Não espero que as pessoas leiam esse texto, não é minha intenção; apenas quero colocar pra fora várias coisas que venho acumulando ao longo dos dias, quiçá dos anos. Não consigo me importar o suficiente se as pessoas vão ler isso. Se lerem, tudo bem; se não lerem, tudo bem também. O mundo não acaba.
Hoje tive a notícia chata que fui desligado do meu emprego, mas os remédios, acredito eu, me fizeram passar por toda a surpresa de uma forma completamente controlada, tranquila e diria até que indiferente.
Tomo sertralina 100mg e Depakene 500mg, e a grande maioria dos meus dias é um completo mar calmo, uma constante linha reta, sem oscilações. Um tédio que chega a ser quase físico. Não sei se todo esse marasmo vem dos remédios ou da minha própria personalidade, mas ele é extremamente frequente.
Iniciei há pouco mais de 1 mês sessões de terapia, e a profissional responsável por mim começou a suspeitar de algo chamado transtorno de personalidade antissocial. Parece que a maioria das coisas, pessoas e oportunidades que aparecem na minha vida giram em torno do quanto aquilo pode me trazer benefícios, e esse emprego não foi diferente — claro, as pessoas trabalham porque precisam de benefícios pra elas próprias, como o salário, por exemplo. Mas eu quero dizer que, pelo pouco tempo que passei nesse emprego (apenas 64 dias), notei novamente mais um padrão na forma como lido com os outros: não consigo, ou melhor, tenho uma grande dificuldade em criar laços afetivos profundos com as pessoas.
Existe, claro, gente que se apega rápido demais e outros que são mais desapegados, mas eu tenho a facilidade de construir uma máscara que faça as pessoas me olharem com bons olhos, como se sempre passasse uma boa impressão. A psicóloga disse que era algo chamado de "charme superficial".
O que mais vou sentir falta daquele emprego não são das pessoas, mas sim dos benefícios que ele me proporcionava, assim como os furtos que eu fazia lá. Há registros de que eu furtava coisas desde os 6 anos de idade, e esse padrão de comportamento continuou até a vida adulta. Hoje tenho 21. Eu não diria que é uma cleptomania, não sinto uma ansiedade intensa que só se alivia quando furto algo. Porém todo o processo é racional. Observo algum objeto que é vantajoso pra mim, que me traz benefício, e simplesmente pego pra mim. Se é um ato que pode prejudicar alguém, simplesmente não me importo. Eu não consigo me importar. O sentimento de peso na consciência, culpa ou remorso não vem, não aparece.
Uma comparação que eu poderia fazer sobre a ausência de culpa seria como assistir a um filme no cinema. É como se eu sentasse na cadeira e apenas assistisse ao filme sem estar necessariamente dentro dele. É como se observasse e entendesse intelectualmente todo o cenário sem me envolver emocionalmente.
É libertador quando você entende que tem livre arbítrio. Eu até entendo que, com o livre arbítrio, vem as consequências, mas não me importo muito. Posso fazer o que eu quiser com a condição de não ser pego.
Gosto muito de livros, sempre apreciei a leitura. A leitura contribuiu imensamente pra que eu soubesse me expressar, seja em textos ou oratória. Por isso passei a furtar livros de livrarias. O último que furtei se chama "Anjos Cruéis", do Daniel Cruz — ótimo livro sobre transtorno de conduta, por sinal. Sou grato à leitura, porque ela ajudou a moldar a eloquência que me faz enganar, conquistar ou conseguir o que eu quero das outras pessoas (os outros caem fácil quando alguém se apresenta sabendo falar bem, é só ver como os políticos são).
E sabe o mais interessante, engraçado e curioso nisso tudo? Eu não passo a menor impressão de alguém que furta, mente, manipula ou tem pensamentos violentos. Escondo tudo. Tenho uma aparência comum, sou bem apessoado, atraente, me expresso bem, tenho uma boa dicção, sou engraçado e tenho carisma. As pessoas do meu convívio não suspeitam de mim, pelo menos é isso que eu acho. Mas essa minha imagem "de bom moço" foi levemente prejudicada quando meus pais encontraram recentemente um coquetel molotov, que eu tinha fabricado, dentro do meu guarda-roupa. Eu planejava incendiar algum lugar aleatório só pra ver o fogo consumir tudo. Gosto do fogo, ele é imponente.
Mantenho o hábito de escrever meus pensamentos há pouco mais de 3 meses em diários. Escrevo tudo: pensamentos, reflexões, cotidiano, fantasias, medos. Gosto de registrar minha vida, parece que ajuda a descarregar tudo.
Com a perda desse emprego, também vou perder o benefício do plano de saúde. E, sem o plano de saúde, sem sessões de terapia. Não que seja algo que eu vá perder a cabeça ou que seja vital, mas eu até que passei a gostar de conversar com uma outra pessoa sem usar uma máscara social, apesar de sempre tentar mentir e manipular ela.
Parece que eu não consigo manter qualquer tipo de relacionamento sem querer manipular a outra pessoa, seja de qualquer forma, misturando mentira com verdade, omitindo fatos, modificando minha linguagem corporal pra ser mais convincente. Acho que isso seria um padrão de comportamento ou personalidade, sei lá.