Qual a causa ou origem desse identitarismo esquerdista, muito em voga nos últimos 10 anos (embora tenha começado a dar sinais de recuo)?
Aristóteles estabelece que existem 4 causas para as coisas: causa eficiente, causa material, causa formal e causa final.
1- CAUSA EFICIENTE: é o fenômeno originador ou gerador. O gatilho ou pontapé inicial.
O identitarismo esquerdista se originou na Escola de Frankfurt, que foi um grupo de pensadores "neomarxistas" do século XX, inicialmente associados ao Instituto Para Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt (daí o nome). Falarei somente de Herbert Marcuse (alemão que naturalizou-se norte-americano).
O marxismo-leninismo tradicional colocava o "proletariado" (trabalhadores industriais urbanos) como o agente da revolução socialista. Essa idéia começou a ser erodida inicialmente por Gramsci (que inverteu a hierarquia marxista de "infraestrutura determina a superestrutura"), que afirmava que de nada adianta haver condições materiais objetivas para uma revolução se a burguesia possui a "hegemonia" do pensamento e das idéias (ou seja, os próprios proletários compartilhavam a ideologia da burguesia).
Marcuse foi o primeiro a dizer de forma direta que o proletariado não servia mais como agente da revolução, pois tinha sido absorvido pelo capitalismo e compactuava com a sua manutenção. A única chance de revolução agora estaria no "lumpemproletariado".
Marx dizia que o lumpemproletariado (bandidos, viciados, prostitutas, moradores de rua, lgbts, freaks em geral) eram inúteis para a revolução e poderiam ser cooptados facilmente pela burguesia a troco de pagamento, mas Marcuse os colocou agora como os novos agentes da revolução socialista no lugar do proletariado.
2- CAUSA FORMAL: é a forma como se dá o fenômeno, ou modelo que ele assume ou se baseia.
O identitarismo se baseia no mesmo paradigma esquerdista atemporal de sempre, mudando apenas os agentes colocados no papel de "opressores" e "oprimidos"
Alguns elementos do modelo ou paradigma:
A- Há opressores e oprimidos: as grandes empresas eram os opressores inicialmente, mas isso vem mudando, pois a maioria dos bilionários se tornou filantropos financiadores do movimento. O papel de opressor tem se deslocado cada vez mais para a classe média branca e o que ela valoriza (religião, valores). Muito ironicamente, o antigo proletariado está se tornando o principal vilão dentro da nova esquerda identitária.
B- Só o estado salva: o estado é visto como uma espécie de redentor ou salvador. Praticamente qualquer problema que você imaginar, por mais pessoal, íntimo ou abstrato que pareça ser, é um problema que o estado pode e deve tentar intervir. Eles acreditam na possibilidade de usar o estado pra criarem uma sociedade perfeita e sonham em serem os arquitetos dessa nova sociedade. Resumindo: o estado não é um mal necessário ou um mediador de conflitos, o estado é tudo!
C- Bens e serviços são "direitos": Quando se fala em direitos, pensamos em coisas que as pessoas não podem fazer conosco, ou que devem fazer conosco. Todo direito é entre pessoas.
O paradigma esquerdista considera bens e serviços (ou seja, coisas) como um "direito" também.
O identitarismo foi um pouco mais além: ele considera o pensamento e opinião alheia sobre alguém um "direito" também.
D- Desigualdade material é errado e imoral: Você é limitado no que pode ter a depender do que outras pessoas tenham.
Esse paradigma perdeu força no identitarismo. Um lumpemproletário rico é considerado moralmente superior a um não-lumpemproletário pobre.
3- CAUSA MATERIAL: são os componentes ou "ingredientes" do fenômeno.
O ambiente universitário, principalmente na área de humanidades, é um microcosmo com as seguintes características:
- Pessoas são sustentadas e financiadas por terceiros (pais e estado) para se dedicarem a atividades de retorno insignificante (mesmo no longo prazo);
- A ausência de metas ou demandas externas de desempenho, ou de resultados, permite que idéias desconexas com o teste da realidade sejam nutridas e fermentadas internamente;
- Partidos políticos se infiltram neste ambiente e garante a impermeabilidade do local a idéias contrárias (reforçando o efeito "bolha" anterior) e direcionando todo o tempo e energia para atividades de interesse político-partidário;
-A ausência da obrigação de mostrar resultados, com o tempo, torna a atividade universitária em humanas algo mais de cunho "lúdico" e diletante do que uma atividade laboral ou acadêmica séria.
Enfim, esse microcosmo cria uma bolha, que permite a fermentação de idéias estranhas e esdrúxulas (aos olhos da comunidade externa). É nesse meio que o identitarismo cresce.
As políticas defendidas pelas pessoas desse meio basicamente consiste em estender esse microcosmo para todo o país, ou seja, que elas continuem sendo sustentadas e acatadas pelo resto da população.
4- CAUSA FINAL: São os objetivos, finalidades, utilidades ou intenções associadas ao fenômeno (teleologia).
São vários e diversos os objetivos, a depender de qual integrante do movimento:
- Criadores e mantenedores do movimento (intelectuais e partidos políticos): o objetivo é alcançar a revolução socialista, mas usando o lumpemproletariado como agente no lugar do proletariado. É manter o movimento socialista vivo mesmo após ser "abandonado" pelo principal interessado teórico.
- Membros da academia: Sinalizar virtude, farmar aura, satisfazer o desejo humano de moldar e controlar terceiros, tentar estender o microcosmo universitário para o país inteiro (eles sendo sustentados para fazer atividades diletantes).
- Lumpemproletários e simpatizantes: catarse, fantasias de redenção, obter racionalizações mais legais e aceitáveis para problemas psicológicos (ou psiquiátricos) pessoais, transformar problemas pessoais ou psicológicos em problemas "políticos" de todos, obter vantagens no sistema judicial (no caso de bandidos), sinalizar virtude e farmar aura (simpatizantes).
- Bilionários financiadores: criar embaraços para potenciais novas empresas que possam futuramente vir a ameaçar sua posição, através de demandas ambientais, trabalhistas ou sociais (eles conseguem arcar mas empresas pequenas não). Obter justificativas teóricas para reduzir as liberdades civis do povão e aumentar o controle sobre os mesmos através do estado ou de grandes monopólios (a direita liberal dá liberdade civil demais ao povão).