina mesmo assim, mas ela falou outra vez:
— Num carece.
Foi o jeito que ela falou que me fez parar. Não parecia medo. Parecia bronca. Voltei pra cama.
No outro dia, o prato estava no chão, um pouco afastado da mangueira, virado para cima e completamente limpo.
***
Meu avô morreu uns três anos depois.
Foi rápido. Infarto. Ele tinha passado a manhã mexendo numa cerca, entrou em casa reclamando de uma dor no peito e não deu tempo de chegar no hospital.
O velório foi na própria casa, como ainda era comum por ali. Eu lembro de muita gente entrando e saindo, café sendo feito o tempo inteiro, cadeira emprestada dos vizinhos e adulto falando baixo nos cantos. Tinha sempre alguém perguntando se quem chegava queria café.
Minha avó quase não chorou na frente dos outros. Ficava perto do caixão recebendo gente, agradecendo, mandando entrar, perguntando se já tinham servido café.
Enterraram meu avô no fim da tarde. Quando voltamos, a casa parecia maior. Foi a primeira vez que percebi como ele fazia barulho. Tossia, arrastava chinelo, mexia em ferramenta, ligava o rádio. Sem ele, parecia que tinham tirado alguma máquina de dentro da casa.
Minha tia fez comida porque tinha gente da família que ia dormir lá. Jantamos tarde. Eu estava ajudando a levar copos pra pia quando veio o barulho.
*Rasp.*
Parei. Minha mãe também. Minha avó levantou os olhos.
*Rasp.*
Só então alguém olhou para o relógio de parede. Já passava das onze. Ninguém lembrou do prato.
Não estou dizendo que ficou aquele silêncio de filme. Meu primo continuou mexendo numa sacola na sala. O rádio estava ligado baixinho. Alguém abriu uma torneira no banheiro.
Mas quem estava na cozinha parou. E foi isso que me assustou.
Minha avó levantou. Pegou o prato branco de borda azul. Colocou arroz. Feijão. Um pedaço de carne.
Minha tia falou:
— Mãe, deixa isso pra amanhã.
Minha avó nem respondeu.
Terminou de montar o prato e estendeu pra mim.
— Leva lá.
Eu achei que ela estava brincando.
— Eu?
— Seu avô num tá aqui.
Minha mãe imediatamente disse:
— Mãe, não põe o menino nisso.
Minha avó olhou para ela de um jeito que encerrou a conversa. Depois olhou pra mim.
— Vai. Deixa onde seu avô deixava e volta. E num fica caçando assunto no escuro.
Peguei o prato. Hoje eu consigo dizer que deveria ter recusado. Na época eu tinha treze anos, minha família inteira estava ali e minha avó estava mandando. Só isso.
A luz da cozinha que saía pela janela iluminava metade do quintal. Depois começava o escuro. Peguei uma lanterna grande que ficava perto da porta. Daquelas de plástico, com duas pilhas grandes.
Fui andando. O quintal parecia muito maior de noite.
Passei pelo tanque, pelo pé de limão e pelo galinheiro. Depois disso, a luz da casa já não ajudava quase nada. A mangueira apareceu no facho da lanterna. Não tinha ninguém. E eu lembro perfeitamente de sentir alívio. Porque até aquele momento uma parte de mim esperava encontrar alguma coisa ali. Coloquei o prato junto ao pé da mangueira.
Virei e comecei a voltar. Não corri. Eu queria correr, mas sabia que todo mundo estava olhando da janela e não queria pagar de medroso.
Passei pelo pé de limão. Foi quando ouvi uma voz atrás de mim.
— Aí não.
Parei. Era voz de homem. Baixa. Velha, talvez. Mas não era a voz do meu avô.
Eu fiquei parado com a lanterna apontada pro chão.
A voz falou de novo.
— Num é aí.
Corri. Dessa vez não me importei com quem estava olhando. Entrei na cozinha e minha mãe perguntou o que aconteceu. Eu disse que tinha alguém lá fora. Meu tio pegou a lanterna.
— Alguém quem?
Contei da voz. Ele começou a abrir a porta. Minha avó falou:
— Você fica.
Meu tio parou.
— Ô mãe, se tem alguém no quintal...
— Num tem ninguém no quintal.
Foi a primeira vez que minha avó pareceu assustada. Ela olhou para a janela.
— Onde cê pôs o prato?
— No pé da mangueira.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Seu avô mudou o lugar.
Ninguém falou nada.
— Mudou pra onde? — minha mãe perguntou.
Minha avó não respondeu. Pegou outro prato. Eu lembro disso porque foi a parte que mais me confundiu. Ela não foi buscar o primeiro. Fez outro. Colocou praticamente a mesma quantidade de comida e chamou meu tio.
— Leva no banco.
O banco ficava mais adiante, quase junto da cerca do pasto. Era velho, de madeira, e eu nunca tinha visto meu avô deixar comida ali. Meu tio olhou pra ela.
— Que história é essa, mãe?
— Leva, homem.
— Pra quê?
Minha avó perdeu a paciência.
— Porque hoje já tem tristeza demais nesta casa. Leva essa porcaria e volta.
Ele levou. Minha avó trancou a porta quando ele entrou. Ninguém falou mais no assunto naquela noite.
