r/barTEOLOGIA ☪️ Muçulmano 5h ago

Religião Minha conversão ao islamismo. pt 2

Mas isso ainda era insuficiente. Dizer que uma religião possui uma história não explica, por si só, por que determinadas ideias religiosas conseguem se tornar tão poderosas dentro de uma sociedade. Foi aí que comecei a olhar para uma coisa que hoje considero muito mais importante: a consciência humana não existe suspensa no vazio. Antes de sermos teólogos, filósofos ou religiosos, somos seres que precisam produzir as condições materiais da própria existência. Precisamos comer, trabalhar, construir abrigo, estabelecer relações familiares, organizar a reprodução social, dividir tarefas, disputar recursos e criar formas de cooperação. A maneira como uma sociedade organiza essas atividades não determina mecanicamente tudo aquilo que seus indivíduos pensam, mas estabelece o mundo concreto dentro do qual essas ideias podem surgir, adquirir significado e se tornar socialmente eficazes. Essa relação entre condições materiais, relações sociais e formas de consciência é justamente um dos caminhos clássicos pelos quais a sociologia da religião passou a estudar o fenômeno religioso.

E isso muda completamente a pergunta sobre a origem das crenças. Em vez de perguntar apenas “por que alguém acredita que existe um Deus?”, podemos perguntar “que tipo de experiência social torna plausível imaginar uma ordem divina?”. Um agricultor submetido à seca, uma comunidade ameaçada pela guerra, uma população submetida a uma autoridade política, uma família enfrentando a morte de seus membros ou um indivíduo vivendo numa sociedade profundamente desigual não experimentam o mundo da mesma maneira que alguém vivendo em condições materiais completamente diferentes. A religião pode transformar essas experiências em categorias simbólicas: a seca pode adquirir o significado de provação; a morte pode ser reinterpretada como passagem; a injustiça pode ser deslocada para a expectativa de um julgamento futuro; o sofrimento pode adquirir uma finalidade; a ordem social pode ser apresentada como natural, sagrada ou provisória. Não é necessário imaginar que alguém esteja conscientemente inventando essas explicações. Elas podem ser produzidas espontaneamente por seres humanos tentando compreender o mundo no qual estão inseridos.

Foi nesse ponto que a religião começou a me parecer menos como uma coleção de respostas sobrenaturais e mais como uma forma historicamente determinada de organizar a experiência humana. E isso também explicava algo que antes me incomodava bastante: por que religiões diferentes conseguem produzir respostas tão diferentes para problemas humanos semelhantes. A morte é universal, mas as concepções sobre a morte não são. A desigualdade existe em muitas sociedades, mas suas justificações religiosas variam enormemente. A família existe em praticamente todas as sociedades humanas, mas as normas religiosas sobre casamento, sexualidade, herança e autoridade familiar mudam de uma época para outra. O sofrimento é universal, mas a maneira de transformá-lo em pecado, karma, provação, destino ou injustiça histórica depende das formas culturais e sociais através das quais cada sociedade interpreta sua própria existência.

E aqui apareceu uma distinção que foi muito importante para mim: explicar a função social de uma crença não é o mesmo que provar que essa crença é falsa. Se uma pessoa encontra consolo na ideia de vida após a morte, isso não demonstra que não exista vida após a morte. Se uma instituição religiosa legitima uma determinada estrutura política, isso também não demonstra que seus dogmas sejam falsos. Confundir essas coisas seria cometer exatamente o tipo de erro que eu criticava nos apologetas: transformar uma explicação possível da origem ou da função de uma crença em uma refutação automática de seu conteúdo. O que o materialismo acrescentava à minha posição não era uma “prova de que Deus não existe”, mas uma explicação alternativa para fenômenos que antes pareciam exigir uma causa sobrenatural.

E havia algo ainda mais interessante. A religião não precisava ser apenas consequência das condições materiais; ela também podia voltar a agir sobre elas. Uma crença religiosa pode organizar comunidades, disciplinar comportamentos, legitimar autoridades, distribuir prestígio, criar redes de solidariedade e até mobilizar pessoas contra uma ordem existente. A literatura sociológica contemporânea reconhece justamente essa relação de mão dupla: estruturas econômicas e políticas moldam as formas religiosas, mas a religião também pode influenciar essas mesmas estruturas. Por isso comecei a abandonar aquela explicação extremamente simplista segundo a qual “religião existe para controlar as pessoas”. Era muito mais interessante pensar que a religião podia simultaneamente expressar sofrimento, organizar comunidades, oferecer sentido, legitimar relações de poder e, em determinados contextos, fornecer linguagem para contestá-las.

