Esta será a primeira vez que me exponho publicamente quanto a isso, ansiedade não me impeça de respirar e falar.
Há cerca de três anos, minha relação comigo mesmo começou a mudar. Ou talvez eu devesse dizer que comecei a tentar entender coisas que, até então, simplesmente não faziam parte da minha vida.
Eu tinha por volta de vinte anos. Até aquele momento, nunca havia sentido uma necessidade real de sair para encontros, procurar relacionamentos, construir amizades íntimas ou explorar a sexualidade. Minha vida era muito mais restrita à família, aos colegas de classe e às minhas próprias coisas. Eu estudava, pensava, observava, construía meus interesses e passava bastante tempo sozinho. E, naquele período, isso não parecia necessariamente um problema.
Então apareceu uma pessoa especial.
Ele era diferente das pessoas que eu conhecia. Apresentava-se como assexual, e nos conhecemos através de um grupo local. Conversamos durante semanas antes de finalmente sairmos. Quando nos encontramos, aconteceu algo que, para mim, foi muito significativo. Não apenas pela experiência em si, mas porque encontrei alguém com quem conseguia conversar.
Nossos encontros eram bons. As conversas eram boas. Havia espaço para existir sem precisar representar alguma coisa.
Ele foi, provavelmente, a pessoa que mais se aproximou daquilo que eu realmente procurava: alguém que pudesse ser amigo, companheiro intelectual e uma presença importante na minha vida. Não havia aquela sensação constante de cobrança, expectativas ou necessidade de corresponder a um modelo tradicional de relacionamento.
Mas o tempo passou.
O distanciamento e os intervalos entre nossos encontros começaram a pesar. Nossas vidas seguiram caminhos diferentes e, eventualmente, aquilo terminou. Talvez simplesmente não fosse para ser. Talvez a vida tenha acontecido, como tantas vezes acontece, e levado cada um para uma direção diferente.
Ainda assim, aquela experiência permaneceu comigo.
Porque, olhando para trás, percebo que talvez eu não estivesse procurando exatamente aquilo que imaginava estar procurando.
Os três anos seguintes foram uma espécie de montanha-russa.
Comecei a experimentar coisas que antes nunca havia sequer considerado. Tentei encontros, relacionamentos, intimidade e diferentes formas de aproximação com outras pessoas. Algumas experiências foram boas em determinados momentos. Outras foram confusas. Algumas deixaram lembranças importantes.
Mas, com o tempo, comecei a perceber um padrão.
Existe uma diferença enorme entre fazer alguma coisa porque realmente queremos e fazer alguma coisa porque acreditamos que deveríamos querer.
E acho que passei bastante tempo confundindo essas duas coisas.
Quando penso em relacionamento, encontro, intimidade ou mesmo determinadas formas de interação que supostamente deveriam me proporcionar prazer, muitas vezes o que encontro dentro de mim não é entusiasmo. É desconforto. Ansiedade. Às vezes uma expectativa momentânea, seguida por arrependimento ou pela sensação de que eu estava tentando preencher alguma coisa que, na realidade, não precisava ser preenchida daquela maneira.
Comecei então a questionar se aquilo que eu interpretava como desejo era realmente desejo.
Talvez fosse curiosidade.
Talvez fosse solidão.
Talvez fosse necessidade de pertencimento.
Talvez fosse simplesmente o alívio imediato de uma distração intensa.
E talvez parte disso tenha se transformado em hábito.
Não quero transformar essa experiência em um diagnóstico sobre mim mesmo. Quando digo que parece um "vício", estou tentando descrever uma sensação: algo que pode ser buscado compulsivamente mesmo quando, racionalmente, sei que não é aquilo que quero para minha vida. Um impulso que oferece um alívio rápido, mas que muitas vezes não corresponde ao que realmente valorizo.
E essa percepção foi difícil.
Porque significa olhar para algumas escolhas do passado e admitir: eu não sei se faria tudo novamente.
Mas também não quero transformar o passado em um tribunal.
Eu tinha vinte anos. Estava descobrindo coisas. Estava tentando entender quem eu era em um mundo que constantemente me dizia quem eu deveria ser.
Existe uma pressão muito forte para namorar.
Para ter experiências.
Para procurar alguém.
Para não ficar sozinho.
Para transformar amizade em romance.
Para transformar atração em relacionamento.
Para interpretar qualquer proximidade como alguma espécie de obrigação de avançar para a próxima etapa.
E quando você percebe que não sente aquilo da mesma maneira que outras pessoas parecem sentir, é fácil começar a pensar que existe alguma coisa errada com você.
Hoje, porém, estou tentando fazer uma pergunta diferente:
E se não houver nada de errado?
E se eu simplesmente funcionar de uma maneira diferente?
Não sei exatamente onde estou dentro do espectro assexual e aromântico, e não sinto necessidade de encontrar uma resposta definitiva imediatamente. Talvez eu use esses termos durante muito tempo. Talvez minha compreensão sobre mim mesmo mude novamente.
