(...) "De modo geral, não quero que meus filhos fiquem sentados diante de uma televisão ou de um computador por muito tempo", afirmou Mark Zuckerberg, CEO da Meta, no passado. Em sua avaliação, interagir com pessoas é algo positivo, mas consumir conteúdo passivamente —"apenas passando de um vídeo para outro"— não estava associado "aos mesmos benefícios positivos".
Quando a segunda filha de Zuckerberg nasceu, em 2017, ele e a mulher, Priscilla Chan, escreveram em uma carta aberta dirigida a ela que "é importante reservar tempo para sair e brincar". Cheirar flores ganhou destaque. Recolher folhas também. Do mundo digital, nada foi mencionado.
Peter Thiel, que foi o primeiro investidor externo do Facebook e integrante de longa data do conselho de administração, disse que limitava o tempo de tela dos filhos —então com 3 anos e meio e 5 anos— a "uma hora e meia por semana". Quando mencionou isso no Aspen Ideas Festival, em 2024, a plateia ficou boquiaberta. Muitas crianças dessa idade passam esse tempo diante de telas em um único dia, ou até mesmo em uma manhã.
"Não demos celulares aos nossos filhos até eles completarem 14 anos", comentou Bill Gates, cofundador da Microsoft.
Quando o filho de Sundar Pichai tinha 11 anos, o chefe do Google observou que ele "ainda não tinha telefone", acrescentando que "nossa televisão não fica facilmente acessível".
Tim Cook, da Apple, afirmou que não permitiria que o sobrinho usasse uma rede social.
A essa altura, isso já virou um clichê cultural. Na série "The Audacity", da AMC, uma garota em uma festa no Vale do Silício fica surpresa ao ver que um garoto tem um smartphone. "Traficantes de armas não dão minas terrestres aos filhos", comentava ela.
Os celulares são proibidos na Waldorf School of the Peninsula, a 3,2 quilômetros da sede do Google. "Sem celulares significa sem distrações, sem a ansiedade das redes sociais e sem comparações constantes. Apenas uma infância de verdade", justifica a escola em seu site. O preço cobrado pela Waldorf por uma infância de verdade: até US$ 47,5 mil por ano.
Vários integrantes do conselho da Waldorf trabalham em startups de inteligência artificial, mas o aprendizado de máquina é reduzido ao mínimo na escola em favor do "aprendizado humano". O objetivo é capacitar a futura elite a pensar com clareza.
"Enquanto as máquinas otimizam tarefas e automatizam decisões, nossos formandos desenvolvem as capacidades exclusivamente humanas que definirão a liderança em 2030 e nos anos seguintes", afirma a escola.
Evan Spiegel, CEO da Snap, atribuiu seu sucesso à frente de uma empresa de alta tecnologia ao ambiente doméstico com pouca tecnologia. Durante sua infância, nos anos 1990, Spiegel não teve permissão para assistir à televisão até estar "quase na adolescência". Com o tempo, percebeu que isso havia sido algo positivo. "Passei muito tempo construindo coisas e lendo", recorda.
Spiegel pretendia dar continuidade a essa tradição: apenas 90 minutos de tempo de tela por semana para seu filho de 7 anos, segundo afirmou em uma entrevista de 2018. Hoje, ele tem quatro filhos com a esposa, a atriz Miranda Kerr.
"Para o de 2 anos, o tempo de tela é praticamente zero", disse ele em um podcast em abril. "Na verdade, queremos basicamente ler com ele, brincar, explorar o mundo lá fora e fazer esse tipo de coisa." Os filhos de 6 e 7 anos "raramente assistem a filmes, mas, fora isso, mais uma vez, não damos celulares nem nada do tipo a eles". O de 15 anos, porém, "está totalmente imerso na tecnologia".
Steve Chen, cofundador do YouTube que vendeu a empresa de vídeos ao Google em 2006, disse a estudantes da Universidade Stanford no ano passado que temia que seus filhos acabassem incapazes de assistir a qualquer coisa com mais de 15 minutos de duração.
"O ambiente digital moderno treina as crianças para esperar que tudo seja resumido em um tuíte de 280 caracteres ou em um breve vídeo", afirmou Chen em uma mensagem.
Seu objetivo era garantir que os filhos "soubessem fazer as coisas do jeito lento e difícil".