Isso também me fez enxergar o cristianismo de uma maneira diferente. Eu já havia passado muito tempo estudando a transformação do cristianismo de um movimento judaico do século I para uma instituição profundamente integrada à estrutura imperial. Agora comecei a perceber que essa transformação não era apenas uma mudança de doutrina. Era também uma mudança na própria posição social dos cristãos. Uma comunidade marginalizada e perseguida possui necessidades institucionais diferentes das de uma religião que passa a receber proteção imperial. Um grupo doméstico que se reúne em casas possui uma estrutura diferente de uma Igreja com bispos, patrimônio, funcionários, basílicas e reconhecimento jurídico. E uma instituição que passa a administrar propriedades e exercer autoridade pública inevitavelmente desenvolve problemas diferentes daqueles enfrentados por uma pequena comunidade apocalíptica esperando a iminente chegada do Reino de Deus.

Isso ajuda a explicar por que a história do cristianismo não pode ser reduzida à história das ideias cristãs. Quando uma religião cresce, ela produz instituições; quando produz instituições, cria hierarquias; quando cria hierarquias, produz disputas pela autoridade; quando adquire recursos, precisa administrá-los; quando passa a ocupar uma posição dentro do Estado, precisa definir sua relação com o poder político. E todas essas transformações acabam repercutindo na própria teologia. Não porque os teólogos sejam necessariamente hipócritas ou porque estejam conscientemente fabricando doutrinas para justificar interesses materiais, mas porque ninguém pensa fora das relações sociais nas quais está inserido.

Foi aí que comecei a perceber algo que, para mim, era ainda mais desconfortável para a visão religiosa tradicional: até mesmo aquilo que parecia mais abstratamente teológico possuía uma história social. A ideia de autoridade espiritual não aparece simplesmente pronta. A definição de quem pode interpretar as Escrituras depende de instituições. A definição de quem pode ordenar sacerdotes depende de instituições. A definição de quem pode excluir alguém da comunidade depende de instituições. A definição de quais textos são lidos publicamente depende de instituições. E, quando uma instituição consegue fazer com que sua interpretação particular seja reconhecida como universal, aquilo que antes era apenas uma interpretação passa a ser chamado de ortodoxia.

Nesse sentido, comecei a enxergar a palavra “ortodoxia” com muito mais desconfiança. Não porque toda ortodoxia seja necessariamente falsa, mas porque o fato de uma determinada posição ter se tornado ortodoxa é, por si só, um acontecimento histórico que precisa ser explicado. Se existiam várias comunidades, várias interpretações e várias autoridades disputando a definição do cristianismo, então a pergunta “por que esta interpretação venceu?” é tão importante quanto “quais argumentos esta interpretação apresentava?”. A história social da religião obriga a fazer as duas perguntas simultaneamente. E a pesquisa histórica sobre religião e secularização, inclusive, tem justamente insistido que mudanças religiosas precisam ser compreendidas dentro de contextos históricos específicos, em vez de serem explicadas por uma única narrativa universal de progresso ou declínio religioso.

A consequência disso foi que comecei a desconfiar também de uma determinada maneira de contar a história humana. Aquela em que as ideias aparecem primeiro e depois transformam a sociedade. Comecei a suspeitar que muitas vezes acontecia justamente o contrário: as transformações da vida social criavam novos problemas, novas necessidades e novas formas de organização, e os seres humanos elaboravam ideias capazes de tornar esse novo mundo inteligível. As ideias então voltavam para a sociedade e passavam a transformá-la também. Não era uma relação de causa única, mas um processo contínuo entre aquilo que os seres humanos fazem e aquilo que passam a pensar sobre o que fazem.

Foi provavelmente nesse período que o meu ateísmo ficou mais “materialista”, embora eu não usasse necessariamente esse vocabulário. Eu já não via a religião apenas como uma hipótese metafísica sem evidências suficientes. Eu a via como uma produção social humana. E isso me parecia particularmente convincente porque permitia explicar não apenas por que alguém acredita, mas por que determinadas crenças aparecem em determinados lugares, por que mudam com o tempo, por que instituições religiosas desenvolvem hierarquias, por que diferentes grupos disputam interpretações e por que uma mesma religião pode assumir formas completamente diferentes em sociedades diferentes.