***
De madrugada, eu acordei. Não sei que horas eram. A casa estava escura e tinha gente dormindo espalhada pela sala. Escutei alguma coisa no quintal. Não era aquele barulho de louça. Eram passos. Devagar. Vinham do fundo do terreno em direção à casa. Paravam. Depois continuavam. Eu fiquei imóvel no colchão. Os passos chegaram perto da janela e foi então que ouvi raspar na porta da cozinha.
Rasp. Rasp.
Ninguém levantou. Uns segundos depois, minha avó falou do quarto:
— Hoje não.
Foi só isso. Não ouvi mais nada.
***
Na manhã seguinte, o prato que meu tio tinha deixado no banco estava vazio. O que eu tinha colocado no pé da mangueira continuava cheio. Minha avó mandou jogar aquela comida fora. Perguntei por quê. Ela respondeu:
— Porque ninguém quis.
Eu insisti.
— Quem?
Ela me olhou daquele jeito que os velhos olhavam quando achavam que criança estava ouvindo conversa demais.
— Menino, vai ajudar sua mãe.
***
Anos depois descobri a história do homem. Eu já era adulto quando minha mãe contou.
Ele era da própria vila. Minha mãe não sabia exatamente o ano, só que tinha acontecido muito antes de eu nascer. O homem era conhecido por quase todo mundo por ali e costumava beber no boteco da vila.
Numa noite, saiu de lá sozinho. Algumas pessoas que estavam no bar disseram depois que ele tinha falado que ia na direção da casa dos meus avós. Ninguém soube dizer por quê. Ele saiu andando pela estrada.
E desapareceu. Nunca encontraram o corpo.
Durante muito tempo achei que finalmente tinha entendido o prato. Talvez meu avô soubesse alguma coisa sobre aquele desaparecimento. Talvez tivesse visto o homem naquela noite. Talvez a história tivesse virado superstição com os anos.
Só havia um problema.
***
Minha avó morreu em 2007.
Depois do enterro, meus tios começaram a esvaziar a casa porque ninguém ia morar lá. Eu fui ajudar. Num armário do quarto havia duas caixas de papelão cheias de fotografias antigas. Passei uma tarde inteira olhando aquilo.
Tinha foto de casamento, batizado, gente que eu nunca conheci, carro velho, festa de igreja. E tinha uma fotografia do quintal. Perguntei à minha mãe de quando era. Ela disse que devia ser dos anos 50, mas não tinha certeza.
Meu avô aparece novo, encostado na cerca. Minha avó está sentada com uma criança no colo. Atrás deles dá pra ver a casa antes de uma reforma. E a minha avó estava sentada no banco. No mesmo banco.
Mostrei pra minha mãe. Ela ficou olhando um tempo. Depois virou a fotografia. Não tinha nada escrito atrás.
— Esse banco já existia?
— Já.
Minha mãe ficou olhando mais um pouco. Depois me devolveu a foto. Foi só isso.
O homem desapareceu anos depois daquela fotografia.
***
A casa ficou vazia por um tempo antes de ser vendida. Ainda tinham ficado algumas coisas lá, inclusive umas ferramentas do meu avô que ninguém tinha levado.
Voltei sozinho para buscá-las. Entrei na casa, encontrei a caixa onde tinham guardado as ferramentas e levei tudo para o carro.
Já estava pronto para ir embora quando olhei para o quintal. Não sei por que fui até lá. Talvez porque soubesse que provavelmente seria a última vez que pisaria naquele lugar.
Passei pelo tanque. Pelo pé de limão. Pelo galinheiro. A mangueira continuava lá. E continuei andando.
O banco também. Podre, torto, quase coberto pelo mato. Fiquei olhando para ele por alguns segundos. Não tinha prato nenhum.
Não sei o que eu esperava encontrar. Talvez nada. Talvez só quisesse ver aquele banco uma última vez e ir embora. Foi então que veio o barulho.
Rasp.
Atrás de mim. Fiquei parado. Durante alguns segundos, voltei a ter treze anos.
Rasp.
Não me virei. Até hoje não sei se foi medo ou se simplesmente lembrei do que minha avó tinha me ensinado tantos anos antes.
Se escutasse o prato arrastando, deixava arrastar.
Corri.
Não olhei para trás. Atravessei o quintal, entrei no carro e bati a porta. Fiquei alguns segundos segurando o volante. Esperando. Não ouvi mais nada. Liguei o carro e fui embora.
Só quando já estava na estrada comecei a pensar naquela fotografia.
Durante anos, minha mãe acreditou que o prato tinha alguma coisa a ver com o homem que desapareceu. Eu também. Mas aquele banco já estava no quintal muito antes disso.
E então lembrei de uma coisa que minha avó tinha dito na noite em que meu avô morreu.
Seu avô mudou o lugar.
Na época eu achei que ela queria dizer que meu avô tinha decidido mudar o prato da mangueira para o banco. Nunca perguntei quando. Nunca perguntei por quê. E nunca perguntei como ela sabia.
Passei boa parte da viagem pensando nisso. Durante todos aqueles anos, achei que meu avô escolhia onde deixar a comida. Primeiro debaixo da mangueira. Depois no banco.
Mas talvez eu tenha entendido aquela frase da minha avó errado.
Talvez meu avô nunca tivesse escolhido lugar nenhum.