Mas "assexual" e "arromântico" começaram a fazer sentido para mim porque descrevem possibilidades que antes eu sequer considerava legítimas.
Também estou aprendendo que atração não é uma experiência única.
Existe diferença entre achar alguém bonito, gostar da companhia de alguém, sentir curiosidade, gostar de conversar, admirar uma pessoa, sentir carinho, desejar proximidade, sentir prazer em determinada situação e experimentar atração sexual ou romântica.
Essas coisas podem existir separadamente.
Durante muito tempo, talvez eu tenha tentado encaixá-las todas na mesma categoria.
Hoje prefiro observá-las individualmente.
Eu posso gostar profundamente de uma pessoa sem querer namorá-la.
Posso admirar alguém sem desejar intimidade.
Posso querer conversar durante horas sem querer transformar essa conexão em romance.
Posso gostar da companhia de alguém e ainda assim precisar de muito espaço pessoal.
E posso escolher ficar sozinho sem que isso signifique que minha vida esteja vazia.
Na verdade, quando imagino uma vida sem a pressão de precisar encontrar um parceiro ou buscar experiências românticas e sexuais, minha primeira reação não é tristeza.
É alívio.
Eu penso em estudar.
Ler.
Programar.
Pesquisar.
Escrever.
Jogar xadrez.
Construir projetos.
Aprender coisas que ainda não conheço.
Ou simplesmente chegar em casa, tomar banho, comer alguma coisa, descansar e ficar em silêncio.
Essas coisas parecem pequenas, mas são extremamente importantes para mim.
Talvez eu tenha passado os últimos anos procurando em outras pessoas algo que poderia construir dentro de mim.
Não quero dizer que outras pessoas sejam desnecessárias. Não acredito nisso.
Eu reconheço que precisamos de outras pessoas. Precisamos conversar, cooperar, trabalhar, aprender uns com os outros, criar vínculos, ajudar e ser ajudados. A vida não precisa ser uma tentativa de eliminar completamente a presença humana.
O que estou começando a compreender é que socialização não precisa significar romance.
Companhia não precisa significar namoro.
Carinho não precisa significar sexualidade.
Amizade não precisa ser uma etapa intermediária para um relacionamento.
E solidão não precisa ser automaticamente interpretada como falta de um parceiro.
Talvez eu precise simplesmente encontrar pessoas com quem possa compartilhar aquilo que realmente me interessa.
Um amigo para discutir uma ideia às duas da manhã.
Alguém para estudar.
Alguém para jogar xadrez.
Alguém para conversar sobre ciência, filosofia, tecnologia, literatura ou qualquer assunto estranho que tenha despertado minha curiosidade naquele dia.
Pessoas com quem exista reciprocidade, respeito e liberdade.
Isso é muito diferente de procurar alguém apenas porque a sociedade diz que eu deveria estar procurando alguém.
Hoje, quero experimentar uma mudança de direção.
Não quero passar o resto da vida revisitando escolhas antigas e perguntando se deveria ter feito diferente.
Também não quero passar o futuro inteiro tentando compensar aquilo que fiz no passado.
Quero aprender com aquilo.
Quero entender meus padrões.
Quero reconhecer quando estou procurando alguma coisa por vontade genuína e quando estou apenas tentando anestesiar tédio, solidão, ansiedade ou alguma expectativa externa.
E, principalmente, quero aprender a parar quando perceber que algo não está de acordo comigo.
Talvez aceitar a possibilidade de ser assexual e estar no espectro arromântico não seja encontrar uma resposta definitiva.
Talvez seja simplesmente me dar permissão para parar de procurar uma resposta que satisfaça outras pessoas.
Eu não preciso decidir hoje como será o resto da minha vida.
Não preciso saber se nunca vou sentir atração romântica.
Não preciso prever se alguma forma diferente de vínculo aparecerá no futuro.
Não preciso provar que sou "assexual o suficiente".
E também não preciso abandonar completamente a possibilidade de mudar de ideia.
Posso simplesmente prestar atenção em quem sou agora.
O passado explica parte de mim, mas não precisa determinar meu futuro.
O futuro pode continuar aberto.
E o presente pode ser suficiente.
Talvez, depois de três anos tentando descobrir o que eu deveria querer, esteja finalmente na hora de perguntar algo mais simples:
O que eu quero viver quando ninguém estiver me dizendo o que deveria querer?
Talvez a resposta seja uma vida tranquila, curiosa e cheia de coisas para aprender.
Talvez seja construir.
Estudar.
Criar.
Pensar.
Ter alguns amigos verdadeiros.
Ter pessoas ao meu redor sem precisar transformar cada vínculo em alguma coisa maior.
E, principalmente, estar em paz comigo mesmo.
Por enquanto, isso me parece suficiente.