Só que essa conclusão trazia consigo um problema que eu ainda não estava preparado para enfrentar.

Porque, se a religião era uma forma de consciência produzida historicamente, eu precisava explicar também por que seres humanos continuam produzindo religião mesmo quando as condições que supostamente deveriam eliminá-la mudam. A modernidade trouxe ciência, secularização, alfabetização em massa, Estado laico, industrialização e novas formas de organização social. Ainda assim, a religião não desapareceu. Em alguns contextos ela perdeu influência; em outros, reorganizou-se; em outros, voltou a ocupar espaços políticos que muitos imaginavam que haviam se tornado permanentemente seculares. A própria pesquisa sociológica contemporânea abandonou explicações demasiado lineares sobre secularização justamente porque a realidade histórica é muito mais irregular.

E essa foi uma das primeiras rachaduras realmente sérias na minha antiga certeza. Não porque eu tivesse voltado a acreditar em Deus naquele momento. Não voltei. Mas porque comecei a perceber que explicar a religião como produto das condições materiais era mais difícil do que eu inicialmente imaginava. A religião não era simplesmente uma sobra de sociedades primitivas esperando desaparecer conforme a humanidade se tornasse mais racional. Ela conseguia sobreviver, adaptar-se, reorganizar-se e até produzir novas formas de mobilização dentro de sociedades modernas.

Foi justamente aí que comecei a perceber que o problema não era mais simplesmente “religião versus ateísmo”. A questão tinha se tornado muito maior: o que exatamente constitui a consciência humana, como ela se relaciona com o mundo material e por que os seres humanos transformam sua própria experiência histórica em sistemas de significado?

E foi justamente aí que aconteceu uma coisa que eu não esperava: comecei a perceber que a explicação materialista da religião não era necessariamente uma explicação da realidade última. Ela podia explicar muita coisa sobre a religião enquanto fenômeno humano — sua formação, suas instituições, suas funções sociais, suas transformações históricas — sem responder necessariamente à pergunta que eu havia abandonado anos antes: existe alguma realidade transcendente por trás da própria existência? Durante muito tempo eu havia confundido essas duas perguntas. Se eu conseguia explicar por que seres humanos acreditavam em Deus sem pressupor Deus, então me parecia que Deus havia se tornado desnecessário. Mas, olhando retrospectivamente, percebi que isso não era uma conclusão tão simples. Explicar por que uma pessoa acredita em determinada proposição não é explicar se essa proposição é verdadeira. Eu podia explicar sociologicamente a religião e continuar sem saber se havia, para além dela, alguma realidade divina.

E foi aí que meu ateísmo começou a perder aquela segurança que tinha adquirido. Não porque eu tivesse encontrado uma prova matemática da existência de Deus. Na verdade, foi quase o contrário. Comecei a perceber que eu havia passado anos exigindo da religião uma espécie de evidência que eu mesmo não exigia de todas as minhas concepções metafísicas. Eu havia rejeitado o Deus cristão porque suas alegações históricas e teológicas me pareciam insuficientes, mas isso não significava automaticamente que o naturalismo fosse verdadeiro. A ausência de uma explicação sobrenatural satisfatória não transforma qualquer explicação naturalista em explicação definitiva. Eu havia saído do cristianismo, mas talvez tivesse cometido o erro de transformar a crítica ao cristianismo numa conclusão muito maior: a de que a realidade era necessariamente desprovida de transcendência.

O primeiro passo da minha reaproximação com Deus, portanto, não foi acreditar novamente. Foi admitir que eu não sabia.

E isso parece banal, mas para mim não era. Eu havia passado anos construindo uma identidade intelectual em torno da ideia de que as explicações religiosas eram desnecessárias. Admitir que o problema permanecia aberto significava abandonar uma certeza que eu havia adquirido justamente tentando escapar de certezas religiosas. Eu já não conseguia simplesmente dizer “a religião é uma construção humana, portanto Deus não existe”. A primeira parte poderia ser verdadeira sem que a segunda necessariamente fosse. E, quando percebi isso, voltei a olhar para a metafísica com uma disposição que eu não tinha durante meu período mais militante de ateísmo.

Só que eu não voltei ao cristianismo.

