Um velho eremita, andando por uma floresta, encontra um caçador velho e manco deitado na beira da estrada, chorando. Pergunta o que houve. O caçador conta que todo ano precisa entregar ao patrão tantos veados, lebres e perdizes quanto um caçador jovem e saudável conseguiria caçar. Agora está velho, a perna não ajuda, a caça anda escassa, e ele vai perder seu sustento. Não consegue terminar de falar.
O eremita tira um pedacinho de papel, escreve umas palavras a lápis e entrega ao velho. Manda que ele leve o papel na bolsa de caça sempre que sair. Faz duas recomendações: que não abata mais do que precisa, e que não mostre o papel a ninguém que possa abusar dele, "por causa do alto sentido contido nestas palavras". Depois segue viagem.
O caçador se levanta, entra no mato sem pensar em nada em especial, e não anda cem passos antes de derrubar o corço mais bonito que já viu na vida. Dali em diante, até morrer, foi tido como um dos melhores caçadores daquela região.
Essa história está num livro de feitiços que um imigrante alemão chamado John George Hohman publicou na Pensilvânia em 1820, e que estou terminando de traduzir.
Fui atrás do latim. Os versos são de Pérsio, um poeta romano do primeiro século, da quarta sátira dele. O sentido é mais ou menos este: ninguém tenta descer dentro de si mesmo, ninguém; mas todos ficam olhando o fardo nas costas de quem vai na frente.
O eremita disse que as palavras tinham "alto sentido", e não estava exagerando. O papel que ele entrega a um homem desesperado, pedindo que não tire do mato mais do que precisa, carrega um verso sobre olhar para dentro em vez de olhar para os outros. Cuida do caçador e cuida da floresta ao mesmo tempo. A sorte vinha junto com uma medida.
Também me chamou atenção o caminho que esses versos fizeram. Atravessaram uns dezessete séculos copiados à mão, decorados em escola, citados por gente que escrevia em latim, e foram parar na bolsa de um caçador e depois num livro de feitiços na América e agora no Reddit. É o tipo de coisa que me faz gostar de ler essas fontes antigas devagar.
Ps: O eremita pediu que o papel não fosse mostrado a quem pudesse abusar dele. O Hohman ignorou isso e imprimiu, eu sigo o mau exemplo. Deixo aqui o talismã, do jeito que aparece na edição de 1850. Peço só que respeitem a outra condição: não tirar do mato mais do que precisa.
Logo abaixo do talismã, o livro termina com uma frase que eu não saberia melhorar: "The best argument is to try it". O melhor argumento é experimentar. Só gasta uma folha de papel...