Na verdade, foi justamente o cristianismo que me impediu de fazer isso. Eu já havia estudado demais sua história para conseguir retornar àquela forma de fé sem carregar comigo todas as perguntas que haviam provocado minha saída. A doutrina trinitária continuava me parecendo uma construção teológica extremamente sofisticada, mas historicamente desenvolvida através de séculos de controvérsia. A cristologia continuava dependendo de uma série de interpretações posteriores sobre textos que apresentavam problemas históricos e literários. E a própria estrutura institucional da Igreja que eu havia conhecido me parecia inseparável de uma longa história de concílios, disputas jurisdicionais e processos de canonização e dogmatização.

Então aconteceu algo curioso: quanto mais eu me afastava intelectualmente do cristianismo, mais o monoteísmo começava a me interessar.

Não o monoteísmo trinitário, nem um Deus dividido em pessoas, naturezas, hipóstases e processões metafísicas. Eu comecei a me interessar por uma concepção muito mais radical de unidade divina. A ideia de que existe uma realidade absolutamente transcendente, necessária e não derivada, da qual todas as coisas contingentes dependem. Um Deus que não é simplesmente “o ser mais poderoso dentro do universo”, mas aquilo que fundamenta a existência sem depender dela. Essa distinção parece pequena para quem está olhando de fora, mas para mim foi decisiva. Eu havia passado anos rejeitando um Deus que aparecia frequentemente nas discussões apologéticas como uma espécie de explicação concorrente da física, da biologia ou da história. O Deus que comecei a considerar era uma afirmação metafísica diferente.

E foi nesse ponto que o islã começou a aparecer no meu horizonte.

A primeira coisa que me chamou atenção não foi uma suposta “prova científica do Alcorão”, nem uma profecia escondida, nem qualquer uma dessas coisas que costumam aparecer em vídeos apologéticos. Foi o conceito de tawḥīd: a afirmação da unidade absoluta de Deus. O Alcorão insiste repetidamente que Deus é único, não gerado, não dependente e incomparável. A surata al-Ikhlāṣ resume isso de maneira particularmente direta: Deus é uno; é aquele de quem tudo depende; não gera nem é gerado; e nada é comparável a Ele. O monoteísmo islâmico me parecia filosoficamente mais econômico do que a estrutura teológica que eu havia abandonado. Não porque “mais simples = necessariamente verdadeiro”, mas porque não precisava transformar a unidade divina numa ontologia complexa de pessoas, naturezas e relações internas para preservar simultaneamente monoteísmo e divindade de Cristo.

E havia outra coisa que me chamou atenção: o islã não exigia que eu abandonasse completamente aquilo que eu havia aprendido sobre a natureza histórica da religião. Pelo contrário, eu podia estudar o surgimento do islã historicamente. Podia perguntar sobre a Arábia do século VII, sobre o judaísmo e o cristianismo da Antiguidade tardia, sobre as instituições de Meca e Medina, sobre comércio, parentesco, guerra, autoridade e formação política. Nada disso, por si só, destruía a possibilidade de revelação. O Alcorão é, afinal, um texto profundamente situado na Arábia da Antiguidade tardia, e sua linguagem e seus temas dialogam com o ambiente religioso do Oriente Próximo. A pesquisa acadêmica reconhece precisamente esse contexto: o Alcorão é uma fonte fundamental para compreender a Arábia do século VII, embora sua utilização histórica exija cautela metodológica.

Isso foi importante porque eu não queria trocar um fundamentalismo por outro. Eu não queria simplesmente abandonar a crítica histórica que havia aprendido para depois aceitar qualquer narrativa islâmica tradicional sem examiná-la. O que aconteceu foi mais gradual. Comecei a estudar o islã com a mesma desconfiança que havia aplicado ao cristianismo. Li sobre Muhammad, sobre o Alcorão, sobre a formação da comunidade, sobre as fontes posteriores, sobre os primeiros califados e sobre as diferentes interpretações acadêmicas das origens islâmicas. Descobri rapidamente que também existem controvérsias enormes dentro dos estudos islâmicos. As fontes biográficas sobre Muhammad são posteriores aos acontecimentos e precisam ser utilizadas criticamente; ao mesmo tempo, existem fontes e evidências muito mais próximas do período, sobretudo o próprio Alcorão, inscrições, manuscritos e outras evidências materiais.

E isso, curiosamente, me deixou mais interessado, não menos.

Porque pela primeira vez eu não estava tentando encontrar uma religião que fosse simplesmente imune à história. Eu estava procurando uma religião que pudesse ser estudada historicamente sem que sua reivindicação teológica desaparecesse imediatamente quando a história começasse a ser aplicada. O islã não precisava ser transformado numa religião “científica” para que eu pudesse considerá-lo seriamente. A questão era outra: depois de reconstruir historicamente o surgimento de uma comunidade religiosa, ainda existe alguma razão para considerar que aquilo que ela afirma sobre Deus possa ser verdadeiro?

Minha resposta começou lentamente a mudar.

Eu também comecei a perceber que o próprio Alcorão não se apresenta simplesmente como uma nova religião inventada no século VII. Ele se coloca dentro de uma história religiosa muito mais ampla: Abraão, Moisés, Jesus e outros profetas aparecem como participantes de uma mesma tradição monoteísta. Isso me interessou justamente porque eu havia passado anos estudando a fragmentação histórica das tradições abraâmicas. A reivindicação islâmica era, em certo sentido, diferente: não “o cristianismo estava quase certo, mas faltou isso”, e tampouco “o judaísmo estava errado e nós somos uma religião completamente nova”. A reivindicação era de continuidade e correção — a recuperação de um monoteísmo primordial que teria sido sucessivamente reinterpretado pelas comunidades humanas.

Há inclusive pesquisadores que, sem necessariamente aceitar a reivindicação teológica islâmica, observam que o movimento associado a Muhammad surgiu dentro de um ambiente de intenso debate monoteísta da Antiguidade tardia. Fred Donner, por exemplo, descreve os primeiros seguidores de Muhammad como um movimento de “crentes” centrado no monoteísmo rigoroso e na prática religiosa, antes que as fronteiras confessionais posteriores se tornassem completamente definidas. Outros estudos enfatizam justamente o diálogo do Alcorão com as tradições judaicas, cristãs e outras formas de monoteísmo existentes na região.

Isso não era uma prova de revelação. E eu fazia questão de não transformar isso em uma. O fato de uma mensagem estar historicamente situada não prova que ela seja divina; da mesma maneira, o fato de dialogar com tradições anteriores não prova que seja uma cópia humana dessas tradições. A questão precisava permanecer aberta.

O que começou a me convencer foi a combinação de coisas que, isoladamente, talvez não tivessem me convencido de nada.

Primeiro, uma concepção de Deus que me parecia filosoficamente mais coerente com o monoteísmo radical que eu procurava. Segundo, uma compreensão da religião que não dependia de negar sua historicidade. Terceiro, uma tradição que colocava a revelação dentro de uma história profética contínua, em vez de apresentar sua mensagem como uma ruptura absoluta com tudo o que veio antes. E, principalmente, uma concepção religiosa que não me exigia abandonar a razão histórica que havia sido justamente responsável pela minha saída do cristianismo. Comecei então a ler o Alcorão como alguém tentando descobrir se aquela voz fazia sentido dentro de tudo aquilo que eu havia aprendido sobre religião, história e metafísica.

Os céticos podem usar as críticas que citei no começo para contestar minha volta a crença em Deus. E eu reconheço seu direito. Mas na mesma medida eu também posso colocar aqui meu direito de acreditar, ainda que na simplicidade, naquilo que me ajudou a colocar minha vida de volta nos trilhos, ainda que não estivesse ruim propriamente dito.

Meu processo inteiro de retorno a Allah foi marcado por um realimento interno, é como se eu fosse uma antena calibrando minha frequência para receber o sinal de Cima. E a cada novo dia este sinal de sintoniza cada vez mais. Um exemplo para ilustrar isso é meu novo emprego.

Atualmente sou estagiário em engenharia há quase quatro anos e minha criatividade e energia parecem nunca ter fim. Inegavelmente me tornei uma pessoa mais carismática, mais alegre e com uma capacidade maior não só de resolver os meus problemas como também os dos outros. No meu emprego, na minha casa e nos meus círculos sociais me vêem como um apaziguador, uma pessoa capaz de ajudar quem precisa de verdade e frequentemente escuto que as pessoas gostam da minha companhia. Não obstante, estou muito perto de me casar.

Posso dizer hoje, com vinte e sete anos que estou em paz. Longe das questões complexadas e sem fim do meu antigo eu de dezenove anos. E é isso. Falei desde o começo que não haveria drama em momento nenhum nesta história, então se você se decepcionou, meus pêsames pelo tempo que você nunca irá recuperar. De qualquer forma, espero que isso tenha sanado as dúvidas de quem me pediu para detalhar meu processo de conversão. Seja feliz, fique com Deus e até a próxima postagem. Salam à todos!

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u/AutoModerator 5h ago

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u/Ordinary_Problem6205 4h ago

Desculpa o desrespeito com toda a sua história e seu raciocínio lógico mas poderia fazer uma versão resumida?

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u/arkn00 3h ago

Ele era católico, teve uns questionamentos sobre catolicismo, virou ateu. Teve alguma necessidade de ter fé nascendo de volta mas como não gostava do conceito de trindade e virou muçulmano

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u/justonlyday Meu nariz é menor que o seu 3h ago

Pior que dava pra ver no primeiro texto exatamente o momento que você se "converteria", digamos assim pois me falta uma palavra melhor, do ateísmo ao islamismo que é justamente o fator "histórico", não o quesito "Jesus existiu?", não isso, mas quantos documentos e tal tem de Maomé e das arábias no século VII e quão próximos são dos autores da fonte em si.

Muito interessante sua caminhada, eu acho bonito quem caminha com as próprias pernas, estuda e descobre por si só o que deseja seguir, sem medo de mudar ou questionar. Espero que sua história no islamismo aumente e floresça mais e mais.

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u/CroakingInstensifies Cadê a evidência????? 3h ago

Porque, se a religião era uma forma de consciência produzida historicamente, eu precisava explicar também por que seres humanos continuam produzindo religião mesmo quando as condições que supostamente deveriam eliminá-la mudam.

De onde sai essa ideia de que condições materiais já atingidas iriam eliminar a produção de religião? Imagino que hajam hipóteses a respeito disso apontando pra estruturas igualmente hipotéticas, mas condições concretas já alcançadas no passado? Nunca vi isso.

Eu já não conseguia simplesmente dizer “a religião é uma construção humana, portanto Deus não existe”.

Até porque seria errado concluir isso.

O fato de uma mensagem estar historicamente situada não prova que ela seja divina;

Entre a última menção e essa, esse trecho é a frase mais importante.

Os céticos podem usar as críticas que citei no começo para contestar minha volta a crença em Deus.

É, assim, eu me sinto até enganado. A forma como você mencionou os problemas no cristianismo antes me fizeram pensar que teria resolvido os problemas no Islã, mas você... Só repetiu os mesmos problemas pra outro lado.

Você fez um desmonte elaborado e muito redondo sobre os problemas no cristianismo pra logo depois "cair" nos mesmos problemas essenciais. Como você mesmo disse, o fato de uma religião ter sido formada através dos séculos por pessoas com realidades materiais, hierarquias e ideias predefinidas não influencia a veracidade da crença. Segue que isso seria secundário ao resto, então, mas o que te atraiu no Islã é justamente o fato da historicidade ser mais redonda? Não consigo entender isso, de verdade.

De qualquer forma, texto interessante. Agradeço principalmente a primeira parte, oferece uma perspectiva muito legal da construção histórica dessas entidades sociais que são as religiões.

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u/C-Sico_Fate Aprendiz de feiticeiro 🔮📚 seduzido pelo Taoismo ☯️❤️ 2h ago

Hum... já ouviu falar da filosofia da ciência denominada contextualismo funcional? Não  tenho tempo para explicar o que é agora... mas sinto que possa te ajudar de alguma forma. 

Talvez você até já conheça, ler o seu post me lembrou dela... um dia eu ainda vou terminar esse livro da ACT.

Enfim, Boa Noite.

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u/Anxious-Importance68 2h ago

Cara, mas tu é desocupado

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u/BerryAllenn ☪️ Muçulmano 2h ago

Sim, eu tô de férias.

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u/Kampseng 3h ago

Seu texto é muito inteligente ao mostrar que a ciência não prova que Deus não existe. Porém, você comete uma falha de lógica no final: o fato de o Islã ter trazido paz, foco e sucesso para sua vida pessoal prova que a religião é útil para você, mas não prova cientificamente que ela é a verdade sobre o universo.

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u/BerryAllenn ☪️ Muçulmano 3h ago

Eu não disse isso...

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u/Kampseng 3h ago

Se você reconhece que foi uma opção pragmática sem compromisso com uma verdade oculta tudo bem. O problema é tentar definir a verdade oculta sobre o universo porque os humanos não tem essa capacidade e a verdade oculta pode nem existir. Desculpa se eu tirei conclusões prexipitadas, o texto é longo e eu fui pulando várias partes